Resumo de Daniel na cova dos leões
Por Débora Arantes 11 min de leitura
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Uma lei de trinta dias, escrita para apanhar um só homem: esse é o motor de Daniel 6. Daniel, já idoso, é um dos três ministros do rei Dario e está para ser posto acima de todos. Os colegas, sem achar falha no seu serviço, convencem o rei a proibir qualquer pedido a deus ou a homem que não seja o próprio rei. Daniel continua orando três vezes ao dia, de janelas abertas para Jerusalém, como sempre fez. Denunciado, é lançado na cova dos leões por um rei que tentou salvá-lo e não pôde revogar a própria lei. De madrugada, Dario o encontra vivo: um anjo fechou a boca dos leões. Os acusadores tomam o lugar dele, e o rei manda todo o império respeitar o Deus de Daniel.
Um exilado no topo do novo império
A cova dos leões é a última das seis histórias de corte que abrem o livro de Daniel. A anterior terminou com a queda da Babilônia, na noite do banquete de Belsazar. O reino passa a Dario, o medo, e o cenário muda de dono, mas Daniel continua onde estava: no alto da administração. Em algumas edições, os versículos deste capítulo aparecem com um número a mais, porque a divisão começa uma linha antes.
Dario distribui o reino entre cento e vinte sátrapas e põe sobre eles três ministros, a quem os demais prestam contas. Daniel é um dos três e se destaca tanto que o rei pensa em colocá-lo sobre o reino inteiro. O narrador explica a razão com uma expressão que já usou antes: havia nele um espírito excelente.
Uma lei feita sob medida
Os outros ministros e os sátrapas procuram um motivo para acusá-lo. Vasculham a administração e não encontram nada: nem culpa, nem descuido, porque ele era fiel. A conclusão a que chegam é um elogio involuntário. Não acharemos ocasião contra este Daniel, dizem, a não ser na lei do seu Deus.
Então fabricam a ocasião. Apresentam-se ao rei em grupo e afirmam que todos os ministros, prefeitos, sátrapas e governadores concordaram com uma proposta. É mentira em pelo menos um ponto: um dos três ministros não foi consultado. A proposta é que, durante trinta dias, quem fizer um pedido a qualquer deus ou a qualquer homem, exceto ao rei, seja lançado na cova dos leões.
O pedido vem com uma cláusula: que o rei assine, para que o decreto não possa ser alterado, conforme a lei dos medos e dos persas, que não se revoga. É o mesmo princípio que aparece no livro de Ester, onde um decreto real só pode ser respondido com outro. Dario assina.
As janelas do lado de Jerusalém
A reação de Daniel ocupa um versículo, e cada parte dele pesa. Quando soube que o documento estava assinado, entrou em casa. No quarto de cima, as janelas se abriam para o lado de Jerusalém. Três vezes ao dia ele se punha de joelhos, orava e dava graças diante do seu Deus, como costumava fazer.
Não há discurso, protesto nem consulta. O texto registra só que o hábito continuou. A direção das janelas tem origem conhecida: na dedicação do templo, Salomão pediu que Deus ouvisse os que, levados cativos para terra distante, orassem voltados para a cidade e para a casa que ele construiu (1 Reis 8). Daniel, exilado desde a juventude, ora assim, numa cidade estrangeira, com o templo destruído.
Os homens chegam juntos e o encontram orando e suplicando. Voltam ao rei e fazem primeiro uma pergunta: não assinaste um decreto? Só depois de Dario confirmar que a lei é irrevogável dão o nome. E escolhem as palavras: esse Daniel, que é dos exilados de Judá, não faz caso de ti nem do teu decreto.
O rei preso à própria assinatura
Dario entende a armadilha tarde demais. Fica muito aflito e se empenha em salvar Daniel até o pôr do sol. Os acusadores retornam para lembrar a regra, e o homem em cujo nome tudo é decidido descobre que não pode decidir.
Ele dá a ordem. Antes que a cova se feche, diz a Daniel: o teu Deus, a quem serves continuamente, que ele te livre. Trazem uma pedra, colocam sobre a boca da cova, e o rei a sela com o seu anel e com o anel dos nobres, para que nada seja mudado a respeito de Daniel. O selo fecha as duas saídas: nem os inimigos podem apressar o fim, nem o rei pode tirá-lo de lá.
A noite em claro e a voz na madrugada
O relato não mostra o interior da cova. Acompanha o rei. Dario volta ao palácio e passa a noite em jejum; não deixa que lhe tragam diversões, e o sono foge dele.
Ao romper do dia, levanta-se e vai às pressas. Chega perto e chama com voz aflita: Daniel, servo do Deus vivo, o teu Deus, a quem serves continuamente, pôde livrar-te dos leões?
A resposta começa pela saudação da corte, ó rei, vive para sempre, e continua: o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões, e eles não me fizeram mal, porque fui achado inocente diante dele; e também contra ti, ó rei, não cometi falta alguma. O rei se alegra e manda tirá-lo. Nenhum ferimento é encontrado nele, porque tinha confiado no seu Deus.
O decreto ao contrário
Seguem-se duas ordens de Dario. A primeira recai sobre os acusadores, lançados na cova com mulheres e filhos; os leões os dominam antes que toquem o fundo.
A segunda é uma carta a todos os povos, nações e línguas. Nela, o rei que havia proibido orações a qualquer deus determina que, em todo o seu domínio, se trema e se tema diante do Deus de Daniel: ele é o Deus vivo, que permanece para sempre; o seu reino não será destruído; ele livra e salva, faz sinais no céu e na terra, e livrou Daniel do poder dos leões. A lei que não podia ser revogada é ultrapassada por outra.
A última linha é sóbria: Daniel prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa.
Dois reinos e um costume
O capítulo é construído sobre inversões. A lei feita para eliminar Daniel elimina os autores dela. A proibição de orar termina em ordem de temer a Deus. O rei que assina tudo é o único que não dorme, e o condenado sai da cova sem ferimento.
No centro há uma disputa entre duas leis: a dos medos e persas, que não muda, e a lei do Deus de Daniel, expressão usada pelos próprios inimigos. O rei pagão é quem tira a conclusão, ao dizer que o reino que não passa é o desse Deus. Com isso a história prepara a segunda metade do livro, em que as visões tratam justamente de reinos que passam e de um que fica.
Vale notar a diferença em relação à fornalha. Lá, os três companheiros enfrentam um rei furioso. Aqui, o rei está do lado do condenado e não consegue ajudá-lo. O perigo não vem de um tirano: vem de colegas invejosos e de uma regra que ninguém pode desfazer.
De Hebreus à segunda cova
O episódio vira exemplo dentro da própria Bíblia. Em 1 Macabeus, o velho Matatias, ao morrer, lembra aos filhos que Daniel foi salvo da boca dos leões por causa da sua inocência. A carta aos Hebreus inclui na lista dos que viveram pela fé aqueles que fecharam a boca de leões (Hebreus 11.33).
Nas edições católicas e ortodoxas, o livro tem um capítulo 14 que conta outra ida de Daniel à cova, sob outro rei, por seis dias e com sete leões. É de lá que vêm alguns detalhes que costumam ser misturados ao capítulo 6, que não diz quantos eram os animais nem conta o que se passou durante a noite. O que ele conta é o que se viu de fora: uma janela aberta, uma pedra selada e, de manhã, uma voz respondendo lá de dentro.
Os pontos centrais
- Os próprios adversários admitem que só encontrarão motivo contra Daniel naquilo que diz respeito à lei do seu Deus.
- Diante do decreto, Daniel não muda nada: ora três vezes ao dia, de joelhos, como costumava fazer antes dele.
- O rei é o homem mais poderoso da cena e o mais impotente: a lei dos medos e dos persas, uma vez assinada, não se revoga.
- Daniel declara inocência dupla ao sair: nada foi achado contra ele diante de Deus, e nenhum mal ele fez ao rei.
- O título Deus vivo aparece na boca de um rei estrangeiro, primeiro como pergunta à beira da cova, depois como decreto.
- Hebreus 11.33 lembra o episódio entre as obras da fé: pela fé, fecharam a boca de leões.
Leituras que se afastam do texto
Daniel era um rapaz quando foi jogado aos leões
O rapaz é o do capítulo 1, levado a Babilônia no começo do reinado de Nabucodonosor. A cova vem depois da queda da Babilônia, em 539 a.C., mais de sessenta anos adiante. O texto não dá a idade, mas a conta sugere um Daniel por volta dos oitenta anos. É um alto funcionário no fim da carreira, com décadas de serviço a vários reis. A figura jovem entre os leões vem da pintura e dos livros infantis.
Daniel foi condenado porque se recusou a adorar o rei
Ninguém pede adoração nem prostração neste capítulo; isso é a estátua de ouro do capítulo 3, com os três companheiros. O decreto de Dario proíbe, por trinta dias, fazer petição a qualquer deus ou homem que não seja o rei. Daniel não é punido por recusar um gesto, e sim por manter um: continuar orando ao seu Deus. Na fornalha, a fidelidade era não fazer; na cova, é não deixar de fazer.
Daniel abriu as janelas para desafiar o decreto
O texto afasta tanto o desafio quanto o esconderijo. Daniel sobe ao quarto de cima, onde as janelas já davam para o lado de Jerusalém, ajoelha-se três vezes ao dia e ora como costumava fazer antes. A frase final é a chave: nada foi acrescentado para provocar, nada foi retirado por prudência. Os acusadores precisam ir em grupo até a casa dele para flagrá-lo, e contavam com esse hábito ao redigir a lei.
Os leões estavam mansos ou sem fome naquela noite
O capítulo responde a isso com a cena seguinte. Quando os acusadores são lançados na mesma cova, com as famílias, os leões os agarram e lhes quebram os ossos antes que cheguem ao fundo. Os animais são os mesmos, e a fome também. A explicação é a que Daniel dá ao rei: o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões. O narrador acrescenta o motivo: ele tinha confiado no seu Deus.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Como Dario organiza o governo do reino?
- Com cento e vinte sátrapas e, acima deles, três ministros, dos quais Daniel é um.
- Por quanto tempo vale a proibição do decreto?
- Por trinta dias, durante os quais só se poderia fazer pedidos ao próprio rei.
- Para que lado se abriam as janelas do quarto de Daniel?
- Para o lado de Jerusalém, a cidade do templo, então em ruínas.
- Até que hora o rei tenta livrar Daniel?
- Até o pôr do sol, quando os acusadores voltam para lembrar que a lei não pode ser mudada.
- Como a cova é fechada depois que Daniel é lançado?
- Com uma pedra sobre a boca, selada com o anel do rei e com o anel dos seus nobres.
- Como Dario passa a noite?
- Em jejum, sem as diversões de costume e sem conseguir dormir, e ao romper do dia corre à cova.
- O que Dario deseja a Daniel antes de fechar a cova?
- Que o Deus a quem Daniel serve continuamente o livre, já que o rei não pôde fazê-lo.
- Sob que reis Daniel prospera depois do episódio?
- No reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa, segundo o último versículo do capítulo.
Débora Arantes
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