Resumo do nascimento de Jesus
Por Débora Arantes 13 min de leitura
Em 30 segundos
Só dois evangelhos contam o nascimento de Jesus, e cada um conta do seu modo. Em Mateus, um anjo fala a José em sonho, magos do Oriente chegam a Jerusalém por causa de uma estrela, adoram o menino numa casa em Belém, e a família foge para o Egito enquanto Herodes manda matar os meninos da cidade. Em Lucas, o anjo Gabriel fala a Maria em Nazaré, um censo leva o casal a Belém, o menino é deitado numa manjedoura, e os primeiros avisados são pastores. Os dois concordam no centro: Maria concebe pelo Espírito Santo, José é da casa de Davi, o nome Jesus vem do céu, o nascimento acontece em Belém, no tempo do rei Herodes, e o menino cresce em Nazaré.
Dois evangelhos, dois pontos de vista
Dos quatro evangelhos, só dois narram o nascimento de Jesus. Marcos abre com João Batista no deserto, e João, com o Verbo que estava com Deus no princípio. Ficam Mateus, nos capítulos 1 e 2, e Lucas, nos capítulos 1 e 2.
Os dois relatos não repetem um ao outro. Mateus acompanha José: é ele quem recebe os avisos, decide e conduz a família. Lucas acompanha Maria: é a ela que o anjo fala, e é dela que o narrador diz o que guardava no coração. Em nenhuma página os magos e os pastores se encontram. A cena única que reúne todos, com estrela, manjedoura e presentes, é montagem posterior. Lidos em separado, os textos dizem mais.
Mateus: o sonho de José
Depois da genealogia que desce de Abraão e de Davi, Mateus conta a origem de Jesus em poucas linhas. Maria estava prometida em casamento a José e, antes de viverem juntos, achou-se grávida pelo Espírito Santo (1.18). José, que era justo e não queria expô-la, resolveu deixá-la em segredo.
Um anjo do Senhor lhe aparece em sonho e o chama de filho de Davi: não temas receber Maria, porque o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles (1.20-21). O narrador acrescenta que assim se cumpriu a palavra do profeta sobre a virgem que conceberia e sobre o nome Emanuel, Deus conosco, tirada de Isaías.
José acorda e faz o que lhe foi mandado: recebe Maria e dá ao menino o nome de Jesus. O nascimento em si ocupa meia frase. O que interessa a Mateus é que, pelo gesto de José, o menino entra na casa de Davi.
Os magos entre Jerusalém e Belém
O capítulo 2 começa com o fato já dado: Jesus nasceu em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes. Chegam então a Jerusalém magos do Oriente, perguntando onde está o rei dos judeus que acaba de nascer. Viram a estrela dele e vieram adorá-lo. O texto não diz quantos eram, de que país vinham nem como se chamavam.
Herodes se perturba, e toda Jerusalém com ele. Reúne os chefes dos sacerdotes e os escribas e pergunta onde o Cristo deveria nascer. A resposta vem de Miqueias: em Belém, terra de Judá, de onde sairá o guia que apascentará Israel (2.5-6). Herodes chama os magos em segredo, apura o tempo em que a estrela apareceu e os manda a Belém, pedindo que voltem com notícias, para que ele também vá adorar o menino.
No caminho, a estrela vai adiante deles e para sobre o lugar onde estava o menino. Eles se enchem de alegria, entram na casa, veem o menino com Maria, sua mãe, prostram-se e oferecem ouro, incenso e mirra (2.11). Avisados em sonho, voltam para a sua terra por outro caminho.
Egito, Belém e Nazaré
O resto do capítulo é movido por três sonhos de José. No primeiro, o anjo manda fugir: levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo. José parte de noite e fica lá até a morte do rei.
Herodes, ao ver que os magos não voltaram, manda matar todos os meninos de Belém e dos arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo que tinha apurado (2.16). Mateus ouve ali o choro de Raquel pelos filhos, palavra de Jeremias.
Morto Herodes, o anjo manda voltar. José teme a Judeia, onde reina Arquelau, é avisado mais uma vez em sonho e se estabelece em Nazaré, na Galileia. Cada deslocamento é fechado por uma citação dos profetas. O menino refaz, em pequeno, o caminho de Israel: desce ao Egito e de lá é chamado.
Lucas: o anúncio em Nazaré
Lucas começa antes e em outro lugar. Seu primeiro capítulo conta o anúncio do nascimento de João Batista ao sacerdote Zacarias e, seis meses depois, a ida do anjo Gabriel a Nazaré, a uma virgem prometida a um homem da casa de Davi chamado José.
O anjo diz a Maria que ela conceberá e dará à luz um filho, a quem porá o nome de Jesus. Ele será chamado Filho do Altíssimo, receberá o trono de Davi e o seu reino não terá fim (1.31-33). Maria pergunta como isso será, se não conhece homem. A resposta: o Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra (1.35). Ela consente: eis aqui a serva do Senhor.
Maria visita Isabel, mãe de João, permanece com ela cerca de três meses e ali pronuncia o seu cântico. José, neste evangelho, não diz nenhuma palavra.
O censo, a manjedoura e os pastores
O nascimento vem ligado a um ato do império. César Augusto decreta um recenseamento, feito quando Quirino governava a Síria, e cada um vai registrar-se na sua cidade. José sobe de Nazaré a Belém, cidade de Davi, porque era da casa e da família de Davi, levando Maria, grávida.
Ali se completam os dias. Maria dá à luz o seu filho primogênito, envolve-o em faixas e o deita numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria (2.7). É tudo o que Lucas diz sobre o parto.
A cena seguinte se passa no campo. Pastores guardam o rebanho durante a noite. Um anjo do Senhor se apresenta, a glória do Senhor os envolve de luz, e eles ficam com muito medo. A mensagem: não temais; trago uma boa notícia, de grande alegria para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é Cristo, o Senhor (2.10-11). Uma multidão do exército celestial se junta ao anjo, dando glória a Deus e anunciando paz na terra.
Os pastores vão depressa a Belém, encontram Maria, José e o menino deitado na manjedoura, contam o que ouviram e voltam louvando a Deus. Todos se admiram. De Maria, o texto diz que guardava essas coisas e as meditava no coração.
O oitavo dia e a ida ao templo
Lucas ainda segue a família no cumprimento da lei. No oitavo dia, o menino é circuncidado e recebe o nome que o anjo tinha dado antes da concepção. Passados os dias da purificação, os pais o levam a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor e oferecem um par de rolas ou dois pombinhos. No templo, Simeão e a profetisa Ana reconhecem a criança.
Cumprido tudo, voltam para a Galileia, para Nazaré (2.39). O percurso de Lucas é Nazaré, Belém, Jerusalém e Nazaré outra vez. O de Mateus é Belém, Egito e Nazaré. Cada evangelista traça o seu, sem mencionar as etapas do outro.
O que os dois dizem com as mesmas palavras
As cenas são diferentes, e o núcleo é o mesmo. Postos lado a lado, os dois relatos afirmam:
- Maria estava prometida a José, e os dois ainda não viviam juntos;
- a concepção vem do Espírito Santo;
- José é descendente de Davi;
- um anjo anuncia o nascimento e dá o nome Jesus;
- o menino nasce em Belém, no tempo do rei Herodes;
- a família se fixa em Nazaré.
Os primeiros a chegar também se correspondem, cada um à maneira do seu evangelho. Em Mateus, que termina enviando os discípulos a todas as nações, são estrangeiros vindos de longe. Em Lucas, que dará tanto espaço aos pobres, são trabalhadores do campo em serviço noturno.
Belém e Nazaré no restante do Novo Testamento
Fora desses quatro capítulos, o Novo Testamento quase não volta às cenas do nascimento. Volta ao seu sentido. O Evangelho de João o diz numa frase: o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1.14). Paulo escreve que, na plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei (Gálatas 4.4), e abre a carta aos Romanos lembrando que ele veio da descendência de Davi segundo a carne (Romanos 1.3).
Belém reaparece uma vez, como objeção. No Evangelho de João, parte da multidão recusa Jesus por ser galileu: a Escritura não diz que o Cristo vem da descendência de Davi e de Belém, a aldeia de Davi? (João 7.42). O evangelista não responde. Quem leu Mateus e Lucas sabe o que aquela gente ignorava: o homem conhecido como Jesus de Nazaré nasceu na cidade de Davi.
Os pontos centrais
- Mateus conta a história pelo lado de José, que recebe quatro avisos em sonho; Lucas conta pelo lado de Maria, visitada por Gabriel.
- Nos dois relatos Maria concebe pelo Espírito Santo antes de viver com José (Mateus 1.18; Lucas 1.34-35).
- O nome Jesus é dado por um anjo nos dois evangelhos, a José em Mateus 1.21 e a Maria em Lucas 1.31.
- Belém é o lugar do nascimento nos dois textos; Mateus cita a profecia de Miqueias, e Lucas explica a viagem pelo censo.
- Magos, estrela, Herodes e Egito estão só em Mateus 2; censo, manjedoura, pastores e templo estão só em Lucas 2.
- Os dois relatos terminam em Nazaré, na Galileia, onde o menino é criado (Mateus 2.23; Lucas 2.39).
Leituras que se afastam do texto
Jesus nasceu no dia 25 de dezembro
Nenhum dos dois relatos dá dia, mês ou estação. Mateus situa o nascimento nos dias do rei Herodes (2.1); Lucas, no tempo de um censo ordenado por César Augusto (2.1-2), e a única indicação da cena é que os pastores passavam a noite no campo. O dia 25 de dezembro é a data em que a maior parte das igrejas celebra o Natal, fixada séculos depois. Pertence ao calendário da festa, e não ao texto.
A estrela guiou os magos do Oriente até Belém
Em Mateus 2, os magos veem a estrela no Oriente e vão a Jerusalém, a capital, onde perguntam pelo rei que nasceu. Quem indica Belém são os sacerdotes e escribas consultados por Herodes, com a profecia de Miqueias (2.4-6). Só então, no trecho curto entre Jerusalém e Belém, a estrela vai adiante deles e para sobre o lugar onde estava o menino (2.9). O caminho passa pela Escritura antes de chegar à casa.
Os anjos cantaram Glória a Deus nas alturas para os pastores
Lucas 2.13-14 diz que uma multidão do exército celestial apareceu com o anjo, louvando a Deus e dizendo: glória a Deus nas alturas. O verbo é dizer, o mesmo que introduz as palavras de Maria, de Zacarias e de Simeão nesses capítulos. A imagem do coro vem do uso do texto no culto, onde é cantado há séculos, e dos hinos de Natal. A palavra exército, aliás, é militar, e essa tropa anuncia paz.
Maria viajou de Nazaré a Belém montada num jumento
Lucas resume a viagem numa frase: José subiu da Galileia à Judeia para se registrar com Maria, que estava grávida (2.4-5). Não há jumento, estrada nem chegada às pressas; o texto diz apenas que, estando eles ali, completaram-se os dias de ela dar à luz (2.6). O animal entrou na cena por narrativas posteriores e pela pintura, assim como o jumento da fuga para o Egito, que Mateus também não menciona.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- O que José pensa em fazer ao saber da gravidez de Maria?
- Por ser justo e não querer expô-la, resolve deixá-la em segredo, até o anjo lhe falar em sonho (Mateus 1.19-20).
- Que explicação o anjo dá para o nome Jesus em Mateus?
- O menino se chamará Jesus porque salvará o seu povo dos pecados deles (Mateus 1.21).
- Que profeta os escribas citam ao dizer a Herodes onde o Cristo nasceria?
- Miqueias, que aponta Belém, na terra de Judá, como lugar de onde sairá o guia de Israel (Mateus 2.5-6).
- Até que idade iam os meninos que Herodes mandou matar em Belém?
- De dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado com os magos (Mateus 2.16).
- Por que José não se estabelece na Judeia quando volta do Egito?
- Porque Arquelau reinava ali no lugar de Herodes, seu pai; avisado em sonho, José vai para a Galileia (Mateus 2.22).
- Quem governava a Síria no tempo do censo, segundo Lucas?
- Quirino, citado junto com o decreto de César Augusto na abertura do capítulo (Lucas 2.1-2).
- O que Maria faz depois de ouvir o que os pastores contam?
- Guarda todas essas coisas e medita sobre elas no coração (Lucas 2.19).
- Que oferta Maria e José apresentam no templo de Jerusalém?
- Um par de rolas ou dois pombinhos, a oferta que a lei previa para quem não podia dar um cordeiro (Lucas 2.24).
Débora Arantes
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