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Resumo do livro de Ester

Por Débora Arantes 11 min de leitura

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Em 30 segundos

Ester é a história de uma virada completa, contada na corte da Pérsia. O rei Assuero depõe a rainha Vasti e escolhe para o lugar dela Ester, órfã judia criada pelo primo Mardoqueu; ela esconde a própria origem. O ministro Hamã, furioso porque Mardoqueu não se curva diante dele, obtém do rei um decreto para exterminar todos os judeus do império num dia sorteado. Mardoqueu convence Ester a arriscar a vida e interceder: quem sabe se não foi para um momento como este que chegaste à realeza? Ela jejua, apresenta-se ao rei sem ser chamada e oferece dois banquetes. Entre um e outro, o rei não consegue dormir, e Hamã acaba honrando Mardoqueu em praça pública e enforcado na forca que preparara para ele. Os judeus se defendem e instituem a festa de Purim.

As inversões do livro de Ester em pares: o que Hamã planeja de um lado e o que acontece do outro, com a insônia do rei como ponto de virada
Imagem: resumode.com.br

Uma história passada longe de Jerusalém

Nem todos os judeus voltaram do exílio. Enquanto os livros de Esdras e Neemias acompanham os que reconstruíram Jerusalém, Ester olha para os que ficaram espalhados pelo império persa. A história se passa em Susã, uma das capitais, sob o rei Assuero, identificado com Xerxes I, que reinou de 486 a 465 a.C., e cabe no intervalo entre os capítulos 6 e 7 de Esdras.

O livro tem uma construção notável. Tudo vem em pares: dois banquetes de abertura, dois banquetes de Ester, dois decretos, dois dias de festa. E quase tudo o que acontece na primeira metade acontece ao contrário na segunda. O narrador conta com humor, sem pressa e sem nunca interromper para explicar o sentido.

O banquete e a rainha deposta

Assuero, que reina sobre cento e vinte e sete províncias, da Índia à Etiópia, exibe sua riqueza durante cento e oitenta dias e encerra com um banquete de sete dias no jardim do palácio. No último dia, alegre do vinho, manda trazer a rainha Vasti com a coroa, para mostrar sua beleza. Ela se recusa. Os conselheiros, alarmados com o exemplo para as esposas do império, propõem depô-la, e sai um decreto para que todo homem seja senhor em sua casa.

Passada a raiva, procuram-se jovens em todas as províncias. Entre as levadas ao palácio está Hadassa, chamada Ester, órfã criada por Mardoqueu, um benjamita cuja família viera com os exilados de Jerusalém. Por ordem dele, ela não revela seu povo. Depois de um ano de preparação, Ester agrada ao rei mais que todas e recebe a coroa.

Pouco depois, Mardoqueu, que fica à porta do palácio, ouve dois guardas tramarem contra o rei. Avisa Ester, os dois são executados, e o caso é anotado no livro das crônicas. Ninguém o recompensa. O detalhe parece solto e sustentará a virada.

Hamã e as sortes

O rei eleva Hamã, o agagita, acima de todos os príncipes e ordena que se ajoelhem diante dele. Mardoqueu não se ajoelha. Hamã, ao saber que ele é judeu, acha pouco vingar-se de um homem só e decide destruir todo o povo de Mardoqueu.

Lança-se o pur, a sorte, para escolher o dia, e ela cai no décimo segundo mês, adar, onze meses adiante. Hamã descreve ao rei, sem dar o nome, um povo disperso, de leis diferentes, que não cumpre as leis do rei, e oferece dez mil talentos de prata ao tesouro. Assuero entrega o anel: faze com esse povo o que quiseres. Os correios levam a todas as províncias a ordem de exterminar jovens e velhos, crianças e mulheres, num só dia, o treze de adar. O capítulo fecha com um contraste seco: o rei e Hamã sentaram-se para beber, e a cidade de Susã ficou perplexa.

Para um momento como este

Mardoqueu rasga as roupas e vai até a porta do palácio vestido de pano de saco. Ester, que não sabe de nada, manda perguntar. Ele envia a cópia do decreto e o pedido: que ela vá ao rei suplicar pelo povo.

Ester responde com a lei conhecida de todos: quem entra no pátio interno sem ser chamado morre, salvo se o rei estender o cetro de ouro, e ela não é chamada há trinta dias. A réplica de Mardoqueu é o coração do livro: não imagines que, por estares no palácio, escaparás; se te calares agora, socorro e livramento virão de outra parte para os judeus, e tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se não foi para um momento como este que chegaste à realeza? (Ester 4.14).

Ester decide. Pede que todos os judeus de Susã jejuem por ela três dias, noite e dia, e que ela e suas servas farão o mesmo. Depois irei ao rei, contra a lei; se eu tiver de morrer, morrerei.

Dois banquetes e uma noite sem sono

No terceiro dia, Ester veste os trajes reais e para no pátio. O rei estende o cetro e oferece até metade do reino. Ela pede apenas que ele e Hamã venham a um banquete. No banquete, o rei repete a oferta, e ela convida os dois para outro, no dia seguinte.

Hamã sai radiante, vê Mardoqueu sentado, imóvel, e a alegria azeda. Em casa, conta as honras à mulher, Zeres, e aos amigos, e admite que nada disso lhe basta enquanto vir aquele judeu à porta. Eles sugerem uma forca de cinquenta côvados: de manhã, pede ao rei que o enforque, e vai contente ao banquete.

Naquela noite o sono fugiu do rei (Ester 6.1). Ele manda ler as crônicas, e a leitura cai no registro da conspiração denunciada por Mardoqueu. Que honra ele recebeu? Nenhuma. Nesse instante Hamã entra no pátio para pedir a cabeça de Mardoqueu. O rei pergunta primeiro: o que se deve fazer ao homem que o rei deseja honrar? Hamã, certo de que se trata dele, capricha: manto real, cavalo do rei, um nobre proclamando pela praça. Faze assim a Mardoqueu, o judeu, responde o rei; não omitas nada.

Hamã conduz o cavalo e volta para casa de cabeça coberta. A mulher lhe diz o que o leitor já percebeu: se Mardoqueu é da descendência dos judeus, não prevalecerás contra ele.

A queda de Hamã

No segundo banquete, o rei pergunta de novo, e Ester enfim fala: se achei graça aos teus olhos, dá-me a minha vida e a do meu povo, porque fomos vendidos para ser destruídos. Quem é ele? O adversário e inimigo é este perverso Hamã.

O rei sai furioso para o jardim. Hamã se lança sobre o divã de Ester para implorar, e o rei, voltando, o vê ali: quer também violentar a rainha na minha casa? Um eunuco lembra a forca pronta. Enforcai-o nela. A casa de Hamã passa a Ester, e o anel, a Mardoqueu.

O segundo decreto e Purim

O primeiro decreto continua em vigor. Ester chora aos pés do rei, e ele autoriza um novo texto. Mardoqueu o dita, e correios em cavalos velozes levam a todas as províncias o direito de os judeus se reunirem e defenderem a própria vida no dia treze de adar.

No dia marcado, o que se esperava se inverte: os judeus prevalecem sobre os que os odiavam. Os dez filhos de Hamã morrem. O texto repete três vezes que não tocaram nos despojos. Em Susã, o combate se estende por mais um dia, e por isso a festa tem duas datas.

Mardoqueu escreve a todos os judeus para que celebrem todo ano os dias catorze e quinze de adar, como dias em que a tristeza se transformou em alegria, com banquetes, troca de porções entre vizinhos e presentes aos pobres. A festa se chama Purim, por causa do pur.

Um livro sem o nome de Deus

A particularidade mais comentada de Ester é o que não está escrito: em hebraico, Deus não é nomeado, e ninguém ora em voz alta. O efeito é deixar o leitor fazer a ligação. O livro descreve o mundo como muitos o vivem, sem voz do céu nem milagre visível, e ainda assim com uma mão por trás das coincidências. A frase de Mardoqueu sobre o socorro que virá de outra parte é o mais perto que o texto chega de dizê-lo, e basta.

Os pontos centrais

  1. A pergunta de Mardoqueu em Ester 4.14, centro do livro: a posição de Ester existe em função do momento de perigo.
  2. A resposta de Ester, se eu tiver de morrer, morrerei (Ester 4.16), depois de pedir três dias de jejum aos judeus de Susã.
  3. A noite de insônia do rei (Ester 6), ponto exato em que a história se inverte sem que ninguém planeje.
  4. As inversões simétricas: a forca de Hamã, o anel do rei, a casa e o cargo passam para Mardoqueu.
  5. A origem e o nome da festa de Purim, das sortes (pur) lançadas por Hamã para escolher o dia.
  6. A ausência do nome de Deus no texto hebraico, lida como modo de mostrar a providência agindo sem ser nomeada.

Leituras que se afastam do texto

Mardoqueu era tio de Ester

O texto hebraico diz que Ester era filha do tio de Mardoqueu, portanto eram primos (Ester 2.7 e 2.15). Ele a adotou como filha quando os pais dela morreram. A ideia do tio vem da antiga tradução latina, que a chamou de filha do irmão dele, e se espalhou a partir dali.

O rei cancelou o decreto de Hamã

Uma lei selada com o anel do rei da Pérsia não podia ser revogada, e o próprio rei o diz. A solução é um segundo decreto, redigido por Mardoqueu, que autoriza os judeus a se reunir e se defender no mesmo dia marcado. Os dois decretos ficam valendo, e por isso há combate no dia treze de adar.

Como Deus não é citado, o livro de Ester não tem conteúdo religioso

O livro fala de jejum, de socorro que virá de outra parte se Ester se calar, e encadeia coincidências demais para serem lidas como acaso: a escolha de Ester, a conspiração registrada, a insônia na noite exata. A versão grega, usada nas edições católicas, inclui orações de Mardoqueu e de Ester que explicitam o que o texto hebraico deixa implícito.

Mardoqueu se recusou a curvar-se por orgulho pessoal

O texto liga a recusa ao fato de ele ser judeu, que é a explicação que ele mesmo dá aos servos do rei. Hamã é apresentado como agagita, descendente do rei dos amalequitas, inimigos antigos de Israel, e Mardoqueu como benjamita da família de Quis, a de Saul. O confronto retoma uma história velha, de 1 Samuel 15.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Por que a rainha Vasti é deposta?
Porque se recusa a comparecer ao banquete para ser exibida aos convidados do rei.
Qual é o nome hebraico de Ester?
Hadassa, que significa murta; Ester é o nome pelo qual é conhecida na corte.
Que serviço Mardoqueu presta ao rei no início?
Descobre e denuncia uma conspiração de dois guardas para matar Assuero.
O que significa pur?
Sorte: o sorteio com que Hamã escolheu o dia do massacre, de onde vem o nome Purim.
Qual era o risco de Ester ao procurar o rei?
Quem entrasse no pátio interno sem ser chamado morria, a menos que o rei estendesse o cetro de ouro.
O que Hamã constrói no quintal de casa?
Uma forca de cinquenta côvados de altura, destinada a Mardoqueu.
Como Mardoqueu é honrado?
É vestido com o manto real e conduzido a cavalo pela praça, com Hamã puxando o animal.
Em que dias se celebra Purim?
Nos dias catorze e quinze do mês de adar, com banquete, presentes e doações aos pobres.
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Débora Arantes

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