Resumo do livro de Jeremias
Por Débora Arantes 13 min de leitura
Em 30 segundos
Quatro décadas de pregação, e quase ninguém ouve. Chamado ainda jovem, no décimo terceiro ano do rei Josias, Jeremias, de família sacerdotal de Anatote, anuncia que Judá trocou a fonte de águas vivas por cisternas rachadas e que o castigo virá do norte. No pátio do templo, avisa que o santuário não protege quem oprime. É preso, espancado, jogado numa cisterna; o rei Jeoaquim queima o rolo que o escriba Baruc escreveu. O profeta manda aceitar o jugo da Babilônia e escreve aos exilados que construam casas e esperem setenta anos. Em 586 a.C. Jerusalém cai, e ele acaba levado ao Egito. No meio do desastre está a promessa mais alta do livro: uma nova aliança, com a lei escrita no coração (Jeremias 31.31-34).
Quarenta anos, cinco reis
Jeremias é de Anatote, povoado de sacerdotes na terra de Benjamim, perto de Jerusalém. A palavra lhe vem no décimo terceiro ano do rei Josias, por volta de 627 a.C., e ele continua falando até depois da destruição da cidade, em 586 a.C. Nesse intervalo, a Assíria desaparece, o Egito tenta ocupar o lugar e a Babilônia de Nabucodonosor vence a disputa.
Cinco reis passam pelo trono de Judá. Josias, o reformador, morre em Megido. Jeoacaz reina três meses. Jeoaquim, posto pelo Egito, é o rei que despreza o profeta. Seu filho Joaquim, também chamado Jeconias, é levado para a Babilônia em 597 a.C. com a primeira leva de exilados. Zedequias, o último, consulta Jeremias em segredo e não tem coragem de obedecer. O pano de fundo está no fim de 2 Reis.
O livro tem 52 capítulos e não segue o calendário. Mistura oráculos em poesia, sermões em prosa e relatos sobre o profeta, com saltos entre reinados: o capítulo 36 se passa antes do 21. Convém lê-lo como um arquivo reunido por assuntos. O próprio texto conta como ele começou a ser escrito, pela mão do escriba Baruc.
Antes que eu te formasse
O chamado ocupa o primeiro capítulo. Deus diz que conheceu Jeremias antes de formá-lo no ventre e que o consagrou profeta para as nações antes de ele nascer (1.5). A resposta é um recuo: não sei falar, sou apenas um menino. Deus toca-lhe a boca e põe nela suas palavras. A missão tem seis verbos, quatro de demolição e dois de construção: arrancar e derrubar, destruir e arruinar, edificar e plantar (1.10).
Duas visões selam o envio. Um ramo de amendoeira, árvore cujo nome em hebraico soa como o verbo vigiar: Deus vigia a sua palavra para cumpri-la. E uma panela fervendo, inclinada a partir do norte: de lá virá o mal sobre os moradores da terra. Jeremias é avisado de que todos lutarão contra ele, e de que será como cidade fortificada, coluna de ferro e muro de bronze (1.18).
Cisternas rachadas e templo do Senhor
A primeira pregação fala de um casamento traído. Deus lembra o amor da juventude de Israel, quando o povo o seguia no deserto (2.2), e apresenta a queixa: o meu povo cometeu dois males, abandonou a mim, fonte de águas vivas, e cavou cisternas rachadas, que não retêm água (2.13). Os ídolos e as alianças com o Egito e a Assíria são essas cisternas.
O confronto mais conhecido acontece na porta do templo (capítulo 7). O povo repetia templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor, como se o edifício garantisse a cidade. Jeremias responde que não adianta roubar, matar, adulterar, jurar falso e depois se dizer salvo dentro daquela casa, transformada em covil de ladrões (7.11). E manda olhar para Siló, o antigo santuário que Deus destruiu.
O capítulo 26 conta o que isso custou. Sacerdotes e profetas o agarram e pedem sua morte. Alguns anciãos lembram que Miqueias dissera o mesmo no tempo de Ezequias e não fora morto, e Jeremias escapa. Outro profeta, Urias, que anunciava a mesma coisa, é trazido do Egito e executado por Jeoaquim.
O oleiro, a botija e o jugo
Jeremias prega também com o corpo e com objetos.
- Um cinto de linho é escondido na fenda de uma rocha e, tempos depois, sai apodrecido: assim ficará o orgulho de Judá (capítulo 13).
- Ele recebe a ordem de não se casar nem ter filhos naquele lugar, porque uma geração inteira vai morrer sem luto (capítulo 16).
- Na casa do oleiro, vê o vaso que se estraga na roda ser refeito de outro modo. Deus pode desfazer e refazer um povo, e o anúncio de desgraça ou de bem muda conforme a nação se converte ou se perverte (capítulo 18).
- Diante de anciãos, no vale de Ben-Hinom, quebra uma botija de barro: assim a cidade será quebrada, sem conserto (capítulo 19).
- No reinado de Zedequias, anda com um jugo no pescoço: as nações devem se submeter a Nabucodonosor, a quem Deus entregou aquelas terras por um tempo. O profeta Hananias arranca o jugo e o quebra, prometendo a volta dos exilados em dois anos. Jeremias responde que o jugo de madeira virou jugo de ferro. Hananias morre naquele mesmo ano (capítulos 27 e 28).
A queixa de quem fala em nome de Deus
Entre os capítulos 11 e 20, o livro abre cinco vezes o interior do profeta, em orações que ficaram conhecidas como confissões. Nenhum outro livro profético faz isso com tanta franqueza. Os homens de Anatote, sua própria terra, tramam contra a sua vida, e ele se vê como cordeiro manso levado ao matadouro (11.19). Pergunta por que o caminho dos ímpios prospera (12.1). Lamenta ter nascido homem de discórdia para toda a terra (15.10).
A última é a mais dura. O sacerdote Pasur manda espancá-lo e prendê-lo no tronco. Solto no dia seguinte, Jeremias diz a Deus: tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir (20.7). A palavra virou motivo de zombaria todos os dias. Quando decide calar, ela se torna fogo ardente fechado nos ossos, que ele não consegue conter (20.9). O trecho termina amaldiçoando o dia em que nasceu.
Deus não o dispensa. Responde com a promessa do começo: estou contigo para te livrar (15.20).
O rolo no braseiro
No quarto ano de Jeoaquim, Jeremias, impedido de entrar no templo, dita a Baruc, filho de Nerias, tudo o que havia anunciado desde os dias de Josias (capítulo 36). Baruc lê o rolo num dia de jejum, diante do povo. Os oficiais ouvem, se assustam, mandam os dois se esconderem e levam o caso ao rei.
Jeoaquim está na casa de inverno, com um braseiro aceso. A cada três ou quatro colunas lidas, corta o trecho com um canivete de escriba e o joga no fogo, até o rolo acabar. Ninguém ali rasga as roupas. O contraste com seu pai Josias, que rasgou as suas ao ouvir o livro da lei, fica à vista. Jeremias dita tudo de novo, e o segundo rolo sai maior que o primeiro.
Casas na Babilônia e uma aliança nova
Depois da deportação de 597 a.C., Jeremias manda uma carta aos exilados (capítulo 29). Profetas de lá prometiam volta rápida. Ele escreve o contrário: construam casas, plantem pomares, casem os filhos, procurem a paz da cidade para onde foram levados e orem por ela. Só depois de setenta anos Deus os trará de volta, porque seus planos são de paz e não de mal, para dar um futuro e uma esperança (29.10-11).
Os capítulos 30 a 33 formam o chamado livro da consolação. Raquel chora por seus filhos em Ramá, e Deus manda que contenha o choro, porque eles voltarão (31.15-17). Segue a promessa central: virão dias em que o Senhor fará uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá, diferente da que fez na saída do Egito e que eles quebraram. A lei será posta no interior e escrita no coração; todos o conhecerão, do menor ao maior; o pecado será perdoado e não mais lembrado (31.31-34).
O capítulo 32 dá corpo à esperança. Com Jerusalém cercada e o profeta preso no pátio da guarda, um primo lhe oferece um campo em Anatote. Jeremias compra, pesa a prata, assina, sela e manda guardar a escritura num vaso de barro: ainda se comprarão casas, campos e vinhas nesta terra (32.15).
Da cisterna ao Egito
Durante o cerco final, Jeremias repete que resistir é inútil e que quem se entregar viverá. Os chefes o acusam de enfraquecer as mãos dos soldados e o descem com cordas a uma cisterna sem água, onde ele afunda na lama (38.6). Ebede-Meleque, um etíope a serviço do palácio, obtém licença do rei e o puxa para fora com cordas e trapos. Zedequias o consulta às escondidas uma última vez e não segue o conselho.
A cidade cai. Zedequias é capturado na fuga, vê os filhos mortos e é cegado. O comandante babilônio solta Jeremias e lhe oferece ir para a Babilônia sob sua proteção; ele prefere ficar com os que restaram na terra, junto do governador Gedalias, em Mispa. Gedalias é assassinado. Com medo da represália, os sobreviventes perguntam a Jeremias o que fazer, ouvem que devem ficar e fazem o oposto: descem ao Egito e levam consigo o profeta e Baruc (capítulo 43). As últimas palavras dele ao povo são ditas lá, contra o culto à rainha dos céus (capítulo 44).
O livro termina com oráculos sobre as nações, o mais longo contra a própria Babilônia (capítulos 50 e 51), e com um apêndice que repete o final de 2 Reis.
O que os setenta anos puseram em movimento
A Bíblia volta a Jeremias em momentos decisivos. O livro de Esdras abre dizendo que o decreto de Ciro cumpriu a palavra dita por sua boca. Em Daniel, é lendo os setenta anos de Jeremias que Daniel se põe a orar (Daniel 9.2). O choro de Raquel reaparece em Mateus, na morte dos meninos de Belém. E a nova aliança, transcrita em Hebreus 8, é a citação mais longa do Antigo Testamento no Novo, além de dar nome ao cálice da ceia.
O luto pela cidade que Jeremias não conseguiu salvar tem livro próprio, Lamentações, que a tradição associa a ele. E a história do escriba continua em Baruc, nas edições que o trazem. O profeta dos seis verbos passou a vida nos quatro primeiros. Os dois últimos, edificar e plantar, ficaram escritos para quem voltasse.
Os pontos centrais
- O chamado (Jeremias 1): conhecido antes de ser formado no ventre, com a missão de arrancar e derrubar, edificar e plantar.
- O sermão do templo (capítulos 7 e 26): a confiança no edifício é ilusão, e o santuário pode ter o destino de Siló.
- As confissões, cinco orações de queixa entre os capítulos 11 e 20, em que o profeta discute com Deus o peso da missão.
- Os gestos proféticos: o cinto apodrecido, a casa do oleiro, a botija quebrada, o jugo e o campo comprado em Anatote.
- A carta aos exilados (capítulo 29) e os setenta anos de domínio da Babilônia (Jeremias 25.11; 29.10).
- A nova aliança (31.31-34), citada por extenso em Hebreus 8 e ligada ao cálice da ceia no Novo Testamento.
Leituras que se afastam do texto
Jeremias era um homem fraco, o profeta chorão
O livro mostra as lágrimas do profeta e também o que elas custaram. Deus o faz cidade fortificada, coluna de ferro e muro de bronze (1.18), e durante quatro décadas ele enfrenta reis, sacerdotes e multidões, apanha, é preso e não muda a mensagem. O choro é pelo povo que vai ser destruído. A imagem de fraqueza nasce de ler as queixas sem ler a vida inteira.
Jeremias 29.11 promete sucesso para os planos de cada pessoa
A frase está numa carta aos deportados na Babilônia e fala no plural, a um povo. Vem logo depois do aviso de que o domínio babilônico duraria setenta anos (29.10) e da ordem de construir casas e orar pela cidade estrangeira. Os planos de paz são a volta à terra depois dessa espera. O versículo costuma circular sozinho, sem o endereço e sem o prazo que o texto lhe dá.
Jeremias foi levado para a Babilônia com os exilados
Ele não vai em nenhuma das deportações. Depois da queda, o comandante babilônio o liberta e lhe dá a escolha; Jeremias fica em Judá, junto do governador Gedalias (40.4-6). Quando Gedalias é assassinado, os sobreviventes fogem para o Egito e o levam consigo, contra o conselho dele (43.6-7). A confusão vem de Ezequiel e Daniel, esses sim profetas do exílio na Babilônia.
Jeremias estava do lado da Babilônia
A acusação é antiga: os chefes de Judá o prendem como desertor (37.13) e dizem que ele enfraquece os soldados (38.4). O profeta, porém, não defende um império. Afirma que Deus entregou as nações a Nabucodonosor por um tempo e que resistir só aumentaria as mortes. O mesmo livro traz o oráculo mais longo contra a Babilônia, com o anúncio de sua ruína (capítulos 50 e 51).
Perguntas para estudo
8 perguntas
- De onde era Jeremias?
- De Anatote, povoado de sacerdotes na terra de Benjamim, perto de Jerusalém.
- Quais são as duas visões do chamado?
- Um ramo de amendoeira, sinal de que Deus vigia sua palavra, e uma panela fervendo que se derrama a partir do norte.
- Quem escreve o rolo ditado por Jeremias?
- Baruc, filho de Nerias, que também o lê em público no templo (Jeremias 36).
- O que o rei Jeoaquim faz com o rolo?
- Corta-o em pedaços com um canivete e lança cada pedaço no braseiro, à medida que é lido.
- Quem tira Jeremias da cisterna?
- Ebede-Meleque, um etíope da corte, que o puxa para fora com cordas e trapos velhos (Jeremias 38).
- Quem é Hananias?
- O profeta que quebra o jugo de Jeremias e promete a volta dos exilados em dois anos; morre naquele mesmo ano.
- O que Jeremias compra durante o cerco de Jerusalém?
- Um campo em Anatote, do primo Hanameel, como sinal de que ainda se comprarão terras em Judá.
- Para onde Jeremias é levado depois da queda?
- Para o Egito, pelos que fugiram de Judá após o assassinato do governador Gedalias.
Débora Arantes
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