Resumo dos doze apóstolos
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Doze homens, como as doze tribos de Israel: Jesus os escolhe entre os discípulos para estarem com ele e para serem enviados. O Novo Testamento traz quatro listas, em Mateus 10, Marcos 3, Lucas 6 e Atos 1. Em todas, Simão Pedro vem primeiro, os nomes se arrumam em três grupos de quatro, e Judas Iscariotes fecha as dos evangelhos. A única diferença de nome é o décimo ou décimo primeiro: Tadeu em Mateus e Marcos, Judas de Tiago em Lucas e em Atos. De alguns os evangelhos contam muito, como Pedro, Tiago, João e Tomé; de outros, só o nome. Depois da traição, Matias é escolhido para completar o número. Sobre o fim deles, o texto narra apenas duas mortes: a de Judas e a de Tiago, filho de Zebedeu.
Doze, como as tribos
No meio do trabalho na Galileia, com multidões à volta, Jesus sobe a um monte e chama os que ele quer. Marcos diz para quê: constituiu doze para estarem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade sobre os demônios (3.14-15). Lucas acrescenta que ele tinha passado a noite em oração e que escolheu os doze dentre os discípulos, dando-lhes o nome de apóstolos, isto é, enviados (6.12-13).
O número não é acaso. Israel era o povo das doze tribos, e Jesus liga uma coisa à outra: os que o seguiram se sentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mateus 19.28). O grupo é um sinal de que o povo de Deus está sendo reunido de novo. Por isso o número importa tanto que, quando um falta, é preciso completá-lo.
Em Mateus, a lista vem no momento do envio. Os doze saem com instruções precisas: anunciar que o reino está próximo, curar, não levar dinheiro nem duas túnicas. Marcos informa que foram de dois em dois.
Quatro listas, três grupos de quatro
Os nomes estão em Mateus 10.2-4, Marcos 3.16-19, Lucas 6.14-16 e Atos 1.13. Postas lado a lado, as listas mostram um desenho fixo.
| Grupo | Mateus 10 | Marcos 3 | Lucas 6 | Atos 1 |
|---|---|---|---|---|
| Primeiro | Simão Pedro, André, Tiago, João | Simão Pedro, Tiago, João, André | Simão Pedro, André, Tiago, João | Pedro, João, Tiago, André |
| Segundo | Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus | Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé | Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé | Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus |
| Terceiro | Tiago de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, Judas Iscariotes | Tiago de Alfeu, Tadeu, Simão, o cananeu, Judas Iscariotes | Tiago de Alfeu, Simão, o Zelote, Judas de Tiago, Judas Iscariotes | Tiago de Alfeu, Simão, o Zelote, Judas de Tiago |
O que não muda:
- Simão Pedro é sempre o primeiro, e Mateus chega a escrever primeiro, Simão;
- cada grupo começa pelo mesmo nome: Pedro, Filipe e Tiago de Alfeu;
- dentro de cada grupo, a ordem varia, mas ninguém passa de um grupo para outro;
- Judas Iscariotes fecha as três listas dos evangelhos, sempre com a lembrança de que foi ele quem traiu. Na de Atos, já não está.
O Evangelho de João não traz lista. Fala dos doze como grupo conhecido (6.67-71) e conta episódios de vários deles, como fazem os quatro evangelhos cada um a seu modo.
Os nomes que mudam de uma lista para outra
A única troca de nome está no terceiro grupo. Mateus e Marcos dizem Tadeu; Lucas e Atos dizem Judas de Tiago, expressão que pode indicar filho ou irmão de um Tiago. Como o número é sempre doze e os outros onze coincidem, a leitura tradicional entende que é o mesmo homem com dois nomes, coisa comum na época. João parece conhecê-lo: na última ceia, quem faz uma pergunta a Jesus é Judas, não o Iscariotes (14.22).
Simão, o cananeu, de Mateus e Marcos, é o Simão, o Zelote, de Lucas. Não há troca aqui, só tradução. Cananeu, neste caso, não tem a ver com Canaã: vem da palavra aramaica para zeloso.
Outras duas identificações são dos leitores, não do texto. Bartolomeu costuma ser identificado com Natanael, o amigo que Filipe leva a Jesus em João 1, porque Bartolomeu vem logo depois de Filipe nas listas dos evangelhos e Natanael só aparece em João. E Mateus, que o primeiro evangelho chama de publicano e mostra sentado na coletoria (9.9; 10.3), é chamado Levi no relato paralelo de Marcos e de Lucas.
Quatro pescadores
Do primeiro grupo os evangelhos contam muito. São dois pares de irmãos, pescadores do mar da Galileia, chamados à beira da água.
Pedro se chamava Simão; o nome Pedro, ou Cefas, pedra, foi dado por Jesus. É quem fala pelos outros: confessa que Jesus é o Cristo, protesta contra o anúncio da paixão, promete não fugir e nega três vezes. Depois da ressurreição, recebe o encargo de apascentar as ovelhas.
André, seu irmão, era discípulo de João Batista. No Evangelho de João, é ele quem leva Simão a Jesus, e mais tarde quem aponta o menino dos cinco pães.
Tiago e João, filhos de Zebedeu, deixam o pai no barco para seguir Jesus. Recebem o apelido de Boanerges, filhos do trovão. Querem pedir fogo do céu sobre uma aldeia samaritana e pedem os lugares à direita e à esquerda na glória. Com Pedro, formam o círculo mais próximo: só os três entram na casa de Jairo, sobem ao monte da transfiguração e ficam perto de Jesus no Getsêmani.
Filipe, Tomé, Mateus e os de quem só ficou o nome
Do segundo grupo, é o Evangelho de João que dá voz a dois. Filipe, de Betsaida, calcula que duzentos denários de pão não bastariam para a multidão e, na ceia, pede: Senhor, mostra-nos o Pai. Tomé, chamado Dídimo, o Gêmeo, convida os outros a ir morrer com Jesus, pergunta pelo caminho e, depois da ressurreição, quer ver as marcas dos cravos. Quando vê, diz: meu Senhor e meu Deus (João 20.28).
De Mateus conta-se o chamado na coletoria e o jantar com publicanos e pecadores. De Bartolomeu, de Tiago de Alfeu e de Simão, o Zelote, o Novo Testamento guarda o nome e mais nada. De Tadeu, ou Judas de Tiago, a pergunta única da ceia. Metade dos doze quase não fala no texto. Foram escolhidos, enviados, estiveram presentes, e isso é tudo o que se lê.
Judas Iscariotes
O último nome das listas vem sempre com a mesma nota: o que o traiu. João acrescenta que ele guardava a bolsa comum. Mateus registra o preço combinado com os chefes dos sacerdotes, trinta moedas de prata, e o remorso: Judas devolve o dinheiro e se enforca (27.3-5). Atos conta o fim com outra imagem, a queda no campo comprado com aquele dinheiro, chamado Campo de Sangue (1.18-19).
Os evangelhos insistem num ponto: ele era um dos doze. A expressão volta junto do nome dele nas cenas da traição. O texto não o trata como um intruso. Trata-o como um escolhido.
A vaga e o critério
Depois da ascensão, os onze estão em Jerusalém com as mulheres, com Maria e com os irmãos de Jesus. Pedro se levanta entre os irmãos, umas cento e vinte pessoas, e diz que a Escritura pede que outro tome o encargo de Judas.
O critério define o que é ser um dos doze: alguém que acompanhou o grupo todo o tempo, desde o batismo de João até a ascensão, para ser testemunha da ressurreição (Atos 1.21-22). Apresentam dois, José Barsabás e Matias. Oram, lançam sortes, e Matias é contado com os onze. O texto não volta a falar dele.
Dois fatos mostram como o grupo era entendido. Quando Tiago é morto, no capítulo 12, ninguém o substitui: a vaga de Judas veio da deserção, não da morte. E Paulo, que Atos e as cartas chamam de apóstolo, nunca é contado entre os doze. Ele mesmo faz a distinção ao listar as testemunhas da ressurreição: Cristo apareceu a Cefas, depois aos Doze, e, por último, a ele (1 Coríntios 15.5-8). Tiago, o irmão do Senhor, que dirige a igreja de Jerusalém, também é outro Tiago.
O que o texto diz do fim de cada um
Das mortes dos doze, a Bíblia narra duas. A de Judas, já contada. E a de Tiago, filho de Zebedeu, em uma linha: o rei Herodes mandou matá-lo à espada (Atos 12.2). Sobre Pedro há uma palavra de Jesus, no fim de João, de que outro o cingiria e o levaria para onde ele não queria, dita para indicar com que morte daria glória a Deus. A cena não é narrada.
O que se conta dos demais vem de tradições posteriores ao Novo Testamento, e por isso fica fora de um resumo do texto. Atos mesmo deixa os doze de lado depois dos primeiros capítulos e segue Pedro e, em seguida, Paulo.
A última menção a eles na Bíblia não é uma história. É uma imagem: a muralha da nova Jerusalém tem doze fundamentos, e sobre eles estão os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Apocalipse 21.14), ao lado das doze portas com os nomes das tribos. O grupo que começou num monte da Galileia aparece ali como alicerce.
Os pontos centrais
- Jesus constitui doze para estarem com ele e para enviá-los a pregar (Marcos 3.14); apóstolo quer dizer enviado.
- As quatro listas estão em Mateus 10.2-4, Marcos 3.16-19, Lucas 6.14-16 e Atos 1.13; o Evangelho de João fala dos doze sem enumerá-los.
- Pedro abre todas as listas, Filipe é sempre o quinto nome, Tiago de Alfeu o nono, e Judas Iscariotes o último.
- Mateus e Marcos trazem Tadeu onde Lucas e Atos trazem Judas de Tiago; a leitura tradicional vê nos dois nomes a mesma pessoa.
- O número doze responde às tribos de Israel: os doze se sentarão em tronos para julgar as doze tribos (Mateus 19.28).
- Matias é escolhido porque acompanhou Jesus desde o batismo de João e pode ser testemunha da ressurreição (Atos 1.21-22).
Leituras que se afastam do texto
A Bíblia conta como morreu cada um dos apóstolos
O texto narra duas mortes. Judas Iscariotes morre logo depois da traição (Mateus 27.5; Atos 1.18). Tiago, filho de Zebedeu, é morto à espada por ordem do rei Herodes (Atos 12.2). Há ainda uma palavra de Jesus que alude à morte de Pedro sem descrevê-la (João 21.18-19). Cruz invertida, cruz em forma de X, viagens à Índia e martírios em terras distantes pertencem a tradições posteriores, de valor desigual.
Os evangelhos dizem que Bartolomeu e Natanael são a mesma pessoa
Nenhum texto faz essa ligação. Bartolomeu só aparece nas quatro listas, sempre perto de Filipe. Natanael só aparece no Evangelho de João, levado a Jesus por Filipe (1.45) e presente na pesca depois da ressurreição (21.2); João não traz Bartolomeu, e os outros três não trazem Natanael. Dessas coincidências nasceu a identificação, que é antiga e razoável, mas é dedução dos leitores. O texto deixa os dois nomes separados.
Jesus teve doze discípulos
Os discípulos eram muitos mais. Lucas diz que Jesus chamou os discípulos e escolheu doze dentre eles (6.13), e mais adiante conta o envio de outros setenta, ou setenta e dois, conforme os manuscritos (10.1). Havia também as mulheres que o acompanhavam. Os doze são um grupo escolhido dentro do grupo maior, e recebem um nome próprio, apóstolos. Todo apóstolo é discípulo, mas a maioria dos discípulos não está entre os doze.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- O que Jesus faz na noite anterior à escolha dos doze, segundo Lucas?
- Sobe ao monte e passa a noite inteira em oração a Deus (Lucas 6.12).
- Que apelido Jesus dá a Tiago e a João?
- Boanerges, que Marcos traduz por filhos do trovão (Marcos 3.17).
- Quais são os três apóstolos mais próximos de Jesus?
- Pedro, Tiago e João, os únicos dos doze presentes na casa de Jairo, na transfiguração e no Getsêmani.
- Que quer dizer Dídimo, o outro nome de Tomé?
- Quer dizer gêmeo; é a forma grega do mesmo sentido que Tomé tem em aramaico (João 11.16).
- Por que Simão é chamado cananeu em Mateus e Marcos e Zelote em Lucas?
- Porque cananeu vem da palavra aramaica para zeloso, e Lucas a traduz para o grego.
- Que nome tem o cobrador de impostos em Marcos e em Lucas?
- Levi; no primeiro evangelho, o homem chamado na coletoria se chama Mateus (Mateus 9.9).
- Quem concorre com Matias ao lugar de Judas?
- José, chamado Barsabás, que tinha o sobrenome de Justo (Atos 1.23).
- Como a escolha entre os dois é decidida?
- Depois de orar, lançam sortes, e a sorte cai sobre Matias (Atos 1.24-26).
Débora Arantes
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