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Resumo da última ceia

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

Na noite em que foi entregue, Jesus come com os doze numa sala do andar superior, em Jerusalém, preparada para a Páscoa. À mesa, anuncia que um deles o trairá. Toma o pão, dá graças, parte-o e diz: isto é o meu corpo. Toma o cálice e fala do seu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de outros. Assim contam Mateus, Marcos e Lucas, e Paulo repete em 1 Coríntios 11. A ordem fazei isto em memória de mim só aparece em Lucas e em Paulo. João narra a mesma noite sem o pão e o cálice: mostra Jesus lavando os pés dos discípulos, dando o mandamento novo do amor e despedindo-se em longos discursos, que terminam numa oração. Depois, todos saem para o monte das Oliveiras.

Duas listas lado a lado sobre a mesma noite: o que Mateus, Marcos e Lucas contam da ceia, com o pão e o cálice, e o que João conta, com o lava-pés e a despedida
Imagem: resumode.com.br

Uma sala no andar de cima

A festa é a Páscoa, a refeição anual que lembra a saída do Egito. O Êxodo manda guardá-la como memorial, de geração em geração, com o cordeiro e os pães sem fermento (Êxodo 12.14). Jerusalém está cheia, e os chefes dos sacerdotes procuram um modo de prender Jesus sem tumulto do povo (Marcos 14.1-2).

Mateus, Marcos e Lucas contam a preparação. No primeiro dia dos Pães sem Fermento, os discípulos perguntam onde ele quer comer a Páscoa. Jesus envia dois deles à cidade, que Lucas identifica como Pedro e João, com uma indicação: um homem carregando um cântaro de água virá ao encontro deles; sigam-no até a casa em que entrar e perguntem ao dono pela sala. Ele mostrará uma sala grande, no andar superior, já mobiliada (Marcos 14.13-15; Lucas 22.8-12). Mateus resume: ide à cidade, a certo homem. Eles encontram tudo como lhes foi dito.

Ao cair da tarde, Jesus chega com os doze.

Um de vós

A primeira palavra registrada à mesa, em Marcos e Mateus, é um aviso: em verdade vos digo que um de vós me trairá, um que come comigo (Marcos 14.18). Os discípulos se entristecem e perguntam, um após outro: porventura sou eu? Jesus não dá o nome. Diz que é um dos doze, o que põe com ele a mão no prato, e acrescenta que o Filho do Homem vai, como está escrito, mas ai daquele por quem é entregue.

Cada evangelho trata o momento de um jeito:

  • Mateus é o único em que Judas faz a pergunta, porventura sou eu, Rabi?, e ouve: tu o disseste (26.25).
  • Lucas põe o aviso depois do pão e do cálice: a mão do que me trai está comigo à mesa (22.21).
  • João conta a cena de perto. Pedro faz sinal ao discípulo que Jesus amava, reclinado ao lado dele, para que pergunte quem é. Jesus responde que é aquele a quem der o bocado molhado e o entrega a Judas. Os outros não entendem: pensam que Judas, que guardava a bolsa, saía para comprar algo para a festa. Ele sai, e era noite (13.21-30).

Isto é o meu corpo

Enquanto comem, Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e o dá aos discípulos: tomai, isto é o meu corpo (Marcos 14.22). Depois toma um cálice, dá graças e o entrega, e todos bebem dele. E diz: isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado por muitos (14.24).

Mateus traz quase as mesmas palavras de Marcos, com três acréscimos: tomai, comei; bebei dele todos; e, depois de derramado por muitos, para remissão dos pecados (26.26-28).

A expressão sangue da aliança vem do Sinai. Quando o povo aceita a lei, Moisés asperge sobre ele o sangue dos sacrifícios e declara: este é o sangue da aliança que o Senhor fez convosco (Êxodo 24.8). Jesus usa a mesma fórmula e põe nela um possessivo: o meu sangue.

O relato termina voltado para a frente. Não beberei mais do fruto da videira até o dia em que o beber, novo, no reino de Deus (Marcos 14.25).

Em memória de mim: Lucas e Paulo

Lucas tem uma forma própria. Antes de tudo, Jesus diz: desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de padecer (22.15). Há dois cálices: um primeiro, que ele manda repartir (22.17), e outro depois da ceia (22.20). Sobre o pão: isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim (22.19). Sobre o segundo cálice: este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado por vós.

Nova aliança é expressão de Jeremias, que anuncia dias em que o Senhor fará uma aliança nova com a casa de Israel e a casa de Judá, escrita no coração (Jeremias 31.31-33).

As mesmas palavras, quase iguais, estão fora dos evangelhos. Corrigindo o modo como a igreja de Corinto se reunia para comer, Paulo lembra o que recebeu e transmitiu: o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão, deu graças, partiu-o e disse isto é o meu corpo, que é por vós. A ordem de repetir aparece duas vezes, depois do pão e depois do cálice, e Paulo conclui: todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha (1 Coríntios 11.23-26).

Quem é o maior

Só Lucas conta o que se conversa depois. Os discípulos discutem qual deles seria o maior, e Jesus responde com a própria posição à mesa: quem é maior, o que está à mesa ou o que serve? Pois eu estou no meio de vós como quem serve (22.27).

Vem então a palavra a Pedro. Satanás pediu para peneirar os discípulos como trigo, mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos (22.31-32). Pedro promete ir com ele à prisão e à morte, e ouve que o negará três vezes antes de o galo cantar. A conversa acaba num mal-entendido: Jesus fala de tempos em que será preciso bolsa, alforje e espada, os discípulos mostram duas espadas, e ele encerra: basta.

A toalha e a bacia

O Evangelho de João dedica cinco capítulos a essa noite e não registra as palavras sobre o pão e o cálice. Abre com uma frase que serve de título a tudo: tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (13.1).

Durante a ceia, Jesus se levanta, tira o manto, cinge uma toalha, põe água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los. Pedro resiste: nunca me lavarás os pés. Jesus responde que, se não o lavar, ele não terá parte com ele, e Pedro passa ao outro extremo: então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça.

De volta à mesa, Jesus explica. Vós me chamais mestre e Senhor, e dizeis bem. Se eu, Senhor e mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros; dei-vos o exemplo (13.13-15). Em Lucas, ele diz que está entre eles como quem serve. Em João, ele faz o serviço.

Depois da saída de Judas vem o mandamento novo: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei; nisto todos conhecerão que sois meus discípulos (13.34-35).

Seguem os discursos de despedida e a oração do capítulo 17, que só João traz. Sobre o dia, ele também tem contagem própria: situa a ceia antes da festa da Páscoa (13.1) e, na manhã seguinte, os que levam Jesus a Pilatos ainda não comeram a Páscoa (18.28).

Os cinco relatos lado a lado

Mateus 26 Marcos 14 Lucas 22 João 13 a 17 1 Coríntios 11
Preparo da sala sim sim sim não não
Anúncio da traição antes do pão antes do pão depois do cálice com o bocado dado a Judas não
Pão e cálice sim sim sim, com dois cálices não sim
Fazei isto em memória de mim não não sim não sim, duas vezes
Lava-pés não não não sim não
Discursos e oração não não conversa breve sim não

O hino e a saída

Mateus e Marcos encerram a ceia com uma linha: tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras (Marcos 14.26). É no caminho, nesses dois evangelhos, que Jesus avisa que todos se dispersarão e que Pedro o negará. Em João, o grupo atravessa a torrente do Cedrom e entra num jardim (18.1). Ali começa a paixão.

Os gestos da mesa não ficam naquela sala. Tomar o pão, dar graças, partir e dar: a mesma sequência de verbos reaparece em Emaús, quando dois discípulos reconhecem o ressuscitado ao partir do pão (Lucas 24.30-31). E reaparece na vida da primeira comunidade de Jerusalém, que perseverava no ensino dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (Atos 2.42).

Os pontos centrais

  1. A ceia é contada em cinco lugares: Mateus 26, Marcos 14, Lucas 22, João 13 a 17 e, fora dos evangelhos, 1 Coríntios 11.23-26.
  2. Nos sinóticos, a ceia é a refeição da Páscoa (Marcos 14.12; Lucas 22.15); João a situa antes da festa da Páscoa (João 13.1).
  3. Sobre o pão, Jesus diz isto é o meu corpo; sobre o cálice, fala do seu sangue e da aliança, chamada nova em Lucas e em Paulo.
  4. A ordem fazei isto em memória de mim está em Lucas 22.19 e em 1 Coríntios 11.24-25; Mateus e Marcos não a registram.
  5. O lava-pés (João 13.1-17), o mandamento novo (13.34) e os discursos de despedida (João 14 a 17) só existem em João.
  6. Só Mateus traz, nas palavras sobre o cálice, a expressão para remissão dos pecados (26.28), e só ele dá a pergunta de Judas (26.25).

Leituras que se afastam do texto

Jesus diz fazei isto em memória de mim nos quatro evangelhos

A frase está em dois lugares: em Lucas 22.19, depois do pão, e em 1 Coríntios 11.24-25, onde Paulo a registra duas vezes, depois do pão e depois do cálice. Mateus e Marcos contam os gestos e as palavras sobre o corpo e o sangue sem essa ordem, e João não narra a cena. Como a frase é a mais repetida de todas, o leitor a supõe em toda parte e se surpreende ao não achá-la em Marcos 14.

Jesus e os apóstolos estavam sentados lado a lado, numa mesa comprida

A imagem vem da pintura. Os evangelhos falam de uma sala grande, mobiliada, no andar superior (Marcos 14.15), e não descrevem a mesa. O que deixam ver é a posição: comia-se reclinado, e por isso o discípulo amado pode inclinar-se sobre o peito de Jesus para lhe falar em voz baixa (João 13.23-25), e Jesus e Judas alcançam o mesmo prato (Marcos 14.20). Ninguém estava sentado em cadeira.

Judas saiu da sala antes de Jesus partir o pão

Nenhum texto diz isso. O único evangelho que conta a saída de Judas é João (13.30), e João não narra o pão e o cálice, de modo que não há como ordenar uma cena pela outra. Em Mateus e Marcos, o anúncio da traição vem antes do pão, mas ninguém deixa a mesa. Em Lucas, a frase a mão do que me trai está comigo à mesa vem depois do cálice (22.21). A certeza, num sentido ou no outro, não vem dos evangelhos.

Jesus lavou os pés dos discípulos quando eles chegaram, antes de comerem

Lavar os pés de quem chegava era gesto de acolhida, feito à entrada (Lucas 7.44), e é por isso que se imagina a cena no começo. João diz outra coisa: durante a ceia, Jesus se levanta da mesa, tira o manto e cinge a toalha (13.2-4); terminado o gesto, retoma o manto e volta ao seu lugar (13.12). A refeição é interrompida, e quem faz o serviço é aquele a quem chamam mestre e Senhor.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Quem Jesus envia para preparar a Páscoa, segundo Lucas?
Pedro e João; Marcos fala apenas em dois dos seus discípulos (Lucas 22.8; Marcos 14.13).
Que sinal Jesus dá para os discípulos acharem a casa?
Um homem carregando um cântaro de água viria ao encontro deles, e deviam segui-lo (Marcos 14.13).
O que os discípulos perguntam quando Jesus anuncia a traição?
Entristecidos, perguntam um após outro: porventura sou eu? (Marcos 14.19).
O que Jesus diz que não fará mais até o reino de Deus?
Beber do fruto da videira, até o dia em que o beber, novo, no reino de Deus (Marcos 14.25).
Como Pedro reage quando Jesus vai lavar-lhe os pés?
Primeiro recusa, nunca me lavarás os pés; depois pede que lave também as mãos e a cabeça (João 13.8-9).
Que discussão surge entre os discípulos à mesa, em Lucas?
A de saber qual deles devia ser considerado o maior, logo depois do anúncio da traição (Lucas 22.24).
Quantas espadas os discípulos mostram a Jesus no fim da ceia de Lucas?
Duas: Senhor, eis aqui duas espadas, e ele responde que basta (Lucas 22.38).
Como Paulo chama essa refeição ao escrever aos coríntios?
Ceia do Senhor (1 Coríntios 11.20); a expressão última ceia não aparece na Bíblia.
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Débora Arantes

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