Resumo do Sermão da Montanha
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Três capítulos de Mateus, do 5 ao 7, guardam o discurso mais longo de Jesus nesse evangelho. Ele sobe a um monte na Galileia, senta-se e ensina os discípulos, com as multidões ouvindo. Começa declarando felizes os pobres de espírito, os mansos e os perseguidos. Afirma que não veio revogar a lei, e sim cumprir, e leva seis mandamentos até a raiz: da morte à ira, do adultério ao olhar, do amor ao próximo ao amor ao inimigo. Manda dar esmola, orar e jejuar em segredo, diante do Pai, e entrega o Pai-Nosso. Fala de tesouro, de ansiedade e de julgar o irmão, e resume a lei na regra de ouro. Fecha com duas casas, uma na rocha e outra na areia: a diferença é praticar o que se ouviu.
Um monte, um mestre sentado
O nome não está no texto: vem do cenário. No fim do capítulo 4 do Evangelho de Mateus, Jesus percorre a Galileia ensinando e curando, e gente de toda a região o segue. Vendo as multidões, ele sobe ao monte, senta-se, os discípulos se aproximam, e ele abre a boca para ensinar (5.1-2).
O que vem depois ocupa três capítulos sem interrupção de narrador. É o primeiro dos cinco discursos em que Mateus reúne o ensino de Jesus, e o mais longo. O assunto é um só, visto de vários lados: como vive quem pertence ao reino dos céus.
Felizes, sal e luz
A primeira palavra do discurso é felizes. As bem-aventuranças declaram ditosos os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e os perseguidos, e a cada grupo dão uma promessa, do reino dos céus à visão de Deus (5.3-12). O sermão não começa por uma exigência: começa descrevendo a quem o reino pertence, e são pessoas que ninguém chamaria de afortunadas.
Em seguida vêm duas comparações dirigidas aos discípulos. Vós sois o sal da terra; se o sal perde o sabor, não serve para mais nada. Vós sois a luz do mundo; não se acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha. As boas obras devem ser vistas, para que os homens glorifiquem o Pai que está nos céus (5.16).
A lei levada à raiz
O bloco seguinte começa com uma declaração de princípio: não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar, vim cumprir (5.17). Nem a menor letra cairá. E a justiça dos discípulos precisa ir além da dos escribas e fariseus (5.20).
Seis exemplos mostram o que é esse ir além. Cada um começa pelo que os ouvintes conheciam e continua com eu, porém, vos digo:
- não matarás: já responde em juízo quem se ira contra o irmão ou o insulta;
- não cometerás adultério: quem olha uma mulher para desejá-la já adulterou no coração;
- a carta de divórcio: Jesus restringe o repúdio que a lei regulava;
- o juramento: não jurar de modo algum, e que a palavra seja sim, sim, não, não;
- olho por olho: não revidar, oferecer a outra face, andar a segunda milha;
- amar o próximo: amar também os inimigos e orar pelos que perseguem.
O movimento é sempre do ato para o coração. O mandamento continua de pé, e a obediência passa a começar antes do gesto, na ira, no olhar, na palavra. O último exemplo dá a razão de todos: o Pai faz nascer o sol sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos (5.45). O capítulo termina pedindo aos filhos a medida do Pai: sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste (5.48).
Diante do Pai, em segredo
O capítulo 6 muda de assunto e conserva o alvo. Agora a questão é para quem se pratica a justiça. Jesus toma três atos de piedade, a esmola, a oração e o jejum, e repete para cada um o mesmo desenho: não como os hipócritas, que tocam trombeta, oram nas esquinas e desfiguram o rosto para serem vistos, e que já receberam a recompensa. Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita; entra no teu quarto e fecha a porta; lava o rosto. E teu Pai, que vê em segredo, te recompensará.
No meio da parte sobre a oração está o Pai-Nosso (6.9-13). Jesus o apresenta como o contrário do palavrório dos que pensam ser ouvidos pelo muito falar, porque o Pai sabe do que os filhos precisam antes do pedido. A oração é curta: três pedidos voltados para Deus, o nome, o reino e a vontade, e outros voltados para quem ora, o pão, o perdão e a guarda diante do mal. Um só deles recebe comentário logo depois: quem não perdoa não será perdoado (6.14-15).
O tesouro, o olho e os lírios
A segunda metade do capítulo trata dos bens. Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem; ajuntai no céu, porque onde está o teu tesouro, ali estará o teu coração (6.21). O olho é a lâmpada do corpo. Ninguém pode servir a dois senhores: não se serve a Deus e às riquezas.
Daí decorre a palavra sobre a ansiedade. Não andeis preocupados com o que comer ou vestir. As aves do céu não semeiam nem colhem, e o Pai as alimenta. Os lírios do campo não trabalham nem fiam, e nem Salomão se vestiu como eles. O argumento vai do menor ao maior: se Deus cuida da erva, quanto mais dos filhos. A conclusão é uma ordem de prioridade, buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso vos será acrescentado (6.33), e um conselho de medida: basta a cada dia o seu mal.
A trave, o pedido e a regra
O capítulo 7 reúne palavras mais breves. Não julgueis, para não serdes julgados, porque a medida usada será a medida recebida; quem vê o cisco no olho do irmão deve cuidar antes da trave que tem no seu.
Depois, a confiança na oração: pedi e vos será dado, buscai e achareis, batei e a porta se abrirá. Nenhum pai dá pedra ao filho que pede pão. Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas, quanto mais o Pai que está nos céus (7.11).
Então vem a frase que amarra o conjunto: tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles, porque esta é a lei e os profetas (7.12). A expressão é a mesma de 5.17. Entre uma e outra está tudo o que Jesus tinha a dizer sobre a lei.
Rocha e areia
O final é feito de escolhas em pares. Duas portas e dois caminhos, o largo e o apertado. Duas árvores, conhecidas pelos frutos, como os falsos profetas que chegam vestidos de ovelha. Dois tipos de discípulo: muitos dirão Senhor, Senhor, e lembrarão as profecias e os milagres feitos em seu nome, e ouvirão nunca vos conheci (7.21-23). Entra no reino quem faz a vontade do Pai.
A última imagem são duas casas sob a mesma tempestade. O homem prudente construiu sobre a rocha, e a casa ficou de pé. O insensato construiu sobre a areia, e a ruína foi grande. Os dois ouviram as mesmas palavras. Um as pôs em prática, o outro não.
Como quem tem autoridade
O narrador volta só para registrar a reação: as multidões ficaram admiradas com o ensino, porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas (7.28-29). O contraste tem base no próprio discurso. Jesus disse seis vezes eu, porém, vos digo, falou de meu Pai e, no fim, pôs a firmeza da casa em ouvir e praticar estas minhas palavras.
É essa a ênfase do texto. O sermão não oferece uma lista de regras a mais. Apresenta alguém que fala da lei por dentro, em nome próprio, e mede a justiça pela semelhança com o Pai. Nos capítulos seguintes, Mateus mostra a mesma autoridade em atos: o leproso purificado, a tempestade acalmada, o paralítico perdoado.
Da planície de Lucas à carta de Tiago
O Evangelho de Lucas guarda um discurso irmão deste, mais breve, no capítulo 6, e espalha por outros capítulos várias palavras que Mateus reúne aqui, como a dos lírios e a do pedi e vos será dado.
Fora dos evangelhos, quem mais soa como o sermão é a carta de Tiago. Ela pede praticantes da palavra, e não apenas ouvintes (Tiago 1.22), e repete quase ao pé da letra a palavra sobre o juramento: que o vosso sim seja sim, e o vosso não, não (Tiago 5.12). Paulo faz o mesmo com o amor aos inimigos quando escreve aos romanos: abençoai os que vos perseguem (Romanos 12.14). O discurso do monte, que em Mateus termina cobrando prática, é lido desde cedo exatamente assim, como palavra para ser feita.
Os pontos centrais
- O sermão ocupa Mateus 5 a 7 e é o primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus nesse evangelho.
- A justiça dos discípulos deve exceder a dos escribas e fariseus (5.20), frase que serve de título ao restante do capítulo 5.
- O capítulo 6 repete, para a esmola, a oração e o jejum, a mesma promessa: teu Pai, que vê em segredo, te recompensará.
- Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (6.33) é o centro da palavra sobre a ansiedade.
- A regra de ouro, em Mateus 7.12, é apresentada como resumo da lei e dos profetas, a mesma expressão de 5.17.
- O discurso termina exigindo prática: nem todo o que diz Senhor, Senhor entra no reino, e sim quem faz a vontade do Pai (7.21).
Leituras que se afastam do texto
Jesus pregou o Sermão da Montanha de pé, para a multidão
Mateus 5.1-2 diz que Jesus, vendo as multidões, subiu ao monte e sentou-se; os discípulos se aproximaram, e ele passou a ensiná-los. Sentar-se era a posição do mestre que ensina. As multidões estão por perto e reagem no fim (7.28), mas o discurso fala a quem já o segue: vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo. A imagem do pregador de pé diante do povo vem da pintura e do cinema.
A lei de Moisés mandava amar o próximo e odiar o inimigo
Só a primeira metade é citação. Amarás o teu próximo está em Levítico 19.18; odiarás o teu inimigo não aparece em nenhum livro da lei. Em Mateus 5.43, Jesus reproduz o que os ouvintes tinham escutado, com o acréscimo que o costume fazia ao mandamento, e por isso a fórmula é ouvistes que foi dito, e não está escrito. A resposta dele alarga o próximo até incluir o inimigo e o perseguidor.
Não julgueis significa que ninguém pode avaliar a conduta de ninguém
O trecho não acaba na proibição. Depois do cisco e da trave, a ordem é tirar primeiro a trave do próprio olho, para então ver com clareza e tirar o cisco do olho do irmão (7.5). O mesmo capítulo pede discernimento: não dar o que é santo aos cães, reconhecer os falsos profetas pelos frutos (7.6; 7.16). O que Jesus condena é a medida dura aplicada ao outro por quem não a aplica a si.
A regra de ouro diz: não faça aos outros o que não quer que façam a você
Essa é a forma negativa, antiga e conhecida, que aparece no livro de Tobias (4.15). No Sermão da Montanha a frase vem na forma positiva: tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles (Mateus 7.12). A diferença pesa. A forma negativa se cumpre deixando de agir; a positiva obriga a tomar a iniciativa do bem, e Jesus a apresenta como a lei e os profetas.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- A que Jesus compara os discípulos logo depois das bem-aventuranças?
- Ao sal da terra e à luz do mundo, como uma cidade edificada sobre um monte (Mateus 5.13-14).
- O que deve fazer quem leva a oferta ao altar e lembra que o irmão tem algo contra ele?
- Deixar a oferta diante do altar, ir primeiro reconciliar-se com o irmão e só depois voltar (Mateus 5.23-24).
- De onde vem a frase olho por olho, dente por dente, que Jesus cita?
- Da lei de Moisés, em Êxodo 21.24; Jesus lhe opõe a outra face, a capa e a segunda milha (Mateus 5.38-41).
- Quais são as três práticas tratadas no começo do capítulo 6?
- A esmola, a oração e o jejum, que devem ser feitos sem plateia, diante do Pai (Mateus 6.1-18).
- Quais são os dois senhores que ninguém consegue servir ao mesmo tempo?
- Deus e as riquezas, que algumas traduções mantêm no termo original, Mamom (Mateus 6.24).
- Que rei é lembrado na palavra sobre os lírios do campo?
- Salomão, que nem em toda a sua glória se vestiu como um deles (Mateus 6.29).
- Como Jesus descreve a porta e o caminho que levam à vida?
- A porta é estreita e o caminho é apertado, e são poucos os que os encontram (Mateus 7.13-14).
- Com que imagem Jesus previne contra os falsos profetas?
- Eles vêm vestidos de ovelhas e por dentro são lobos; são reconhecidos pelos frutos (Mateus 7.15-16).
Débora Arantes
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