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Resumo do Evangelho de Lucas

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Um prólogo dirigido a Teófilo abre o evangelho mais longo: o autor investigou tudo desde o princípio e escreve em ordem. Lucas conta dois nascimentos em paralelo, o de João Batista e o de Jesus, com Maria, os pastores e a manjedoura. Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê Isaías e anuncia boa notícia aos pobres, e o livro cumpre o programa: viúvas, pecadores, samaritanos, cobradores de impostos e mulheres ocupam a cena. Uma longa viagem a Jerusalém, dos capítulos 9 a 19, reúne as parábolas que só ele traz, como o bom samaritano e o filho perdido. Na cruz, Jesus perdoa e promete o paraíso a um condenado. Ressuscitado, caminha com dois discípulos até Emaús, e o relato continua em Atos dos Apóstolos.

As quatro partes de Lucas em colunas, cada uma com episódios próprios: a infância, a Galileia, a longa viagem e Jerusalém, onde o relato começa e termina
Imagem: resumode.com.br

Quatro versículos de método

Lucas é o único evangelho que começa explicando como foi escrito. Muitos já tinham posto em ordem a narração dos fatos, transmitidos pelos que foram testemunhas oculares desde o princípio. O autor investigou tudo com cuidado e resolveu escrever em sequência, para que Teófilo tenha certeza do que lhe foi ensinado (1.1-4).

O mesmo nome abre os Atos dos Apóstolos, que se apresenta como continuação. São dois volumes de uma obra só, e juntos formam cerca de um quarto do Novo Testamento. A tradição identifica o autor com Lucas, o médico amado que acompanhou Paulo (Colossenses 4.14).

Dos quatro evangelhos, é o mais longo e o que mais material próprio traz. Segue de perto o roteiro do Evangelho de Marcos, mas o abre com dois capítulos de infância e o alarga, no meio, com uma grande viagem.

Dois anúncios, dois nascimentos

A história começa no templo de Jerusalém. O sacerdote Zacarias oferece incenso, e o anjo Gabriel anuncia que Isabel, sua mulher, idosa e estéril, terá um filho, João. Zacarias duvida e fica mudo. Seis meses depois, o mesmo anjo vai a Nazaré, a uma jovem prometida a José. Maria pergunta como aquilo será e responde: eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (1.38).

As duas histórias se cruzam quando Maria visita Isabel, e a criança salta no ventre da mãe. Maria canta: o Senhor derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos (1.52-53). É o primeiro dos três cânticos da infância. O segundo é o de Zacarias, quando João nasce e a sua voz volta. O terceiro é o do velho Simeão, com o menino nos braços: os meus olhos viram a tua salvação, luz para as nações e glória de Israel (2.30-32).

O nascimento de Jesus é situado na história do império. Um decreto de César Augusto manda recensear o mundo, e José sobe de Nazaré a Belém, cidade de Davi. Ali Maria dá à luz e deita o filho numa manjedoura. Os primeiros a saber são pastores que passavam a noite no campo. Um anjo lhes diz: hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador (2.11).

Lucas guarda ainda a única cena da adolescência: aos doze anos, Jesus fica em Jerusalém, e os pais o acham no templo, ouvindo os mestres e fazendo perguntas.

Hoje se cumpriu esta escritura

A pregação de João Batista recebe data, o décimo quinto ano do imperador Tibério (3.1). Depois do batismo vem a genealogia, que em Lucas sobe além de Abraão, até Adão. O horizonte é a humanidade inteira.

A primeira cena pública é em Nazaré. Na sinagoga, Jesus lê no rolo de Isaías: o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar boas-novas aos pobres, liberdade aos cativos, vista aos cegos (4.18). Enrola o livro e diz: hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir (4.21). A admiração vira fúria quando ele lembra que Elias foi enviado a uma viúva estrangeira e que Eliseu curou um sírio. Tentam jogá-lo de um precipício.

O programa lido em Nazaré guia os capítulos da Galileia. Pedro é chamado depois de uma pesca que quase afunda os barcos. Jesus passa uma noite em oração e escolhe os doze. Num lugar plano, declara felizes os pobres e os que têm fome. Em Naim, devolve vivo o filho único de uma viúva. Na casa de um fariseu, deixa que uma pecadora lhe lave os pés com lágrimas e diz que os muitos pecados dela estão perdoados, porque muito amou (7.47). E Lucas registra as mulheres que o seguiam e o sustentavam com os seus bens: Maria Madalena, Joana, Susana e muitas outras (8.1-3).

O rosto voltado para Jerusalém

Em 9.51, o tom muda: chegando o tempo de ser elevado, Jesus toma a firme decisão de ir a Jerusalém. Os dez capítulos seguintes são uma viagem, e é neles que está a maior parte do que só Lucas conta.

  • uma aldeia samaritana recusa hospedagem, e Jesus repreende os discípulos que queriam vingança;
  • setenta discípulos, ou setenta e dois em algumas edições, são enviados adiante, dois a dois;
  • um doutor da lei pergunta quem é o seu próximo e ouve a história do samaritano;
  • Marta se agita com o serviço, e Maria, sentada aos pés de Jesus, escolheu a boa parte (10.42);
  • dez leprosos são curados, e só um estrangeiro volta para agradecer;
  • em Jericó, Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, sobe numa árvore para ver Jesus e o recebe em casa.

As parábolas de Jesus mais conhecidas estão nesse trecho: o bom samaritano, o rico insensato, o filho perdido, o rico e Lázaro, o fariseu e o publicano.

À mesa com quem não devia

Boa parte desse ensino acontece em refeições, e a queixa dos adversários é sempre a mesma: este recebe pecadores e come com eles (15.2). As três parábolas do capítulo 15 respondem a essa frase. Na casa de Zaqueu, a resposta vem sem parábola: hoje houve salvação nesta casa, porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido (19.9-10).

Ao lado dos pecadores estão os pobres. O cântico de Maria já falava de famintos saciados e ricos de mãos vazias, e as bem-aventuranças vêm acompanhadas de quatro ais: ai de vós, os ricos, ai de vós, os que estais fartos (6.24-25). O homem que derruba celeiros para construir maiores morre naquela noite. Zaqueu, ao contrário, reparte.

Outro fio é a oração. Em Lucas, Jesus ora no batismo, antes de escolher os doze, na transfiguração, e é ao vê-lo orar que os discípulos pedem: Senhor, ensina-nos a orar (11.1). Duas parábolas próprias tratam do assunto, a do amigo que bate à meia-noite e a da viúva que insiste com o juiz.

Em detalhe: a parábola do filho pródigo e a parábola do bom samaritano.

Pai, perdoa-lhes

Ao avistar Jerusalém, Jesus chora sobre a cidade, que não reconheceu o que lhe traria a paz (19.41-44). Ensina todos os dias no templo e celebra a Páscoa com os doze: fazei isto em memória de mim (22.19). A Pedro, avisa que ele o negará, mas acrescenta: eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça (22.32).

A Paixão de Lucas mostra Jesus fazendo até o fim o que fez no caminho. Na prisão, cura a orelha do servo ferido. Depois da terceira negação, volta-se e olha para Pedro, que sai e chora. Pilatos o declara sem culpa três vezes e o envia a Herodes, que o devolve. A caminho do Calvário, Jesus fala às mulheres que choram por ele.

Três frases na cruz estão só neste evangelho. Pelos que o crucificam: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (23.34). A um dos condenados, que lhe pede lembrança: hoje estarás comigo no paraíso (23.43). E a última, tirada de um salmo: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (23.46). O centurião conclui: realmente este homem era justo.

O caminho de Emaús

No primeiro dia da semana, as mulheres acham o túmulo aberto, e dois homens de roupas resplandecentes perguntam: por que buscais entre os mortos aquele que vive? (24.5). Os apóstolos tomam o relato por delírio.

No mesmo dia, dois discípulos vão para a aldeia de Emaús, tristes, conversando sobre o que aconteceu. Um desconhecido se junta a eles, ouve a queixa, nós esperávamos que fosse ele quem havia de libertar Israel, e lhes explica, começando por Moisés e pelos profetas, que o Cristo devia sofrer para entrar na sua glória. Eles insistem: fica conosco, porque é tarde. À mesa, ele parte o pão, os olhos deles se abrem, e ele desaparece. Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho? (24.32).

Em Jerusalém, Jesus aparece aos onze, mostra as mãos e os pés, come um pedaço de peixe assado e abre a mente deles para entenderem as Escrituras.

Em detalhe: a ressurreição de Jesus.

Do templo ao templo

A última ordem é esperar: ficai na cidade até que sejais revestidos do poder do alto (24.49). Jesus os leva até Betânia, ergue as mãos, abençoa-os e é elevado ao céu. Eles voltam para Jerusalém com grande alegria e estão sempre no templo, louvando a Deus.

O evangelho termina no lugar em que começou, com Zacarias diante do altar do incenso. Entre uma cena e outra, a salvação anunciada num santuário chegou a pastores, viúvas, samaritanos e a um condenado. O segundo volume parte desse mesmo templo e leva o anúncio até Roma.

Os pontos centrais

  1. O prólogo (1.1-4) declara as fontes, testemunhas oculares e ministros da palavra, e o propósito de dar certeza a Teófilo.
  2. A infância corre em paralelo entre João Batista e Jesus e traz os cânticos de Maria, de Zacarias e de Simeão (Lucas 1 e 2).
  3. Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê Isaías 61 e declara: hoje se cumpriu esta escritura (4.16-21), programa de todo o evangelho.
  4. A viagem a Jerusalém, de 9.51 a 19.27, concentra a maior parte do que só Lucas conta, inclusive as parábolas mais conhecidas.
  5. Lucas 19.10 resume a missão de Jesus: o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido.
  6. Só Lucas registra o perdão aos que o crucificam (23.34), a promessa ao condenado (23.43) e o caminho de Emaús (24.13-35).

Leituras que se afastam do texto

O dono da hospedaria fechou a porta para Maria e José, e Jesus nasceu num estábulo entre o boi e o jumento

Lucas 2.7 diz uma coisa só: Maria deitou o menino numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. Não aparecem estalajadeiro, portas fechadas, estábulo nem animais. A manjedoura levou a imaginar o resto, e o boi e o jumento vieram de uma frase de Isaías 1.3 aplicada à cena pela tradição. O que o texto destaca é o sinal dado aos pastores: um menino envolto em faixas.

Maria Madalena é a pecadora que lavou os pés de Jesus com lágrimas

A mulher que unge os pés de Jesus na casa do fariseu Simão não tem nome no texto (7.36-50). Maria Madalena é apresentada logo depois, em 8.2, como alguém de quem saíram sete demônios e que segue Jesus com outras mulheres, sem ligação com a cena anterior. A fusão das duas, e de ambas com Maria de Betânia, foi feita pela pregação de séculos mais tarde e passou para a arte.

O Sermão do Monte está em Lucas do mesmo jeito que em Mateus

Em Lucas, Jesus desce do monte e fala num lugar plano (6.17). O discurso é bem mais curto e tem quatro bem-aventuranças, seguidas de quatro ais contra os ricos e os fartos. A primeira diz bem-aventurados vós, os pobres, sem o complemento de espírito que se lê em Mateus 5.3. O Pai-Nosso aparece em outro ponto, mais breve, quando os discípulos pedem: ensina-nos a orar (11.1-4).

Os discípulos de Emaús eram dois dos doze apóstolos

O texto fala de dois deles, do grupo maior de seguidores, e dá o nome de um só, Cléopas (24.18). Quando voltam a Jerusalém naquela mesma noite, encontram reunidos os onze (24.33), o que mostra que não faziam parte desse número. O companheiro de Cléopas fica sem nome. Lucas gosta de pôr em cena discípulos de fora do círculo dos doze, como os enviados dois a dois no capítulo 10.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Que anjo leva o anúncio a Zacarias e a Maria?
Gabriel, enviado primeiro ao templo de Jerusalém e depois a Nazaré (1.19; 1.26).
Quem reconhece o menino Jesus quando ele é levado ao templo?
Simeão, que o toma nos braços, e a profetisa Ana, viúva de idade avançada (2.25-38).
Que idade Jesus tem quando fica no templo entre os mestres?
Doze anos; os pais o encontram depois de três dias de procura (2.42-46).
Até quem recua a genealogia de Jesus em Lucas?
Até Adão, chamado filho de Deus, e não apenas até Abraão (3.38).
Qual dos dez leprosos curados volta para agradecer?
Um só, e ele era samaritano; Jesus pergunta onde estão os outros nove (17.15-18).
O que Zaqueu promete depois de receber Jesus em casa?
Dar aos pobres metade dos seus bens e restituir quatro vezes o que tiver tirado de alguém (19.8).
A quem Pilatos envia Jesus durante o julgamento?
A Herodes, que governava a Galileia e estava em Jerusalém naqueles dias (23.6-12).
Em que momento os discípulos de Emaús reconhecem Jesus?
Quando ele toma o pão, abençoa, parte e lhes dá, à mesa (24.30-31).
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Débora Arantes

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