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Resumo do Evangelho de Marcos

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Sem genealogia nem nascimento, Marcos começa com João Batista no deserto e em poucos versículos já tem Jesus batizado, tentado e pregando na Galileia. A primeira metade corre entre curas, expulsões de demônios e travessias do lago, e a pergunta que fica é quem é este. Os demônios sabem, os discípulos não entendem, e Jesus manda guardar silêncio. Em Cesareia de Filipe, Pedro responde tu és o Cristo, e desse ponto em diante Jesus anuncia três vezes que será morto e ressuscitará. A segunda metade é o caminho para Jerusalém e a Paixão: os discípulos fogem, Pedro nega, e é um centurião romano, ao pé da cruz, quem diz que aquele homem era Filho de Deus. O relato chega ao túmulo vazio, com as mulheres tomadas de temor.

As duas metades de Marcos lado a lado: até a confissão de Pedro, a pergunta quem é este; depois dela, o caminho da cruz até a declaração do centurião
Imagem: resumode.com.br

Treze versículos até a Galileia

A primeira frase de Marcos serve de título: princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (1.1). Não há genealogia, anjos nem Belém. Uma citação dos profetas, a mesma do mensageiro de Malaquias, apresenta João Batista no deserto. Jesus vem de Nazaré, é batizado no Jordão, vê os céus se rasgarem e ouve a voz: tu és o meu Filho amado (1.11). O Espírito o impele para o deserto, onde fica quarenta dias. No versículo 14 ele já está na Galileia, anunciando: o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo.

Esse passo marca o livro inteiro. As cenas se ligam por e logo, expressão que volta dezenas de vezes, e os discursos são poucos. Entre os quatro evangelhos, é o que mais mostra Jesus agindo.

A tradição antiga atribui o texto a João Marcos, que teria posto por escrito a pregação de Pedro. O relato tem mesmo o jeito de quem ouviu uma testemunha: guarda palavras em aramaico, gestos, olhares e a reação das pessoas.

Um sábado em Cafarnaum

Depois de chamar quatro pescadores, Simão, André, Tiago e João, Jesus entra na sinagoga de Cafarnaum. Marcos conta esse dia de perto. Jesus ensina, e todos se espantam, porque ensina com autoridade. Um homem com espírito impuro grita: sei quem és, o Santo de Deus. Jesus o manda calar e sair. Na casa de Simão, cura a sogra dele. Ao pôr do sol, a cidade inteira está à porta. De madrugada, ele sai sozinho para orar (1.21-35).

A autoridade logo provoca conflito. Marcos junta cinco discussões: o perdão dado ao paralítico descido pelo telhado, a refeição com cobradores de impostos, o jejum, as espigas colhidas no sábado e a cura de uma mão atrofiada, também num sábado. No fim da série, fariseus e herodianos já combinam como matá-lo (3.6). O livro está no terceiro capítulo.

Quem é este?

Jesus escolhe doze para estarem com ele e para enviá-los a pregar (3.14). Nem todos o entendem. Os da sua casa saem para detê-lo, dizendo que está fora de si, e escribas vindos de Jerusalém o acusam de agir por Belzebu.

O capítulo 4 reúne as parábolas: o semeador, a lâmpada, o grão de mostarda e uma que só Marcos traz, a da semente que cresce sozinha enquanto o lavrador dorme e acorda (4.26-29). São poucas, se comparadas ao conjunto das parábolas de Jesus em Mateus e Lucas.

Seguem quatro atos de poder. Jesus acalma a tempestade, e os discípulos perguntam, apavorados: quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem? (4.41). Do outro lado do lago, liberta um homem que vivia entre os túmulos, possuído por uma legião. De volta, cura uma mulher que sofria de hemorragia havia doze anos e levanta a filha de Jairo, de doze anos. Marcos gosta de encaixar uma história dentro da outra, e aqui uma ilumina a outra.

Em Nazaré, Jesus é recusado pelos conhecidos: não é este o carpinteiro, o filho de Maria? (6.3). Alimenta cinco mil homens com cinco pães e dois peixes, anda sobre o mar, alimenta mais quatro mil. E os discípulos continuam sem entender. Marcos diz deles o que não se esperava ler: não tinham compreendido o milagre dos pães, e o seu coração estava endurecido (6.52). No barco, Jesus insiste: tendo olhos, não vedes? Ainda não compreendeis? (8.18-21).

Não digas nada a ninguém

Um traço atravessa essa primeira metade. Os demônios reconhecem Jesus, e ele não os deixa falar (1.34). O leproso curado recebe a ordem de não contar a ninguém (1.44). Os pais da menina também (5.43). Quanto mais ele proíbe, mais a notícia corre.

Há uma exceção: o homem de Gerasa, em terra estrangeira, é mandado para casa para anunciar o que o Senhor lhe fez (5.19).

O silêncio guarda uma identidade que ainda não pode ser entendida. Quem vê só os milagres vê um Cristo sem cruz, e a segunda metade existe para corrigir essa imagem.

Entre dois cegos

A parte central é emoldurada por duas curas de cegos. Em Betsaida, um homem recupera a vista em duas etapas (8.22-26). Na saída de Jericó, Bartimeu passa a enxergar e segue Jesus pelo caminho (10.46-52). Entre uma e outra, os discípulos estão como o primeiro cego, vendo pela metade.

Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta: e vós, quem dizeis que eu sou? Pedro responde: tu és o Cristo (8.29). É a resposta certa, e Jesus manda guardá-la. Então começa a ensinar o que ela significa. Três vezes anuncia a sua morte e ressurreição, e três vezes os discípulos mostram que não acompanharam.

Anúncio O que os discípulos fazem O que Jesus ensina
8.31 Pedro o chama à parte e o repreende Negar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo
9.31 Discutem no caminho quem é o maior Quem quer ser o primeiro seja o servo de todos
10.33-34 Tiago e João pedem os lugares de honra Quem quiser ser grande seja o que serve

A série termina na frase que resume o livro: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (10.45).

No meio dessa seção, três discípulos veem Jesus transfigurado no monte, e a voz do batismo volta, agora dirigida a eles: este é o meu Filho amado; a ele ouvi (9.7).

A figueira e o templo

Em Jerusalém, Marcos encaixa de novo duas histórias. Jesus procura figos numa figueira cheia de folhas e não acha; expulsa os vendedores do templo, que devia ser casa de oração para todas as nações; no dia seguinte, a figueira está seca até a raiz (11.12-21). A árvore sem fruto explica o gesto no templo.

Seguem as disputas com as autoridades: de onde vem a autoridade dele, o imposto a César, a ressurreição, o maior mandamento. Sentado diante do cofre das ofertas, Jesus aponta uma viúva pobre que deu duas moedinhas, tudo o que tinha (12.41-44). No monte das Oliveiras, anuncia a destruição do templo e termina com uma palavra para todos: vigiai (13.37).

Todos fugiram

A Paixão ocupa os capítulos 14 e 15 e é contada sem atenuar nada. Uma mulher unge a cabeça de Jesus em Betânia, e ele diz que ela antecipou o seu sepultamento. Na ceia, anuncia que um dos doze o trairá. No Getsêmani, tomado de pavor e angústia, ora: Aba, Pai, afasta de mim este cálice; contudo, não o que eu quero, mas o que tu queres (14.36). Os três discípulos dormem.

Judas chega com gente armada. Então, deixando-o, todos fugiram (14.50). Diante do sumo sacerdote, que pergunta se ele é o Cristo, o Filho do Deus bendito, Jesus responde pela primeira vez sem reserva: eu sou (14.62). No pátio, na mesma hora, Pedro o nega três vezes, e o galo canta pela segunda vez.

Pilatos o entrega para ser crucificado. Zombam dele os soldados, os que passam, os sacerdotes e até os crucificados com ele. À hora nona, Jesus clama em aramaico: Eloí, Eloí, lamá sabactâni, meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? (15.34). Dá um grande brado e expira. O véu do templo se rasga de alto a baixo, como os céus no batismo.

Quem fala então é o centurião que estava em frente dele: verdadeiramente, este homem era Filho de Deus (15.39). O título da primeira linha, que nenhum discípulo pronunciou, sai da boca de um soldado romano, diante de um crucificado.

Em detalhe: os milagres de Jesus e a parábola do semeador.

Porque estavam com medo

Passado o sábado, três mulheres vão ao túmulo e acham a pedra removida. Um jovem vestido de branco lhes diz: ele ressuscitou, não está aqui. Ide dizer aos discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia; lá o vereis (16.6-7). Elas fogem, tremendo, e não dizem nada a ninguém, porque estavam com medo (16.8).

Os manuscritos mais antigos param nessa frase. Os versículos 9 a 20, presentes nas Bíblias, reúnem as aparições do ressuscitado e o envio dos discípulos, que Mateus e Lucas contam com mais detalhe.

O recado do túmulo aponta para a Galileia, onde tudo começou. Pedro, que negou, é citado pelo nome. Marcos, que não poupou os discípulos em nenhuma página, guarda para eles a última palavra do mensageiro: lá o vereis.

Os pontos centrais

  1. Marcos não narra a infância: abre com João Batista e, em treze versículos, passa pelo batismo e pela tentação de Jesus (1.1-13).
  2. A pergunta quem é este? (4.41) conduz a primeira metade, e a resposta de Pedro, tu és o Cristo (8.29), divide o livro em dois.
  3. Jesus proíbe demônios, curados e discípulos de espalhar quem ele é (1.34; 1.44; 5.43; 8.30), até a ressurreição (9.9).
  4. Os três anúncios da Paixão (8.31; 9.31; 10.33-34) são seguidos, cada um, de um erro dos discípulos e de um ensino sobre servir.
  5. Marcos 10.45 resume a missão: o Filho do Homem veio para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
  6. Ao pé da cruz, um centurião diz o que a primeira linha anunciava: verdadeiramente este homem era Filho de Deus (15.39).

Leituras que se afastam do texto

Marcos é só um resumo de Mateus

O livro é o mais curto porque traz menos discursos, e não por contar com pressa. Nos episódios em comum, costuma ser o mais detalhado: o endemoninhado geraseno ocupa vinte versículos em Marcos 5 e sete em Mateus 8. Só ele registra a almofada em que Jesus dormia na popa (4.38), a relva verde onde a multidão se senta (6.39) e as palavras em aramaico, como talita cumi (5.41).

Jesus pedia segredo porque não queria ser conhecido

As ordens de silêncio têm prazo. Ao descer do monte da transfiguração, Jesus manda não contar o que viram até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos (9.9). Cristo e Filho de Deus eram títulos fáceis de entender como poder e vitória, e Marcos mostra que só se compreende quem Jesus é depois da cruz. Por isso a declaração aberta fica para o julgamento (14.62) e para o centurião.

O jovem que foge nu no Getsêmani é o próprio Marcos

O episódio existe e só Marcos o conta: na hora da prisão, um jovem coberto apenas com um lençol é agarrado, larga o pano e foge nu (14.51-52). O texto não diz quem era. A identificação com o evangelista é uma suposição de leitores posteriores, e nada no livro a confirma. O que a cena mostra é o abandono completo daquela noite.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Que palavras em aramaico Jesus diz à filha de Jairo?
Talita cumi, que o próprio texto traduz: menina, eu te digo, levanta-te (5.41).
Que nome dá o espírito que atormenta o homem de Gerasa?
Legião é o meu nome, porque somos muitos, responde ele a Jesus (5.9).
Que frase sobre o sábado só Marcos registra?
O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (2.27).
Que cura acontece em duas etapas?
A do cego de Betsaida, que primeiro vê as pessoas como árvores andando e depois enxerga com clareza (8.22-26).
O que diz o pai do menino possesso quando Jesus fala de fé?
Eu creio; ajuda a minha incredulidade, em Marcos 9.24.
Como se chama o cego curado na saída de Jericó?
Bartimeu, filho de Timeu, que depois de curado segue Jesus pelo caminho (10.46-52).
Quem é obrigado a carregar a cruz de Jesus?
Simão de Cirene, que Marcos apresenta como pai de Alexandre e de Rufo (15.21).
Quais mulheres vão ao túmulo no primeiro dia da semana?
Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, levando aromas para ungir o corpo (16.1).
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Débora Arantes

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