Resumo do Livro de Deuteronômio
Por Débora Arantes 11 min de leitura
Em 30 segundos
Deuteronômio não avança no espaço: o povo inteiro está parado nas planícies de Moabe, diante do Jordão, e o livro é quase todo feito de discursos de Moisés à geração nascida no deserto, que vai entrar na terra sem ele. No primeiro discurso, ele relembra a caminhada desde o Horebe. No segundo, o mais longo, repete os Dez Mandamentos, apresenta o Shemá, que manda amar a Deus de todo o coração, e reúne as leis para a vida na terra, com um único lugar de culto, regras para juízes, rei e profeta. Depois vêm as bênçãos e maldições da aliança e o apelo para escolher a vida. O livro termina com Josué indicado como sucessor e com Moisés vendo a terra do alto do monte Nebo e morrendo ali, em Moabe.
Um livro que não sai do lugar
Os quatro livros anteriores andam: da criação ao Egito, do Egito ao Sinai, do Sinai às portas da terra. Deuteronômio para. Do primeiro ao último capítulo, o povo está acampado nas planícies de Moabe, do lado oriental do Jordão, no fim do quadragésimo ano depois da saída do Egito.
O que preenche esse tempo parado são palavras. O livro é, em sua maior parte, uma sequência de discursos de Moisés dirigidos à geração que nasceu no deserto. Quase todos os que ouviram a lei no Sinai já morreram, como Números fez questão de contar. Quem está ali vai atravessar o rio sem o homem que está falando.
Isso define o tom. Deuteronômio não soa como código de leis, e sim como despedida: memória, advertência, insistência, apelo. Muitas frases começam com lembra-te e não te esqueças.
A tradição atribui o livro a Moisés, que fala em primeira pessoa em quase todo o texto. Boa parte do estudo moderno o associa ao livro da lei encontrado no templo de Jerusalém no tempo do rei Josias, narrado em 2 Reis, e entende que ele recebeu sua forma final séculos depois dos fatos narrados.
Primeiro discurso: olhar para trás
Os capítulos 1 a 4 recontam a caminhada desde o Horebe, nome que Deuteronômio usa para o Sinai. Moisés relembra a nomeação de chefes para ajudá-lo a julgar, o episódio dos enviados a Canaã e a recusa do povo em subir, os anos de desvio e as primeiras vitórias a leste do Jordão, contra os reis Seom e Ogue.
A memória não é neutra. Ela seleciona o que serve de lição: o medo que custou uma geração inteira, a fidelidade que manteve o povo vivo no deserto. Moisés também lembra que ele próprio não vai entrar na terra.
O capítulo 4 fecha o bloco com uma advertência que atravessa o livro todo: no Horebe o povo ouviu uma voz e não viu forma alguma. Por isso não deve fabricar imagem para adorar.
Segundo discurso: a lei para a vida na terra
É o centro do livro, dos capítulos 5 a 26.
Os mandamentos repetidos
O capítulo 5 repete os Dez Mandamentos. O conteúdo é o mesmo de Êxodo 20, com diferenças que ajudam a perceber o propósito do livro. A principal está no sábado: em Êxodo, o descanso se justifica pelo descanso de Deus depois da criação; aqui, pela lembrança de que o povo foi escravo no Egito, para que o servo e a serva descansem também. A lei é explicada a partir da história que aquele povo viveu.
O Shemá
No capítulo 6 está o Shemá, nome tirado da primeira palavra em hebraico, ouve. O texto afirma que o Senhor é um só e manda amá-lo de todo o coração, de toda a alma e de toda a força, e que essas palavras sejam ensinadas aos filhos, faladas em casa e no caminho, atadas à mão e escritas nos umbrais. É até hoje a declaração central da oração judaica, e nos Evangelhos aparece como resposta à pergunta sobre o maior mandamento.
Os capítulos seguintes insistem em dois pontos. O primeiro: a escolha do povo não se deve ao seu tamanho nem à sua virtude, e sim ao amor e à promessa feita aos patriarcas. O segundo: a prosperidade que virá na terra é o maior risco de esquecimento. O deserto ensinou dependência; a fartura pode ensinar o contrário. É nesse contexto que aparece a frase sobre o maná, não só de pão vive o homem.
O código de leis
Os capítulos 12 a 26 reúnem a legislação, e ela começa por um ponto que muda tudo: o culto deve acontecer no lugar que Deus escolher, e não em qualquer altar. Essa centralização atravessa o código inteiro: dízimos, festas e sacrifícios passam a ter um endereço.
Algumas leis se destacam:
- o ano da remissão, a cada sete anos, com perdão de dívidas entre os israelitas;
- as três festas de peregrinação anuais;
- a lei do rei, que proíbe acumular cavalos, mulheres e riquezas, e manda que ele tenha uma cópia da lei para ler todos os dias;
- a promessa de um profeta como Moisés, que Deus levantaria no meio do povo;
- as cidades de refúgio, para quem matasse sem intenção;
- regras de guerra, de família, de herança, de empréstimo e de proteção ao estrangeiro, ao órfão e à viúva.
O bloco termina com uma cena de oferta das primeiras colheitas, em que quem a traz recita uma pequena história do povo, começando por meu pai era um arameu errante. A lei termina onde começou: na memória.
Bênçãos, maldições e uma escolha
Os capítulos 27 e 28 descrevem a cerimônia que deveria acontecer depois da travessia, entre os montes Ebal e Gerizim, e trazem a longa lista de bênçãos para a fidelidade e maldições para o abandono da aliança. A lista das maldições é bem mais extensa e mais dura.
Os capítulos 29 e 30 renovam a aliança ali mesmo, em Moabe. O apelo final é famoso: Moisés põe diante do povo a vida e a morte, a bênção e a maldição, e pede que escolha a vida. Ele também diz que o mandamento não está no céu nem além do mar, e sim perto, na boca e no coração de quem ouve.
A despedida
Os últimos capítulos preparam a ausência de Moisés.
No capítulo 31, Josué é apresentado diante do povo como sucessor. Moisés escreve a lei, entrega-a aos sacerdotes e manda que seja lida publicamente a cada sete anos, na festa dos Tabernáculos. O capítulo 32 traz o cântico de Moisés, um poema que recapitula a história do povo como fidelidade de Deus diante da infidelidade humana. O capítulo 33 traz a bênção das tribos, uma a uma.
O capítulo 34 é curto. Moisés sobe ao monte Nebo e vê a terra de ponta a ponta. Morre ali, em Moabe, e é sepultado num vale cuja localização, diz o texto, ninguém conhece. O povo chora trinta dias. A última frase afirma que não se levantou outro profeta como ele.
Uma escolha em vez de uma chegada
Deuteronômio fecha o Pentateuco com uma escolha em vez de uma chegada. A terra está à vista, e o livro para exatamente ali, deixando a entrada para Josué.
É também um dos livros que mais repercutem no resto da Bíblia. Sua linguagem de memória, fidelidade e lugar escolhido reaparece nos livros históricos que vêm em seguida, e ele é um dos mais citados no Novo Testamento. Quem lê Josué, Juízes, Samuel e Reis depois dele encontra, a cada página, a pergunta que ele deixou: o povo lembrou ou esqueceu?
Os pontos centrais do livro
- A forma do livro: discursos de Moisés à nova geração, e não um relato de viagem como Êxodo e Números.
- A origem do nome Deuteronômio, que vem da tradução grega e significa segunda lei.
- O Shemá, no capítulo 6, e sua importância na oração judaica até hoje.
- As diferenças entre os Dez Mandamentos de Deuteronômio 5 e os de Êxodo 20, sobretudo no motivo do sábado.
- A exigência de um único lugar de culto, escolhido por Deus, que marca todo o código de leis.
- As bênçãos e maldições do capítulo 28 e o apelo final: escolher a vida.
- A morte de Moisés no monte Nebo, depois de ver a terra onde não entraria.
Leituras que se afastam do texto
Deuteronômio traz uma segunda lei, que substitui a do Sinai
O nome vem da tradução grega de uma expressão do capítulo 17, que manda o rei fazer para si uma cópia desta lei, e acabou lido como segunda lei. O livro não se apresenta como código novo que revoga o anterior. Apresenta a mesma aliança reexplicada a uma geração que não estava no Sinai, com aplicações para a vida que começaria na terra.
É só uma repetição do que já estava em Êxodo
Há repetição, e há muito material que não aparece antes: o Shemá, a exigência de um só lugar de culto, as regras para o rei, a promessa de um profeta como Moisés e a cerimônia de bênção e maldição. O tom também é outro. Êxodo e Levítico ditam leis; Deuteronômio as prega, com exortação, memória e apelo à decisão de quem ouve.
Os Dez Mandamentos são iguais nas duas versões
O conteúdo coincide, e há diferenças que o próprio texto deixa ver. A mais conhecida está no sábado: em Êxodo 20, o motivo é o descanso de Deus depois da criação; em Deuteronômio 5, é a lembrança da escravidão no Egito, para que servos e servas também descansem. A ordem de não cobiçar a mulher e a casa do próximo também aparece invertida.
Moisés foi enterrado no alto do monte Nebo
O Nebo é de onde ele vê a terra. O capítulo 34 diz que Moisés morreu ali, na terra de Moabe, e foi sepultado num vale da região, acrescentando que ninguém conhece o lugar da sepultura. A falta de túmulo conhecido faz parte do modo como o texto encerra a vida dele.
Não só de pão vive o homem é uma frase criada nos Evangelhos
A frase está em Deuteronômio 8, dita a respeito do maná: o povo foi alimentado no deserto para aprender que vive também de tudo o que sai da boca de Deus. Nos Evangelhos, ela aparece citada na cena da tentação, junto com outras duas respostas tiradas do mesmo livro.
Perguntas para estudo
7 perguntas
- De onde vem o nome hebraico Devarim, e o que ele quer dizer?
- Palavras, tirado da primeira frase: estas são as palavras que Moisés falou.
- Onde o povo está durante todo o livro?
- Acampado nas planícies de Moabe, a leste do Jordão, prestes a entrar na terra.
- O que é o Shemá?
- O texto de Deuteronômio 6 que começa com ouve, Israel, afirma que o Senhor é um só e manda amá-lo de todo o coração, alma e força.
- Qual é o motivo do sábado na versão de Deuteronômio?
- A lembrança de que o povo foi escravo no Egito, para que todos da casa, inclusive servos, descansem.
- O que a lei do rei, no capítulo 17, proíbe?
- Que o rei acumule cavalos, mulheres, prata e ouro, e manda que ele tenha uma cópia da lei e a leia todos os dias.
- O que acontece nos montes Ebal e Gerizim?
- O livro determina uma cerimônia em que as maldições e as bênçãos da aliança seriam proclamadas diante do povo depois da travessia.
- Quem sucede Moisés?
- Josué, apresentado diante do povo no capítulo 31 como quem vai conduzi-lo para dentro da terra.
Débora Arantes
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