Resumo da parábola do semeador
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Sentado num barco, diante da multidão reunida à beira do mar da Galileia, Jesus conta que um semeador saiu a semear. Parte da semente cai à beira do caminho, e as aves a comem. Parte cai em solo pedregoso, brota depressa e seca ao sol, por falta de raiz. Parte cai entre espinhos, que a sufocam. Parte cai em boa terra e rende trinta, sessenta e cem por um. Depois, a sós com os discípulos, ele explica: a semente é a palavra, e os terrenos são quatro maneiras de ouvi-la. Uns a perdem logo, outros desistem na perseguição, outros a deixam abafar pelas preocupações e pela riqueza, e há os que a acolhem e dão fruto. A parábola está em Mateus 13, Marcos 4 e Lucas 8.
Um barco diante da praia
Em Mateus e em Marcos, a cena é à beira do mar da Galileia. A multidão é tanta que Jesus entra num barco e se senta, e o povo fica em terra, na praia (Mateus 13.1-2; Marcos 4.1). Lucas não fala do barco: diz que gente de todas as cidades vinha ter com ele (Lucas 8.4).
É a história que abre os capítulos de parábolas. No Evangelho de Marcos, ela vem depois de os parentes de Jesus dizerem que ele está fora de si e de escribas o acusarem de agir por Belzebu. No Evangelho de Mateus, encabeça as sete parábolas do capítulo 13. O momento é o mesmo nos dois: a pregação já correu a Galileia, e as respostas a ela são muito diferentes entre si. A história trata disso.
Saiu o semeador a semear
Em Marcos, a parábola começa com uma ordem: ouvi (4.3). Depois vem a frase que os três repetem quase igual: o semeador saiu a semear. Enquanto semeava, a semente teve quatro destinos.
À beira do caminho. Uma parte cai na terra batida da passagem. As aves vêm e a comem. Lucas acrescenta que ela foi pisada (8.5).
No solo pedregoso. Outra parte cai onde há pouca terra sobre a pedra. Brota logo, porque a terra é rasa. Quando o sol sobe, a planta se queima e seca, por não ter raiz. Em Lucas, seca por falta de umidade (8.6).
Entre os espinhos. Outra cai onde havia espinheiros. Eles crescem junto e a sufocam. Marcos anota: e não deu fruto (4.7).
Na boa terra. Outra parte, enfim, cai em terra boa, nasce, cresce e dá fruto.
Nada distingue as porções entre si. O semeador é o mesmo, o gesto é o mesmo, a semente é a mesma. A parábola fecha com o aviso que retoma a primeira palavra: quem tem ouvidos para ouvir, ouça (Marcos 4.9).
Trinta, sessenta, cem
O rendimento da boa terra é contado de três maneiras.
- Marcos sobe: trinta, sessenta e cem por um (4.8).
- Mateus desce: cem, sessenta e trinta (13.8).
- Lucas dá um número só: cem por um (8.8).
Cem por um é colheita de bênção. É o que Gênesis diz de Isaque, que semeou na terra de Gerar e colheu no mesmo ano o cêntuplo, porque o Senhor o abençoava (Gênesis 26.12). A história gasta três frases com perdas e termina numa fartura maior que todas elas. E, na versão de Marcos e de Mateus, a própria boa terra não rende por igual: há quem dê trinta e quem dê cem, e os três resultados são chamados de fruto.
A pergunta feita longe da multidão
A cena muda. Quando Jesus fica só, os que estavam ao redor dele com os doze perguntam pelas parábolas (Marcos 4.10). Em Mateus, a pergunta é por que ele fala assim ao povo; em Lucas, o que aquela parábola queria dizer.
A resposta separa dois grupos: a vós é dado conhecer o mistério do reino; aos de fora, tudo vem em parábolas. E cita Isaías, na cena em que o profeta é enviado a um povo que vai ouvir sem entender e ver sem perceber (Isaías 6.9-10). Cada evangelho registra a frase a seu modo. Marcos e Lucas a dão curta. Mateus cita o trecho de Isaías por extenso e acrescenta uma bem-aventurança: felizes os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, porque ouvem; muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram (13.16-17).
A passagem de Isaías fala de ouvidos, e a parábola também. O que vem a seguir é a explicação, e ela é toda sobre ouvir.
A semente é a palavra
Marcos abre a explicação com uma repreensão: não entendeis esta parábola? Como entendereis todas as outras? (4.13). Em seguida, Jesus percorre os quatro terrenos de novo, na mesma ordem.
| Terreno | O que acontece à semente | O ouvinte, na explicação |
|---|---|---|
| Beira do caminho | As aves a comem | Ouve, e a palavra lhe é tirada: por Satanás (Marcos), pelo maligno (Mateus), pelo diabo (Lucas) |
| Solo pedregoso | Brota logo e seca, sem raiz | Recebe com alegria, dura pouco e cai quando vem a tribulação ou a perseguição por causa da palavra |
| Espinhos | Cresce e é sufocada | Ouve, mas os cuidados do mundo e a sedução da riqueza abafam a palavra |
| Boa terra | Dá fruto | Ouve, acolhe e frutifica |
As diferenças entre os três são pequenas e dizem algo de cada um. Em Mateus, o ouvinte do caminho é o que ouve a palavra do reino e não a entende (13.19), e o da boa terra é o que ouve e entende (13.23). Em Lucas, o diabo tira a palavra para que não creiam e sejam salvos (8.12), os do solo pedregoso creem por algum tempo (8.13), e os espinhos incluem os prazeres da vida (8.14). A boa terra, em Lucas, tem coração bom e reto, retém a palavra e dá fruto com perseverança (8.15).
Dois dos três fracassos vêm das circunstâncias da vida, e elas são opostas. No solo pedregoso, a planta morre de aperto: tribulação, perseguição. Entre os espinhos, morre de concorrência: preocupações, riqueza, desejos. A palavra pode ser perdida pelo sofrimento e pode ser perdida pelo conforto.
O que a explicação deixa sem nome
A semente recebe nome. Os terrenos recebem nome. O semeador, não: a explicação diz apenas que ele semeia a palavra (Marcos 4.14). A história leva o seu título, que vem de Mateus 13.18, mas o assunto dela são os ouvintes.
O verbo que organiza tudo é ouvir. Ele abre a parábola em Marcos, encerra-a nos três evangelhos e volta em cada linha da explicação: estes são os que ouvem, e logo vem Satanás; os que, ao ouvirem, recebem com alegria; os que ouvem, mas os cuidados sufocam; os que ouvem e acolhem. A palavra chega a todos os quatro. A diferença está no que acontece depois de ouvi-la.
Isso explica o lugar que Marcos lhe dá entre as parábolas de Jesus. Ela fala de como se recebe o que ele diz, e por isso vem antes das outras: quem a escuta está sendo, naquele momento, um dos quatro terrenos.
A lâmpada, a medida e a chuva
Marcos e Lucas não deixam o assunto. Logo depois vem a comparação da lâmpada, que não se acende para ficar debaixo da cama, e um aviso que repete o tema: atentai no que ouvis (Marcos 4.24); vede, pois, como ouvis (Lucas 8.18). Marcos traz ainda uma parábola que só ele registra, a da semente que germina e cresce sem que o lavrador saiba como, até a espiga cheia (4.26-29). Depois de quatro terrenos, uma história em que a terra produz por si.
A imagem tem raiz em Isaías. Como a chuva desce do céu e não volta para lá sem regar a terra, fazê-la brotar e dar semente ao semeador e pão a quem come, assim a palavra que sai da boca do Senhor não volta vazia (Isaías 55.10-11). Semente, semeador, palavra e fruto já estavam juntos nesse versículo.
Lucas fecha a sequência com uma cena de família. Avisam a Jesus que a mãe e os irmãos estão do lado de fora, sem conseguir chegar por causa da multidão, e ele responde com o vocabulário da parábola: minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam (8.21).
Os pontos centrais
- A parábola está nos três sinóticos (Mateus 13.1-23; Marcos 4.1-20; Lucas 8.4-15) e em todos vem seguida da explicação dada por Jesus.
- A semente é uma só; o que muda o resultado é o terreno: beira do caminho, solo pedregoso, espinhos e boa terra.
- Na explicação, a semente é a palavra (Marcos 4.14), palavra do reino em Mateus 13.19 e palavra de Deus em Lucas 8.11.
- Os quatro terrenos são quatro modos de ouvir: em todos a palavra é ouvida, e só no último ela é acolhida e dá fruto.
- A colheita é de trinta, sessenta e cem por um em Marcos; Mateus inverte a ordem, e Lucas registra apenas cem por um.
- Em Marcos 4.13, Jesus trata esta parábola como porta das demais: se não a entendeis, como entendereis todas as outras?
Leituras que se afastam do texto
A explicação de Jesus diz que o semeador é ele mesmo
Nos três evangelhos, a explicação identifica a semente e os terrenos e deixa o semeador sem nome: o semeador semeia a palavra, diz Marcos 4.14, e nada mais. A frase o que semeia a boa semente é o Filho do Homem pertence à explicação de outra parábola, a do joio (Mateus 13.37), contada logo depois no mesmo capítulo. Como as duas começam com um homem semeando, a memória passa a resposta de uma para a outra.
Três quartos da semente se perdem, e só um quarto dá fruto
O texto não dá proporções. Diz que uma parte caiu aqui e outra ali, sem informar quanto foi para cada terreno: são quatro destinos, e não quatro quartos. O único número da parábola está na colheita, trinta, sessenta e cem por um, e é com ele que a história termina. A conta de três perdas para um acerto nasce de ler a lista como estatística, e troca o final farto por um balanço de prejuízo.
Só na boa terra a semente chegou a nascer
Das quatro porções, só a primeira não germina, porque as aves a comem antes. No solo pedregoso a planta brota logo, justamente por ter pouca terra (Marcos 4.5); entre os espinhos ela cresce, e Marcos precisa dizer que não deu fruto (4.7). Na explicação é igual: os do solo pedregoso recebem a palavra com alegria. A medida da parábola não é começar, é chegar ao fruto.
Jesus contou a parábola e a explicou para a multidão
A multidão ouve apenas a história e o aviso final, quem tem ouvidos para ouvir, ouça. A explicação vem depois e para poucos: quando ele ficou só, os que estavam ao seu redor com os doze o interrogaram (Marcos 4.10). Mateus e Lucas também põem a pergunta na boca dos discípulos. Como as Bíblias imprimem parábola e explicação em sequência, a mudança de público passa despercebida.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Onde Jesus está quando conta a parábola do semeador?
- Sentado num barco, com a multidão em pé na praia (Mateus 13.2; Marcos 4.1).
- Com que palavra a parábola começa em Marcos?
- Com uma ordem, ouvi, antes da frase eis que o semeador saiu a semear (Marcos 4.3).
- Que detalhe só Lucas dá sobre a semente caída à beira do caminho?
- Antes de ser comida pelas aves do céu, ela foi pisada por quem passava (Lucas 8.5).
- Por que a planta do solo pedregoso seca?
- Porque não tinha raiz e o sol a queimou (Marcos 4.6); Lucas diz que lhe faltava umidade (8.6).
- Que profeta é citado quando os discípulos perguntam pelas parábolas?
- Isaías, na passagem sobre ouvir sem entender e ver sem perceber (Isaías 6.9-10).
- O que os espinhos representam na explicação de Marcos?
- Os cuidados do mundo, a sedução da riqueza e as demais ambições, que sufocam a palavra (4.19).
- Como Lucas descreve os que são a boa terra?
- Ouvem com coração bom e reto, retêm a palavra e dão fruto com perseverança (Lucas 8.15).
- De onde vem o nome parábola do semeador?
- Do próprio texto: em Mateus 13.18, Jesus diz ouvi, pois, a parábola do semeador.
Débora Arantes
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