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Resumo do livro de Oseias

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

Um profeta recebe a ordem de se casar com uma mulher infiel, e o casamento vira a mensagem. Oseias prega no reino do norte nas últimas décadas antes da queda de Samaria, e sua vida com Gomer retrata a de Deus com Israel, que corre atrás de Baal e de alianças com a Assíria e o Egito. Os três filhos recebem nomes de sentença: Jezreel, Lo-Ruama (não compadecida) e Lo-Ami (não meu povo). Os capítulos 4 a 13 acusam o povo de não ter fidelidade, amor nem conhecimento de Deus, e anunciam a ruína. Mas o juízo nunca é a última palavra: Deus promete atrair a esposa ao deserto, pergunta como poderia abandonar Efraim e termina chamando Israel a voltar. Daqui vem a frase misericórdia quero, e não sacrifício.

Duas séries lado a lado em Oseias 1 e 2: os nomes de juízo dados aos filhos e à esposa e, diante de cada um, o nome que a promessa devolve
Imagem: resumode.com.br

Um profeta do norte, nos anos finais

Oseias, filho de Beeri, fala ao reino do norte como quem pertence a ele: os lugares, os santuários e os reis de que trata são os de Israel. O primeiro versículo o situa nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel, e de quatro reis de Judá, de Uzias a Ezequias. Isso cobre o último período de prosperidade do norte e o colapso que veio em seguida.

O cenário político é o que 2 Reis conta nos capítulos 14 a 17. Depois de Jeroboão II, o trono de Samaria muda de mãos por assassinato várias vezes em poucos anos, enquanto a Assíria avança. Os reis pagam tributo, depois procuram o Egito, depois voltam atrás. Oseias vê tudo isso de perto e dá o mesmo diagnóstico para a religião e para a política: Israel abandonou quem o amava. Ele chama o reino quase sempre de Efraim, o nome da tribo principal. Amós, que pregou no mesmo reino pouco antes, vinha de Judá; Oseias fala de dentro de casa.

A numeração dos versículos muda de uma edição para outra em alguns pontos do livro, sobretudo no capítulo 2.

Gomer e os três nomes

A primeira palavra que o Senhor dirige a Oseias é uma ordem: tomar uma mulher de prostituições e ter filhos de prostituições, porque a terra se prostitui, afastando-se do Senhor (Oseias 1.2). Ele se casa com Gomer, filha de Diblaim. O casamento é o primeiro oráculo do livro.

Nascem três crianças, e cada nome é uma sentença:

  • Jezreel, o primeiro filho, leva o nome do vale onde Jeú derramou o sangue da casa de Acabe. Deus anuncia que cobrará esse sangue da casa de Jeú e que quebrará o arco de Israel naquele mesmo vale (1.4 e 1.5).
  • Lo-Ruama, a filha, significa não compadecida: não terei mais compaixão da casa de Israel.
  • Lo-Ami, o terceiro, significa não meu povo: vós não sois meu povo, e eu não sou o vosso Deus. É a fórmula da aliança dita ao contrário.

Logo depois dos três nomes, sem transição, o texto promete o inverso: os filhos de Israel serão como a areia do mar, e no lugar onde ouviram não sois meu povo ouvirão filhos do Deus vivo.

A esposa levada ao deserto

O capítulo 2 é um processo. O marido fala aos filhos e acusa a mãe: ela foi atrás de amantes, convencida de que eram eles que lhe davam o pão, a água, a lã, o linho, o azeite e a bebida. Não reconheceu que o trigo, o vinho e o azeite vinham do Senhor, e gastou a prata e o ouro com Baal. A pena anunciada é a de uma esposa despedida e despojada: o caminho fechado com espinhos, as festas encerradas, as vinhas arruinadas.

Então o discurso vira. Portanto, diz o Senhor, eu a atrairei, a levarei ao deserto e lhe falarei ao coração. O deserto é o lugar do começo, quando Israel saiu do Egito. Ali o vale de Acor se torna porta de esperança, e a esposa deixa de dizer meu Baal para dizer meu marido. Deus promete desposá-la para sempre em justiça, em amor e em fidelidade.

O capítulo termina desfazendo os três nomes, um por um. Jezreel, que quer dizer Deus semeia, passa a ser semeadura na terra. Lo-Ruama recebe compaixão. A Lo-Ami se diz: tu és meu povo, e ele responde: meu Deus.

Quinze peças de prata

O capítulo 3 volta à vida do profeta, agora contada por ele mesmo, em cinco versículos. A ordem é amar outra vez uma mulher amada por outro e adúltera, como o Senhor ama os filhos de Israel. O texto não repete o nome, e a leitura mais comum entende que é Gomer. Oseias a compra por quinze peças de prata e uma medida e meia de cevada, e impõe um tempo de espera: ela ficará muitos dias com ele, sem se entregar a ninguém.

A explicação é política. Os filhos de Israel ficarão muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício. Depois voltarão e buscarão o Senhor, seu Deus, e Davi, seu rei (3.5). A cena doméstica anuncia o exílio e o que vem depois dele.

Não há conhecimento de Deus na terra

Do capítulo 4 em diante, a história do casamento não volta a ser contada. O que se ouve são oráculos curtos, densos, cheios de imagens. O tom é dado no início: o Senhor tem uma causa contra os habitantes da terra, porque não há fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus (4.1). No lugar disso há juramento falso, mentira, homicídio, furto e adultério, uma lista que ecoa os mandamentos.

Conhecer, em Oseias, é palavra de relação, a mesma usada para a intimidade de um casal. Os sacerdotes são os primeiros responsabilizados: o meu povo perece por falta de conhecimento, porque eles rejeitaram o conhecimento (4.6).

O capítulo 6 traz uma fala de arrependimento do povo: vinde, voltemos ao Senhor; depois de dois dias ele nos dará vida, e ao terceiro dia nos levantará. A resposta divina mostra desconfiança: o vosso amor é como a nuvem da manhã, como o orvalho que cedo passa (6.4). E vem a frase mais citada do livro: misericórdia quero, e não sacrifício; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos (6.6).

As imagens da política se acumulam no capítulo 7. Efraim é um pão que não foi virado, queimado de um lado e cru do outro. É uma pomba ingênua que chama o Egito e vai à Assíria.

Vento semeado, tempestade colhida

Os capítulos 8 a 10 juntam as duas infidelidades. A primeira é a dos tronos: fizeram reis, mas não por mim (8.4). A segunda é a do bezerro de Samaria, a imagem instalada em Betel desde a divisão do reino. Oseias diz dele o que basta: um artesão o fez, e não é Deus. Betel, casa de Deus, ganha no livro o apelido de Bete-Áven, casa da iniquidade, e o bezerro, anuncia o profeta, será levado como presente ao rei da Assíria.

Daqui sai o provérbio: semeiam vento e colherão tempestade (8.7). O capítulo 10 oferece a semeadura contrária, semeai justiça e colhei misericórdia, lavrai o campo novo, porque é tempo de buscar o Senhor (10.12).

Como te abandonaria, Efraim?

O capítulo 11 troca a imagem do marido pela do pai. Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho (11.1). Deus se descreve ensinando Efraim a andar, tomando-o nos braços, inclinando-se para lhe dar de comer. O filho se afastou, e a consequência seria a destruição completa, como a das cidades de Admá e Zeboim.

É nesse ponto que a sentença para. Como te abandonaria, ó Efraim? O meu coração se comove dentro de mim. Não executarei o furor da minha ira, porque eu sou Deus, e não homem, o Santo no meio de ti (11.8 e 11.9). Deus não se deixa governar pela ira, como um homem ofendido se deixaria.

Os capítulos 12 e 13 retomam a acusação. O 12 lembra Jacó, que no ventre segurou o irmão pelo calcanhar e adulto lutou com o anjo, episódios contados em Gênesis. O 13 afirma que desde o Egito Israel não conhece outro salvador, e traz a pergunta que Paulo fará ecoar: onde estão, ó morte, as tuas pragas? (13.14).

Levai convosco palavras

O último capítulo é um convite. Volta, ó Israel, para o Senhor, teu Deus. O que o povo deve levar não são animais: levai convosco palavras. A oração que o profeta ensina renuncia às três falsas seguranças do livro: a Assíria não nos salvará, não montaremos cavalos de guerra, e não diremos mais nosso Deus à obra das nossas mãos.

A resposta é a mais terna de Oseias. Eu curarei a sua infidelidade, eu os amarei de boa vontade. Serei para Israel como o orvalho, e ele florescerá como o lírio. O orvalho, que no capítulo 6 era figura do amor passageiro do povo, agora é figura do amor constante de Deus.

O Novo Testamento ouviu Oseias com atenção. Jesus manda os críticos aprenderem o que significa misericórdia quero. Paulo, em Romanos 9, e Pedro, na sua primeira carta, aplicam os nomes dos filhos aos que não eram povo e foram feitos povo. Antes de Oseias, a aliança era descrita sobretudo com a linguagem dos tratados e da lei. Depois dele, a Bíblia passa a ter também a linguagem do casamento, que Jeremias e Ezequiel retomam e que chega às bodas do Apocalipse.

Os pontos centrais

  1. O casamento de Oseias com Gomer (Oseias 1) é um sinal: a vida do profeta mostra a infidelidade de Israel e a insistência de Deus.
  2. Os nomes Jezreel, Lo-Ruama e Lo-Ami anunciam o juízo, e o próprio livro os inverte em promessa no capítulo 2.
  3. A acusação central é a falta de fidelidade, de amor e de conhecimento de Deus na terra (Oseias 4.1), que faz o povo perecer (4.6).
  4. Misericórdia quero, e não sacrifício (Oseias 6.6) é a frase que Jesus cita duas vezes, em Mateus 9.13 e 12.7.
  5. No capítulo 11, Deus fala como pai que ensinou o filho a andar e recusa destruí-lo: sou Deus, e não homem (11.9).
  6. O livro termina com um chamado à volta e a promessa de cura (Oseias 14), e não com a sentença sobre Samaria.

Leituras que se afastam do texto

Os profetas menores são menos importantes que os maiores

Menor se refere ao tamanho do livro, não ao peso da mensagem. Os doze, de Oseias a Malaquias, cabiam juntos num único rolo, enquanto Isaías, Jeremias e Ezequiel ocupavam um rolo cada. Oseias é citado por Jesus, por Paulo e por Pedro, e o Novo Testamento recorre aos doze em momentos centrais. O engano vem de ler a palavra menor como grau de importância.

Gomer era uma prostituta do templo de Baal

O texto a chama de mulher de prostituições e diz que era filha de Diblaim (Oseias 1.2 e 1.3). Não informa profissão, lugar nem ligação com santuário algum. A ideia da prostituta de templo é uma hipótese de leitores posteriores, tirada das denúncias do livro contra o culto de Baal. O que o texto afirma é a infidelidade dela e o que essa infidelidade representa: a terra que se afasta do Senhor.

Misericórdia quero, e não sacrifício significa que Deus aboliu os sacrifícios

A segunda metade do versículo explica a primeira: conhecimento de Deus, mais do que holocaustos (Oseias 6.6). É uma comparação no modo hebraico de falar, que nega um lado para dar prioridade ao outro. Oseias condena o culto que continua enquanto a fidelidade evapora como orvalho da manhã (6.4). Jesus usa a frase no mesmo sentido, contra quem cumpria ritos e desprezava pessoas.

Do Egito chamei o meu filho é uma frase sobre o menino Jesus

Em Oseias 11.1 a frase olha para trás: o filho é Israel, e o chamado é a saída do Egito com Moisés. O versículo seguinte já fala de como esse filho se afastou. Mateus 2.15 a aplica à volta de Jesus do Egito porque vê nele o filho que refaz o caminho de Israel. As duas leituras se somam, mas quem procura a frase em Oseias encontra primeiro o êxodo.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Em que reino Oseias profetiza, e como ele costuma chamá-lo?
No reino do norte, Israel, que ele chama muitas vezes de Efraim, o nome da sua tribo principal.
Quem é Gomer?
A filha de Diblaim, a mulher com quem Oseias se casa por ordem do Senhor (Oseias 1.3).
O que significa o nome Lo-Ami?
Significa não meu povo, e é o nome dado ao terceiro filho, sinal da aliança rompida.
Que lugar se torna porta de esperança na promessa do capítulo 2?
O vale de Acor, que no tempo de Josué tinha sido lugar de desgraça, é devolvido como porta de esperança.
Quanto Oseias paga para trazer a mulher de volta no capítulo 3?
Quinze peças de prata e uma medida e meia de cevada, segundo Oseias 3.2.
Com que ave Oseias compara a política de Efraim?
Com uma pomba ingênua, sem juízo, que chama o Egito e corre para a Assíria (Oseias 7.11).
Que provérbio de Oseias fala de semear e colher?
Semeiam vento e colherão tempestade, dito sobre os reis e os ídolos de Israel (Oseias 8.7).
Que frase de Oseias Paulo retoma ao falar da ressurreição?
A pergunta dirigida à morte em Oseias 13.14, que Paulo cita em 1 Coríntios 15.55.
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Débora Arantes

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