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Resumo do livro de Sofonias

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

O dia do Senhor está perto, e começa por Jerusalém: essa é a mensagem de Sofonias, que prega no reinado de Josias, quando a cidade ainda guardava altares de Baal e gente que jurava pelo Senhor e por outro deus ao mesmo tempo. O profeta descreve um dia de ira, trevas e trombeta, em que Deus vasculha a cidade com lanternas atrás dos acomodados, e nem prata nem ouro servem de resgate. O juízo se estende aos vizinhos, filisteus, Moabe, Amom, Cuxe e Assíria, e volta a Jerusalém, a cidade que não aceita correção. Mas há um convite, buscai o Senhor, e uma promessa: ficará um povo humilde e pobre. O livro acaba em festa, com Deus no meio de Sião, alegrando-se e cantando por ela.

Seis blocos do livro de Sofonias com seus versículos: Jerusalém julgada primeiro, o grande dia, o convite, as nações em volta, a cidade rebelde e o resto com o cântico final
Imagem: resumode.com.br

Quatro gerações num versículo

O título de Sofonias traz a genealogia mais longa entre os profetas: filho de Cusi, filho de Gedalias, filho de Amarias, filho de Ezequias (1.1). Nenhum outro livro profético recua tanto na família do autor. O versículo dá também a época, os dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá.

Josias subiu ao trono menino, no século VII a.C., depois dos longos anos de Manassés e do breve reinado de Amom, em que a idolatria se instalou em Jerusalém e dentro do templo. 2 Reis conta que, no décimo oitavo ano do seu governo, o livro da lei foi achado e o rei promoveu uma grande reforma. A Jerusalém que Sofonias descreve ainda tem o resto de Baal, o culto aos astros e sacerdotes de ídolos. É a cidade que a reforma encontrou.

Lá fora, a Assíria, que dominava a região havia mais de um século, começava a perder força. O livro tem três capítulos e um assunto que os atravessa: o dia do Senhor.

Tudo será varrido, a começar por Jerusalém

A abertura é uma das ameaças mais amplas dos livros proféticos. Deus vai varrer tudo da face da terra: homens e animais, aves do céu e peixes do mar (1.2-3). A lista percorre a criação em ordem inversa, como se ela fosse desfeita.

Logo a mira se fecha. A mão de Deus se estende contra Judá e contra os moradores de Jerusalém (1.4). Os alvos são nomeados: o que resta de Baal e os seus sacerdotes; os que sobem aos terraços para adorar o exército do céu; os que juram pelo Senhor e juram também por Milcom, deus dos amonitas; os que deixaram de seguir o Senhor e os que nunca o buscaram (1.4-6). O problema da cidade não é ter abandonado o seu Deus por outro. É ter posto outros ao lado dele.

Vem então a primeira menção ao dia, com uma imagem dura: o Senhor preparou um sacrifício e consagrou os convidados (1.7). Serão castigados os chefes, os filhos do rei e os que se vestem à moda estrangeira (1.8).

Lanternas na cidade

Sofonias conhece Jerusalém rua por rua. O grito sairá da Porta do Peixe, o lamento virá do bairro novo, o estrondo, das colinas. Os moradores do bairro dos mercadores devem chorar, porque acabou quem negocia e quem pesa a prata (1.10-11).

A cena mais lembrada vem a seguir. Deus vai esquadrinhar Jerusalém com lanternas e alcançar os homens que ficaram parados como vinho sobre a borra, e que dizem no coração: o Senhor não faz bem nem faz mal (1.12). Estes não adoram Baal nem negam Deus. Apenas contam que ele não interfere. Para eles a pena tem a forma da frustração: construirão casas e não morarão nelas, plantarão vinhas e não beberão o vinho (1.13).

Dia de ira, aquele dia

O centro do capítulo é um poema de frases que caem como golpes. O grande dia do Senhor está perto, perto e vem depressa; nele até o valente grita de amargura (1.14). Aquele dia é dia de ira, dia de angústia e aperto, dia de ruína e devastação, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e negrume, dia de trombeta e grito de guerra contra as cidades fortificadas (1.15-16).

Na tradução latina, o versículo 15 começa com as palavras que deram a primeira linha do hino medieval Dies irae.

Os homens andarão como cegos, porque pecaram contra o Senhor. E a segurança de quem tem posses não valerá: nem a prata nem o ouro poderão livrá-los (1.18).

Buscai o Senhor, talvez

Depois do pior anúncio vem o convite, em três versículos. A nação sem pudor é chamada a se reunir antes que o decreto se cumpra e o dia passe como palha levada pelo vento (2.1-2). E os humildes da terra, os que praticam o que Deus manda, ouvem três imperativos: buscai o Senhor, buscai a justiça, buscai a mansidão. Talvez sejam escondidos no dia da ira (2.3).

O talvez pesa. Sofonias não vende garantia. Indica o único caminho e deixa a decisão com Deus. Os humildes, citados aqui pela primeira vez, serão os protagonistas do final.

Em volta de Judá, pelos quatro lados

O juízo sai de Jerusalém e percorre os vizinhos, um em cada direção.

  • A oeste, os filisteus: Gaza, Asquelom, Asdode e Ecrom ficarão desertas, e o litoral virará pasto para o resto da casa de Judá (2.4-7).
  • A leste, Moabe e Amom, que insultaram o povo do Senhor: serão como Sodoma e Gomorra, campo de urtigas e poço de sal (2.8-11).
  • Ao sul, os de Cuxe, a Etiópia do texto, em uma única frase (2.12).
  • Ao norte, a Assíria: Nínive ficará seca como o deserto, e rebanhos e animais selvagens se deitarão nas suas colunas. Era a cidade alegre que dizia: eu sou, e não há outra além de mim (2.13-15).

No meio desses oráculos há uma linha de outro alcance: o Senhor reduzirá a nada os deuses da terra, e as nações distantes o adorarão, cada uma no seu lugar (2.11). O anúncio sobre Nínive coincide com o de Naum, que dedica à cidade o livro inteiro.

A cidade que não aceita correção

Quem lê o começo do capítulo 3 pensa que o ai ainda é contra Nínive. É contra Jerusalém: a cidade rebelde, manchada e opressora, que não ouve ninguém, não aceita disciplina, não confia no Senhor nem se aproxima do seu Deus (3.1-2). O profeta deixou os estrangeiros para trás e voltou para casa.

Cada grupo de liderança recebe uma linha. Os chefes são leões que rugem. Os juízes, lobos da tarde, que não deixam um osso para a manhã. Os profetas são levianos e traiçoeiros. Os sacerdotes profanam o que é santo e violentam a lei (3.3-4). A acusação é a mesma que Miqueias fizera um século antes, com imagens parecidas.

No meio dessa cidade há um que não falha. O Senhor é justo dentro dela, e a cada manhã traz à luz o seu juízo (3.5). Ele mostrou o que fez a outras nações, esperando que Jerusalém aprendesse, e ela madrugou para se corromper ainda mais (3.6-7).

Lábios puros e um povo humilde

A virada começa pelos povos. Deus dará a eles lábios puros, para que todos invoquem o seu nome e o sirvam ombro a ombro; de além dos rios de Cuxe virão adoradores com ofertas (3.9-10).

Em Jerusalém, a mudança é por subtração. Deus tirará do meio dela os que se orgulham da própria grandeza, e ninguém mais se exaltará no monte santo. Ficará um povo humilde e pobre, que confia no nome do Senhor. Esse resto não praticará injustiça nem falará mentira; pastará e se deitará sem que ninguém o assuste (3.11-13). A cidade dos leões e dos lobos termina como rebanho em paz.

O Deus que canta

As últimas linhas mudam de gênero. É um cântico: canta, filha de Sião; grita de alegria, Israel; alegra-te de todo o coração, Jerusalém (3.14). O motivo é jurídico e pessoal. O Senhor retirou as sentenças que havia contra ela e afastou o inimigo. O rei de Israel, o Senhor, está no meio dela, e não há mais mal a temer (3.15).

Então o livro diz algo que quase não se encontra em outro lugar da Bíblia. O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar. Ele se alegrará em ti com júbilo, te renovará no seu amor e exultará por tua causa com cânticos (3.17). No capítulo 1, o valente gritava de amargura. Aqui o valente é Deus, e ele canta.

O fecho promete recolher a que manca, reunir a expulsa e trazer o povo de volta (3.19-20). Sofonias é o último dos doze profetas menores antes do exílio. Os três que vêm depois já falam a quem voltou, e o primeiro deles, Ageu, encontra em Jerusalém exatamente isso: um povo pequeno e pobre, com um templo para reerguer.

Os pontos centrais

  1. O dia do Senhor é o centro do livro, descrito como dia de ira, angústia, trevas e trombeta em Sofonias 1.14-18.
  2. O juízo começa por Judá e Jerusalém, por causa de Baal, do culto aos astros e dos juramentos divididos entre o Senhor e Milcom (1.4-6).
  3. Sofonias 1.12 condena os acomodados, que dizem no coração que o Senhor não faz bem nem faz mal.
  4. O convite de Sofonias 2.3, buscai o Senhor, a justiça e a mansidão, vem com um talvez: porventura sereis escondidos no dia da ira.
  5. Os oráculos contra as nações cercam Judá pelos quatro lados: filisteus, Moabe e Amom, Cuxe, Assíria e Nínive (2.4-15).
  6. O final promete um resto humilde e pobre (3.12-13) e traz o cântico em que o próprio Deus se alegra por Sião (3.14-17).

Leituras que se afastam do texto

O dia do Senhor seria o dia da vitória de Judá sobre os inimigos

Era a expectativa comum, e Amós já a tinha contrariado: esse dia é trevas, e não luz (Amós 5.18). Sofonias segue o mesmo caminho e começa a lista por Judá e Jerusalém (1.4), com nomes de portas e de bairros. As nações vizinhas só entram no capítulo 2. O engano nasce de ler os oráculos contra os estrangeiros sem o capítulo que vem antes.

Sofonias só fala de ira e castigo

O livro abre com uma ameaça que alcança a terra inteira, mas dedica o trecho final a um cântico de alegria (3.14-20). Nele não há mais sentença contra Sião, o Senhor está no meio dela como rei, e é o próprio Deus quem se alegra e canta por causa do povo (3.17). A fama de livro sombrio vem do capítulo 1, de onde saiu a primeira linha do hino latino Dies irae.

O livro diz que Sofonias era da família real

O título recua quatro gerações, caso único entre os profetas, e chega a um Ezequias (1.1), mas não acrescenta rei de Judá ao nome. A genealogia longa sugere um antepassado ilustre, e uma tradição antiga o identifica com o rei Ezequias, o que faria do profeta parente de Josias. É leitura possível, que o versículo não declara.

O dia do Senhor é só outro nome para o fim do mundo

Em Sofonias o dia tem endereço e prazo: está perto (1.14) e atinge a Porta do Peixe, os mercadores de Jerusalém, Gaza, Nínive. Nínive caiu em 612 a.C., e Jerusalém, em 586 a.C. Ao mesmo tempo a linguagem ultrapassa esses fatos e fala de toda a terra (1.18; 3.8), e por isso o Novo Testamento retoma a expressão para o dia final.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Em que reinado Sofonias profetizou?
Nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá, conforme o primeiro versículo.
Que deus estrangeiro aparece nos juramentos ao lado do Senhor?
Milcom, deus dos amonitas, por quem alguns juravam ao mesmo tempo que juravam pelo Senhor (1.5).
Com que instrumento Deus vasculha Jerusalém?
Com lanternas, à procura dos homens acomodados como vinho parado sobre a borra (1.12).
Quais são as quatro cidades filisteias citadas?
Gaza, Asquelom, Asdode e Ecrom, todas ameaçadas de ficar desertas (2.4).
A que cidades Moabe e Amom são comparados?
A Sodoma e Gomorra, por terem insultado o povo do Senhor e se engrandecido contra ele (2.8-10).
O que Nínive dizia de si mesma, segundo Sofonias?
Eu sou, e não há outra além de mim, frase da cidade alegre que vira morada de animais (2.15).
A que animais são comparados os chefes e os juízes de Jerusalém?
Os chefes, a leões que rugem; os juízes, a lobos da tarde que não deixam osso para a manhã (3.3).
Que hino latino tira o seu começo de Sofonias 1.15?
O Dies irae, cujo primeiro verso repete a tradução latina de aquele dia é dia de ira.
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Débora Arantes

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