Resumo do Evangelho de João
Por Débora Arantes 13 min de leitura
Em 30 segundos
No princípio era o Verbo, o Verbo era Deus, e o Verbo se fez carne: João começa antes da criação e só depois chega à Galileia. Em vez de parábolas, o quarto evangelho traz sete sinais, da água transformada em vinho em Caná à ressurreição de Lázaro, e longas conversas em que Jesus diz quem é: o pão da vida, a luz do mundo, o bom pastor, o caminho, a verdade e a vida. A segunda metade se passa quase toda em poucos dias. Jesus lava os pés dos discípulos, despede-se à mesa, é preso, julgado por Pilatos e crucificado; no primeiro dia da semana aparece a Maria Madalena, aos discípulos e a Tomé. O autor declara por que escreveu: para que o leitor creia e, crendo, tenha vida (João 20.31).
Um evangelho que diz por que foi escrito
Perto do fim, o autor para e se dirige ao leitor. Jesus fez muitos outros sinais que não estão no livro; estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome (20.30-31). O critério de tudo o que entrou no texto está aí.
Isso explica o que João deixa de fora. Não há relato do nascimento, das tentações, da transfiguração, nenhuma parábola, nenhum exorcismo. O que ele tem em comum com os outros três evangelhos é pouco antes da paixão: a expulsão dos vendedores do templo, a multiplicação dos pães, a caminhada sobre o mar, a unção em Betânia. Em compensação, os episódios são longos e quase sempre terminam em conversa.
O livro se apresenta como testemunho do discípulo que Jesus amava (21.24), figura que aparece na ceia, ao pé da cruz e no túmulo vazio. O texto não lhe dá nome; a tradição o identifica com o apóstolo João, filho de Zebedeu, e situa a redação em Éfeso, no fim do primeiro século.
No princípio era o Verbo
Mateus e Lucas começam em Belém, Marcos no Jordão. João começa com as mesmas palavras de Gênesis: no princípio. O Verbo estava com Deus e era Deus; tudo foi feito por meio dele; nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, veio para o que era seu, e os seus não a receberam. A frase central é a do versículo 14: o Verbo se fez carne e habitou entre nós.
Os dezoito versículos do prólogo anunciam o vocabulário do livro inteiro: luz e trevas, vida, verdade, testemunho, crer, glória.
Em seguida fala João Batista, que aqui tem uma só função, a de testemunha. Diz que não é o Cristo e aponta: eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (1.29). Dois dos seus discípulos seguem Jesus. Um é André, que busca o irmão, Simão; depois vêm Filipe e Natanael.
De Caná a Lázaro: sete sinais
João não fala em milagres, fala em sinais: o gesto importa pelo que mostra sobre quem o faz.
| Sinal | Onde está |
|---|---|
| A água transformada em vinho, em Caná | 2.1-11 |
| A cura do filho de um oficial do rei | 4.46-54 |
| A cura do paralítico na piscina de Betesda | 5.1-9 |
| A multiplicação dos pães para cinco mil | 6.1-14 |
| A caminhada sobre o mar | 6.16-21 |
| A cura do cego de nascença | 9 |
| A ressurreição de Lázaro | 11.1-44 |
Em Caná, a mãe de Jesus avisa que o vinho acabou, e ele responde que a sua hora ainda não chegou. Mesmo assim manda encher de água seis talhas de pedra, e o mestre-sala prova o melhor vinho da festa. O texto chama o episódio de princípio dos sinais (2.11).
Os sinais crescem em gravidade e em reação. A cura de Betesda, feita num sábado, abre a acusação de que Jesus se faz igual a Deus. Depois dos pães, a multidão quer fazê-lo rei, e ele se retira sozinho para o monte. O cego de nascença, curado com lama e mandado lavar-se em Siloé, é interrogado, expulso da sinagoga e resume o caso: uma coisa sei, eu era cego e agora vejo (9.25).
O sétimo sinal é o maior. Lázaro, de Betânia, irmão de Marta e Maria, está morto há quatro dias. Jesus chora diante do túmulo, manda tirar a pedra e chama: Lázaro, vem para fora. Muitos creem. O conselho se reúne, e o sumo sacerdote Caifás diz que convém que um só homem morra pelo povo (11.50). A partir daquele dia, decidem matá-lo.
Em detalhe: os milagres de Jesus.
Eu sou: as conversas e as festas
Entre um sinal e outro, Jesus conversa. Com Nicodemos, fariseu que o procura de noite, fala de nascer de novo, da água e do Espírito; é nesse capítulo que está a frase mais citada do evangelho: Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho único (3.16). Com uma mulher samaritana, junto ao poço de Jacó, fala da água viva e dos adoradores em espírito e verdade, e a ela declara abertamente ser o Messias (4.26).
Boa parte dos debates acontece em Jerusalém, durante as festas: uma Páscoa logo no capítulo 2, quando Jesus expulsa os vendedores do templo, a festa das Tendas, a da Dedicação, no inverno. João menciona três Páscoas, e é por ele que se costuma calcular em cerca de três anos a atividade pública de Jesus.
Nessas conversas, sete declarações começam por Eu sou:
- o pão da vida (6.35);
- a luz do mundo (8.12);
- a porta das ovelhas (10.7);
- o bom pastor, que dá a vida pelas ovelhas (10.11);
- a ressurreição e a vida (11.25);
- o caminho, a verdade e a vida (14.6);
- a videira verdadeira (15.1).
Várias acompanham um sinal: o pão da vida vem depois dos pães, a luz do mundo antes do cego, a ressurreição e a vida diante do túmulo de Lázaro. Uma vez a expressão vem sozinha: antes que Abraão existisse, eu sou (8.58). Os ouvintes pegam em pedras. O nome ecoa o que Deus disse a Moisés na sarça, em Êxodo.
O discurso do pão, na sinagoga de Cafarnaum, custa caro. Muitos discípulos se retiram, Jesus pergunta aos Doze se também querem ir, e Pedro responde: Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna (6.68).
Chegou a hora
O capítulo 12 fecha a vida pública. Em Betânia, seis dias antes da Páscoa, Maria, irmã de Lázaro, unge os pés de Jesus com nardo. Ele entra em Jerusalém montado num jumentinho. Alguns gregos pedem para vê-lo, e Jesus reconhece o momento: chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem; se o grão de trigo não cai na terra e morre, fica só (12.23-24). A hora, adiada desde Caná, é a cruz, e João a chama de glória.
À mesa, antes da prisão
Cinco capítulos, quase um quarto do livro, cabem numa única noite. Durante a ceia, Jesus se levanta, cinge uma toalha e lava os pés dos discípulos. Pedro resiste e depois cede. Judas sai para entregá-lo, e o narrador anota: era noite (13.30). Então vem o mandamento novo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei (13.34).
Os discursos de despedida (14 a 16) respondem ao medo dos discípulos. Na casa do Pai há muitas moradas. Quem viu Jesus viu o Pai. Ele vai, e enviará o Paráclito, o Espírito da verdade, que ficará com eles e lhes lembrará tudo. Eles são os ramos da videira; ninguém tem amor maior do que dar a vida pelos amigos (15.13). No mundo terão aflições, mas ele venceu o mundo (16.33).
O capítulo 17 é uma oração. Jesus pede pelos seus e pelos que crerão por meio da palavra deles: que todos sejam um (17.21).
Do jardim ao túmulo novo
A paixão de João não tem a agonia no jardim. Do outro lado da torrente do Cedrom, Jesus se adianta aos soldados e se identifica: sou eu. Levado a Anás e a Caifás, enquanto Pedro o nega três vezes, chega a Pilatos. O interrogatório é o mais longo dos quatro evangelhos. Jesus diz que o seu reino não é deste mundo; Pilatos pergunta o que é a verdade, apresenta-o flagelado e coroado de espinhos, eis o homem, e o entrega.
Na cruz, o letreiro está em hebraico, latim e grego. Os soldados sorteiam a túnica sem costura. Jesus confia a mãe ao discípulo amado, diz que tem sede e morre com uma palavra de obra acabada: está consumado (19.30). Um soldado lhe abre o lado com a lança, e saem sangue e água. José de Arimateia e Nicodemos, o da conversa noturna, sepultam o corpo num túmulo novo, num jardim.
O primeiro dia da semana
No domingo de manhã, Maria Madalena encontra a pedra removida. Pedro e o outro discípulo correm ao túmulo e veem os panos no chão. Maria fica, chorando, e toma por jardineiro o homem que lhe fala, até ele dizer o nome dela.
À tarde, Jesus aparece aos discípulos de portas trancadas, mostra as mãos e o lado e sopra sobre eles: recebei o Espírito Santo. Tomé não estava e não acredita. Oito dias depois, diante de Jesus, diz a confissão mais alta do evangelho: Meu Senhor e meu Deus (20.28). O livro, que abriu afirmando que o Verbo era Deus, chega aí ao mesmo ponto pela boca de um discípulo. A resposta de Jesus olha para o leitor: felizes os que não viram e creram.
Em detalhe: a ressurreição de Jesus.
Brasas na praia de Tiberíades
O último capítulo volta à Galileia. Sete discípulos pescam a noite inteira sem nada apanhar. Ao amanhecer, alguém na praia manda lançar a rede à direita do barco, e ela vem com cento e cinquenta e três peixes grandes. O discípulo amado é o primeiro a reconhecer: é o Senhor.
Em terra há brasas, peixe e pão. Depois de comerem, Jesus pergunta três vezes a Pedro se ele o ama, tantas quantas foram as negações, e três vezes lhe confia as ovelhas.
O evangelho que começou antes de o mundo existir termina numa refeição ao ar livre, com um aviso sobre os próprios limites: se tudo o que Jesus fez fosse escrito, o mundo inteiro não comportaria os livros (21.25).
Os pontos centrais
- O prólogo (João 1.1-18) apresenta Jesus como o Verbo que estava com Deus, era Deus e se fez carne para habitar entre nós.
- Os capítulos 2 a 11 se organizam em torno de sete sinais, do vinho de Caná (2.1-11) à ressurreição de Lázaro (11.1-44).
- Sete declarações com Eu sou explicam os sinais: pão da vida, luz do mundo, porta, bom pastor, ressurreição e vida, caminho, videira.
- A hora de Jesus, que ainda não tinha chegado em Caná (2.4), chega com a Páscoa final e designa a cruz como glorificação (12.23).
- Os capítulos 13 a 17 só existem em João: o lava-pés, o mandamento novo, a promessa do Paráclito e a oração pelos discípulos.
- O propósito está escrito em João 20.30-31: os sinais foram registrados para que se creia que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.
Leituras que se afastam do texto
O Evangelho de João foi escrito por João Batista
São duas pessoas. João Batista é o pregador do Jordão, que neste evangelho aparece só como João e dá testemunho de Jesus no capítulo 1. O livro se apresenta como testemunho do discípulo que Jesus amava (21.24), que a tradição identifica com o apóstolo João, filho de Zebedeu. O engano nasce do nome igual e de o texto nunca chamar o apóstolo pelo nome.
Tomé só acreditou depois de pôr o dedo nas chagas
O texto não diz que ele tocou. Tomé tinha exigido ver e tocar (20.25); oito dias depois, Jesus se apresenta e o convida a pôr o dedo e a mão. A resposta registrada é uma confissão, Meu Senhor e meu Deus (20.28), e Jesus comenta: porque me viste, creste. A cena do dedo na ferida vem da pintura e da pregação, não do versículo.
João narra a instituição da ceia, com o pão e o cálice
Na última refeição contada por João não há as palavras sobre o pão e o cálice, que estão em Mateus, Marcos, Lucas e em 1 Coríntios 11. No lugar delas, o capítulo 13 traz o lava-pés. O tema do pão aparece antes, no discurso do pão da vida, na sinagoga de Cafarnaum (João 6). Quem lê os quatro evangelhos como um só relato acaba pondo em João o que é dos outros.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Qual é o primeiro sinal de Jesus no Evangelho de João?
- A água transformada em vinho numa festa de casamento em Caná da Galileia (João 2.1-11).
- Quem procura Jesus de noite para conversar?
- Nicodemos, fariseu e chefe dos judeus, que ouve que é preciso nascer de novo (João 3).
- Há quanto tempo estava doente o homem curado na piscina de Betesda?
- Havia trinta e oito anos; a cura acontece num sábado e abre o conflito do capítulo 5.
- Quantos dias Lázaro estava no túmulo quando Jesus chegou a Betânia?
- Quatro dias, como Marta lembra quando Jesus manda tirar a pedra (João 11.39).
- Como o texto chama o Espírito prometido nos discursos de despedida?
- Paráclito, palavra traduzida por Consolador, Defensor ou Advogado (João 14.16).
- O que Jesus diz a Pilatos sobre o seu reino?
- Que o seu reino não é deste mundo, e que veio para dar testemunho da verdade (João 18.36-37).
- A quem Jesus ressuscitado aparece primeiro, segundo João?
- A Maria Madalena, que chorava junto ao túmulo e o reconhece quando ele a chama pelo nome (João 20.11-18).
- Quantas vezes Jesus pergunta a Pedro se ele o ama?
- Três vezes, à beira do mar de Tiberíades, e a cada resposta lhe confia o rebanho (João 21.15-17).
Débora Arantes
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