Resumo do livro de Baruc
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Entre os exilados da Babilônia, o escriba de Jeremias lê em voz alta um escrito que faz o povo chorar, jejuar e mandar uma coleta a Jerusalém. Assim começa Baruc, livro breve que reúne quatro peças. A primeira é uma oração de confissão: ao Senhor, a justiça; a nós, a vergonha no rosto. A segunda é um poema que pergunta onde mora a sabedoria e responde que Deus a deu a Israel na lei. A terceira consola: Jerusalém, mãe que viu os filhos partirem, ouve a ordem de tirar a veste de luto, porque eles voltam. A quarta, o capítulo 6, é a Carta de Jeremias, uma sátira dos ídolos babilônios. O livro aparece nas edições católicas e ortodoxas da Bíblia.
O escriba de Jeremias, agora com a palavra
No livro de Jeremias, Baruc, filho de Nerias, é o homem que segura a pena. Escreve o rolo que o profeta dita, lê o texto no templo, guarda a escritura do campo comprado em Anatote e recebe uma palavra só para ele. As edições protestantes grafam o nome como Baruque; é a mesma pessoa.
O livro que leva seu nome o apresenta na Babilônia, entre os deportados de Judá. É uma obra curta, de cinco capítulos, a que as edições católicas juntam, como capítulo 6, a Carta de Jeremias. Ela está nas Bíblias católicas e ortodoxas, perto de Jeremias e de Lamentações, e não faz parte da Bíblia hebraica nem das edições protestantes.
Baruc não conta uma história. Reúne quatro peças de tons diferentes, costuradas por uma moldura narrativa breve. Lidas em sequência, elas desenham um percurso: o povo confessa, aprende onde está a sabedoria, ouve o consolo e é prevenido contra os ídolos.
A leitura junto ao rio Sud
A moldura ocupa os primeiros catorze versículos. Baruc escreve na Babilônia, no quinto ano, no tempo em que os caldeus tomaram Jerusalém e a queimaram. Lê o escrito diante de Jeconias, o rei de Judá exilado, dos nobres, dos anciãos e de todo o povo que morava junto ao rio Sud.
A reação é a que faltou em Jerusalém quando o rei Jeoaquim queimou o rolo de Jeremias. Aqui todos choram, jejuam e oram. Fazem uma coleta, cada um conforme pode, e a enviam ao sacerdote Joaquim e ao povo que ficou em Jerusalém, junto com utensílios de prata do templo que Baruc recuperara.
O dinheiro vem com pedidos. Que se ofereçam sacrifícios no altar do Senhor. Que se ore pela vida de Nabucodonosor e de seu filho Baltazar, para que os exilados vivam em paz à sombra deles, na mesma linha da carta de Jeremias 29. E que o escrito seja lido em público na casa do Senhor, nos dias de festa.
A nós, a vergonha no rosto
O texto a ser lido começa com uma oração de confissão, de 1.15 a 3.8. Sua primeira frase dá o tom e volta mais adiante como refrão: ao Senhor, nosso Deus, a justiça; a nós, a vergonha no rosto.
Quem ora não procura atenuantes. Desde o dia em que o Senhor tirou os pais do Egito, o povo não ouviu a sua voz. Vieram por isso as maldições que Moisés havia anunciado, e nada do que aconteceu a Jerusalém foi injusto. Os profetas tinham mandado dobrar o ombro e servir ao rei da Babilônia, e ninguém obedeceu.
A segunda metade pede. O argumento não é o mérito dos pais nem dos reis: é o nome de Deus e a sua misericórdia. A oração lembra a promessa feita por meio de Moisés, de que na terra do exílio o povo cairia em si, e Deus o traria de volta e faria com ele uma aliança eterna (2.30-35). Termina com um clamor curto: ouve, Senhor, e tem piedade.
Pelo vocabulário e pelo movimento, é uma oração irmã da que se lê em Daniel 9.
Onde mora a sabedoria
De 3.9 a 4.4 a prosa dá lugar à poesia, e o assunto muda. O poema abre com um chamado que lembra o de Deuteronômio: escuta, Israel, os mandamentos da vida. E faz a pergunta do exílio de outro ângulo. Por que Israel envelhece em terra estrangeira? Porque abandonou a fonte da sabedoria.
Segue a busca. Onde ela está? Os chefes das nações, que dominavam os animais e juntavam prata e ouro, desapareceram sem encontrá-la. Os mercadores e os contadores de histórias não acharam o caminho. Os gigantes famosos de outrora, altos e treinados para a guerra, não foram os escolhidos. Ninguém subiu ao céu para buscá-la nem atravessou o mar para comprá-la.
Só a conhece aquele que sabe tudo. Ele envia a luz, e ela vai; chama as estrelas, e elas respondem aqui estamos, brilhando de alegria para quem as fez. Este é o nosso Deus, e nenhum outro se compara a ele. Foi ele quem descobriu todo o caminho da sabedoria e a deu a Jacó, seu servo. Depois disso, diz o poema, ela apareceu sobre a terra e viveu entre os homens.
O capítulo 4 diz o nome dela: é o livro dos mandamentos de Deus, a lei que permanece para sempre (4.1). A conclusão é um convite e uma alegria: volta, Jacó, e abraça-a; felizes somos nós, Israel, porque nos foi revelado o que agrada a Deus (4.4).
Coragem, meu povo
A terceira peça é um discurso de consolo em duas vozes, e sua palavra de ordem é coragem.
Primeiro fala o poeta, em nome de Deus: coragem, meu povo. Vocês foram vendidos às nações, mas não para a destruição (4.5-6). Depois, quem toma a palavra é Jerusalém, apresentada como mãe e viúva. Ela se dirige às cidades vizinhas e explica o seu luto: criou os filhos com alegria e os viu partir com choro; ninguém se alegre de vê-la viúva e abandonada.
Em seguida, fala aos próprios filhos, de longe. Não pode socorrê-los; tirou a roupa da paz e vestiu o pano da súplica. Manda que caminhem e clamem a Deus, e garante o desfecho: com pranto e luto eu os deixei partir, mas Deus os devolverá a mim com alegria para sempre (4.23).
Tira a veste de luto
Na segunda voz, o poeta se volta para a cidade: coragem, Jerusalém, aquele que te deu o nome vai te consolar (4.30). Ela deve olhar para o oriente e ver a alegria que vem de Deus, os filhos reunidos do nascente ao poente.
O capítulo 5 é o cume do livro. Tira, Jerusalém, a veste de luto e de aflição e veste para sempre o esplendor da glória que vem de Deus (5.1). A cidade recebe um manto de justiça, um diadema e um nome novo, que junta paz, justiça e glória. Deve subir a um lugar alto para ver a cena: os filhos saíram a pé, empurrados por inimigos, e voltam carregados com honra, como num trono real. Deus mandou rebaixar os montes e encher os vales para que Israel caminhe seguro, e até as florestas fazem sombra à sua passagem.
As imagens são as da segunda parte de Isaías, o caminho aplainado e a cidade que se levanta, retomadas aqui em escala menor.
A Carta de Jeremias e o espantalho
O capítulo 6 tem cabeçalho próprio: cópia da carta que Jeremias enviou aos que seriam levados cativos para a Babilônia. O profeta avisa que eles ficarão lá por muito tempo, até sete gerações, e verão deuses de prata, ouro e madeira carregados nos ombros, diante dos quais as multidões se curvam. O conselho é um só: não tenham medo deles.
O resto é uma sátira paciente, feita de observação. Os ídolos têm língua polida por artesão e não falam. Usam púrpura e não se defendem da ferrugem nem do caruncho. Precisam que lhes limpem o pó do rosto. Seguram cetro e machado e não ferem quem os ofende. Acendem-lhes lâmpadas, e eles não veem nenhuma. Morcegos, andorinhas e gatos pousam sobre eles. Se caem, não se levantam; se o templo pega fogo, os sacerdotes fogem, e eles queimam como as vigas. São como espantalho em plantação de pepinos, que não guarda coisa alguma.
A cada bloco volta o refrão: por aí se vê que não são deuses; portanto, não os temais. A última frase conclui que vale mais o justo que não tem ídolos.
Três vozes antigas num livro breve
Baruc funciona como um pequeno mostruário do Antigo Testamento. A oração fala a língua de Deuteronômio e dos profetas: a desobediência trouxe o exílio, e a volta depende da misericórdia. O poema fala a língua dos livros sapienciais, com a pergunta sobre onde se encontra a sabedoria, e dá a resposta de Israel: ela tem endereço, a lei. O consolo fala a língua de Isaías.
O que o livro acrescenta é o encaixe. Ele põe na boca de uma mesma comunidade exilada a confissão, o estudo e a esperança, nessa ordem, e deixa por último um aviso prático para quem vive cercado de deuses alheios.
Os pontos centrais
- O livro reúne quatro peças de gêneros diferentes: oração de confissão, poema de sabedoria, discurso de consolo e a Carta de Jeremias.
- A oração penitencial (1.15 a 3.8) reconhece o exílio como consequência anunciada por Moisés e pelos profetas e pede misericórdia.
- O poema de 3.9 a 4.4 afirma que a sabedoria, inacessível aos poderosos, foi dada a Israel e é a lei de Deus.
- Jerusalém fala como mãe e viúva (4.9-29): viu os filhos partirem em lágrimas e espera recebê-los de volta com alegria.
- O capítulo 5 manda a cidade tirar a veste de luto e vestir a glória que vem de Deus, com montes rebaixados para a volta.
- A Carta de Jeremias (capítulo 6) repete um refrão sobre os ídolos: não são deuses, portanto não os temais.
Leituras que se afastam do texto
O Baruc deste livro não é o Baruque secretário de Jeremias
É o mesmo nome em duas grafias. As edições católicas escrevem Baruc; as protestantes, Baruque, ao falar do escriba em Jeremias 32, 36 e 45. O livro se apresenta como obra desse companheiro do profeta, filho de Nerias (Baruc 1.1). A impressão de serem dois nasce de o leitor encontrar uma grafia no livro de Jeremias de uma edição e a outra no título do livro em outra edição.
A Carta de Jeremias é a carta do capítulo 29 de Jeremias
São dois textos. Em Jeremias 29, o profeta escreve aos já deportados e manda construir casas, plantar e orar pela cidade. A Carta de Jeremias, que as edições católicas trazem como Baruc 6, dirige-se aos que ainda serão levados e trata de um só assunto: os ídolos que eles verão na Babilônia não são deuses. Seu parentesco mais próximo é com a sátira de Jeremias 10.
Baruc continua o choro de Lamentações
A posição logo depois de Lamentações sugere isso, mas o movimento é outro. Baruc começa com confissão de culpa, passa por um poema sobre a sabedoria e termina em consolo: Jerusalém recebe a ordem de tirar a veste de luto e subir a um lugar alto para ver os filhos voltando (5.1-5). Onde Lamentações repete que não há quem console, Baruc diz coragem, meu povo.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quem é Baruc no livro de Jeremias?
- O escriba, filho de Nerias, que escreve o rolo ditado pelo profeta e o lê no templo (Jeremias 36).
- Onde o livro situa a leitura feita por Baruc?
- Na Babilônia, junto ao rio Sud, diante do rei exilado Jeconias e de todo o povo.
- Para quem os exilados enviam a coleta?
- Para o sacerdote Joaquim, em Jerusalém, a fim de oferecer sacrifícios no altar do Senhor.
- Por quais governantes os exilados pedem oração?
- Por Nabucodonosor, rei da Babilônia, e por seu filho Baltazar (Baruc 1.11).
- Com que frase a oração de confissão começa?
- Ao Senhor, nosso Deus, a justiça; a nós, a vergonha no rosto (Baruc 1.15).
- O que as estrelas respondem quando Deus as chama?
- Aqui estamos, e brilham com alegria para aquele que as fez (Baruc 3).
- Com que o poema identifica a sabedoria?
- Com o livro dos mandamentos de Deus, a lei que permanece para sempre (Baruc 4.1).
- Quanto tempo a Carta de Jeremias diz que o exílio vai durar?
- Muito tempo, até sete gerações, e depois Deus os tirará de lá em paz.
Débora Arantes
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