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Resumo do livro de Eclesiastes

Por Débora Arantes 14 min de leitura

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Em 30 segundos

Tudo é vaidade, repete o Pregador, e a palavra hebraica que ele usa quer dizer sopro, vapor, aquilo que passa e não se deixa segurar. Apresentado como filho de Davi e rei em Jerusalém, ele põe à prova tudo o que promete sentido debaixo do sol: a sabedoria, o prazer, as grandes obras, a riqueza, o trabalho. Em cada caso encontra o mesmo limite, porque a morte iguala o sábio e o tolo e ninguém controla o tempo nem o dia de amanhã. A resposta dele não é o desespero. Várias vezes o livro manda comer o pão com alegria e desfrutar do trabalho como dom de Deus. A última palavra, no epílogo, é temer a Deus e guardar os seus mandamentos (Eclesiastes 12.13).

Cinco coisas que o Pregador põe à prova em Eclesiastes, cada uma ligada por uma seta ao que ele encontra: sabedoria, prazer, trabalho, riqueza e o dia de hoje
Imagem: resumode.com.br

Coélet, o rei que investiga

O livro se abre como palavras de Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém. Coélet é um título hebraico ligado à ideia de assembleia: aquele que reúne o povo ou fala diante dele. A tradução grega o verteu por Eclesiastes, e as Bíblias em português trazem também Pregador. O nome de Salomão não é escrito, mas o retrato é o dele, e assim a tradição sempre leu.

Quase tudo vem em primeira pessoa. Eu vi, apliquei o coração, disse comigo: o Pregador conta o que observou e a que conclusão chegou. O método é o de um inquérito, e o campo está delimitado por uma expressão que aparece quase trinta vezes, debaixo do sol. Trata-se da vida olhada da terra, até onde a experiência alcança.

Na ordem das Bíblias, Eclesiastes vem logo depois de Provérbios. A vizinhança ajuda a ler: um livro ensina a regra, o outro examina o que escapa a ela.

Sopro, e não orgulho

A primeira frase depois do título é o lema: vaidade das vaidades, tudo é vaidade (1.2). A palavra hebraica é hebel, que designa o sopro, o vapor, a névoa da manhã. Dita desse modo, vaidade das vaidades é um superlativo: o mais passageiro dos sopros. O Pregador não chama as coisas de pecaminosas nem de inúteis. Diz que elas não duram e não se deixam agarrar.

A pergunta que guia o livro vem em seguida: que proveito tem o homem de todo o seu trabalho? Proveito, aqui, é o saldo que sobra depois de feitas as contas.

Um poema curto dá o cenário (1.4 a 11). Uma geração vai, outra vem, e a terra permanece. O sol nasce, se põe e volta depressa ao lugar de onde nasce. O vento gira e torna a girar. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche. O que foi é o que será: não há nada de novo debaixo do sol, e dos que vieram antes não fica lembrança.

O experimento do rei

Do fim do capítulo 1 ao fim do 2, o Pregador narra uma experiência feita com os recursos de um rei, os mesmos que 1 Reis atribui a Salomão.

Primeiro ele se aplica à sabedoria e conclui que quem aumenta o saber aumenta a dor (1.18). Depois experimenta o prazer e as grandes obras: constrói casas, planta vinhas, jardins e pomares, faz açudes, junta servos, rebanhos, prata, ouro, cantores e cantoras. Não nega aos olhos nada do que desejam. Ao olhar para tudo o que as suas mãos fizeram, vê vaidade e correr atrás do vento (2.11).

Ele reconhece que a sabedoria é melhor que a tolice, como a luz é melhor que as trevas. Mas o sábio morre como o tolo, e dos dois ninguém se lembrará. Resta o trabalho, e nem ele fecha a conta: o fruto de uma vida de esforço ficará para alguém que não trabalhou por ele, e ninguém sabe se será sábio ou tolo.

A conclusão do experimento é a primeira aparição de uma ideia que voltará muitas vezes. Não há nada melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. E isso, diz ele, vem da mão de Deus (2.24).

Catorze pares e uma pergunta

O capítulo 3 começa com o trecho mais conhecido do livro: tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. Seguem-se catorze pares de opostos. Tempo de nascer e tempo de morrer, de plantar e de arrancar, de chorar e de rir, de abraçar e de afastar-se, de calar e de falar, de amar e de odiar, de guerra e de paz.

O poema não é uma agenda. Logo depois dele volta a pergunta: que proveito tem o trabalhador naquilo em que se afadiga? Os tempos existem, mas não é o homem quem os marca. Deus fez tudo formoso a seu tempo e pôs a eternidade no coração do homem, sem que este consiga abarcar a obra de Deus do princípio ao fim (3.11). O que Deus faz dura para sempre; nada se acrescenta, nada se tira, e ele age assim para que os homens o temam (3.14).

O mesmo capítulo registra o que o Pregador viu no tribunal, onde havia impiedade no lugar da justiça, e a observação mais dura do livro: homens e animais têm o mesmo fôlego, todos vêm do pó e ao pó voltam.

O que ele vê debaixo do sol

Os capítulos 4 a 6 são um caderno de observações.

  • As lágrimas dos oprimidos, sem ninguém que os console, com a força do lado dos opressores.
  • O trabalho movido pela inveja que um homem tem do outro.
  • O homem sozinho, sem filho nem irmão, que não para de trabalhar e nunca pergunta para quem. Daí o elogio da companhia: melhor é serem dois do que um, e o cordão de três dobras não se rompe depressa (4.9 a 12).
  • O culto feito sem pensar. Guarda o teu pé quando fores à casa de Deus; Deus está no céu e tu na terra, por isso sejam poucas as tuas palavras. Melhor é não fazer voto do que fazer e não cumprir.
  • O dinheiro, que não sacia quem o ama. O rico perde o sono, e o homem sai do mundo nu, como entrou. Há até aquele a quem Deus dá riquezas sem lhe dar o poder de desfrutá-las, e um estranho as consome.

Melhor isto do que aquilo

Do capítulo 7 ao 10 o Pregador usa a forma dos provérbios, e a vira contra as certezas fáceis. Melhor é a boa fama do que o perfume fino. Melhor é ir à casa onde há luto do que à casa onde há banquete, porque ali se vê o fim de todos, e os vivos o guardam no coração (7.2).

Ao lado dos conselhos vêm os casos que não se encaixam. Há justo que perece na sua justiça e ímpio que prolonga os seus dias (7.15). Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque (7.20). A corrida não é dos ligeiros, nem a batalha dos fortes, nem o pão dos sábios: o tempo e o acaso alcançam a todos (9.11). Uma pequena cidade foi salva por um homem pobre e sábio, e ninguém se lembrou dele.

A sabedoria continua valendo. Só não garante o resultado, e basta pouco para estragá-la, como as moscas mortas que fazem cheirar mal o perfume do perfumista (10.1).

Come o teu pão com alegria

Entre uma observação e outra, o livro repete o seu conselho positivo, cada vez com mais força. O que era constatação no capítulo 2 vira ordem no 9: vai, come com alegria o teu pão e bebe o teu vinho de bom coração. Em todo tempo sejam brancas as tuas vestes, e não falte óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas. Tudo o que te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças (9.7 a 10).

O Pregador chama isso de porção: a parte que cabe ao homem. Ela não resolve o enigma da vida, e ele não finge que resolve. É dom, recebido no dia de hoje.

O capítulo 11 acrescenta a coragem de agir sem garantias. Lança o teu pão sobre as águas, reparte com sete e até com oito. Quem fica observando o vento nunca semeia. Semeia de manhã e não retires a mão à tarde, porque não sabes qual das sementes prosperará.

A casa que escurece

O último poema fala ao jovem: alegra-te na tua mocidade, e sabe que de tudo Deus te pedirá contas. Lembra-te do teu Criador nos dias da juventude, antes que cheguem os anos dos quais dirás: não tenho neles prazer (12.1).

A velhice é descrita como uma casa que vai parando. Os guardas da casa tremem, os homens fortes se curvam, as que moem cessam por serem poucas, escurecem os que olham pelas janelas. A amendoeira floresce. Por fim, rompe-se o cordão de prata, quebra-se o cântaro junto à fonte, o pó volta à terra e o espírito volta a Deus, que o deu (12.7). E o lema retorna, fechando o que o capítulo 1 abriu: vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Aguilhões e um só pastor

Os seis versículos finais mudam de voz. Alguém fala do Pregador em terceira pessoa: ele ensinou o povo, pesou e ordenou muitos provérbios, procurou palavras agradáveis e verdadeiras. As palavras dos sábios, diz o epílogo, são como aguilhões, a vara com ponta que faz o boi andar. Incomodam para pôr em movimento, e vêm de um só Pastor.

Depois, a síntese: de tudo o que se ouviu, o fim é este, teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque Deus trará a juízo toda obra, até a que está escondida (12.13 e 14).

Com isso Eclesiastes ocupa na Bíblia um lugar que nenhum outro livro ocupa. Jó contesta a partir da dor; o Pregador contesta do alto do trono, tendo tudo. O Novo Testamento conserva o seu vocabulário: Paulo escreve que a criação foi sujeita à vaidade (Romanos 8.20), e Tiago lembra que a vida é neblina que aparece por um pouco e logo se desfaz (Tiago 4.14). Quem procura o livro pelo nome deve cuidar para não trocá-lo pelo Eclesiástico, obra bem mais longa e de outro autor.

Os pontos centrais

  1. A moldura do livro: vaidade das vaidades, tudo é vaidade, dita em Eclesiastes 1.2 e repetida em 12.8, logo antes do epílogo.
  2. O sentido de vaidade: a palavra hebraica hebel, sopro ou vapor, que descreve o que é passageiro e escapa das mãos.
  3. A expressão debaixo do sol, que delimita o campo da investigação: a vida vista da terra, até onde a observação alcança.
  4. O poema dos tempos (Eclesiastes 3.1 a 8), com catorze pares de opostos, do nascer e morrer até a guerra e a paz.
  5. O convite à alegria, que volta do capítulo 2 ao 11: comer, beber e desfrutar do trabalho são dom da mão de Deus.
  6. O epílogo em terceira pessoa (Eclesiastes 12.9 a 14), que resume tudo em temer a Deus e guardar os seus mandamentos.

Leituras que se afastam do texto

Vaidade, em Eclesiastes, é o orgulho de quem se acha bonito ou importante

A palavra hebraica é hebel, que significa sopro, vapor, névoa. O Pregador a aplica ao trabalho, à riqueza, ao riso e até à sabedoria, que não são pecados de orgulho. O que ele afirma é que tudo isso passa depressa e não se deixa segurar, como correr atrás do vento (1.14). O engano vem do português de hoje, em que vaidade ficou restrita à aparência e à presunção.

Eclesiastes ensina que nada vale a pena

O livro nega que alguma coisa debaixo do sol renda lucro definitivo, e ao mesmo tempo manda aproveitar o que é dado. Não há nada melhor do que comer, beber e gozar do fruto do trabalho, e isso vem da mão de Deus (2.24). Come o teu pão com alegria; tudo o que te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças (9.7 e 10). O Pregador desmonta ilusões e fica com a alegria possível.

Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos: é o conselho de Eclesiastes

Essa frase está em Isaías 22.13, na boca de quem festeja em vez de se arrepender, e Paulo a cita em 1 Coríntios 15.32. Eclesiastes também manda comer e beber com alegria, mas como dom recebido de Deus e sem esquecer o juízo: alegra-te, jovem, e sabe que de tudo Deus te pedirá contas (11.9). A semelhança das palavras faz atribuir ao Pregador um lema que ele não diz.

O nome de Salomão aparece no livro como autor

O texto nunca escreve Salomão. Quem fala se chama Coélet, palavra hebraica ligada a assembleia, traduzida por Pregador ou Eclesiastes, e se apresenta como filho de Davi, rei em Jerusalém (1.1 e 1.12). A descrição da sabedoria, das obras e da riqueza no capítulo 2 corresponde ao que 1 Reis conta de Salomão, e por isso a tradição lê o livro como palavra dele.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Como o Pregador se apresenta no primeiro versículo?
Como filho de Davi e rei em Jerusalém, sem dizer o próprio nome (Eclesiastes 1.1).
O que acontece com o sábio e com o tolo, segundo o capítulo 2?
Os dois têm o mesmo destino: morrem, e com o passar dos dias ambos são esquecidos.
Que imagem o livro usa para o esforço que não chega a lugar algum?
Correr atrás do vento, expressão que acompanha a palavra vaidade em vários capítulos.
O que Deus pôs no coração do homem, segundo Eclesiastes 3.11?
A eternidade, sem que o homem consiga abarcar a obra de Deus do princípio ao fim.
Por que dois valem mais do que um?
Porque, se um cair, o outro o levanta; e o cordão de três dobras não se rompe com facilidade (4.9 a 12).
O que o capítulo 5 diz de quem ama o dinheiro?
Que nunca se farta dele; e que o homem, como saiu nu do ventre da mãe, nu voltará.
Que comparação o capítulo 9 faz entre um cão e um leão?
Mais vale um cão vivo que um leão morto, porque para quem está entre os vivos há esperança (9.4).
Para onde vão o pó e o espírito no fim do poema da velhice?
O pó volta à terra, de onde veio, e o espírito volta a Deus, que o deu (Eclesiastes 12.7).
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Débora Arantes

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