Resumo das bem-aventuranças
Por Débora Arantes 12 min de leitura
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Felizes é a palavra que abre o Sermão da Montanha, repetida nove vezes. Em Mateus 5, Jesus declara bem-aventurados os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e os perseguidos por causa da justiça. Cada declaração traz uma promessa: consolo, a terra, a visão de Deus, o nome de filhos. A primeira e a oitava prometem a mesma coisa, o reino dos céus, e no tempo presente. Uma nona fala direto aos discípulos insultados. Lucas 6 traz quatro bem-aventuranças mais curtas, todas dirigidas a vós, e quatro ais que as espelham, contra os ricos e os fartos. Nenhuma das frases é uma ordem: todas anunciam a quem o reino pertence.
A primeira palavra do monte
O Sermão da Montanha começa por uma lista de gente feliz. Jesus sobe ao monte, senta-se, os discípulos se aproximam, e a primeira coisa que ele diz é bem-aventurados (Mateus 5.3). A palavra volta no início de nove frases seguidas.
Bem-aventurado quer dizer feliz, ditoso, e a fórmula era conhecida de quem rezava os Salmos. O saltério abre com ela: bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios. É um modo de felicitar alguém, de dizer que aquela pessoa está no bom caminho. A novidade está em quem recebe a felicitação.
Uma moldura feita de reino
Cada frase de Mateus tem duas metades. A primeira diz quem é feliz. A segunda, introduzida por porque, dá o motivo em forma de promessa. O motivo nunca está na situação descrita. Ninguém é feliz por chorar: é feliz porque será consolado.
As oito formam um conjunto fechado. A primeira e a última trazem a mesma promessa, e só elas a trazem no presente: deles é o reino dos céus (5.3 e 5.10). As seis do meio falam no futuro, serão consolados, herdarão, verão. O reino já pertence a essas pessoas, e o que ele traz ainda vai aparecer por inteiro. A palavra justiça marca o fim de cada metade da lista, na quarta e na oitava.
Quem cumpre as promessas não é dito, e nem precisa. Serão consolados, serão saciados, serão chamados filhos: quem consola, sacia e chama é Deus. Falar dele assim, sem o nomear, é um hábito de reverência frequente na Bíblia.
Os pobres, os que choram, os mansos, os famintos
As quatro primeiras descrevem gente a quem falta alguma coisa.
Os pobres de espírito são os que não têm em que se apoiar diante de Deus e sabem disso. A eles pertence o reino.
Os que choram serão consolados. O texto não especifica o motivo do choro, e a promessa tem o som de Isaías, que anuncia um enviado para consolar todos os que choram (Isaías 61.2).
Os mansos herdarão a terra. É citação quase literal do Salmo 37, em que a terra fica com os que esperam no Senhor, e não com os violentos.
Os que têm fome e sede de justiça serão saciados. A imagem é a necessidade mais elementar do corpo, aplicada ao desejo de que a vontade de Deus se faça.
Nenhuma dessas situações é elogiada por si mesma. Pobreza, luto e fome continuam sendo o que são. O que o texto afirma é que Deus tomou o partido de quem está nelas, e que a resposta dele vem a caminho.
Os misericordiosos, os puros, os que fazem a paz
As quatro seguintes olham mais para o que essas pessoas fazem e sofrem diante dos outros.
Os misericordiosos alcançarão misericórdia. É a única em que a promessa repete a palavra da declaração, e o sermão volta à ideia quando liga o perdão recebido ao perdão dado (6.14-15).
Os puros de coração verão a Deus. O Salmo 24 pergunta quem pode subir ao monte do Senhor e responde: o de mãos limpas e coração puro. A pureza, aqui, é interior, e a promessa é a mais alta da lista.
Os pacificadores serão chamados filhos de Deus. O termo fala de quem faz a paz, de quem a constrói onde ela não existe. Não descreve apenas um temperamento tranquilo. Mais adiante, amar os inimigos é apresentado como o que torna alguém filho do Pai que está nos céus (5.44-45).
Os perseguidos por causa da justiça fecham a série e recebem a promessa do começo: deles é o reino dos céus.
Felizes sois vós
No versículo 11 a gramática muda. Até ali Jesus falava deles; agora fala a vós: bem-aventurados sois quando vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.
É a oitava bem-aventurança aplicada aos que estão sentados à sua frente, e com um deslocamento que merece atenção. Onde antes estava por causa da justiça, agora está por minha causa. A ordem que segue é a única do trecho: alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. E vem uma companhia: assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós (5.12). Os discípulos são postos na fila de Elias e de Jeremias.
A alegria pedida não nega o peso do insulto. Ela se apoia nas duas certezas que o versículo oferece: a recompensa está guardada nos céus, e o caminho já foi percorrido por outros antes deles.
No lugar plano, com quatro ais
O Evangelho de Lucas guarda as bem-aventuranças em outra moldura. Jesus passa a noite em oração no monte, escolhe os doze, desce com eles e para num lugar plano, diante de uma multidão que veio para ouvi-lo e ser curada. Então levanta os olhos para os discípulos e diz (Lucas 6.20-23):
- bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus;
- bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados;
- bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir;
- bem-aventurados sois quando vos odiarem, vos expulsarem e rejeitarem o vosso nome por causa do Filho do Homem.
São quatro, todas na segunda pessoa, e a palavra agora separa a situação presente da promessa. Em seguida vêm quatro ais, que só Lucas registra, um para cada bem-aventurança: ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa consolação; ai dos que agora estão fartos; ai dos que agora riem; ai de vós quando todos falarem bem de vós, porque assim se tratavam os falsos profetas.
| Mateus 5 | Lucas 6 | |
|---|---|---|
| Quantas | Oito, mais uma dirigida a vós | Quatro |
| Pessoa | Eles, e só no fim vós | Sempre vós |
| Pobres | Pobres de espírito | Vós, os pobres |
| Fome | Fome e sede de justiça | Os que agora têm fome |
| Contraponto | Não há | Quatro ais |
As duas versões não se anulam. Lucas põe em primeiro plano a condição concreta, pobreza, fome, choro, e a inversão que o cântico de Maria já tinha anunciado. Mateus destaca a disposição de quem vive assim diante de Deus e acrescenta as que só ele traz: mansos, misericordiosos, puros de coração, pacificadores.
Promessas que já estavam escritas
Quase nada nas promessas é inventado ali. Os ouvintes reconheciam as frases. A terra dos mansos vem do Salmo 37.11. O consolo dos que choram e a boa notícia aos pobres vêm de Isaías 61, o mesmo texto que Jesus lê na sinagoga de Nazaré, em Lucas 4. O coração puro que vê a Deus vem do Salmo 24.
O que Jesus faz é reunir essas esperanças espalhadas e dizer que o tempo delas chegou. Por isso a lista vem logo depois do primeiro anúncio do evangelho, o de que o reino dos céus está próximo (Mateus 4.17). As bem-aventuranças mostram o que essa proximidade significa para quem estava no fim da fila.
O retrato de quem fala
Lidas dentro do evangelho inteiro, as oito frases descrevem em primeiro lugar aquele que as pronuncia. Jesus se diz manso e humilde de coração (Mateus 11.29) e entra em Jerusalém como o rei manso anunciado pelo profeta (21.5). Chora diante do túmulo de Lázaro e sobre Jerusalém. É perseguido e insultado sem causa. O sermão começa, assim, por um autorretrato, e a Paixão o confirma traço por traço.
O restante do Novo Testamento continua a fórmula. A primeira carta de Pedro escreve a comunidades pressionadas: se sofreis por causa da justiça, bem-aventurados sois (1 Pedro 3.14). Tiago lembra que Deus escolheu os pobres para herdeiros do reino (Tiago 2.5). E o Apocalipse espalha pelo livro sete bem-aventuranças próprias, da primeira página à última, e, já perto do fim, traz a promessa feita aos que choram levada ao limite: Deus enxugará dos olhos toda lágrima (Apocalipse 21.4).
Os pontos centrais
- Cada bem-aventurança de Mateus tem duas partes: quem é declarado feliz e a promessa que explica o motivo, introduzida por porque.
- A primeira e a oitava têm a mesma promessa, no presente: deles é o reino dos céus (Mateus 5.3 e 5.10); as outras seis estão no futuro.
- A partir de Mateus 5.11 a fala muda para a segunda pessoa, bem-aventurados sois vós, e compara os discípulos aos profetas perseguidos.
- Em Lucas 6.20-26 são quatro bem-aventuranças e quatro ais em espelho: pobres e ricos, famintos e fartos, os que choram e os que riem.
- As promessas retomam o Antigo Testamento: os mansos herdarão a terra vem do Salmo 37.11, e o consolo dos que choram, de Isaías 61.
- A palavra justiça aparece em duas das oito (5.6 e 5.10) e volta como tema de todo o sermão em 5.20 e 6.33.
Leituras que se afastam do texto
Pobre de espírito é quem tem pouca inteligência ou pouca fé
No uso corrente do português, a expressão virou sinônimo de pessoa tacanha. Em Mateus 5.3 ela descreve quem se sabe sem recursos diante de Deus e depende dele, como os pobres e humildes dos Salmos, a quem Isaías anuncia a boa notícia (Isaías 61.1). Lucas diz apenas vós, os pobres (6.20). O complemento de Mateus aponta a atitude de quem nada tem a reivindicar, e a esses pertence o reino.
Manso é o fraco, que aceita tudo calado
A terceira bem-aventurança cita o Salmo 37.11: os mansos herdarão a terra. No salmo, manso é quem não se inflama contra os malfeitores e espera no Senhor em vez de tomar a terra à força. A Bíblia usa a palavra para Moisés, que enfrentou o faraó (Números 12.3), e Jesus a aplica a si mesmo: sou manso e humilde de coração (Mateus 11.29). É confiança e domínio de si, e não falta de firmeza.
As bem-aventuranças são os mandamentos de Jesus
Nenhuma delas tem verbo no imperativo. São declarações: felizes os que choram, felizes os mansos, cada uma seguida de uma promessa. O texto não diz sede pobres nem chorai; anuncia que o reino pertence a gente assim. A única ordem do trecho é alegrai-vos e exultai (5.12). A comparação com os dez mandamentos nasce do cenário, um monte, e do costume de decorar as duas listas uma ao lado da outra.
Todo perseguido é bem-aventurado
O texto põe condições. A oitava fala dos perseguidos por causa da justiça (5.10), e a seguinte, dos insultados por minha causa, quando se disser contra eles todo mal, mentindo (5.11). Sofrer pelo próprio erro fica fora da promessa. A primeira carta de Pedro tira essa consequência: que nenhum de vós sofra como malfeitor; mas, se sofre como cristão, não se envergonhe (1 Pedro 4.15-16).
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quantas bem-aventuranças há em Mateus 5?
- Oito em terceira pessoa (5.3-10) e uma nona dirigida diretamente aos discípulos (5.11).
- Que promessa aparece duas vezes na lista de Mateus?
- Deles é o reino dos céus, dita aos pobres de espírito e aos perseguidos por causa da justiça.
- O que é prometido aos puros de coração?
- Que verão a Deus, promessa da sexta bem-aventurança (Mateus 5.8).
- Como serão chamados os pacificadores?
- Serão chamados filhos de Deus, segundo a sétima bem-aventurança (Mateus 5.9).
- A quem Jesus compara os discípulos insultados e perseguidos?
- Aos profetas que vieram antes deles e foram perseguidos do mesmo modo (Mateus 5.12).
- O que Jesus faz na noite anterior ao discurso, segundo Lucas?
- Passa a noite em oração no monte e, ao amanhecer, escolhe os doze apóstolos (Lucas 6.12-13).
- Em Lucas, o que é prometido aos que agora choram?
- Que haverão de rir; o ai correspondente avisa que os que agora riem vão chorar (Lucas 6.21 e 6.25).
- Que palavra Lucas repete para separar o presente da promessa?
- A palavra agora: os que agora têm fome, os que agora choram, os que agora estão fartos.
Débora Arantes
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