Resumo da parábola do bom samaritano
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Um doutor da lei quer pôr Jesus à prova e pergunta o que fazer para herdar a vida eterna. Ele mesmo responde, citando a lei: amar a Deus de todo o coração e o próximo como a si mesmo. Depois pergunta quem é o seu próximo, e Jesus conta uma história. Um homem que descia de Jerusalém para Jericó é assaltado e largado semimorto. Um sacerdote e um levita o veem e passam de largo. Um samaritano, de um povo com quem os judeus não se davam, enche-se de compaixão, trata as feridas com óleo e vinho, leva-o a uma hospedaria e paga a despesa. Jesus pergunta qual dos três foi o próximo do ferido. O que usou de misericórdia, responde o doutor. Vai e faze tu o mesmo (Lucas 10.37).
Um entendido se levanta
A cena está no capítulo 10 do Evangelho de Lucas, no começo da longa viagem a Jerusalém. Os discípulos enviados dois a dois acabam de voltar, alegres, e Jesus louva o Pai por ter escondido estas coisas dos sábios e entendidos e as ter revelado aos pequeninos (10.21). Logo depois, um entendido se levanta.
É um doutor da lei, alguém cujo ofício é interpretar os livros de Moisés. Lucas avisa que ele quer pôr Jesus à prova. A pergunta é: mestre, que farei para herdar a vida eterna?
Jesus não responde. Devolve a questão ao terreno do especialista: que está escrito na lei? Como lês? O homem junta dois textos. De Deuteronômio 6.5 vem o primeiro, que em Lucas ganha um quarto termo, o entendimento: amarás o Senhor, teu Deus, de todo o coração, de toda a alma, com todas as forças e com todo o entendimento. De Levítico 19.18 vem o segundo: e o teu próximo como a ti mesmo.
Jesus aprova: respondeste bem; faze isso e viverás (10.28). A prova termina sem que ele tenha dito nada de novo. Quem enunciou a resposta foi quem perguntou.
O limite que a segunda pergunta procura
O doutor da lei não se dá por satisfeito. Querendo justificar-se, diz o texto, ele pergunta: e quem é o meu próximo? (10.29).
A pergunta tem fundamento na própria lei. O versículo de Levítico que ele citou fala, na primeira metade, dos filhos do teu povo: é contra eles que não se deve guardar rancor. Mais adiante, o mesmo capítulo estende o mandamento ao estrangeiro que mora na terra: tu o amarás como a ti mesmo (Levítico 19.34). Havia, portanto, o que discutir. Próximo é o compatriota? O estrangeiro residente? Até onde vai a obrigação?
Quem pergunta assim espera uma definição, uma linha que separe quem está dentro de quem está fora. Jesus responde com uma história, a mais conhecida das parábolas que só Lucas registra.
Na descida para Jericó
Um homem descia de Jerusalém para Jericó. O verbo é exato: a estrada perde cerca de mil metros de altitude em menos de trinta quilômetros, por uma região deserta. O homem cai nas mãos de salteadores. Eles lhe tiram a roupa, espancam-no e vão embora, deixando-o semimorto (10.30).
Dele não se sabe mais nada. O texto não diz o nome, o ofício nem o povo a que pertence. Sem roupa e sem voz, ele também não tem como mostrar quem é. Fica reduzido ao que a história precisa: alguém caído à beira do caminho.
Dois homens do templo
Por acaso, descia pelo mesmo caminho um sacerdote. Ele vê o homem e passa de largo. Depois chega ao lugar um levita, membro da tribo que auxiliava os sacerdotes no serviço do templo. Vê e também passa de largo (10.31-32).
Lucas usa as mesmas palavras para os dois e não entra no pensamento de nenhum. Não se fala de medo, de pressa nem de escrúpulo religioso: o texto registra dois verbos, ver e desviar. Os dois enxergam o ferido. A falta não está nos olhos.
A escolha dos personagens pesa. São os que o ouvinte esperaria ver cumprindo a lei que o doutor acabou de recitar. E a sequência prepara um terceiro. As Escrituras costumam repartir o povo em três grupos, o povo de Israel, os sacerdotes e os levitas (Esdras 9.1). Depois de um sacerdote e de um levita, o ouvinte aguarda o israelita comum.
Um samaritano em viagem
O terceiro é um samaritano. Samaritanos e judeus adoravam o mesmo Deus em lugares diferentes e não se davam (João 4.9). No capítulo anterior do próprio Lucas, uma aldeia samaritana se recusa a receber Jesus porque ele ia para Jerusalém, e Tiago e João propõem fazer descer fogo do céu sobre ela (9.52-54). A parábola é contada com essa lembrança ainda fresca. E o homem está de viagem, numa estrada da Judeia: dos três que passam, é o único que anda fora da sua terra.
O samaritano também vê. A diferença está no verbo seguinte: encheu-se de compaixão (10.33). Lucas reserva esse verbo para três momentos: Jesus diante da viúva de Naim (7.13), o samaritano e o pai que avista o filho na parábola do filho pródigo. Nos três, a compaixão vem depois do olhar e antes de um gesto.
Aqui os gestos são muitos, e o texto os enumera sem pressa:
- aproxima-se do homem, ao contrário dos outros dois;
- ata as feridas, derramando nelas óleo e vinho;
- coloca-o sobre o seu próprio animal;
- leva-o a uma hospedaria e cuida dele.
Óleo e vinho eram provisão de viagem e também o que se tinha à mão para tratar ferimentos: Isaías descreve um corpo coberto de chagas que ninguém atou nem amoleceu com óleo (Isaías 1.6). O samaritano gasta com o desconhecido o que levava para si.
No dia seguinte, tira dois denários e os entrega ao hospedeiro. O denário era o pagamento de um dia de trabalho no campo (Mateus 20.2). Junto vão uma ordem e uma promessa: cuida dele, e o que gastares a mais eu te pagarei quando voltar (10.35). É um crédito sem teto, aberto em favor de um desconhecido.
A parábola gasta um versículo com o assalto, dois com os que passam e três com o socorro. O peso está na descrição do cuidado.
A pergunta devolvida
Terminada a história, Jesus pergunta: qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? (10.36).
O doutor tinha perguntado quem é o meu próximo, isto é, a quem eu devo amor. Jesus pergunta quem foi o próximo do ferido, isto é, quem amou. Próximo deixa de ser uma classe de pessoas a identificar e passa a ser alguma coisa que se faz.
A resposta é correta e guarda um detalhe: o que usou de misericórdia para com ele (10.37). O doutor da lei não diz o samaritano. Descreve o homem pelo que fez, e assim acaba dando ele mesmo, pela segunda vez, a resposta que tinha vindo buscar.
Jesus encerra com dois imperativos: vai e faze tu o mesmo. A conversa começou com que farei, e a primeira resposta foi faze isso e viverás. A última palavra repete o verbo. Entre uma e outra, o especialista que veio examinar recebeu como modelo um homem cujo nome ele evita pronunciar.
Vestidos, ungidos e levados a Jericó
A história tem um antecedente pouco lembrado em 2 Crônicas. No tempo do rei Acaz, o reino do norte vence Judá e leva uma multidão de cativos para Samaria. Um profeta protesta, e homens de Samaria vestem os que estavam nus, dão-lhes calçado, comida e bebida, ungem-nos, põem os fracos sobre jumentos e os levam até Jericó, para junto dos seus irmãos (2 Crônicas 28.15). Roupa, unção, montaria, Jericó: os elementos da parábola já estavam reunidos nas Escrituras que o doutor da lei conhecia.
O capítulo 10 não termina na estrada. Logo em seguida, Jesus entra na casa de Marta e Maria, e a parte boa fica com a irmã que se senta aos seus pés para ouvir (10.38-42). Depois de dois mandamentos citados lado a lado, Lucas põe duas cenas lado a lado: uma diante de um ferido, outra diante de quem ensina.
Os samaritanos voltam mais adiante. Dos dez leprosos curados, o único que retorna para agradecer é samaritano, e Jesus o chama de estrangeiro (17.16-18). No segundo volume da sua obra, Samaria aparece no roteiro dado aos discípulos antes da ascensão: Jerusalém, toda a Judeia, Samaria e os confins da terra (Atos 1.8). A região que no capítulo 9 fechou a porta, e que no capítulo 10 forneceu o exemplo, entra ali no mapa da missão.
Os pontos centrais
- A parábola responde a uma segunda pergunta, e quem é o meu próximo, feita por um doutor da lei que queria justificar-se (Lucas 10.29).
- Os dois mandamentos, amar a Deus e amar o próximo, são citados pelo doutor da lei a partir de Deuteronômio 6.5 e de Levítico 19.18.
- O sacerdote e o levita veem o homem ferido e passam de largo; o texto não informa a razão de nenhum dos dois (10.31-32).
- O samaritano se enche de compaixão (10.33), trata as feridas com óleo e vinho, leva o homem à hospedaria e deixa dois denários.
- Jesus troca a pergunta: em vez de quem é o meu próximo, qual dos três foi o próximo do homem assaltado (10.36).
- A conversa abre e fecha com o verbo fazer: que farei (10.25), faze isso e viverás (10.28), vai e faze tu o mesmo (10.37).
Leituras que se afastam do texto
O sacerdote e o levita não pararam porque a lei os proibia de tocar num morto
O texto não dá motivo nenhum: diz que viram e passaram de largo (10.31-32). A explicação vem de Levítico 21, que restringe o contato do sacerdote com cadáveres, mas a parábola não cita essa regra, o homem estava semimorto, e o sacerdote descia, isto é, vinha de Jerusalém, e não ia para o serviço do templo. Quem fornece uma desculpa que Lucas não escreveu alivia o que a cena quer deixar sem alívio.
Um judeu foi assaltado, e um samaritano o socorreu
A parábola começa com um homem, sem mais (10.30). Sacerdote, levita e samaritano são identificados pelo grupo; a vítima, não. O trajeto a partir de Jerusalém faz supor um judeu, mas o texto não o afirma, e a omissão trabalha a favor da história: despido e quase morto, o homem não tem roupa nem fala que mostrem de onde é. Quem para diante dele não sabe a quem está ajudando.
Samaritano, na Bíblia, quer dizer pessoa caridosa
O sentido de hoje nasceu desta parábola. No texto, samaritano é o habitante da Samaria, povo com quem os judeus não se davam (João 4.9), e a palavra chega a ser lançada contra Jesus como insulto (João 8.48). No capítulo anterior de Lucas, uma aldeia samaritana lhe nega pousada (9.52-53). Os primeiros ouvintes não escutaram um elogio: escutaram o nome de um adversário posto no lugar do herói.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Qual é a primeira pergunta do doutor da lei a Jesus?
- mestre, que farei para herdar a vida eterna? Lucas avisa que ele perguntava para pô-lo à prova (10.25).
- Como Jesus reage à primeira pergunta?
- Com outras duas: que está escrito na lei? Como lês? Quem dá a resposta é o próprio doutor da lei (10.26-27).
- Em que estado os salteadores deixam o homem?
- Sem roupa, espancado e semimorto à beira do caminho, depois de o despojarem (10.30).
- O que o samaritano derrama nas feridas do homem?
- Óleo e vinho, enquanto ata as feridas, antes de levá-lo dali (10.34).
- Como o ferido chega à hospedaria?
- Sobre o animal do próprio samaritano, que o leva até lá e cuida dele (10.34).
- O que o samaritano combina com o hospedeiro no dia seguinte?
- Entrega dois denários, manda cuidar do homem e promete pagar na volta o que for gasto a mais (10.35).
- Com que palavras o doutor da lei identifica o próximo do ferido?
- O que usou de misericórdia para com ele; a palavra samaritano não aparece na resposta (10.37).
- Que episódio vem logo depois da parábola em Lucas?
- A visita à casa de Marta e Maria, em que Maria fica sentada aos pés de Jesus, ouvindo (10.38-42).
Débora Arantes
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