Resumo do livro do Eclesiástico
Por Débora Arantes 13 min de leitura
Em 30 segundos
Um mestre de Jerusalém, Jesus, filho de Sirac, pôs por escrito em hebraico, por volta de 180 a.C., o que ensinou a vida inteira, e o neto traduziu a obra para o grego no Egito. O resultado é o mais longo dos livros de sabedoria: cinquenta e um capítulos de conselhos sobre pais e filhos, amigos, palavra, dinheiro, mesa, saúde, trabalho e culto, entremeados de hinos. No centro, a Sabedoria conta que saiu da boca do Altíssimo e armou a tenda em Sião, e o autor a identifica com a lei de Moisés. Os capítulos 44 a 50 fazem o elogio dos antepassados, de Enoque ao sumo sacerdote Simão. Apesar do nome parecido, não é o Eclesiastes: são dois livros, de autores, tamanhos e tons diferentes.
Um livro com assinatura e prefácio
Poucos livros do Antigo Testamento dizem quem os escreveu e como chegaram ao leitor. Este diz as duas coisas. Perto do fim, o autor assina: Jesus, filho de Sirac, de Jerusalém (capítulo 50). E antes do primeiro capítulo há um prólogo, escrito pelo neto.
O neto conta que o avô se dedicou por muito tempo à leitura da Lei, dos Profetas e dos outros livros dos antepassados, e que resolveu escrever ele mesmo algo de instrução e sabedoria. Conta também que chegou ao Egito no trigésimo oitavo ano do rei Evérgetes e ali traduziu a obra do hebraico para o grego. Pede indulgência, porque o que foi dito em hebraico não conserva a mesma força em outra língua.
Com esses dados, o livro costuma ser situado por volta de 180 a.C., e a tradução, depois de 132 a.C. Jerusalém vivia então sob reinos de cultura grega, pouco antes da perseguição narrada em 1 Macabeus. Ben Sira mantinha uma casa de ensino, tinha viajado e se via como o último de uma longa fila: aquele que recolhe os cachos depois dos vindimadores.
Dois nomes parecidos, dois livros
A troca com Eclesiastes é a confusão mais comum em torno do livro, e se desfaz com poucos dados.
| Eclesiastes | Eclesiástico | |
|---|---|---|
| Quem fala | Coélet, o Pregador | Jesus, filho de Sirac |
| Tamanho | 12 capítulos | 51 capítulos |
| Tom | Investigação: tudo é vaidade | Instrução: conselhos e hinos |
| Onde aparece | Em todas as Bíblias | Nas edições católicas e ortodoxas |
| Abreviatura usual | Ecl | Eclo |
O nome Eclesiástico é latino e significa livro da igreja, pelo uso constante que dele se fez na instrução dos fiéis. Sirácida vem do nome do pai do autor. O título mais antigo é Sabedoria de Jesus, filho de Sirac.
Em casa, com os amigos, diante de Deus
O livro abre como Provérbios: toda sabedoria vem do Senhor, e o temor do Senhor é o seu começo. Daí em diante, o mestre fala ao discípulo, que chama de filho, em blocos mais longos que os ditos de Salomão. Um assunto é desenvolvido por dez ou vinte versos, e depois vem outro.
O capítulo 2 avisa o que espera quem leva Deus a sério: filho, se te dispões a servir o Senhor, prepara-te para a prova. O ouro se prova no fogo. O capítulo 3 trata dos pais. Quem honra o pai alcança o perdão dos pecados, e o filho deve amparar o pai na velhice, mesmo que ele perca o juízo. No mesmo capítulo estão a humildade, quanto maior fores, mais te humilha, e a esmola, que apaga o pecado como a água apaga o fogo.
A amizade recebe uma atenção que nenhum outro livro bíblico lhe dá. Há o amigo de ocasião, que some no dia da aflição, e o companheiro de mesa. Por isso, não confies depressa. Mas o amigo fiel é abrigo seguro, e quem o encontrou achou um tesouro (capítulo 6). Não abandones o amigo antigo: amigo novo é vinho novo, e só se bebe com gosto depois de envelhecido.
Outros conselhos desta parte ficaram proverbiais. Quem toca no piche se suja. Antes da morte, não chames ninguém de feliz. O capítulo 15 defende a liberdade humana: não digas que foi o Senhor quem te fez pecar. Ele criou o homem e o deixou nas mãos da própria decisão, e pôs diante dele o fogo e a água, a vida e a morte.
A Sabedoria arma a tenda em Sião
O capítulo 24 fica no meio do livro e é o seu centro. A Sabedoria toma a palavra na assembleia do Altíssimo e conta a própria história. Saiu da boca de Deus e cobriu a terra como névoa. Percorreu sozinha o céu e o fundo do abismo, e em todos os povos procurou um lugar de repouso. Então o Criador lhe deu uma ordem: arma a tua tenda em Jacó. Ela se estabeleceu em Sião e ali cresceu, como o cedro do Líbano, a palmeira de En-Gedi, as roseiras de Jericó e a videira.
Depois do convite, vinde a mim, vós que me desejais, o autor explica de quem está falando. Tudo isso é o livro da aliança do Deus Altíssimo, a lei que Moisés prescreveu. Em Provérbios 8, a Sabedoria estava junto de Deus antes da criação. Aqui ela ganha endereço: mora em Jerusalém e pode ser lida.
Ben Sira fala então de si mesmo. Começou como um canal que sai de um rio para regar o próprio jardim, e o canal virou rio, e o rio virou mar.
A língua, a mesa e o médico
A segunda metade segue o mesmo método e desce a detalhes de convivência.
- A palavra. O golpe do chicote deixa marca, e o da língua quebra ossos. Muitos caíram pela espada, mas não tantos quantos pela língua (capítulo 28).
- O perdão. Perdoa ao próximo a ofensa, e então, quando orares, os teus pecados serão perdoados. Como pode alguém guardar ira contra outro e pedir a Deus a cura?
- Os bens. Emprestar ao próximo é obra de misericórdia. Feliz o rico que foi achado sem culpa. Melhor um pobre com saúde do que um rico doente.
- A mesa. Não ser o primeiro a estender a mão, comer como gente educada, beber com medida. O vinho é vida para o homem, quando tomado com moderação.
- O culto. A oferta feita com bens tirados do pobre não agrada a Deus. Cumprir a lei vale por muitos sacrifícios, e a oração do humilde atravessa as nuvens (capítulo 35).
O capítulo 38 contém um elogio raro: honra o médico, porque o Senhor o criou. A cura vem do Altíssimo, que fez sair da terra os remédios. O doente ora, afasta-se do pecado e depois dá lugar ao médico.
Em seguida o autor compara os ofícios. O lavrador, o gravador, o ferreiro e o oleiro vivem atentos ao seu trabalho, e sem eles nenhuma cidade se constrói. São eles que sustentam o mundo. Já o escriba, que tem tempo livre para estudar, investiga a sabedoria dos antigos, serve entre os grandes e viaja por terras estrangeiras. É o retrato que Ben Sira faz do próprio ofício.
Ele é tudo
Antes de entrar na história, o livro para diante da criação. Vou recordar as obras do Senhor, anuncia o autor, e passa em revista o sol, que queima a terra ao meio-dia; a lua, que marca os meses e as festas; as estrelas, que não cansam nos seus postos; o arco-íris, a neve, a geada, o mar e os seus monstros.
A conclusão recusa o inventário. Poderíamos dizer muito e não chegaríamos ao fim, e a palavra que resume é esta: ele é tudo (capítulo 43).
De Enoque a Simão
Façamos o elogio dos homens ilustres, nossos antepassados. Com essa frase começa, no capítulo 44, a seção mais conhecida. Ben Sira percorre a Escritura como uma galeria:
- Enoque, Noé, Abraão, Isaque e Jacó;
- Moisés, Aarão, a quem dedica um longo trecho por causa do sacerdócio, e Fineias;
- Josué, Calebe, os juízes e Samuel;
- Natã, Davi e Salomão, este louvado pela sabedoria e censurado pelo fim da vida;
- Elias, que surgiu como fogo, e Eliseu;
- Ezequias com Isaías, Josias, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas;
- Zorobabel, o sacerdote Josué e Neemias.
A menção aos doze profetas em conjunto mostra que esses livros já eram lidos como uma só coleção. O juízo sobre os reis é o mesmo dos livros históricos: fora Davi, Ezequias e Josias, todos pecaram.
A galeria termina num contemporâneo. Simão, filho de Onias, sumo sacerdote, é descrito saindo do santuário como a estrela da manhã entre as nuvens, enquanto os sacerdotes tocam as trombetas e o povo se prostra para receber a bênção (capítulo 50). A história contada desemboca no culto que o autor viu com os próprios olhos.
O hebraico que voltou
Depois da assinatura, o capítulo 51 traz uma oração de ação de graças e um poema em que o mestre lembra como buscou a sabedoria desde jovem. O convite final é o de um professor: aproximai-vos, vós que não tendes instrução, e ponde o pescoço sob o jugo dela. Jesus usará imagem próxima ao chamar os cansados para tomar o seu jugo (Mateus 11).
O texto teve um caminho próprio. Lido por séculos em grego e em latim, ficou sem o original hebraico, que deixou de ser copiado. No fim do século XIX, folhas dele reapareceram numa sinagoga do Cairo. Outras vieram depois de Qumran e de Massada, e hoje se conhece boa parte do hebraico.
Na ordem das edições que o trazem, o Eclesiástico vem depois do livro da Sabedoria e fecha o conjunto dos sapienciais. O que ele acrescenta a esse conjunto é a junção de dois caminhos que corriam lado a lado. A sabedoria do dia a dia e a história de Israel, com a sua lei e o seu templo, passam a ser uma coisa só.
Os pontos centrais
- A identidade do livro: Eclesiástico, Sirácida e Sabedoria de Jesus, filho de Sirac, são nomes da mesma obra, distinta de Eclesiastes.
- O prólogo do neto, que explica a tradução do hebraico para o grego e menciona a Lei, os Profetas e os outros escritos.
- O ponto de partida, o mesmo de Provérbios: toda sabedoria vem do Senhor, e temê-lo é o começo dela (capítulo 1).
- O capítulo 24, em que a Sabedoria fala de si, fixa morada em Jerusalém e é identificada com o livro da aliança, a lei de Moisés.
- O elogio dos antepassados (capítulos 44 a 50), que percorre a história de Israel de Enoque até o sumo sacerdote Simão.
- A assinatura do autor no capítulo 50, coisa rara no Antigo Testamento, seguida de uma oração e de um poema final no 51.
Leituras que se afastam do texto
Eclesiástico é só outro nome de Eclesiastes
São dois livros. Eclesiastes tem doze capítulos, fala pela voz do Pregador e gira em torno da frase tudo é vaidade; está em todas as Bíblias. Eclesiástico tem cinquenta e um capítulos, é assinado por Jesus, filho de Sirac, e reúne conselhos e hinos; vem nas edições católicas e ortodoxas. Os nomes se parecem porque os dois derivam da palavra para assembleia, um pelo grego, o outro pelo latim.
Eclesiástico é um livro de normas para padres e bispos
O título vem do latim e quer dizer livro da igreja, pelo muito que foi usado na instrução dos fiéis nos primeiros séculos. O conteúdo serve a qualquer pessoa: como tratar os pais, escolher amigos, falar, emprestar, comportar-se à mesa, procurar o médico. É o sentido atual da palavra eclesiástico, ligado ao clero, que sugere o engano. O nome mais antigo é Sabedoria de Jesus, filho de Sirac.
O livro foi escrito em grego, como o da Sabedoria
O prólogo conta o contrário: o avô do tradutor escreveu em hebraico, e o neto, chegado ao Egito, verteu a obra para o grego, avisando que as coisas não têm a mesma força quando passam para outra língua. O texto hebraico deixou de circular por muitos séculos, e o livro foi lido em grego e em latim. Folhas do original reapareceram no Cairo, no fim do século XIX, e depois em Qumran e em Massada.
O Jesus que assina o livro é Jesus de Nazaré
Jesus é a forma grega de um nome hebraico comum, o mesmo de Josué. O autor do Eclesiástico é um mestre de Jerusalém que viveu perto de dois séculos antes do nascimento de Cristo e se identifica no fim da obra como Jesus, filho de Sirac (capítulo 50). Para evitar a confusão, muitos o chamam de Ben Sira, que é filho de Sirac em hebraico, ou simplesmente de Sirácida.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quem traduziu o livro para o grego?
- O neto do autor, que chegou ao Egito no trigésimo oitavo ano do rei Evérgetes e conta isso no prólogo.
- A que o capítulo 6 compara o amigo fiel?
- A um abrigo seguro: quem o encontrou achou um tesouro, e nada se iguala ao seu valor.
- Que escolha o capítulo 15 põe diante do homem?
- O fogo e a água, a vida e a morte: a cada um será dado aquilo que preferir.
- Onde a Sabedoria arma a sua tenda no capítulo 24?
- Em Jacó, na cidade amada: o Criador lhe ordena que tome Israel por herança.
- Que condição o capítulo 28 liga ao perdão dos pecados?
- Perdoar a ofensa do próximo; então, quando a pessoa orar, os seus pecados serão perdoados.
- Por que o capítulo 38 manda honrar o médico?
- Porque foi o Senhor quem o criou, e a cura vem do Altíssimo, que também fez sair da terra os remédios.
- Como o capítulo 43 resume o louvor ao Criador?
- Depois de percorrer o sol, a lua, as estrelas e o arco-íris, com três palavras: ele é tudo.
- Com quem termina o elogio dos antepassados?
- Com Simão, filho de Onias, sumo sacerdote, descrito ao sair do santuário diante do povo (capítulo 50).
Débora Arantes
Resumos da Bíblia
Escreve os resumos da estante Bíblia, livro por livro, com estrutura, contexto e as leituras de cada tradição. Lê cada livro inteiro em mais de uma tradução antes de escrever e marca, capítulo por capítulo, onde o texto muda de gênero ou de voz. É desse mapa que sai a estrutura de cada resumo.

