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Resumo da conversão de Paulo

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Saulo de Tarso vai a Damasco com cartas do sumo sacerdote para prender os seguidores de Jesus. Perto da cidade, uma luz do céu o envolve, ele cai por terra e ouve: Saulo, Saulo, por que me persegues? Quem fala é Jesus. Cego, é levado pela mão até Damasco e passa três dias sem ver, sem comer e sem beber, até que um discípulo chamado Ananias lhe impõe as mãos. Recupera a vista, é batizado e começa a anunciar nas sinagogas aquele que perseguia. Atos conta o episódio três vezes: pelo narrador, no capítulo 9, e pela boca de Paulo, diante do povo de Jerusalém e diante do rei Agripa. Em Gálatas, o apóstolo o resume em uma frase: Deus quis revelar nele o seu Filho.

Quatro cartões com as quatro versões da conversão de Paulo: o narrador em Atos 9, Paulo ao povo em Atos 22, a Agripa em Atos 26 e a carta aos Gálatas
Imagem: resumode.com.br

O jovem que guardava as capas

Saulo aparece em Atos numa frase lateral. Quando Estêvão é apedrejado, as testemunhas deixam as capas aos pés de um jovem com esse nome (7.58), e o texto acrescenta que ele aprovava aquela morte (8.1).

O que se sabe dele vem dos discursos posteriores e das cartas. Era judeu, nascido em Tarso, na Cilícia, criado em Jerusalém e instruído aos pés de Gamaliel (22.3). Era fariseu, da tribo de Benjamim, e se destacava pelo zelo.

Depois de Estêvão, a perseguição se espalha, e Saulo está à frente dela. Entra de casa em casa, arrasta homens e mulheres e os entrega à prisão (8.3). O capítulo 9 o encontra ainda respirando ameaças e morte. Ele pede ao sumo sacerdote cartas para as sinagogas de Damasco: se achasse ali gente do Caminho, levaria todos presos a Jerusalém.

A luz perto de Damasco

A cena está em Atos 9. Saulo já se aproxima de Damasco quando, de repente, uma luz do céu brilha ao seu redor. Ele cai por terra e ouve uma voz: Saulo, Saulo, por que me persegues?

Pergunta: quem és, Senhor? A resposta é a frase central do episódio: eu sou Jesus, a quem tu persegues. Saulo perseguia discípulos. A voz diz que perseguia o próprio Jesus. Segue uma ordem curta: levanta-te, entra na cidade, e ali te dirão o que deves fazer.

Os homens que viajavam com ele ficam parados, sem fala. Ouvem a voz e não veem ninguém. Saulo se levanta do chão, abre os olhos e não enxerga nada. O homem que vinha para levar presos é levado pela mão até Damasco. Passa três dias sem ver, sem comer e sem beber.

Ananias na rua Direita

A segunda metade da cena pertence a um discípulo de Damasco chamado Ananias. O Senhor lhe fala em visão: vai à rua chamada Direita e procura, na casa de Judas, um homem de Tarso chamado Saulo. Ele está orando.

Ananias objeta. Ouviu de muitos o mal que esse homem fez aos santos em Jerusalém, e sabe que ele veio com autoridade para prender. A resposta dá o sentido de tudo: vai, porque este é para mim um instrumento escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel; e eu lhe mostrarei quanto deve sofrer pelo meu nome (9.15-16).

Ananias vai, impõe as mãos e o chama de irmão: Saulo, irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho, me enviou para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. Caem dos olhos de Saulo umas como escamas. Ele vê, levanta-se, é batizado e só então come.

Do cesto na muralha até Tarso

Saulo passa alguns dias com os discípulos e logo prega nas sinagogas de Damasco que Jesus é o Filho de Deus. Os ouvintes não entendem: não é este o que veio prender os que invocam esse nome? Passado bastante tempo, os judeus da cidade resolvem matá-lo e vigiam as portas dia e noite. Os discípulos o descem pela muralha, de noite, num cesto.

Em Jerusalém, a acolhida é o medo. Os discípulos não creem que ele seja um deles. Barnabé o toma consigo, leva-o aos apóstolos e conta o que houve na estrada. Saulo passa a pregar na cidade, discute com os judeus de língua grega, e estes também tentam matá-lo. Os irmãos o levam a Cesareia e o enviam para Tarso (9.30). Ele sai de cena por alguns capítulos, até Barnabé ir buscá-lo para o trabalho em Antioquia (11.25-26).

Contado ao povo, na escadaria

Atos volta ao episódio no capítulo 22, agora na voz de Paulo. Ele acaba de ser preso no templo. Na escadaria da fortaleza, com licença do comandante, fala à multidão em língua hebraica, e ela se cala.

O relato é feito para ouvidos judeus. Paulo se apresenta como um deles, formado na lei, tão zeloso quanto os que o escutam. Acrescenta a hora: era por volta do meio-dia. Acrescenta uma pergunta sua: que farei, Senhor? Ananias aparece como homem piedoso segundo a lei, de bom nome entre todos os judeus de Damasco, e fala a língua de Israel: o Deus de nossos pais te escolheu para conhecer a sua vontade, ver o Justo e ouvir a voz da sua boca.

Só no fim vem a palavra perigosa. Paulo conta que, de volta a Jerusalém, orando no templo, viu o Senhor, que lhe disse: vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios (22.21). A multidão o tinha escutado até aí. Nessa palavra, recomeça a gritar.

Contado ao rei Agripa

A terceira versão está no capítulo 26, em Cesareia, diante do governador Festo e do rei Agripa. O auditório é outro, e o relato também.

Paulo carrega nas tintas da perseguição: encerrou muitos santos nas prisões e dava o seu voto quando os matavam. A luz é mais brilhante que o sol. Todos caem por terra. A voz fala em hebraico e traz uma frase a mais, um provérbio conhecido do mundo grego: dura coisa é para ti recalcitrar contra os aguilhões (26.14).

Ananias não é mencionado, nem a cegueira, nem o batismo. A missão vem direto da boca de Jesus, na estrada: apareci a ti para te fazer servo e testemunha, e te envio aos gentios, para lhes abrir os olhos e convertê-los das trevas para a luz (26.16-18). Paulo conclui diante do rei: não fui desobediente à visão celestial.

Os três relatos lado a lado

Atos 9 Atos 22 Atos 26
Quem conta O narrador Paulo, ao povo de Jerusalém Paulo, a Agripa e a Festo
A hora Não é dita Por volta do meio-dia Ao meio-dia
A luz Luz do céu ao redor de Saulo Grande luz do céu Mais brilhante que o sol, ao redor de todos
Quem cai Saulo Paulo Todos
Os companheiros Ouvem a voz e não veem ninguém Veem a luz e não ouvem a voz de quem falava Caem com ele
Ananias Recebe uma visão e resiste Homem piedoso segundo a lei Não aparece
A missão aos gentios Dita a Ananias Dita no templo, mais tarde Dita por Jesus na estrada

O núcleo não muda: a estrada de Damasco, a luz, a queda, a pergunta com o nome repetido e a resposta eu sou Jesus, a quem tu persegues. O que varia é o que cada auditório precisava ouvir. Ao povo, Paulo mostra um judeu fiel conduzido por outro judeu fiel. Ao rei, resume e vai direto ao envio.

O que Paulo escreve aos gálatas

Nas cartas, Paulo quase não descreve a cena. Na carta aos Gálatas, lembra o que todos sabiam, que perseguia a igreja de Deus e tentava destruí-la, e diz o essencial em uma frase: aquele que o separou desde o ventre materno e o chamou pela sua graça quis revelar nele o seu Filho, para que o anunciasse entre os gentios (1.15-16).

Não há luz, voz nem Ananias. Há um chamado, dito com as palavras com que Jeremias e Isaías contam a própria vocação, e um itinerário que Atos não registra: ele vai para a Arábia e volta a Damasco. A palavra volta confirma o lugar. Noutra carta, Paulo se põe no fim da lista de testemunhas da ressurreição: por último, apareceu também a mim (1 Coríntios 15.8). Para ele, Damasco foi isso, um encontro com o ressuscitado.

Saulo, também chamado Paulo

A voz na estrada o chama de Saulo, e Ananias também. Ele continua Saulo em Damasco, em Jerusalém, em Tarso e em Antioquia. O outro nome só aparece no capítulo 13, em Chipre, diante de um procônsul romano: Saulo, também chamado Paulo (13.9). Dali em diante o narrador só diz Paulo. O texto não narra troca nenhuma. São dois nomes da mesma pessoa, e o segundo passa à frente quando o trabalho se volta para o mundo de língua grega.

É nesse ponto que começam as viagens missionárias. Quem relê Atos 9 depois delas reconhece o programa dado a Ananias: os gentios nas cidades da Ásia e da Grécia, os reis no tribunal de Cesareia e os filhos de Israel em cada sinagoga do caminho. E a outra metade da frase, quanto ele deve sofrer pelo meu nome, é o que o resto do livro conta.

Os pontos centrais

  1. Saulo entra em Atos na morte de Estêvão, guardando as capas e aprovando a execução (Atos 7.58; 8.1).
  2. A voz identifica Jesus com os perseguidos: por que me persegues? Eu sou Jesus, a quem tu persegues (9.4-5).
  3. Ananias de Damasco resiste à ordem e ouve que Saulo é instrumento escolhido para levar o nome de Jesus aos gentios, aos reis e a Israel (9.15).
  4. Atos narra a conversão três vezes, nos capítulos 9, 22 e 26, cada uma moldada por quem conta e por quem escuta.
  5. Em Gálatas 1.15-16, Paulo descreve o que viveu como chamado, com a linguagem da vocação dos profetas.
  6. O nome Paulo só aparece em Atos 13.9, em Chipre, anos depois de Damasco; até ali o texto diz Saulo.

Leituras que se afastam do texto

Paulo caiu do cavalo no caminho de Damasco

Nenhum dos três relatos fala em cavalo nem em outro animal. Atos diz que Saulo caiu por terra (9.4), que ele caiu ao chão (22.7) e que todos caíram por terra (26.14). Depois, os companheiros o levam pela mão até a cidade, o que combina com gente a pé. O cavalo vem da pintura, que precisava dar altura à queda e pôs o perseguidor montado. A imagem ficou tão forte que virou expressão da língua.

O Ananias que batizou Paulo é o mesmo de Ananias e Safira

Atos tem três homens com esse nome. O marido de Safira morre em Jerusalém, no capítulo 5, por mentir sobre o preço de um campo. O Ananias de Damasco é um discípulo, homem piedoso segundo a lei e respeitado por todos os judeus da cidade (22.12), que aparece só neste episódio. O terceiro é o sumo sacerdote que manda bater na boca de Paulo diante do Sinédrio (23.2). O nome era comum, e o livro não confunde os três.

Ao se converter, Paulo deixou de ser judeu

Paulo nunca fala assim de si. Diante do povo, anos depois, começa dizendo eu sou judeu (Atos 22.3); diante do Sinédrio, eu sou fariseu (23.6); diante de Agripa, afirma que está sendo julgado pela esperança da promessa feita aos pais (26.6). Em Gálatas, descreve Damasco como os profetas descrevem a própria vocação: Deus o separou desde o ventre materno e o chamou. O que muda é quem ele reconhece como o Cristo.

Perguntas para estudo

8 perguntas

De que cidade era Saulo, e com quem estudou?
Era de Tarso, na Cilícia, e foi instruído em Jerusalém aos pés de Gamaliel (Atos 22.3).
Como Atos chama os seguidores de Jesus que Saulo ia prender?
Os que eram do Caminho, homens e mulheres, que ele levaria presos para Jerusalém (Atos 9.2).
Por quanto tempo Saulo fica sem enxergar em Damasco?
Três dias, durante os quais também não come nem bebe (Atos 9.9).
Em que rua e em casa de quem Ananias encontra Saulo?
Na rua chamada Direita, na casa de um homem de nome Judas, onde Saulo estava orando (9.11).
O que acontece com os olhos de Saulo quando Ananias lhe impõe as mãos?
Caem deles umas como escamas, e ele volta a ver; em seguida é batizado (Atos 9.18).
Como Saulo escapa de Damasco?
Os discípulos o descem de noite pela muralha, dentro de um cesto (Atos 9.25).
Quem apresenta Saulo aos apóstolos em Jerusalém?
Barnabé, que conta como ele tinha visto o Senhor e pregado com coragem em Damasco (9.27).
Em que relato aparece a frase sobre recalcitrar contra os aguilhões?
No discurso diante de Agripa (Atos 26.14); algumas edições antigas a trazem também no capítulo 9.
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Débora Arantes

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