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Resumo do livro de Miqueias

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

Um profeta do interior de Judá, vindo da aldeia de Moresete, anuncia no século VIII a.C. que Samaria e Jerusalém cairão pelo mesmo motivo: os poderosos tomam os campos dos pequenos, os juízes vendem sentenças, os sacerdotes e os profetas falam por dinheiro. Miqueias chega a dizer que Sião será lavrada como um campo (3.12). O livro alterna três vezes ameaça e esperança. Do lado da esperança estão as espadas transformadas em arados, o resto reunido como rebanho e o governante que sairá de Belém, a pequena cidade de Davi (5.2). No capítulo 6, Deus abre um processo contra o povo e resume o que pede: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com ele. A última página celebra o Deus que perdoa.

Quatro pares em Miqueias, cada ameaça ligada por seta à promessa que a responde: Samaria e o resto, Sião e o monte, o juiz ferido e Belém, a terra sem justos e o perdão
Imagem: resumode.com.br

Um homem do campo diante de duas capitais

Miqueias vem de Moresete, aldeia da região baixa de Judá, a sudoeste de Jerusalém, perto do território dos filisteus. O primeiro versículo o situa nos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, e diz que a sua visão é sobre Samaria e Jerusalém, as capitais dos dois reinos. É a segunda metade do século VIII a.C., o tempo em que a Assíria avança sobre a região, toma Samaria em 722 a.C. e, anos depois, invade Judá, como conta 2 Reis. Em Jerusalém, na mesma época, prega Isaías.

O que distingue Miqueias é o ponto de onde ele olha. Ele fala como quem viu, no interior, o que as decisões da capital fazem com os lavradores. Seu nome é uma pergunta, quem é como o Senhor, e o livro vai respondê-la na última página.

Os sete capítulos se organizam em três séries, cada uma aberta pela mesma palavra, ouvi (1.2; 3.1; 6.1). As três fazem o mesmo caminho: começam na acusação e na ameaça e terminam em promessa.

Samaria em pedras, e a ferida chega à porta

A primeira cena é a de um juiz que se põe a caminho. O Senhor sai do seu lugar, desce e pisa os altos da terra; os montes se derretem debaixo dele como cera diante do fogo (1.3-4). A causa vem em forma de pergunta: qual é a transgressão de Jacó? Não é Samaria? E o pecado de Judá, não é Jerusalém? (1.5). As capitais, que deveriam guardar a aliança, são apontadas como a fonte do mal.

Samaria será um montão de pedras no campo, lugar de plantar vinha, com os alicerces à mostra (1.6). Miqueias não comemora. Diz que vai lamentar e uivar, andar descalço e nu, porque a ferida é incurável e chegou até Judá, até a porta do seu povo, até Jerusalém (1.8-9).

Segue-se um lamento sobre as cidades da sua própria região, construído com o som dos nomes (1.10-16). Em Bete-Leafra, que lembra a palavra pó, a ordem é revolver-se no pó. Aczibe, que soa como engano, será um engano para os reis de Israel. Laquis, Maressa, Adulão e a própria Moresete entram na lista. O profeta chora a terra onde nasceu.

Os que planejam o mal deitados

O capítulo 2 diz quem são os culpados, e eles não são estrangeiros. Ai dos que, na cama, tramam a maldade e, ao amanhecer, a executam, porque têm o poder na mão. Cobiçam campos e os tomam; cobiçam casas e as arrebatam; oprimem o homem e a sua herança (2.1-2). Em Israel, o campo de cada família era a parte recebida na repartição da terra contada em Josué. Perder o campo era ser posto para fora da herança. O texto fala também das mulheres expulsas das casas que amavam (2.9).

A sentença corresponde ao crime: quem tomou campos verá os seus repartidos por outros (2.4-5).

Os acusados mandam o profeta calar: não profetizeis (2.6). Miqueias responde com ironia. Se alguém viesse com vento e mentira prometendo vinho e bebida forte, esse seria o pregador que este povo quer (2.11).

A série fecha com dois versículos de promessa. O Senhor reunirá o resto de Israel como ovelhas no curral, e o rei passará adiante deles, com o Senhor à frente (2.12-13).

Sião lavrada como um campo

A segunda série começa pelos governantes. A eles cabia conhecer o direito, e Miqueias os descreve como açougueiros: arrancam a pele do povo, quebram-lhe os ossos e o cortam como carne para a panela (3.1-3). Os profetas anunciam paz a quem lhes dá de comer e declaram guerra a quem não lhes põe nada na boca (3.5). Para eles virá a noite, sem visão e sem resposta. Miqueias se põe do outro lado: está cheio de força, do Espírito do Senhor, de justiça e de coragem, para declarar a Jacó a sua transgressão (3.8).

O resumo da acusação cabe num versículo. Os chefes julgam por suborno, os sacerdotes ensinam por salário, os profetas adivinham por dinheiro, e todos se apoiam no Senhor dizendo: ele está no meio de nós, nenhum mal nos alcançará (3.11). A resposta é a frase mais dura do livro. Por causa deles, Sião será lavrada como um campo, Jerusalém virará um montão de ruínas, e o monte do templo, um matagal (3.12).

Essa frase foi lembrada um século depois. Quando quiseram matar Jeremias por anunciar a destruição do templo, alguns anciãos citaram Miqueias de Moresete pelo nome e recordaram que o rei Ezequias, em vez de matá-lo, temeu o Senhor e suplicou, e o desastre foi adiado (Jeremias 26.18-19). É um caso raro de profeta citado nominalmente dentro de outro livro profético.

O monte mais alto, os arados e a figueira

Logo depois do monte em ruínas vem o monte exaltado. Nos últimos dias, o monte da casa do Senhor será firmado acima dos montes, e os povos subirão a ele para aprender os seus caminhos, porque de Sião sairá a lei. Eles transformarão as espadas em arados e as lanças em podadeiras, e não aprenderão mais a guerra (4.1-3). O mesmo oráculo está em Isaías 2.2-4. Miqueias acrescenta uma linha de quem conhece o campo: cada um se sentará debaixo da sua videira e da sua figueira, e ninguém o espantará (4.4). A paz, para ele, é o lavrador de volta à própria terra.

O caminho até lá passa pela dor. A filha de Sião geme como mulher em parto, sairá da cidade, morará no campo e irá até a Babilônia; ali será libertada (4.10). Os coxos e os expulsos é que formarão o resto (4.6-7).

De Belém, pequena entre os clãs de Judá

O capítulo 5 abre com Jerusalém cercada e o juiz de Israel ferido no rosto com uma vara (5.1). O socorro não vem da capital. Vem de Belém Efrata, pequena demais para figurar entre os clãs de Judá: dela sairá aquele que há de governar Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos (5.2; em algumas edições, 5.1). Belém é a cidade de Davi. O texto volta ao começo da dinastia, antes dos palácios, para anunciar um novo pastor.

Esse governante apascentará o rebanho na força do Senhor, será grande até os confins da terra, e ele mesmo será a paz (5.4-5). Quando os magos chegam a Jerusalém perguntando pelo rei recém-nascido, é esse versículo que os sacerdotes e os escribas citam a Herodes (Mateus 2.5-6).

O resto de Jacó, no meio dos povos, será como o orvalho que não depende de homem e como o leão entre os rebanhos (5.7-8). E o Senhor tirará de Israel aquilo em que ele confiava: cavalos, carros, fortalezas, feitiçarias e imagens.

O processo diante dos montes

A terceira série é um julgamento. O Senhor convoca os montes e os fundamentos da terra como testemunhas e apresenta a sua causa contra o povo (6.1-2). Mas quem fala primeiro é ele, e fala como parte ferida: povo meu, que te fiz? Em que te cansei? (6.3). Lembra a saída do Egito, os guias que enviou, Moisés, Arão e Miriã, e o que Balaão respondeu a Balaque, o rei que queria uma maldição (6.4-5), episódio narrado em Números.

O povo responde oferecendo pagar, e sobe o lance a cada linha: holocaustos, bezerros de um ano, milhares de carneiros, dez mil rios de azeite, o filho primogênito (6.6-7). A resposta desmonta o leilão. Ele já te declarou, ó homem, o que é bom. O que o Senhor pede é praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu Deus (6.8).

Em seguida a acusação volta ao concreto: balanças falsas, pesos fraudados, medida diminuída, ricos cheios de violência (6.10-12). A pena tem o formato da frustração. Comerás e não te fartarás; semearás e não colherás; pisarás a azeitona e não te ungirás com o azeite (6.14-15).

Quem é Deus como tu

O último capítulo começa em desolação. O profeta se compara a quem chega à vinha depois da colheita e não encontra um cacho (7.1). Não resta homem reto, o juiz pede pagamento, e a desconfiança entra em casa: o filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, e os inimigos de cada um são os da própria família (7.6). Jesus usa essas palavras ao falar das divisões que a sua mensagem provocaria (Mateus 10.35-36).

Então o tom vira numa frase: eu, porém, olharei para o Senhor (7.7). Sião, caída, fala à inimiga: não te alegres; se caí, vou me levantar; se moro nas trevas, o Senhor é a minha luz. E admite a culpa, coisa que os chefes do capítulo 3 nunca fizeram: suportarei a ira do Senhor, porque pequei contra ele (7.8-9).

O livro termina com a pergunta que o nome do profeta carrega. Quem é Deus como tu, que perdoas a culpa e não guardas a ira para sempre, porque tens prazer na misericórdia? Ele pisará as iniquidades do povo e lançará todos os pecados nas profundezas do mar, fiel ao que jurou a Abraão e a Jacó (7.18-20).

O profeta que anunciou o arado sobre Sião fecha a sua mensagem medindo Deus pelo perdão. Na página seguinte da Bíblia, Naum parte do mesmo Deus, tardio em irar-se, para dizer o que acontece ao império que não larga a violência.

Os pontos centrais

  1. O livro se divide em três séries abertas pela palavra ouvi (capítulos 1 e 2, 3 a 5, 6 e 7), e cada uma vai da ameaça à promessa.
  2. A denúncia tem alvo definido: os que tomam campos e casas (2.1-2) e os chefes, sacerdotes e profetas que agem por dinheiro (3.11).
  3. Sião será lavrada como um campo (3.12) é a frase que os anciãos citam, um século depois, para defender Jeremias (Jeremias 26.18).
  4. As espadas transformadas em arados (4.1-3) repetem Isaías 2.2-4, com o acréscimo da videira e da figueira de cada um (4.4).
  5. De Belém Efrata sairá o que há de governar Israel (5.2), versículo citado a Herodes em Mateus 2.5-6.
  6. Miqueias 6.8 resume o que o Senhor pede: praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus.

Leituras que se afastam do texto

Foi Isaías quem profetizou que o Messias nasceria em Belém

A profecia de Belém está em Miqueias 5.2 (5.1 em algumas edições). Isaías fala do sinal do Emanuel e do menino que recebe o governo, mas não cita a cidade. A confusão nasce porque os dois pregaram na mesma época e ambos são lidos no Natal. Em Mateus 2.5-6, quando Herodes pergunta onde o Cristo deveria nascer, a resposta dos sacerdotes e escribas vem de Miqueias.

Miqueias é o profeta que enfrentou o rei Acabe

Quem anuncia a derrota de Acabe, contra a palavra de cerca de quatrocentos profetas, é Micaías, filho de Inlá, em 1 Reis 22, no reino do norte. Miqueias de Moresete prega em Judá mais de um século depois, nos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias. Os dois nomes são formas da mesma pergunta, quem é como o Senhor, e por isso se misturam.

Miqueias 6.8 ensina que Deus dispensa o culto e só quer boa conduta

O versículo responde a alguém que tenta comprar o favor de Deus aumentando o valor das ofertas, até chegar ao próprio filho. O que o texto recusa é o culto usado para encobrir balança falsa e violência, denunciadas logo depois (6.10-12). E o terceiro pedido não é conduta social: é andar humildemente com o teu Deus. Justiça e relação com Deus vêm juntas.

A frase das espadas transformadas em arados é só de Isaías

O oráculo aparece quase palavra por palavra em Isaías 2.2-4 e em Miqueias 4.1-3, e o texto não diz quem o pronunciou primeiro. Miqueias traz uma linha a mais, a de cada um sentado debaixo da sua videira e da sua figueira (4.4). Em Joel 3.10 a imagem aparece invertida, como convocação para a guerra: arados forjados em espadas.

Perguntas para estudo

8 perguntas

De onde era o profeta Miqueias?
De Moresete, aldeia da região baixa de Judá, a sudoeste de Jerusalém, perto do território filisteu.
Em que reinados Miqueias profetizou?
Nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, conforme o primeiro versículo do livro.
Sobre que cidades é a visão de Miqueias, segundo o título?
Sobre Samaria e Jerusalém, as capitais do reino do norte e do reino de Judá.
O que significa o nome Miqueias?
Quem é como o Senhor, pergunta que o livro retoma no final: quem é Deus como tu (7.18).
Quem o Senhor convoca como testemunhas do processo no capítulo 6?
Os montes, os outeiros e os fundamentos da terra, diante dos quais ele apresenta a sua causa.
Que guias do êxodo são lembrados em Miqueias 6.4?
Moisés, Arão e Miriã, enviados adiante do povo quando Deus o tirou do Egito.
Que versículo de Miqueias Jesus usa ao falar de divisões na família?
Miqueias 7.6, sobre os inimigos do homem serem os da própria casa, retomado em Mateus 10.35-36.
O que Deus fará com os pecados do povo, segundo o fim do livro?
Pisará as iniquidades e lançará todos os pecados nas profundezas do mar (7.19).
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Débora Arantes

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