Resumo do livro de Sofonias
Por Débora Arantes 12 min de leitura
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O dia do Senhor está perto, e começa por Jerusalém: essa é a mensagem de Sofonias, que prega no reinado de Josias, quando a cidade ainda guardava altares de Baal e gente que jurava pelo Senhor e por outro deus ao mesmo tempo. O profeta descreve um dia de ira, trevas e trombeta, em que Deus vasculha a cidade com lanternas atrás dos acomodados, e nem prata nem ouro servem de resgate. O juízo se estende aos vizinhos, filisteus, Moabe, Amom, Cuxe e Assíria, e volta a Jerusalém, a cidade que não aceita correção. Mas há um convite, buscai o Senhor, e uma promessa: ficará um povo humilde e pobre. O livro acaba em festa, com Deus no meio de Sião, alegrando-se e cantando por ela.
Quatro gerações num versículo
O título de Sofonias traz a genealogia mais longa entre os profetas: filho de Cusi, filho de Gedalias, filho de Amarias, filho de Ezequias (1.1). Nenhum outro livro profético recua tanto na família do autor. O versículo dá também a época, os dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá.
Josias subiu ao trono menino, no século VII a.C., depois dos longos anos de Manassés e do breve reinado de Amom, em que a idolatria se instalou em Jerusalém e dentro do templo. 2 Reis conta que, no décimo oitavo ano do seu governo, o livro da lei foi achado e o rei promoveu uma grande reforma. A Jerusalém que Sofonias descreve ainda tem o resto de Baal, o culto aos astros e sacerdotes de ídolos. É a cidade que a reforma encontrou.
Lá fora, a Assíria, que dominava a região havia mais de um século, começava a perder força. O livro tem três capítulos e um assunto que os atravessa: o dia do Senhor.
Tudo será varrido, a começar por Jerusalém
A abertura é uma das ameaças mais amplas dos livros proféticos. Deus vai varrer tudo da face da terra: homens e animais, aves do céu e peixes do mar (1.2-3). A lista percorre a criação em ordem inversa, como se ela fosse desfeita.
Logo a mira se fecha. A mão de Deus se estende contra Judá e contra os moradores de Jerusalém (1.4). Os alvos são nomeados: o que resta de Baal e os seus sacerdotes; os que sobem aos terraços para adorar o exército do céu; os que juram pelo Senhor e juram também por Milcom, deus dos amonitas; os que deixaram de seguir o Senhor e os que nunca o buscaram (1.4-6). O problema da cidade não é ter abandonado o seu Deus por outro. É ter posto outros ao lado dele.
Vem então a primeira menção ao dia, com uma imagem dura: o Senhor preparou um sacrifício e consagrou os convidados (1.7). Serão castigados os chefes, os filhos do rei e os que se vestem à moda estrangeira (1.8).
Lanternas na cidade
Sofonias conhece Jerusalém rua por rua. O grito sairá da Porta do Peixe, o lamento virá do bairro novo, o estrondo, das colinas. Os moradores do bairro dos mercadores devem chorar, porque acabou quem negocia e quem pesa a prata (1.10-11).
A cena mais lembrada vem a seguir. Deus vai esquadrinhar Jerusalém com lanternas e alcançar os homens que ficaram parados como vinho sobre a borra, e que dizem no coração: o Senhor não faz bem nem faz mal (1.12). Estes não adoram Baal nem negam Deus. Apenas contam que ele não interfere. Para eles a pena tem a forma da frustração: construirão casas e não morarão nelas, plantarão vinhas e não beberão o vinho (1.13).
Dia de ira, aquele dia
O centro do capítulo é um poema de frases que caem como golpes. O grande dia do Senhor está perto, perto e vem depressa; nele até o valente grita de amargura (1.14). Aquele dia é dia de ira, dia de angústia e aperto, dia de ruína e devastação, dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e negrume, dia de trombeta e grito de guerra contra as cidades fortificadas (1.15-16).
Na tradução latina, o versículo 15 começa com as palavras que deram a primeira linha do hino medieval Dies irae.
Os homens andarão como cegos, porque pecaram contra o Senhor. E a segurança de quem tem posses não valerá: nem a prata nem o ouro poderão livrá-los (1.18).
Buscai o Senhor, talvez
Depois do pior anúncio vem o convite, em três versículos. A nação sem pudor é chamada a se reunir antes que o decreto se cumpra e o dia passe como palha levada pelo vento (2.1-2). E os humildes da terra, os que praticam o que Deus manda, ouvem três imperativos: buscai o Senhor, buscai a justiça, buscai a mansidão. Talvez sejam escondidos no dia da ira (2.3).
O talvez pesa. Sofonias não vende garantia. Indica o único caminho e deixa a decisão com Deus. Os humildes, citados aqui pela primeira vez, serão os protagonistas do final.
Em volta de Judá, pelos quatro lados
O juízo sai de Jerusalém e percorre os vizinhos, um em cada direção.
- A oeste, os filisteus: Gaza, Asquelom, Asdode e Ecrom ficarão desertas, e o litoral virará pasto para o resto da casa de Judá (2.4-7).
- A leste, Moabe e Amom, que insultaram o povo do Senhor: serão como Sodoma e Gomorra, campo de urtigas e poço de sal (2.8-11).
- Ao sul, os de Cuxe, a Etiópia do texto, em uma única frase (2.12).
- Ao norte, a Assíria: Nínive ficará seca como o deserto, e rebanhos e animais selvagens se deitarão nas suas colunas. Era a cidade alegre que dizia: eu sou, e não há outra além de mim (2.13-15).
No meio desses oráculos há uma linha de outro alcance: o Senhor reduzirá a nada os deuses da terra, e as nações distantes o adorarão, cada uma no seu lugar (2.11). O anúncio sobre Nínive coincide com o de Naum, que dedica à cidade o livro inteiro.
A cidade que não aceita correção
Quem lê o começo do capítulo 3 pensa que o ai ainda é contra Nínive. É contra Jerusalém: a cidade rebelde, manchada e opressora, que não ouve ninguém, não aceita disciplina, não confia no Senhor nem se aproxima do seu Deus (3.1-2). O profeta deixou os estrangeiros para trás e voltou para casa.
Cada grupo de liderança recebe uma linha. Os chefes são leões que rugem. Os juízes, lobos da tarde, que não deixam um osso para a manhã. Os profetas são levianos e traiçoeiros. Os sacerdotes profanam o que é santo e violentam a lei (3.3-4). A acusação é a mesma que Miqueias fizera um século antes, com imagens parecidas.
No meio dessa cidade há um que não falha. O Senhor é justo dentro dela, e a cada manhã traz à luz o seu juízo (3.5). Ele mostrou o que fez a outras nações, esperando que Jerusalém aprendesse, e ela madrugou para se corromper ainda mais (3.6-7).
Lábios puros e um povo humilde
A virada começa pelos povos. Deus dará a eles lábios puros, para que todos invoquem o seu nome e o sirvam ombro a ombro; de além dos rios de Cuxe virão adoradores com ofertas (3.9-10).
Em Jerusalém, a mudança é por subtração. Deus tirará do meio dela os que se orgulham da própria grandeza, e ninguém mais se exaltará no monte santo. Ficará um povo humilde e pobre, que confia no nome do Senhor. Esse resto não praticará injustiça nem falará mentira; pastará e se deitará sem que ninguém o assuste (3.11-13). A cidade dos leões e dos lobos termina como rebanho em paz.
O Deus que canta
As últimas linhas mudam de gênero. É um cântico: canta, filha de Sião; grita de alegria, Israel; alegra-te de todo o coração, Jerusalém (3.14). O motivo é jurídico e pessoal. O Senhor retirou as sentenças que havia contra ela e afastou o inimigo. O rei de Israel, o Senhor, está no meio dela, e não há mais mal a temer (3.15).
Então o livro diz algo que quase não se encontra em outro lugar da Bíblia. O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar. Ele se alegrará em ti com júbilo, te renovará no seu amor e exultará por tua causa com cânticos (3.17). No capítulo 1, o valente gritava de amargura. Aqui o valente é Deus, e ele canta.
O fecho promete recolher a que manca, reunir a expulsa e trazer o povo de volta (3.19-20). Sofonias é o último dos doze profetas menores antes do exílio. Os três que vêm depois já falam a quem voltou, e o primeiro deles, Ageu, encontra em Jerusalém exatamente isso: um povo pequeno e pobre, com um templo para reerguer.
Os pontos centrais
- O dia do Senhor é o centro do livro, descrito como dia de ira, angústia, trevas e trombeta em Sofonias 1.14-18.
- O juízo começa por Judá e Jerusalém, por causa de Baal, do culto aos astros e dos juramentos divididos entre o Senhor e Milcom (1.4-6).
- Sofonias 1.12 condena os acomodados, que dizem no coração que o Senhor não faz bem nem faz mal.
- O convite de Sofonias 2.3, buscai o Senhor, a justiça e a mansidão, vem com um talvez: porventura sereis escondidos no dia da ira.
- Os oráculos contra as nações cercam Judá pelos quatro lados: filisteus, Moabe e Amom, Cuxe, Assíria e Nínive (2.4-15).
- O final promete um resto humilde e pobre (3.12-13) e traz o cântico em que o próprio Deus se alegra por Sião (3.14-17).
Leituras que se afastam do texto
O dia do Senhor seria o dia da vitória de Judá sobre os inimigos
Era a expectativa comum, e Amós já a tinha contrariado: esse dia é trevas, e não luz (Amós 5.18). Sofonias segue o mesmo caminho e começa a lista por Judá e Jerusalém (1.4), com nomes de portas e de bairros. As nações vizinhas só entram no capítulo 2. O engano nasce de ler os oráculos contra os estrangeiros sem o capítulo que vem antes.
Sofonias só fala de ira e castigo
O livro abre com uma ameaça que alcança a terra inteira, mas dedica o trecho final a um cântico de alegria (3.14-20). Nele não há mais sentença contra Sião, o Senhor está no meio dela como rei, e é o próprio Deus quem se alegra e canta por causa do povo (3.17). A fama de livro sombrio vem do capítulo 1, de onde saiu a primeira linha do hino latino Dies irae.
O livro diz que Sofonias era da família real
O título recua quatro gerações, caso único entre os profetas, e chega a um Ezequias (1.1), mas não acrescenta rei de Judá ao nome. A genealogia longa sugere um antepassado ilustre, e uma tradição antiga o identifica com o rei Ezequias, o que faria do profeta parente de Josias. É leitura possível, que o versículo não declara.
O dia do Senhor é só outro nome para o fim do mundo
Em Sofonias o dia tem endereço e prazo: está perto (1.14) e atinge a Porta do Peixe, os mercadores de Jerusalém, Gaza, Nínive. Nínive caiu em 612 a.C., e Jerusalém, em 586 a.C. Ao mesmo tempo a linguagem ultrapassa esses fatos e fala de toda a terra (1.18; 3.8), e por isso o Novo Testamento retoma a expressão para o dia final.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Em que reinado Sofonias profetizou?
- Nos dias de Josias, filho de Amom, rei de Judá, conforme o primeiro versículo.
- Que deus estrangeiro aparece nos juramentos ao lado do Senhor?
- Milcom, deus dos amonitas, por quem alguns juravam ao mesmo tempo que juravam pelo Senhor (1.5).
- Com que instrumento Deus vasculha Jerusalém?
- Com lanternas, à procura dos homens acomodados como vinho parado sobre a borra (1.12).
- Quais são as quatro cidades filisteias citadas?
- Gaza, Asquelom, Asdode e Ecrom, todas ameaçadas de ficar desertas (2.4).
- A que cidades Moabe e Amom são comparados?
- A Sodoma e Gomorra, por terem insultado o povo do Senhor e se engrandecido contra ele (2.8-10).
- O que Nínive dizia de si mesma, segundo Sofonias?
- Eu sou, e não há outra além de mim, frase da cidade alegre que vira morada de animais (2.15).
- A que animais são comparados os chefes e os juízes de Jerusalém?
- Os chefes, a leões que rugem; os juízes, a lobos da tarde que não deixam osso para a manhã (3.3).
- Que hino latino tira o seu começo de Sofonias 1.15?
- O Dies irae, cujo primeiro verso repete a tradução latina de aquele dia é dia de ira.
Débora Arantes
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