Resumo do livro de Habacuque
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Até quando? É com essa pergunta que Habacuque abre, e o livro inteiro é a conversa que ela provoca. O profeta vê violência e injustiça em Judá e cobra de Deus uma resposta. Ela vem, e assusta: Deus está levantando os caldeus, o império da Babilônia, para castigar. Habacuque protesta de novo: como o Deus de olhos puros usa um povo pior para punir um menos mau? Ele sobe à torre de vigia e espera. A segunda resposta manda escrever a visão e traz a frase central: o soberbo não é reto, mas o justo viverá pela sua fé (2.4). Seguem cinco ais contra o opressor. O terceiro capítulo é um salmo que termina em alegria, ainda que a figueira não floresça e os currais fiquem vazios.
O profeta que interroga
Quase todos os livros proféticos trazem a palavra de Deus ao povo. O de Habacuque faz o caminho contrário: leva a Deus a queixa do profeta e registra as respostas. O título diz apenas que esta é a sentença que o profeta Habacuque viu (1.1). Não há nome de pai, de cidade nem de rei.
O cenário se deduz do conteúdo. Os caldeus, isto é, os babilônios, estão em ascensão (1.6). São as últimas décadas do reino de Judá, quando a Babilônia toma o lugar da Assíria como potência e se aproxima de Jerusalém, período contado nos capítulos finais de 2 Reis. O livro tem três capítulos: dois de diálogo e de sentenças, um de oração cantada.
Até quando clamarei?
A primeira fala é uma reclamação. Até quando, Senhor, clamarei, e tu não escutarás? Grito violência, e não salvas (1.2). O profeta olha para dentro de Judá e vê destruição, brigas e processos. A lei perdeu a força, o perverso cerca o justo, e a sentença sai torta do tribunal (1.3-4).
A pergunta não é novidade na Bíblia. É a mesma dos lamentos de Salmos. A diferença é que aqui ela recebe resposta direta, e a resposta cria uma dificuldade maior.
Uma obra em que ninguém acreditaria
Deus manda olhar para as nações e se espantar: está fazendo, nos dias deles, uma obra em que não acreditariam se alguém contasse (1.5). Ele está levantando os caldeus, povo cruel e impetuoso, que percorre a terra para tomar moradas que não são suas (1.6).
O retrato é de pavor. Os cavalos deles são mais velozes que leopardos e mais ferozes que lobos ao anoitecer. Os cavaleiros voam como a águia sobre a presa. Juntam prisioneiros como areia, riem de reis, zombam de fortalezas, amontoam terra e as tomam (1.8-10). E a última linha já contém a condenação: são culpados, eles que fazem da própria força o seu deus (1.11).
O versículo 5 reaparece no Novo Testamento. Paulo o cita na sinagoga de Antioquia da Pisídia, como advertência a quem ouvia o anúncio sobre Jesus (Atos 13.41), no discurso registrado em Atos dos Apóstolos.
Os peixes e a rede
A resposta resolve a primeira queixa e abre a segunda. Habacuque começa pelo que sabe: não és tu desde a eternidade, Senhor, meu Deus, meu Santo? Não morreremos (1.12). Em seguida aperta: os teus olhos são puros demais para contemplar o mal. Por que, então, te calas quando o perverso engole quem é mais justo do que ele? (1.13).
A imagem que ele usa é a da pesca. Os homens ficaram como os peixes do mar, sem quem os governe. O caldeu puxa todos com o anzol, arrasta com a rede, recolhe e se alegra. Depois oferece sacrifício à rede e queima incenso a ela, porque é por meio dela que come bem (1.14-16). A pergunta final é se ele vai continuar esvaziando a rede e matando nações sem piedade (1.17).
Judá merecia correção, e o profeta não nega. O que ele não consegue encaixar é o instrumento.
Na torre de vigia
Habacuque não se retira nem responde a si mesmo. Vou me pôr no meu posto, diz, ficar sobre a fortaleza e vigiar, para ver o que ele me dirá (2.1).
A resposta tem duas partes. A primeira é uma ordem: escreve a visão, grava-a em tábuas, de modo que se leia com facilidade. Ela aguarda o tempo marcado e não falhará. Se demorar, espera, porque certamente virá (2.2-3). Deus não entrega uma explicação. Entrega um prazo, e manda que ele fique registrado.
A segunda parte é o contraste que sustenta o livro: o soberbo não tem a alma reta, mas o justo viverá pela sua fé (2.4). A palavra hebraica traduzida por fé inclui firmeza e fidelidade. Diante de um império que confia na própria força, o justo é quem permanece confiando em Deus enquanto a visão não se cumpre. O Novo Testamento cita a frase três vezes: em Romanos 1.17, em Gálatas 3.11 e em Hebreus 10.38.
Cinco ais contra quem engole nações
O restante do capítulo dá a palavra às vítimas. As nações que o conquistador ajuntou levantam contra ele uma cantiga de zombaria, em cinco ais (2.6-20):
- ai de quem acumula o que não é seu: os credores se levantarão de repente, e o saqueador será saqueado;
- ai de quem enriquece a casa com ganho injusto para pôr o ninho no alto, fora do alcance do mal: a pedra gritará da parede, e a viga responderá do madeiramento;
- ai de quem constrói a cidade com sangue: os povos se cansam trabalhando para o fogo;
- ai de quem embriaga o vizinho para vê-lo nu: chegará a sua vez de beber o cálice da mão direita do Senhor;
- ai de quem diz ao pedaço de madeira acorda, e à pedra muda levanta-te: o ídolo é coberto de ouro e prata, e não há fôlego dentro dele.
Dois versículos interrompem a série e apontam mais alto. No meio dela: a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar (2.14). No fim, em contraste com o ídolo mudo: o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra (2.20). O profeta que começou reclamando do silêncio de Deus fecha o capítulo pedindo silêncio ao mundo.
A oração cantada
O capítulo 3 tem título próprio, oração do profeta Habacuque, e traz indicações musicais no começo e no fim, além da palavra selá, como nos salmos. O pedido cabe num versículo: ouvi falar de ti, Senhor, e temi; aviva a tua obra no decorrer dos anos; na ira, lembra-te da misericórdia (3.2).
O que segue é uma visão de Deus em marcha. Ele vem de Temã e do monte Parã, regiões ao sul de Judá, no rumo do Sinai. O seu brilho é como a luz; a peste vai adiante dele; os montes antigos se desfazem; as tendas de Midiã tremem (3.3-7). O poema pergunta se é contra os rios ou contra o mar que ele se irrita, e fala do sol e da lua parados no céu (3.8-11), imagens que evocam a travessia do mar no Êxodo e as batalhas da conquista. A finalidade é dita sem rodeio: saíste para salvar o teu povo, para salvar o teu ungido (3.13).
Habacuque recorda o que Deus já fez para atravessar o que ainda vem. A resposta à sua queixa não é um argumento novo: é a memória do êxodo posta em forma de canto.
Ainda que a figueira não floresça
A visão não tira o medo. Ao ouvi-la, o profeta sente o ventre estremecer, os lábios tremerem, a fraqueza entrar nos ossos. Mesmo assim decide esperar em silêncio o dia da angústia que virá sobre o povo invasor (3.16).
Então vem a declaração final. Ainda que a figueira não floresça, a videira não dê fruto, a oliveira falhe, os campos não produzam alimento, as ovelhas sumam do aprisco e não haja gado nos currais, eu me alegrarei no Senhor e exultarei no Deus da minha salvação (3.17-18). A lista cobre tudo de que um lavrador de Judá vivia. Nada disso é devolvido no texto. A alegria se apoia só em Deus, que é a força do profeta e lhe dá pés de corça para andar nas alturas (3.19).
O percurso do livro é o do seu autor: da queixa à espera, da espera ao canto. A invasão anunciada não é cancelada, e a pergunta do começo, a mesma que o livro de Jó leva ao limite, não ganha explicação. Ganha uma frase para o intervalo, o justo viverá pela sua fé, e é essa frase que Paulo, séculos depois, põe na abertura da carta aos Romanos.
Os pontos centrais
- O livro tem forma de diálogo: duas queixas do profeta e duas respostas de Deus ocupam Habacuque 1.2 a 2.5.
- Deus anuncia que levanta os caldeus como instrumento (1.5-11), e o mesmo trecho já os declara culpados por adorar a própria força.
- A segunda queixa pergunta por que o Deus de olhos puros se cala quando o perverso devora quem é mais justo do que ele (1.13).
- O justo viverá pela sua fé (2.4) é citado três vezes no Novo Testamento: Romanos 1.17, Gálatas 3.11 e Hebreus 10.38.
- Os cinco ais (2.6-20) condenam o saque, o ganho injusto, a cidade erguida com sangue, a humilhação do vizinho e a idolatria.
- A oração do capítulo 3 termina com a alegria que não depende da colheita: ainda que a figueira não floresça (3.17-19).
Leituras que se afastam do texto
O justo viverá pela fé é uma frase criada por Paulo
A frase é de Habacuque 2.4, e Paulo a cita em Romanos 1.17 e em Gálatas 3.11; ela volta em Hebreus 10.38. No profeta, o justo é posto em contraste com o soberbo conquistador, e a palavra hebraica traduzida por fé inclui firmeza e fidelidade. O engano nasce de a frase ser muito mais lida nas cartas do que no livro de onde vem.
Habacuque perdeu a fé e duvidou de Deus
As perguntas do profeta são feitas a Deus, e de dentro da fé: ele o chama de meu Deus, meu Santo, e afirma que ele é desde a eternidade (1.12). Depois de perguntar, sobe à torre para esperar a resposta (2.1). O livro termina em eu me alegrarei no Senhor (3.18) e no Senhor que é a minha força (3.19). A queixa, aqui, é uma forma de oração, como nos lamentos dos Salmos.
Deus aprova os caldeus, já que os usa para castigar Judá
O trecho que anuncia a vinda dos caldeus termina chamando-os de culpados, eles que fazem da própria força o seu deus (1.11). E os cinco ais do capítulo 2 são dirigidos ao mesmo conquistador: quem saqueou será saqueado (2.8). Ser instrumento do juízo não torna o império justo nem o livra do juízo.
Ainda que a figueira não floresça é uma promessa de que nada vai faltar
O texto diz o contrário. Habacuque enumera a perda de tudo o que sustentava um lavrador, figos, uvas, azeitonas, cereais, ovelhas e gado, e declara a sua alegria no Senhor sem que nada disso seja devolvido (3.17-18). Antes, ele treme ao ouvir o que vem (3.16). A confiança convive com a escassez, em vez de anunciá-la como passageira.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Com que nome o livro chama os babilônios?
- Caldeus, descritos como nação cruel e impetuosa que toma moradas que não são suas (1.6).
- A que animais são comparados os cavalos e os cavaleiros caldeus?
- Os cavalos, a leopardos e a lobos ao anoitecer; os cavaleiros, à águia que se lança sobre a presa (1.8).
- Que imagem Habacuque usa para as nações diante do conquistador?
- A de peixes do mar apanhados com anzol e rede por um pescador que depois adora a própria rede (1.14-16).
- Onde o profeta se coloca para esperar a resposta de Deus?
- No seu posto de guarda, sobre a torre de vigia, atento ao que Deus lhe dirá (2.1).
- Como a visão deve ser registrada, segundo Habacuque 2.2?
- Escrita e gravada em tábuas, de modo claro, para que se possa ler com facilidade.
- Que versículo de Habacuque Paulo cita em Antioquia da Pisídia?
- Habacuque 1.5, sobre a obra em que ninguém acreditaria, citado em Atos 13.41.
- O que Habacuque pede no início da sua oração?
- Que Deus avive a sua obra no decorrer dos anos e, na ira, se lembre da misericórdia (3.2).
- Como termina o capítulo 2, depois do ai contra os ídolos?
- O Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra (2.20).
Débora Arantes
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