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Resumo do Pai-Nosso

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Pai é a primeira palavra, e os pedidos decorrem dela. Em Mateus 6, no meio do Sermão da Montanha, Jesus ensina uma oração curta, oposta ao palavrório de quem pensa ser ouvido por falar muito. Os três primeiros pedidos olham para Deus: que o seu nome seja santificado, que o seu reino venha, que a sua vontade se faça na terra como no céu. Os outros olham para quem ora: o pão de cada dia, o perdão das dívidas, medido pelo perdão que se dá, a guarda na tentação e a libertação do mal. Lucas 11 traz a mesma oração em forma mais breve, com cinco pedidos, ensinada quando um discípulo vê Jesus orando e pede: ensina-nos a orar. Tudo é dito no plural, nosso e nos.

Os sete pedidos do Pai-Nosso de Mateus em duas colunas: três voltados para Deus, sobre o nome, o reino e a vontade, e quatro voltados para quem ora
Imagem: resumode.com.br

Duas ocasiões para a mesma oração

O Pai-Nosso está em dois evangelhos, e cada um o situa de um jeito.

Em Mateus, ele fica no centro do Sermão da Montanha. Jesus fala de três práticas, a esmola, a oração e o jejum, e ensina a fazê-las sem plateia. Sobre a oração, dá dois avisos: não orar para ser visto, como os hipócritas, e não amontoar palavras, como os gentios, que pensam ser atendidos pelo muito falar. O motivo vem antes do modelo: o vosso Pai sabe do que precisais antes de lho pedirdes (Mateus 6.8). Então diz: vós, portanto, orai assim.

No Evangelho de Lucas, a cena é outra. Jesus está orando em certo lugar. Quando termina, um dos discípulos pede: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos (Lucas 11.1). A resposta é a oração em forma mais breve, seguida de uma parábola e de um incentivo a pedir.

A quem se fala

Pai nosso, que estás nos céus. A invocação reúne duas coisas que poderiam parecer opostas. Pai é palavra de casa, de proximidade e confiança. Que estás nos céus lembra quem é esse Pai: aquele que está acima de tudo e a quem nada escapa.

O possessivo também conta. A oração não diz meu Pai. Mesmo quem ora de porta fechada, como Jesus acaba de recomendar, diz nosso e pede pão, perdão e proteção para nós. A oração mais pessoal dos evangelhos não tem um único pedido no singular.

Israel já conhecia Deus como pai do povo, e os profetas o invocam assim. Nos evangelhos, é desse modo que Jesus costuma orar. Ao ensinar a oração, ele entrega aos discípulos a sua própria maneira de falar com Deus.

O nome, o reino e a vontade

Os três primeiros pedidos não tratam de quem ora. Tratam de Deus, e os três têm a mesma forma.

Santificado seja o teu nome. O nome, na Bíblia, é a própria pessoa enquanto se dá a conhecer. Pedir que ele seja santificado é pedir que Deus seja reconhecido como quem é. A linguagem vem dos profetas: em Ezequiel, é o próprio Deus quem promete santificar o seu grande nome, profanado entre as nações (Ezequiel 36.23).

Venha o teu reino. É o assunto de toda a pregação de Jesus, que começou anunciando que o reino dos céus está próximo. A oração faz do anúncio um desejo.

Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Este pedido está só em Mateus. Ele explica os dois anteriores: o nome é santificado e o reino chega onde a vontade de Deus é feita. A comparação final dá a medida, a terra como o céu, e pode ser lida como fecho dos três pedidos juntos.

A ordem ensina por si. Antes de apresentar qualquer necessidade, quem ora se ocupa do que é de Deus. O sermão dirá o mesmo em forma de conselho, poucos versículos depois: buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (6.33).

O pão de hoje

Na metade da oração, o pronome muda de teu para nosso. O primeiro pedido dessa parte é o mais simples: o pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

A palavra traduzida por de cada dia é raríssima, e as traduções hesitam entre cotidiano, necessário e do dia que vem. O sentido de fundo é o mesmo: o alimento na medida de uma jornada. Por trás está o maná do Êxodo, que o povo recolhia no deserto dia por dia, sem estocar (Êxodo 16). Está também a oração de Provérbios: não me dês pobreza nem riqueza, dá-me o pão que me é necessário (Provérbios 30.8).

O pedido combina com o que o sermão diz logo adiante sobre a ansiedade pelo dia de amanhã. Quem pede só o pão de hoje já está praticando essa confiança.

Dívidas e devedores

Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. A imagem é financeira. O pecado aparece como uma conta em aberto diante de Deus, que só o credor pode cancelar.

É o único pedido que traz uma comparação com a conduta de quem ora, e o único que Jesus comenta ao terminar: se perdoardes aos homens as suas faltas, o Pai celeste também vos perdoará; se não perdoardes, também não sereis perdoados (Mateus 6.14-15). Mais adiante no mesmo evangelho, a parábola do servo sem misericórdia conta a história inteira: um homem perdoado de uma dívida impagável manda prender o companheiro que lhe devia pouco (18.23-35).

A parábola mostra a ordem dos fatos. O rei perdoa primeiro, sem que o servo tenha feito nada para merecer, e o que se espera dele é que a misericórdia recebida passe adiante. O assim como da oração não fixa um preço para o perdão de Deus: descreve quem o recebeu de verdade.

A tentação e o mal

E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. As traduções variam na primeira parte, entre não nos deixes cair, não nos induzas e não nos submetas. O pedido é o de quem sabe que pode falhar e não se oferece para a prova.

A segunda parte, que só Mateus traz, pede o resgate: livra-nos do mal, ou do Maligno, pois a expressão admite as duas leituras. A oração que começou no céu termina no ponto mais baixo da experiência humana, e deixa esse ponto também nas mãos do Pai.

Em parte dos manuscritos e das edições, a oração de Mateus se fecha com um louvor, pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre, que lembra a oração de Davi em 1 Crônicas 29.

A forma breve de Lucas

Lucas registra cinco pedidos onde Mateus tem sete.

Mateus 6.9-13 Lucas 11.2-4
Pai nosso, que estás nos céus Pai
Santificado seja o teu nome Santificado seja o teu nome
Venha o teu reino Venha o teu reino
Seja feita a tua vontade não consta
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje O pão nosso de cada dia dá-nos a cada dia
Perdoa-nos as nossas dívidas Perdoa-nos os nossos pecados
Não nos deixes cair em tentação Não nos deixes cair em tentação
Mas livra-nos do mal não consta

Algumas edições trazem o texto de Lucas completado com as frases de Mateus, o que apaga a diferença. Na forma breve, o pão é pedido a cada dia, como hábito, e o perdão é justificado por um costume: pois também nós perdoamos a todo aquele que nos deve.

O que vem depois dá o tom de Lucas. Jesus conta a história do homem que bate à porta do amigo à meia-noite e insiste até receber os pães. Em seguida diz pedi e vos será dado, e conclui com o mesmo argumento do pai e do filho que Mateus tem no sermão, com uma diferença no fim: quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem (Lucas 11.13).

Getsêmani e o grito de Aba

A oração ensinada no monte reaparece na boca de quem a ensinou. No Getsêmani, na noite da prisão, Jesus se afasta dos discípulos e ora: meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, seja feita a tua vontade (Mateus 26.42). São as palavras do terceiro pedido. Aos três discípulos que dormem, ele recomenda o que o sexto pede: vigiai e orai, para não entrardes em tentação (26.41). Marcos conserva o termo aramaico daquela oração, Aba, Pai.

É essa palavra que as cartas de Paulo guardam como marca dos cristãos. Aos Romanos, ele escreve que os que são guiados pelo Espírito receberam um espírito de filhos, pelo qual clamam Aba, Pai (Romanos 8.15), e repete a ideia aos gálatas. O Pai-Nosso começa por uma palavra que, para o Novo Testamento, ninguém diz sozinho: é dita com o Filho e pelo Espírito.

Os pontos centrais

  1. O Pai-Nosso aparece duas vezes: em Mateus 6.9-13, dentro do Sermão da Montanha, e em Lucas 11.2-4, depois de um pedido dos discípulos.
  2. Os três primeiros pedidos tratam do que é de Deus (teu nome, teu reino, tua vontade); os seguintes, do que é nosso (pão, dívidas, tentação).
  3. A oração é toda no plural: Pai nosso, pão nosso, perdoa-nos, livra-nos. Quem a diz ora junto com outros, mesmo sozinho no quarto.
  4. O perdão é o único pedido com condição, assim como nós perdoamos, e o único que Jesus comenta em seguida (Mateus 6.14-15).
  5. Lucas não traz os pedidos sobre a vontade de Deus e sobre o mal, começa só por Pai e fala em pecados onde Mateus fala em dívidas.
  6. No Getsêmani, Jesus ora com palavras da própria oração: Pai, seja feita a tua vontade (Mateus 26.42).

Leituras que se afastam do texto

O Pai-Nosso da Bíblia diz: perdoai as nossas ofensas

Mateus 6.12 fala em dívidas e devedores: perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Lucas 11.4 diz pecados na primeira parte e conserva a imagem na segunda, a todo aquele que nos deve. Ofensas é a palavra da oração como se reza em português em muitas igrejas, apoiada no comentário de Mateus 6.14, em que várias traduções trazem ofensas. A imagem do texto é a de uma conta que não se consegue pagar.

Os discípulos pediram, e Jesus ensinou o Pai-Nosso no Sermão da Montanha

A frase junta duas cenas. Em Mateus ninguém pede nada: Jesus está ensinando sobre esmola, oração e jejum e diz, por iniciativa própria, orai assim (6.9). O pedido está em Lucas, em outro lugar e em outro momento: Jesus orava, e quando terminou um discípulo disse Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos (11.1). Cada evangelho guarda a oração na sua própria ocasião.

Não nos deixeis cair em tentação quer dizer que é Deus quem tenta as pessoas

A carta de Tiago afasta essa leitura: Deus não é tentado pelo mal e a ninguém tenta (Tiago 1.13). A palavra do pedido cobre tentação e provação, e o sentido é o de quem conhece a própria fraqueza e pede para não ser levado a uma prova em que sucumba. A segunda metade completa a primeira: livra-nos do mal. No Getsêmani Jesus dá o mesmo conselho, vigiai e orai para não entrardes em tentação (Mateus 26.41).

Ninguém tinha chamado Deus de Pai antes de Jesus

O Antigo Testamento já o faz. Isaías ora dizendo tu, Senhor, és nosso Pai (Isaías 63.16), e Malaquias pergunta: não temos todos um só Pai? (Malaquias 2.10). O que os evangelhos mostram de próprio é a constância e a intimidade: Jesus se dirige a Deus como Pai em suas orações, usa o aramaico Aba (Marcos 14.36) e põe essa palavra na abertura da oração dos discípulos.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Antes de ensinar o Pai-Nosso em Mateus, de que dois modos de orar Jesus afasta os discípulos?
Do modo dos hipócritas, que oram para ser vistos, e do modo dos gentios, que multiplicam palavras (Mateus 6.5-7).
Como a oração começa em Lucas?
Apenas com a palavra Pai, sem o nosso e sem o complemento que estás nos céus (Lucas 11.2).
Quantos pedidos tem o Pai-Nosso em cada evangelho?
Sete em Mateus, ou seis para quem lê os dois últimos como um só, e cinco em Lucas.
Qual é a diferença entre os dois evangelhos no pedido do pão?
Mateus pede o pão para hoje; Lucas pede que ele seja dado a cada dia (Mateus 6.11; Lucas 11.3).
Que relato do Antigo Testamento está por trás do pão de cada dia?
O maná do deserto, recolhido dia a dia, na medida de cada jornada, sem guardar para o seguinte (Êxodo 16).
Que parábola Jesus conta logo depois do Pai-Nosso em Lucas?
A do amigo que bate à porta à meia-noite pedindo três pães emprestados (Lucas 11.5-8).
Que parábola de Mateus desenvolve o pedido sobre as dívidas?
A do servo perdoado de uma dívida imensa que se recusa a perdoar uma pequena ao companheiro (Mateus 18.23-35).
Que palavra aramaica para Pai as cartas de Paulo conservam?
Aba, o clamor que o Espírito põe na boca dos filhos (Romanos 8.15; Gálatas 4.6).
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Débora Arantes

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