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Resumo do livro de Isaías

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

Jerusalém vive sob a ameaça da Assíria quando Isaías, filho de Amoz, vê o Senhor no templo e ouve os serafins clamarem santo, santo, santo (Isaías 6). O livro situa sua pregação nos dias de quatro reis de Judá. Os capítulos 1 a 39 denunciam a injustiça e a confiança em alianças militares, anunciam o juízo e prometem um rei da casa de Davi: o Emanuel, o menino chamado Príncipe da Paz, o rebento de Jessé. Os capítulos 40 a 55 falam aos exilados na Babilônia, com a ordem de consolar o povo, o persa Ciro como libertador e os quatro cânticos do servo que sofre pelos outros. Os capítulos 56 a 66 olham para a Jerusalém restaurada e terminam em novos céus e nova terra. É o profeta mais citado no Novo Testamento.

As três partes do livro de Isaías em colunas: capítulos 1 a 39, juízo e sinal; 40 a 55, consolo dos exilados; 56 a 66, a nova Jerusalém
Imagem: resumode.com.br

Um profeta de Jerusalém e quatro reis

Isaías, filho de Amoz, é um homem de Jerusalém. Fala com reis frente a frente, é casado com uma mulher que o texto chama de profetisa (8.3) e dá aos filhos nomes que são mensagens. A primeira linha do livro o situa nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, o que cobre a segunda metade do século VIII a.C.

É o tempo em que a Assíria engole os vizinhos. O reino do norte cai em 722 a.C., e Judá fica sozinho, pequeno e tentado a comprar segurança com alianças. A história desses anos está contada em 2 Reis; Isaías é a voz profética que a acompanha.

O livro tem 66 capítulos e três grandes blocos. Os capítulos 1 a 39 se passam nos dias do profeta. Os capítulos 40 a 55 falam ao povo exilado na Babilônia, e os capítulos 56 a 66, a uma Jerusalém a ser reerguida. A tradição recebe o conjunto sob o nome de Isaías; muitos estudiosos entendem que as partes finais foram proclamadas por discípulos em gerações seguintes. Nos dois casos, o livro se lê como uma só obra, costurada por um título que quase só ele usa: o Santo de Israel.

O boi, o jumento e a vinha

A abertura é um processo. Deus chama céus e terra como testemunhas: o boi conhece o dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor, mas Israel não conhece (1.3). O problema não é falta de culto. O templo está cheio, as festas são cumpridas, e Deus diz que está farto de sacrifícios oferecidos por mãos cheias de sangue. O que ele pede é outra coisa: aprender a fazer o bem, defender o órfão, cuidar da causa da viúva (1.17). E oferece: ainda que os pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve (1.18).

O capítulo 2 ergue o horizonte. Nos últimos dias, os povos subirão ao monte do Senhor e transformarão espadas em arados e lanças em foices (2.4).

No capítulo 5, o profeta canta uma canção de amor que vira sentença. Um amigo plantou uma vinha em colina fértil, limpou as pedras, pôs cepas escolhidas, construiu torre e lagar. Ela deu uvas bravas. A vinha é a casa de Israel: Deus esperava justiça, e viu sangue derramado; esperava retidão, e ouviu gritos (5.7). Seguem os ais contra quem junta casa a casa e campo a campo e contra quem chama o mal de bem.

Santo, santo, santo

No ano em que morreu o rei Uzias, Isaías vê o Senhor sentado num trono alto, e a orla do seu manto enche o templo. Acima dele estão serafins de seis asas: com duas cobrem o rosto, com duas cobrem os pés, com duas voam. Clamam um ao outro: santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, toda a terra está cheia da sua glória (6.3).

O profeta se dá por perdido, homem de lábios impuros no meio de um povo de lábios impuros. Um serafim toca sua boca com uma brasa do altar e declara a culpa removida. Então vem a pergunta: a quem enviarei? E a resposta: eis-me aqui, envia-me a mim (6.8).

A missão é dura. Ele vai falar a um povo que ouvirá sem entender, até que as cidades fiquem desertas. Restará um toco, como o de uma árvore cortada, e esse toco é semente santa (6.13). A ideia do resto que sobrevive ao juízo acompanha o livro inteiro.

Acaz, o medo e o sinal de um menino

Por volta de 735 a.C., os reis de Damasco e de Samaria marcham contra Jerusalém para forçar Judá a entrar numa coalizão contra a Assíria. O coração do rei Acaz treme como as árvores do bosque ao vento (7.2). Isaías vai ao encontro dele levando o filho Sear-Jasube, cujo nome significa um resto voltará, e diz que aqueles dois reis são tições fumegantes. A exigência é confiar: se não crerdes, não permanecereis (7.9).

Convidado a pedir um sinal, Acaz se recusa com aparência de piedade. O sinal vem assim mesmo: nascerá um menino, e sua mãe o chamará Emanuel, Deus conosco (7.14). Antes que o menino cresça, a ameaça dos dois reis terá passado. Acaz prefere pagar a proteção da Assíria, e o profeta avisa que essas águas, uma vez chamadas, vão subir até o pescoço de Judá (8.8).

As promessas crescem a partir daí. O povo que andava em trevas viu uma grande luz, porque um menino nasceu, e seus nomes são Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (capítulo 9). Do tronco cortado de Jessé, pai de Davi, sairá um rebento sobre quem repousa o Espírito do Senhor. Ele julgará os pobres com justiça, e no seu reino o lobo morará com o cordeiro (11.1-6).

As nações na balança e a morte engolida

Os capítulos 13 a 23 reúnem oráculos sobre os povos ao redor: Babilônia, Assíria, Filístia, Moabe, Damasco, Egito, Tiro. Nenhum império é dono da história. No meio deles, Isaías anda três anos despido e descalço, como figura dos cativos que a Assíria levará do Egito (capítulo 20): um aviso para quem, em Jerusalém, contava com os carros egípcios.

Os capítulos 24 a 27 ampliam a cena para a terra inteira. Ali está o banquete que o Senhor prepara para todos os povos no seu monte, quando destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos (25.8). Os capítulos 28 a 35 voltam aos ais contra a política de alianças e fecham com o deserto que floresce, os olhos dos cegos abertos e os resgatados chegando a Sião com cânticos (capítulo 35).

Senaqueribe diante das muralhas

Os capítulos 36 a 39 são prosa e acompanham de perto 2 Reis 18 a 20. Em 701 a.C., Senaqueribe toma as cidades de Judá e manda seu oficial zombar da confiança de Ezequias. O rei, ao contrário do pai Acaz, leva a carta de ameaças ao templo e ora. Isaías responde que o assírio não entrará na cidade, e o exército invasor é ferido de noite.

Seguem a doença de Ezequias, os quinze anos acrescentados e um trecho que só Isaías conserva: o cântico do rei depois da cura (38.9-20). O bloco termina com a visita de enviados da Babilônia, a quem Ezequias mostra seus tesouros. Isaías anuncia que tudo aquilo será levado para lá. É a dobradiça do livro: a página seguinte fala a exilados.

Consolai o meu povo

O capítulo 40 abre com outra voz: consolai, consolai o meu povo. O tempo de serviço de Jerusalém acabou. Uma voz manda preparar no deserto o caminho do Senhor (40.3), frase que os quatro evangelhos aplicarão a João Batista. Toda carne é erva, a erva seca, mas a palavra do nosso Deus permanece para sempre (40.8).

Os capítulos 40 a 55 têm tom próprio, de argumentação e ternura. O Deus que criou os céus não se cansa, e os que esperam nele renovam as forças e sobem com asas como águias (40.31). Os ídolos são ridicularizados: o artesão queima metade da madeira para se aquecer e, da outra metade, faz um deus (capítulo 44). O libertador tem nome, Ciro, rei da Pérsia, chamado de pastor e de ungido do Senhor (44.28; 45.1), o mesmo Ciro cujo decreto abre o livro de Esdras. A volta é descrita como um novo êxodo, com caminho aberto no deserto.

Dentro desse bloco estão os quatro cânticos do servo:

  • o servo escolhido, que não quebra a cana rachada nem apaga o pavio que fumega, e leva o direito às nações (42.1-4);
  • o servo chamado desde o ventre, feito luz das nações (49.1-6);
  • o servo que oferece as costas aos que o ferem e não esconde o rosto (50.4-9);
  • o servo desfigurado, desprezado, homem de dores, que carrega as enfermidades dos outros e é levado como cordeiro ao matadouro; pelas suas feridas fomos sarados (52.13 a 53.12).

O bloco se encerra com um convite, vinde às águas todos os que têm sede, e com uma garantia: como a chuva não volta ao céu sem regar a terra, a palavra que sai da boca de Deus não volta vazia (55.11).

Uma casa de oração para todos os povos

Os capítulos 56 a 66 falam a uma comunidade que precisa aprender a viver na terra. O estrangeiro e o eunuco que guardam a aliança têm lugar: a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos (56.7). O jejum que agrada a Deus é soltar as correntes da injustiça e repartir o pão com o faminto (capítulo 58).

No centro estão capítulos de luz. Levanta-te, resplandece, porque vem a tua luz (60.1). Depois fala alguém ungido para levar boa notícia aos pobres, curar os de coração quebrantado e proclamar libertação aos cativos (61.1). O final alterna lamento e promessa, com a oração que reconhece: nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro (capítulo 64). A última palavra é criação nova: novos céus e nova terra, onde não se ouvirá mais choro (65.17-19).

O rolo que os evangelhos têm aberto

Nenhum outro profeta é tão citado no Novo Testamento. Mateus lê o Emanuel no nascimento de Jesus. Os quatro evangelhos começam a história de João Batista com a voz do deserto. Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê o capítulo 61 e diz que aquela palavra se cumpriu naquele dia (Lucas 4). Em Atos dos Apóstolos, um oficial etíope lê o capítulo 53 na estrada, e Filipe parte dali para anunciar Jesus. O Apocalipse termina com as imagens do fim de Isaías: lágrimas enxugadas, novos céus, nova terra.

O percurso do livro explica essa presença. Ele começa com uma cidade acusada e um rei com medo, atravessa um exílio e chega a uma criação refeita, sempre sob o mesmo Santo de Israel, que julga, consola e renova.

Os pontos centrais

  1. A visão do capítulo 6: o Senhor no trono, os serafins que clamam santo, santo, santo, a brasa nos lábios e a resposta eis-me aqui, envia-me a mim.
  2. O cântico da vinha (Isaías 5.1-7): Deus cuidou de Judá como de uma vinha, esperou justiça e encontrou opressão.
  3. As promessas do rei que vem: o Emanuel (7.14), o menino Príncipe da Paz (capítulo 9) e o rebento do tronco de Jessé (capítulo 11).
  4. O bloco narrativo dos capítulos 36 a 39, com Senaqueribe diante de Jerusalém e a doença de Ezequias, paralelo a 2 Reis 18 a 20.
  5. Os quatro cânticos do servo (42, 49, 50 e 52.13 a 53.12), o último sobre aquele que carrega as dores e as culpas de muitos.
  6. O título Santo de Israel, que atravessa as três partes do livro, e o horizonte final de novos céus e nova terra (65.17).

Leituras que se afastam do texto

A Bíblia conta que Isaías morreu serrado ao meio

O livro não narra a morte do profeta, e 2 Reis também não. A notícia de que ele foi serrado ao meio no reinado de Manassés vem de uma tradição judaica antiga, fora da Bíblia. Hebreus 11.37 fala de fiéis que foram serrados, sem citar nomes, e muitos leitores ligaram o versículo a essa tradição. É um dado da tradição, não do texto.

O servo de Isaías é sempre a mesma pessoa

O livro usa a palavra de mais de um modo. Em vários trechos o servo é o próprio povo: tu, Israel, meu servo (41.8; 49.3). Nos quatro cânticos surge uma figura que tem missão para com Israel e para com as nações e que, no capítulo 53, sofre em lugar de outros. O Novo Testamento lê esse servo em Jesus, como faz Filipe com o etíope em Atos 8.

O sinal do Emanuel não tinha nada a ver com o tempo de Isaías

O sinal é dado ao rei Acaz, apavorado com o ataque da Síria e de Israel. O profeta diz que, antes de o menino saber rejeitar o mal e escolher o bem, a terra dos dois reis inimigos estará abandonada (7.16). A palavra tem, portanto, um prazo naquela crise. Mateus 1.23 a cita ao narrar o nascimento de Jesus e mostra nela um alcance maior que o daquele momento.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Em que ano Isaías tem a visão do templo?
No ano em que morreu o rei Uzias, conforme a primeira linha do capítulo 6.
O que toca os lábios do profeta na visão?
Uma brasa tirada do altar por um serafim, que declara removida a sua culpa.
Que nomes têm os dois filhos de Isaías?
Sear-Jasube, que significa um resto voltará, e Maer-Salal-Hás-Baz, nome que anuncia o saque próximo de Damasco e Samaria.
Que rei estrangeiro o livro chama de ungido do Senhor?
Ciro, rei da Pérsia, apresentado em Isaías 45.1 como instrumento para libertar os exilados.
Que trecho de Isaías Jesus lê na sinagoga de Nazaré?
O começo do capítulo 61, o Espírito do Senhor está sobre mim, segundo Lucas 4.
O que Isaías faz durante três anos como sinal sobre o Egito?
Anda despido e descalço, como figura dos cativos que a Assíria levaria do Egito e da Etiópia (Isaías 20).
Que imagem o capítulo 11 usa para a paz do reino futuro?
O lobo mora com o cordeiro, e um menino pequeno conduz os animais (Isaías 11.6).
O que só Isaías traz no relato da doença de Ezequias?
O escrito do rei depois da cura, um cântico de gratidão conservado em Isaías 38.
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Débora Arantes

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