Resumo do livro de Salmos
Por Débora Arantes 10 min de leitura
Em 30 segundos
O livro de Salmos reúne cento e cinquenta poemas compostos ao longo de séculos para serem cantados e rezados, e é o livro em que a Bíblia ensina a falar com Deus em qualquer situação. Está organizado em cinco livros, à semelhança dos cinco de Moisés, e abre com dois salmos que servem de portal: o primeiro sobre o caminho do justo, o segundo sobre o rei ungido. Os poemas se distribuem em alguns tipos reconhecíveis. O mais numeroso é o lamento, em que alguém aflito clama, pergunta até quando e termina confiando. Há hinos de louvor, ações de graças, salmos de confiança como o 23, salmos sobre o rei, salmos de sabedoria e os cânticos de peregrinação. O conjunto caminha do lamento para o louvor e termina em cinco aleluias.
Um livro de orações, e não de histórias
Até aqui, quase todos os livros da Bíblia falam ao leitor: narram, ordenam, anunciam. Nos Salmos a direção se inverte. São palavras humanas ditas a Deus, e que a comunidade recebeu de volta como palavra de Deus. Por isso o livro é lido de outro modo: não se procura enredo, procura-se a oração que serve para o dia.
Os Salmos foram o hinário do templo de Jerusalém e continuam no centro da oração judaica e cristã. O Novo Testamento os cita com frequência, e na cruz Jesus reza com palavras do 22 e do 31.
Como a poesia hebraica funciona
A poesia dos Salmos não depende de rima nem de métrica contada em sílabas. Seu princípio é o paralelismo: as linhas vêm em pares, e a segunda responde à primeira.
- Repetindo com outras palavras: os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos (Salmo 19).
- Opondo: o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá (Salmo 1).
- Avançando: como a corça suspira pelas águas, assim a minha alma suspira por ti (Salmo 42).
Uma consequência prática: esse tipo de poesia sobrevive à tradução, porque a correspondência é de ideias. Outros recursos são o acróstico alfabético, como nos Salmos 34 e 119, os refrões e a palavra selá, provavelmente uma indicação musical de pausa.
Muitos salmos têm um título antes do primeiro versículo: a quem é atribuído, o tipo de composição, o instrumento, às vezes a ocasião na vida de Davi.
Os cinco livros
A coleção foi organizada em cinco partes, e cada uma termina com uma fórmula de louvor, bendito seja o Senhor, amém e amém.
- Livro I (1 a 41): quase todo de Davi, com muitos lamentos individuais.
- Livro II (42 a 72): salmos dos filhos de Corá e de Davi; fecha com um salmo sobre o rei ideal e a nota de que terminaram as orações de Davi.
- Livro III (73 a 89): dominado por Asafe; é o mais sombrio, e termina com o Salmo 89 perguntando onde está a promessa feita a Davi.
- Livro IV (90 a 106): responde voltando a Moisés e proclamando que o Senhor reina, com ou sem rei em Jerusalém.
- Livro V (107 a 150): reúne gratidão pela volta do exílio, o grande Salmo 119, os cânticos de peregrinação e os aleluias.
Lida assim, a coleção tem um percurso: da monarquia de Davi, pela sua crise, até a confiança no reinado de Deus. Os Salmos 1 e 2 funcionam como porta. O primeiro declara feliz quem medita na lei dia e noite, como árvore plantada junto à água. O segundo apresenta o ungido contra quem as nações se agitam em vão. Lei e rei, sabedoria e esperança: os dois fios do livro.
Os tipos de salmo
Reconhecer o tipo ajuda mais do que decorar números.
Lamento. É o grupo mais numeroso. Tem partes que se repetem: a invocação, a queixa (doença, inimigos, culpa, abandono), o pedido, uma declaração de confiança e, quase sempre, a promessa de louvar. O Salmo 13 é o modelo em miniatura: até quando, Senhor, me esquecerás para sempre? e, no último versículo, cantarei ao Senhor pelo bem que me fez. O 22 começa com meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste e termina anunciando o louvor às gerações futuras. O 88 é a exceção que termina na escuridão. Os penitenciais, como o 51 e o 130, são lamentos em que o problema é o próprio pecado. Há também lamentos do povo, como o 74 e o 137, à beira dos rios da Babilônia.
Louvor ou hino. Convoca a louvar e dá os motivos: quem Deus é e o que fez. O 8 admira o céu e pergunta que é o homem; o 19 junta a criação e a lei; o 103 bendiz ao Senhor que perdoa; o 104 percorre a criação; o 150 enumera os instrumentos.
Ação de graças. Conta um livramento já acontecido: eu estava aflito, clamei, ele me ouviu. Exemplos são o 30, o 34 e o 116. O 136 repete em cada verso porque a sua misericórdia dura para sempre.
Confiança. A serenidade ocupa o poema inteiro. O Salmo 23 é o mais conhecido: o Senhor é o meu pastor, nada me faltará; ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum. Do mesmo grupo são o 27, o 46, o 91 e o 121.
Reais. Falam do rei de Jerusalém: coroação, casamento, guerra. O 2 e o 110 tratam de sua entronização; o 72 pede que ele defenda os pobres. Depois do fim da monarquia, esses salmos continuaram a ser cantados e passaram a exprimir a esperança de um rei futuro, o Messias. O Novo Testamento os aplica a Jesus, e o Salmo 110, disse o Senhor ao meu senhor, é o texto do Antigo Testamento que ele mais cita.
Sabedoria e lei. Ensinam em vez de pedir. O 1 e o 37 contrastam justo e ímpio; o 73 enfrenta a prosperidade dos maus; o 119 celebra a lei em cento e setenta e seis versículos.
Peregrinação e Sião. Os Salmos 120 a 134, breves, acompanham a subida para as festas: elevo os olhos para os montes; se o Senhor não edificar a casa; como é bom os irmãos viverem unidos.
Em detalhe: o Salmo 91.
Salmos que convém conhecer pelo número
| Salmo | Por que é lembrado |
|---|---|
| 1 | Os dois caminhos; abre o livro |
| 8 | A grandeza de Deus e a dignidade humana |
| 22 | O justo abandonado; citado na crucificação |
| 23 | O Senhor é o meu pastor |
| 51 | Tem piedade de mim; o arrependimento |
| 90 | Oração de Moisés: ensina-nos a contar os nossos dias |
| 91 | Proteção: aquele que habita no abrigo do Altíssimo |
| 110 | O rei sacerdote; o mais citado no Novo Testamento |
| 119 | O elogio da lei, o mais longo |
| 137 | À beira dos rios da Babilônia |
| 139 | Tu me sondas e me conheces |
| 150 | Tudo o que respira louve ao Senhor |
O que os Salmos ensinam a fazer
Os Salmos autorizam toda a gama da experiência diante de Deus: alegria, medo, culpa, raiva, dúvida, gratidão. Nada é escondido, e é justamente por ser dito a Deus que cada sentimento encontra direção. A forma do lamento resume essa pedagogia: começa-se onde se está e caminha-se até a confiança.
O próprio livro faz esse caminho em escala maior. Os lamentos rareiam à medida que ele avança, e os cinco últimos salmos não pedem mais nada. A última linha é um convite sem exceções: tudo o que respira louve ao Senhor.
Os pontos centrais
- A divisão em cinco livros (1 a 41, 42 a 72, 73 a 89, 90 a 106, 107 a 150), cada um encerrado por uma doxologia.
- Os Salmos 1 e 2 como introdução: a lei meditada dia e noite e o rei estabelecido por Deus em Sião.
- O lamento como forma mais frequente, com estrutura própria: clamor, queixa, pedido, confiança e promessa de louvor.
- O paralelismo, base da poesia hebraica: a segunda linha repete, completa ou contrasta a primeira.
- Os salmos reais e sua leitura messiânica, como o 2, o 72 e o 110, o mais citado no Novo Testamento.
- O movimento do livro inteiro, da predominância de lamentos no início ao louvor contínuo dos Salmos 146 a 150.
Leituras que se afastam do texto
Davi escreveu todos os Salmos
Os títulos atribuem a Davi cerca de metade deles, setenta e três. Doze levam o nome de Asafe, onze o dos filhos de Corá, dois o de Salomão, um o de Moisés (o 90), e uns cinquenta não trazem nome. O Salmo 137 fala do exílio na Babilônia, séculos depois de Davi. O livro é uma coleção formada aos poucos.
Os Salmos são, acima de tudo, cânticos de louvor e gratidão
O tipo mais numeroso é o lamento, individual ou do povo: cerca de um terço do livro. Neles há perguntas duras, como até quando, Senhor, e por que me abandonaste. O livro trata a queixa dirigida a Deus como oração legítima, e o louvor do final é o ponto de chegada desse percurso.
O número de cada salmo é o mesmo em toda Bíblia
Há duas numerações. A hebraica, seguida pela maioria das Bíblias protestantes e pelas edições católicas recentes, e a grega, usada na tradição latina, que junta e divide alguns salmos de outro modo. Do 10 ao 147, a grega fica em geral um número atrás: o Salmo do pastor é 23 numa e 22 na outra.
Os salmos que pedem castigo para os inimigos autorizam a vingança
Nesses salmos, quem ora não se vinga: entrega a causa a Deus e pede que ele faça justiça. São gritos de vítimas de violência real, postos em forma de oração. O saltério os conserva como palavra dita a Deus, e não como instrução sobre o que fazer com o inimigo.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quantos salmos há no livro, e em quantas partes ele se divide?
- Cento e cinquenta salmos, distribuídos em cinco livros.
- Qual é o salmo mais longo?
- O 119, com 176 versículos em 22 estrofes, uma para cada letra do alfabeto hebraico, todo sobre a lei.
- Qual é o salmo mais curto?
- O 117, com apenas dois versículos, convidando todas as nações a louvar.
- Qual é o único salmo atribuído a Moisés?
- O Salmo 90, que abre o quarto livro e medita sobre a brevidade da vida.
- O que são os cânticos de peregrinação?
- Os Salmos 120 a 134, cantados pelos que subiam a Jerusalém para as festas.
- A que episódio a tradição liga o Salmo 51?
- Ao arrependimento de Davi depois que o profeta Natã o confrontou por causa de Bate-Seba.
- O que é paralelismo?
- O recurso em que duas linhas se correspondem: a segunda repete a ideia, a amplia ou diz o contrário.
- Como o livro termina?
- Com cinco salmos que começam e terminam em aleluia; o último chama tudo o que respira a louvar.
Débora Arantes
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