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Resumo do livro da Sabedoria

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

Amai a justiça, vós que governais a terra: assim começa o livro da Sabedoria, escrito em grego e posto na boca de um rei de Israel com os traços de Salomão. A primeira parte opõe os ímpios, que decidem gozar a vida e perseguir o justo, ao destino que eles não enxergam: as almas dos justos estão na mão de Deus (Sabedoria 3.1). A segunda é o elogio da Sabedoria, reflexo da luz eterna, e a oração em que o rei a pede. A terceira relê a história, de Adão ao êxodo, mostrando a Sabedoria que salva, as pragas do Egito postas ao lado dos dons recebidos no deserto e a tolice de adorar ídolos. A última frase resume tudo: em todo tempo e lugar Deus assistiu o seu povo.

As três partes do livro da Sabedoria em colunas, com os assuntos de cada uma: o destino do justo, o elogio da Sabedoria e a Sabedoria na história
Imagem: resumode.com.br

A voz de um rei, em grego

Sabedoria é um discurso de dezenove capítulos, escrito em grego. Quem fala é um rei de Israel que não diz o próprio nome, mas conta que pediu a Deus a sabedoria e que recebeu a ordem de construir o templo. É a figura de Salomão, e por isso o livro é conhecido também como Sabedoria de Salomão. A origem costuma ser situada entre os judeus de Alexandria, no Egito, nos últimos tempos antes de Cristo.

O livro se dirige, logo na primeira linha, aos que governam: amai a justiça, vós que julgais a terra (1.1). Por trás dos reis estão todos os leitores, e em especial os fiéis que viviam cercados por outra cultura, por outros cultos e pela zombaria de quem os achava ingênuos.

O percurso tem três partes. A primeira trata do destino dos justos e dos ímpios. A segunda faz o elogio da Sabedoria. A terceira percorre a história, de Adão à saída do Egito.

Deus não fez a morte

O primeiro capítulo dá o tom. A Sabedoria não entra em alma que trama o mal, e o espírito do Senhor enche o universo e conhece cada palavra. Depois vem uma das frases mais fortes do livro: Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos (1.13). Ele criou tudo para existir. São os ímpios que chamam a morte com gestos e palavras e fazem aliança com ela.

O capítulo 2 lhes dá a palavra, num discurso em duas etapas. Primeiro, o raciocínio: a vida é breve e triste, nascemos por acaso, o fôlego é fumaça e depois não haverá nada. Logo, aproveitemos, coroemo-nos de rosas antes que murchem. Segundo, a consequência: que a nossa força seja a lei. Oprimamos o justo pobre e não poupemos a viúva.

O justo os incomoda. Ele censura o modo como vivem e se gloria de ter Deus por pai. Decidem testá-lo: se o justo é filho de Deus, Deus o livrará. Vamos condená-lo a uma morte vergonhosa (2.18 a 20). Os evangelhos da paixão registram zombaria muito próxima aos pés da cruz (Mateus 27.43).

O autor fecha o capítulo com o diagnóstico. Eles se enganam, porque Deus criou o homem para a incorruptibilidade, e foi pela inveja do diabo que a morte entrou no mundo (2.23 e 24).

O que os ímpios não viram

A resposta ocupa os capítulos 3 a 5 e começa por uma frase conhecida: as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento as tocará. Aos olhos dos insensatos pareceram morrer, e a sua partida foi tida por desgraça. Mas eles estão em paz, e a sua esperança é cheia de imortalidade. Deus os provou como o ouro no crisol.

O livro enfrenta então os casos que pareciam maldição. A mulher estéril e o homem sem filhos valem mais, se forem fiéis, do que uma descendência numerosa de ímpios. O justo que morre cedo não foi derrotado: a velhice honrada não se mede pelo número de anos.

No capítulo 5 a cena se inverte. O justo está de pé, confiante, diante dos que o oprimiram, e são eles que falam, espantados. Este é aquele de quem ríamos. De que nos serviu o orgulho? Tudo passou como sombra, como o navio que corta a água sem deixar rastro, como a flecha no ar. E a conclusão: os justos vivem para sempre (5.15).

Mais bela que o sol

A segunda parte volta aos reis. O poder deles vem do Senhor, e o julgamento dos grandes será mais rigoroso. O remédio é buscar a Sabedoria, que não se esconde: quem madruga por ela a encontra sentada à sua porta (6.14).

O rei conta então a própria experiência. Ele é mortal como todos, e o seu primeiro som foi o choro, igual ao de qualquer criança. Orou, e a inteligência lhe foi dada. Preferiu a Sabedoria a cetros e tronos, e com ela vieram todos os outros bens.

O capítulo 7 a descreve com uma longa série de qualidades: um espírito inteligente, santo, único e múltiplo, sutil, ágil, amigo do bem. Depois, as imagens que ficaram: ela é sopro do poder de Deus, reflexo da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus e imagem da sua bondade (7.25 e 26). Sendo uma só, tudo pode, e de geração em geração entra nas almas santas e forma amigos de Deus e profetas. É mais bela que o sol. Estende-se de um extremo ao outro do mundo e governa tudo com suavidade (8.1).

O capítulo 9 é a oração em que o rei a pede. Deus dos pais e Senhor de misericórdia, dá-me a Sabedoria que se assenta junto ao teu trono. Sou teu servo, homem fraco e de vida breve. O argumento é a pequenez humana: mal adivinhamos o que há na terra; quem conheceria o desígnio de Deus, se ele não enviasse do alto a sua Sabedoria?

Uma história sem nomes

O capítulo 10 faz a passagem para a terceira parte. Conta a história sagrada desde o começo, e sem um único nome de pessoa. O leitor reconhece cada figura pelo que lhe acontece.

A Sabedoria protegeu o primeiro homem, pai do mundo, e o levantou da queda. Um injusto se afastou dela e matou o irmão. Quando a terra foi submersa, ela a salvou conduzindo o justo num lenho. Guardou o justo que teve de ser forte diante do próprio filho, livrou o que fugia do fogo caído sobre as cidades, guiou o que escapava da ira do irmão, não abandonou o justo vendido. Por fim entrou na alma de um servo do Senhor, que enfrentou reis temíveis e fez o povo atravessar o mar. São Adão, Caim, Noé, Abraão, Ló, Jacó, José e Moisés, na ordem de Gênesis e do começo do Êxodo.

Com medida, número e peso

Do capítulo 11 em diante o livro medita sobre o que o Êxodo narra. O princípio é enunciado cedo: aquilo que serviu de castigo aos inimigos tornou-se benefício para o povo em apuros. O Egito teve o rio turvado de sangue; Israel, sedento, recebeu água da rocha.

Antes de seguir com os contrastes, o autor para e pergunta por que Deus castigou aos poucos. Ele poderia ter enviado feras ou destruído tudo com um sopro. Mas dispôs todas as coisas com medida, número e peso (11.20). O mundo inteiro é diante dele como um grão na balança, e mesmo assim ele tem compaixão de todos, porque ama tudo o que existe: Senhor, amigo da vida. Corrige pouco a pouco, dando lugar ao arrependimento, e com isso ensina que o justo deve ser humano.

O resto da lenha

Os capítulos 13 a 15 tratam da idolatria em degraus. Primeiro, os que tomaram por deuses o fogo, o vento e os astros. Merecem censura menor, porque se encantaram com a beleza das criaturas. Ainda assim erraram: pela grandeza e beleza das criaturas se chega, por comparação, a contemplar o seu autor (13.5). Paulo raciocina do mesmo modo no começo da carta aos Romanos.

Depois, os que adoram obra de mãos humanas. O retrato do carpinteiro é irônico. Ele corta uma árvore, faz um utensílio útil, queima as sobras para cozinhar e se fartar. Do resto, um pedaço torto e cheio de nós, esculpe uma figura, pinta, prende na parede para que não caia, e a ela pede saúde e boa viagem. O capítulo 14 aponta como o costume começa: um pai em luto faz a imagem do filho morto, e súditos fazem a de um rei distante. No último degrau estão os que adoram animais.

A noite em que a Palavra desceu

Os contrastes retomam e vão até o fim. Animais atormentaram o Egito; Israel recebeu codornizes. Insetos mataram; os feridos pelas serpentes foram curados, e não pelo que viam, mas por ti, Salvador de todos. Granizo e fogo destruíram as colheitas; o povo comeu o pão dos anjos, com todos os sabores.

O capítulo 17 descreve as trevas por dentro: os egípcios, prisioneiros de uma longa noite, assustados por ruídos e pela própria consciência, enquanto para os santos havia luz e uma coluna de fogo. No 18 vem a noite da Páscoa. Um silêncio profundo envolvia todas as coisas, e a noite ia pelo meio do seu curso, quando a Palavra todo-poderosa desceu do trono real como um guerreiro. O último quadro é o mar, em que a criação parece refeita para dar passagem ao povo.

Palavras novas para a esperança

Sabedoria diz em vocabulário grego o que Israel recebeu. A figura que em Provérbios chamava nas praças é agora reflexo da luz eterna, e a carta aos Hebreus fala do Filho como resplendor da glória de Deus em termos muito próximos.

A contribuição mais própria está na primeira parte. Eclesiastes registrava que, debaixo do sol, o justo e o ímpio têm o mesmo fim. Sabedoria olha para além desse horizonte e afirma com todas as letras que a morte do justo não é a última palavra. É com essa linguagem de imortalidade e de vida junto de Deus que o Novo Testamento vai trabalhar. Na ordem das edições que o trazem, o livro seguinte é o Eclesiástico, que volta ao ensino do dia a dia.

Os pontos centrais

  1. As três partes do livro: o destino dos justos e dos ímpios (1 a 5), o elogio da Sabedoria (6 a 9) e a Sabedoria na história (10 a 19).
  2. A afirmação de que Deus não fez a morte e criou o homem para a incorruptibilidade, à imagem do seu próprio ser (Sabedoria 1.13 e 2.23).
  3. O discurso dos ímpios no capítulo 2, que decidem pôr à prova o justo que chama Deus de pai e condená-lo a uma morte vergonhosa.
  4. A esperança dos capítulos 3 a 5: as almas dos justos estão na mão de Deus, e a morte deles só parece desgraça aos olhos dos insensatos.
  5. A Sabedoria descrita como sopro do poder de Deus, reflexo da luz eterna e imagem da sua bondade (Sabedoria 7.25 e 26).
  6. A releitura do êxodo nos capítulos 11 a 19, em que aquilo que castiga o Egito é o mesmo que socorre Israel no deserto.

Leituras que se afastam do texto

O livro da Sabedoria é uma coleção de provérbios, como o de Salomão

Provérbios reúne ditos curtos e independentes. Sabedoria é um discurso contínuo, em três movimentos, com argumentos longos, uma oração que ocupa um capítulo inteiro e uma meditação sobre o êxodo que toma quase a metade do texto. A confusão nasce do nome e da figura de Salomão, comuns aos dois, e do fato de sabedoria ser também o nome do conjunto, os livros sapienciais.

Salomão assina o livro da Sabedoria logo na abertura

Nenhum nome de pessoa aparece no texto, nem o do rei que fala, nem os dos personagens da história. Quem fala diz que é mortal como todos, que foi escolhido para reinar e para construir o templo e que pediu a Deus a sabedoria (capítulos 7 a 9). São os traços do Salomão de 1 Reis 3, e daí vem o título antigo, Sabedoria de Salomão. O livro foi escrito em grego, séculos depois do reinado dele.

Gênesis diz que foi o diabo quem tentou Eva

Gênesis 3 fala de uma serpente, o mais astuto dos animais do campo, e não usa a palavra diabo. É o livro da Sabedoria que escreve: pela inveja do diabo a morte entrou no mundo (2.24). O Apocalipse completa a identificação ao chamar o diabo de antiga serpente (12.9). A ligação que hoje parece estar em Gênesis foi sendo dita pelos livros que vieram depois.

Perguntas para estudo

8 perguntas

A quem o livro se dirige já na primeira frase?
Aos que governam a terra, convidados a amar a justiça e a buscar o Senhor (Sabedoria 1.1).
Como o capítulo 3 descreve a provação dos justos?
Deus os provou como o ouro no crisol e os aceitou como uma oferta de sacrifício.
O que o livro diz do justo que morre jovem?
Que a velhice honrada não se mede pelo número de anos e que ele chegou depressa à perfeição (capítulo 4).
O que o rei preferiu a cetros e tronos?
A Sabedoria, diante da qual todo o ouro lhe parece um punhado de areia (capítulo 7).
Quais são as quatro virtudes que a Sabedoria ensina em 8.7?
Temperança, prudência, justiça e fortaleza, as quatro que a tradição chama de cardeais.
Como o capítulo 10 se refere a Noé, sem dizer o nome?
Como o justo por meio de quem a Sabedoria salvou a terra submersa, conduzindo-o num simples lenho.
De que o carpinteiro faz o ídolo no capítulo 13?
Do pedaço de madeira que sobrou, torto e cheio de nós, depois de fazer um utensílio e cozinhar a comida.
Como o livro descreve a noite da morte dos primogênitos?
Um silêncio profundo envolvia tudo quando a Palavra todo-poderosa de Deus desceu do céu (capítulo 18).
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Débora Arantes

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