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Resumo do livro de Ezequiel

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

À beira do rio Quebar, na Babilônia, no quinto ano do exílio, o sacerdote Ezequiel vê a glória do Senhor chegar num trono, acima de quatro seres vivos e de rodas cheias de olhos. A visão diz o essencial: Deus não ficou preso em Jerusalém. Os capítulos 1 a 24 anunciam aos exilados, com gestos estranhos e alegorias duras, que a cidade vai cair, e mostram a glória abandonando o templo profanado. Os capítulos 25 a 32 julgam as nações vizinhas. Quando chega a notícia da queda, a pregação muda de direção: Deus será o pastor do seu povo, dará coração novo e espírito novo, fará viver um vale de ossos secos. Os nove capítulos finais descrevem um templo novo, ao qual a glória retorna.

Linha do tempo de Ezequiel em quatro datas do exílio: a visão do trono, a glória que deixa o templo, a notícia da queda e o templo novo
Imagem: resumode.com.br

Um sacerdote longe do templo

Em 597 a.C., onze anos antes da destruição de Jerusalém, Nabucodonosor leva para a Babilônia o rei Joaquim, a corte e os artesãos. Entre os deportados está Ezequiel, filho de Buzi, sacerdote. Ele vive em Tel-Abibe, entre exilados, junto ao rio Quebar, e é ali, longe do templo, que a palavra do Senhor o alcança.

Os oráculos vêm datados pelo ano, mês e dia do exílio de Joaquim, e a primeira visão cai no quinto ano. Ezequiel é contemporâneo de Jeremias, que prega dentro de Jerusalém, e fala aos que já foram levados e ainda esperam voltar logo.

A divisão é clara. Os capítulos 1 a 24 anunciam a queda da cidade. Os capítulos 25 a 32 se dirigem às nações. Os capítulos 33 a 48, depois que a notícia da queda chega, anunciam a restauração. Duas marcas atravessam tudo: Deus chama o profeta de filho do homem, isto é, mortal, e repete que age para que saibam que eu sou o Senhor.

Rodas, rostos e um trono

A primeira visão vem com um vento de tempestade do norte, uma grande nuvem e fogo. No meio dela há quatro seres vivos, cada um com quatro rostos, de homem, de leão, de boi e de águia, e quatro asas. Ao lado de cada um, uma roda dentro de outra roda, com os aros cheios de olhos, que se move em qualquer direção sem se virar. Sobre as cabeças deles se estende algo como um firmamento de cristal e, acima, um trono como de safira, com uma figura de aparência humana, cercada de brilho como o do arco-íris. O profeta resume com cautela: era a aparência da semelhança da glória do Senhor (1.28). E cai com o rosto em terra.

O sentido está no lugar. A glória que habitava o templo de Jerusalém aparece na terra dos caldeus, sobre um trono que se move.

Segue o envio. Ezequiel é mandado a uma casa rebelde, que talvez não ouça. Recebe um rolo escrito por dentro e por fora com lamentos, gemidos e ais, e a ordem de comê-lo; na boca, é doce como mel (3.3). É posto como sentinela: se não avisar o ímpio, responderá pelo sangue dele; se avisar, terá feito a sua parte (3.17-19).

O cerco encenado num tijolo

Boa parte da pregação de Ezequiel é feita de gestos, alguns penosos.

  • Desenha Jerusalém num tijolo e monta em volta um cerco em miniatura (capítulo 4).
  • Deita-se sobre o lado esquerdo por trezentos e noventa dias e sobre o direito por quarenta, carregando a culpa de Israel e de Judá.
  • Come pão racionado e bebe água medida, como se comerá na cidade sitiada.
  • Rapa o cabelo e a barba e divide os pelos em três partes: uma queimada, uma ferida à espada, uma espalhada ao vento (capítulo 5).
  • Arruma uma bagagem de exilado e sai de casa por um buraco aberto na parede, à vista de todos (capítulo 12).

O mais doloroso vem no dia em que o cerco começa. Deus avisa que vai tirar dele, de um golpe, a delícia dos seus olhos. A esposa morre à tarde, e ele não pode chorar nem fazer luto. Quando o povo pergunta o que aquilo significa, ele responde que assim será com eles quando o santuário, orgulho de todos, for profanado (capítulo 24).

A glória sai pela porta do oriente

No sexto ano, Ezequiel está em casa com os anciãos de Judá quando é levado em visão a Jerusalém (capítulo 8). Vê no templo, um depois do outro, quatro quadros de idolatria: uma imagem junto à porta do norte; setenta anciãos queimando incenso diante de figuras pintadas nas paredes; mulheres chorando por Tamuz; homens de costas para o santuário, adorando o sol.

Um homem vestido de linho, com um estojo de escriba, marca na testa os que gemem por causa dessas coisas, e os demais são entregues à morte (capítulo 9). Então a glória do Senhor se move. Sai de cima dos querubins para a soleira do templo, dali para a porta oriental, e por fim deixa a cidade e pousa sobre o monte que fica a leste (11.23).

A cidade ficou vazia de Deus antes de ser tomada. No mesmo capítulo há uma promessa para os que estão longe: o próprio Senhor será para eles um santuário nas terras para onde foram, e lhes dará um coração de carne (11.16-19).

Uvas verdes e duas irmãs

Entre os capítulos 15 e 23, o profeta argumenta por alegorias longas. Jerusalém é uma menina abandonada ao nascer, recolhida, vestida como rainha e depois infiel a quem a salvou (capítulo 16). Samaria e Jerusalém são duas irmãs, Oolá e Oolibá, que se entregam aos impérios vizinhos (capítulo 23).

No meio delas está o capítulo 18. Os exilados se consolavam com um provérbio: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram. Sofriam, portanto, por culpa de outros. Deus proíbe o provérbio. Todas as vidas são dele, e a pessoa que pecar, essa morrerá. O justo não é condenado pelo pai ímpio, nem o ímpio salvo pelo pai justo, e quem se converte vive. O capítulo termina num apelo: não tenho prazer na morte de ninguém; convertei-vos e vivei (18.32).

Tiro, o Egito e um fugitivo

Os capítulos 25 a 32 julgam sete povos: Amom, Moabe, Edom, a Filístia, Tiro, Sidom e o Egito. Os trechos mais longos são para Tiro, a cidade mercante descrita como um navio magnífico que naufraga com toda a carga (capítulo 27), e para o Egito, cujo faraó é o grande monstro deitado no meio do Nilo (capítulo 29). O pecado comum é o orgulho de quem se toma por deus.

O capítulo 33 retoma a figura do sentinela, e então chega o dia que o livro inteiro preparava. No décimo segundo ano do exílio, um fugitivo de Jerusalém aparece e diz: a cidade foi tomada (33.21). A boca do profeta, que estivera presa, se abre.

Pastor, coração novo e ossos que se levantam

Dali em diante, a palavra é de reconstrução.

O pastor. Os reis de Israel foram pastores que se apascentaram a si mesmos e deixaram o rebanho se espalhar. Deus anuncia que ele mesmo vai procurar as ovelhas, trazer de volta a desgarrada, enfaixar a ferida e fortalecer a fraca, e que porá sobre elas um só pastor, o seu servo Davi (34.11-23).

O coração. A volta não acontece por merecimento. Deus age por causa do seu santo nome, profanado entre as nações. Aspergirá água pura sobre o povo, tirará o coração de pedra, dará coração novo e porá dentro deles o seu Espírito (36.22-27).

Os ossos. Ezequiel é levado a um vale cheio de ossos muito secos. Filho do homem, poderão viver estes ossos? Senhor Deus, tu o sabes. Ele profetiza, há um ruído, os ossos se juntam, cobrem-se de nervos, carne e pele, mas ainda não respiram. Profetiza de novo, ao espírito, e o fôlego entra neles; põem-se de pé, um exército muito grande. A explicação vem em seguida: os ossos são toda a casa de Israel, que dizia estar acabada, e que Deus fará sair das sepulturas e voltar à terra (37.1-14).

Dois pedaços de madeira, marcados com os nomes de Judá e de José, tornam-se um só na mão do profeta: os dois reinos serão outra vez um povo. Os capítulos 38 e 39 falam de Gogue, da terra de Magogue, o último inimigo, que vem de longe contra o povo restaurado e é derrotado por Deus.

O templo medido e o rio que desce

No vigésimo quinto ano do exílio, catorze anos depois da queda, Ezequiel é levado em visão a um monte muito alto na terra de Israel (40.1-2). Um homem com uma cana de medir o conduz por um templo novo, e mede tudo: portas, átrios, salas, altar.

No centro da visão, a cena do capítulo 11 se desfaz. A glória do Deus de Israel vem do oriente, com som de muitas águas, entra pela porta oriental e enche a casa (43.1-5).

Da soleira do templo brota um fio de água que corre para o leste. A cada mil côvados medidos, está mais fundo: pelos tornozelos, pelos joelhos, pela cintura, até virar um rio que só se atravessa a nado. Ele desce ao mar Morto e torna doces as suas águas; nas margens crescem árvores que dão fruto todo mês, e cujas folhas servem de remédio (47.1-12). A terra é repartida entre as tribos, e a cidade ganha um nome: O Senhor está ali (48.35).

Do rio Quebar à ilha de Patmos

O pastor que busca a ovelha perdida reaparece nas parábolas de Jesus e no discurso do bom pastor do evangelho de João.

É o Apocalipse, porém, que mais se apoia em Ezequiel. João vê quatro seres vivos em volta do trono, come um livrinho doce na boca, ouve os nomes de Gogue e Magogue, acompanha um anjo que mede a cidade e termina diante de um rio de água viva, com árvores cujas folhas curam as nações. A última visão da Bíblia é desenhada com o material de um sacerdote exilado, que viu a glória partir e viveu para vê-la voltar.

Os pontos centrais

  1. A visão inaugural (capítulos 1 a 3): os quatro seres vivos, as rodas, o trono e o rolo que o profeta come, doce como mel.
  2. A glória do Senhor deixa o templo por etapas (capítulos 10 e 11) e retorna ao templo novo pela porta oriental (43.1-5).
  3. A responsabilidade de cada um (capítulo 18): a pessoa que pecar é que morrerá, e Deus não tem prazer na morte de ninguém.
  4. O sentinela (3.17; 33.7): o profeta responde por avisar, e cada ouvinte responde pelo que faz com o aviso.
  5. As promessas depois da queda: o pastor que busca as ovelhas (34), o coração novo (36.26) e o vale dos ossos secos (37.1-14).
  6. O refrão saberão que eu sou o Senhor, repetido dezenas de vezes, como finalidade do juízo e da restauração.

Leituras que se afastam do texto

Filho do homem, em Ezequiel, é um título do Messias

Neste livro, filho do homem é o modo como Deus se dirige ao profeta, mais de noventa vezes, e quer dizer ser humano, mortal, em contraste com a glória que ele vê. A figura celeste semelhante a um filho de homem está em Daniel 7.13, e é nos evangelhos que Jesus usa a expressão para falar de si. Ler o sentido posterior em Ezequiel troca o endereço da frase.

Ezequiel pregou em Jerusalém antes da queda

Ezequiel já está na Babilônia quando é chamado, entre os deportados da primeira leva, e de lá não sai. Fala de Jerusalém a distância e só a visita em visão, levado pelo Espírito (8.3; 40.2). O engano vem de ele descrever o templo com detalhe e de anunciar a queda ao mesmo tempo que Jeremias, este sim dentro da cidade sitiada.

A visão dos ossos secos descreve a ressurreição dos mortos no último dia

O próprio capítulo dá a chave: estes ossos são toda a casa de Israel, que diz que sua esperança se perdeu (37.11). A promessa é abrir as sepulturas do exílio, pôr o Espírito no povo e levá-lo de volta à terra (37.12-14). Leitores judeus e cristãos viram depois na cena uma imagem da ressurreição, mas o sentido primeiro, declarado no texto, é a restauração de Israel.

Ezequiel ensina que os filhos pagam pelos pecados dos pais

É o contrário. Os exilados repetiam o provérbio os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram, como quem sofre por culpa alheia. O capítulo 18 proíbe o provérbio e afirma que cada um responde por si: a pessoa que pecar, essa morrerá (18.4). O mesmo vale para a mudança de vida, pois o ímpio que se converte viverá.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Onde Ezequiel recebe a primeira visão?
Junto ao rio Quebar, na terra dos caldeus, entre os deportados de Judá.
Que rostos têm os quatro seres vivos?
Cada um tem quatro rostos: de homem, de leão, de boi e de águia (Ezequiel 1.10).
O que Ezequiel recebe para comer no chamado?
Um rolo escrito dos dois lados com lamentos e ais, que na boca tem gosto de mel.
O que acontece ao profeta quando começa o cerco de Jerusalém?
Morre a sua esposa, e ele recebe a ordem de não fazer luto, como sinal para o povo (capítulo 24).
Quem são Oolá e Oolibá?
Duas irmãs que representam Samaria e Jerusalém na alegoria da infidelidade do capítulo 23.
O que Deus promete pôr no lugar do coração de pedra?
Um coração de carne, junto com um espírito novo, para que o povo ande nos seus estatutos (36.26-27).
O que significam os dois pedaços de madeira do capítulo 37?
Judá e José, os dois reinos, que voltam a ser um só povo sob um só rei.
Como se chama a cidade no último versículo do livro?
O Senhor está ali, nome dado à cidade restaurada em Ezequiel 48.35.
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Débora Arantes

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