Resumo dos dez mandamentos
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
No terceiro mês depois da saída do Egito, ao pé do monte Sinai, Deus fala a todo o povo e pronuncia dez palavras. Elas começam por uma lembrança, eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da casa da servidão, e só depois ordenam: nenhum outro deus, nenhuma imagem, o nome não tomado em vão, o sábado guardado, pai e mãe honrados; não matar, não adulterar, não furtar, não dar falso testemunho, não cobiçar. O povo, apavorado, pede que Moisés fale em lugar de Deus. As palavras são gravadas em duas tábuas de pedra, quebradas no episódio do bezerro de ouro, reescritas e guardadas na arca. Deuteronômio 5 as repete, e as tradições judaica e cristãs numeram o mesmo texto de modos diferentes.
No terceiro mês depois do Egito, ao pé do monte
Os dez mandamentos estão em dois lugares: em Êxodo 20, quando são proclamados, e em Deuteronômio 5, quando Moisés os repete quarenta anos depois. A cena original fica no centro do Êxodo. No terceiro mês depois da saída, o povo acampa diante do Sinai.
Antes de qualquer lei vem uma proposta. Deus manda dizer: vistes o que fiz aos egípcios e como vos levei sobre asas de águias; se guardardes a minha aliança, sereis para mim reino de sacerdotes e nação santa (Êxodo 19.4 a 6). O povo responde que fará tudo o que o Senhor falou. Seguem-se três dias de preparação: roupas lavadas e um limite marcado em volta do monte, que ninguém pode tocar.
Na manhã do terceiro dia há trovões, relâmpagos, uma nuvem espessa e um som de trombeta cada vez mais forte. O monte fumega, porque o Senhor desce sobre ele em fogo. Todo o acampamento treme.
Antes da primeira ordem, uma lembrança
O capítulo 20 começa assim: então falou Deus todas estas palavras. A primeira frase não manda nada. Apresenta quem fala e o que ele já fez: eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão (Êxodo 20.2).
Essa ordem das coisas governa a leitura de tudo o que vem depois. O povo não recebe os mandamentos para ser libertado; recebe-os porque foi libertado. E Deus fala no singular, a cada um: não terás, não farás, lembra-te.
Os outros deuses, as imagens, o nome e o sábado
As primeiras palavras tratam do próprio Deus. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem figura do que há no céu, na terra ou nas águas, para te curvares diante delas e as servires. O texto se alonga aqui: o Senhor se diz Deus zeloso, que cobra a culpa até a terceira e a quarta geração dos que o aborrecem e usa de misericórdia até mil gerações com os que o amam.
Segue-se o nome: não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque ele não terá por inocente quem o fizer.
A palavra mais longa é a do sábado. Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias são de trabalho; o sétimo é do Senhor, e nele ninguém da casa trabalha: nem filho, nem filha, nem servo, nem serva, nem animal, nem o estrangeiro que mora ali. O motivo dado em Êxodo é a criação: em seis dias o Senhor fez os céus, a terra e o mar, e ao sétimo descansou.
Pai e mãe, e depois o próximo
Honra a teu pai e a tua mãe é a outra palavra afirmativa, e vem com uma promessa: para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor te dá.
Depois o ritmo muda. Quatro proibições cabem em poucas palavras cada uma: não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Protegem, nessa ordem, a vida, o casamento, os bens e o nome de quem vive ao lado.
A última vai além do que se pode ver: não cobiçarás. A casa do próximo, a mulher, o servo, a serva, o boi, o jumento, coisa alguma que seja dele. O texto, que começou no Deus que liberta, termina no desejo de quem ouve.
Fala tu conosco
O povo vê os trovões, as chamas e o monte fumegando, e recua. Pede a Moisés: fala tu conosco, e ouviremos; não fale Deus conosco, para que não morramos (Êxodo 20.19). Moisés responde que não temam e entra na escuridão onde Deus está. O restante da lei será dado por meio dele.
A aliança é selada pouco depois. Moisés escreve as palavras do Senhor, levanta um altar ao pé do monte com doze colunas, uma para cada tribo, e lê o livro da aliança aos ouvidos do povo. A resposta é a mesma de antes, agora completa: tudo o que o Senhor falou faremos e obedeceremos. Moisés asperge o povo com o sangue dos sacrifícios e o chama de sangue da aliança (Êxodo 24.7 e 8). Só então é chamado ao alto para receber as tábuas.
As dez palavras têm um tratamento que nenhuma outra lei recebe. São escritas em duas tábuas de pedra, dos dois lados, pelo dedo de Deus (Êxodo 31.18 e 32.15). Moisés desce com elas, encontra o povo em volta do bezerro de ouro e as quebra ao pé do monte. Depois lavra outras duas, sobe de novo e fica mais quarenta dias. É nesse ponto que o texto usa a expressão que deu nome ao conjunto: as palavras da aliança, as dez palavras (Êxodo 34.28). As novas tábuas são postas dentro da arca.
Um texto, três maneiras de contar até dez
O texto diz que as palavras são dez e não as numera. Por isso as tradições, lendo exatamente os mesmos versículos, dividem-nos em pontos diferentes.
| O que diz Êxodo 20 | Tradição judaica | Católica e luterana | Demais protestantes e ortodoxa |
|---|---|---|---|
| Eu sou o Senhor, teu Deus (v. 2) | 1ª | abertura da 1ª | abertura da 1ª |
| Não terás outros deuses (v. 3) | 2ª | 1ª | 1ª |
| Não farás imagem (v. 4 a 6) | 2ª | 1ª | 2ª |
| Não tomarás o nome em vão (v. 7) | 3ª | 2ª | 3ª |
| Lembra-te do sábado (v. 8 a 11) | 4ª | 3ª | 4ª |
| Honra pai e mãe (v. 12) | 5ª | 4ª | 5ª |
| Não matarás (v. 13) | 6ª | 5ª | 6ª |
| Não adulterarás (v. 14) | 7ª | 6ª | 7ª |
| Não furtarás (v. 15) | 8ª | 7ª | 8ª |
| Não dirás falso testemunho (v. 16) | 9ª | 8ª | 9ª |
| Não cobiçarás (v. 17) | 10ª | 9ª e 10ª | 10ª |
A diferença está em dois pontos. No começo: a apresentação de Deus pode contar como a primeira palavra, e a proibição das imagens pode ser lida junto com a dos outros deuses ou separada dela. No fim: a cobiça pode ser uma palavra só ou duas. Entre católicos, a nona trata da mulher do próximo e a décima dos bens, na ordem de Deuteronômio; entre luteranos, a nona fala da casa e a décima do restante, na ordem de Êxodo.
Ninguém acrescenta nem retira nada do texto. Quem compara listas de catecismo estranha os números, mas as frases são as mesmas.
A segunda vez, nas planícies de Moabe
Em Deuteronômio, Moisés repete as dez palavras à geração que vai entrar na terra, e insiste em que a aliança é com ela: conosco, todos os que hoje estamos aqui vivos. O texto é quase idêntico. Muda o motivo do sábado, que passa a ser a lembrança da escravidão no Egito, e muda a ordem na cobiça, com a mulher do próximo antes da casa.
Moisés acrescenta uma observação sobre aquele dia: o Senhor falou estas palavras a toda a congregação, do meio do fogo, e nada acrescentou (Deuteronômio 5.22). As dez palavras são as únicas que o povo inteiro ouviu da própria voz de Deus.
De Oseias ao Sermão do Monte
Os profetas usam o Decálogo como peça de acusação. Oseias descreve a terra com a lista transformada em denúncia: perjurar, mentir, matar, furtar, adulterar (Oseias 4.2). Jeremias, à porta do templo, pergunta se é possível furtar, matar, adulterar, jurar falso e depois se apresentar ali como quem está a salvo (Jeremias 7.9 e 10).
Jesus os cita ao jovem rico como caminho conhecido (Mateus 19.18 e 19) e, no Sermão do Monte, leva dois deles até a raiz: o não matarás alcança a ira, e o não adulterarás alcança o olhar (Mateus 5.21 a 28). Perguntado sobre o maior mandamento, responde com o amor a Deus e ao próximo, de que dependem a lei e os profetas, como se lê em Mateus.
Paulo segue a mesma linha em Romanos: não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás e qualquer outro mandamento se resumem em amarás o teu próximo como a ti mesmo (Romanos 13.9). O texto dito uma vez no Sinai, diante de um monte em chamas, chega ao fim da Bíblia resumido em uma palavra só.
Os pontos centrais
- O prólogo de Êxodo 20.2: antes de qualquer ordem, Deus se apresenta como quem tirou o povo da casa da servidão.
- A expressão do próprio texto, as dez palavras (Êxodo 34.28; Deuteronômio 4.13), de onde vem o nome Decálogo.
- A sequência das palavras: outros deuses, imagens, o nome, o sábado, pai e mãe, matar, adulterar, furtar, falso testemunho e cobiçar.
- A reação do povo, que pede a Moisés: fala tu conosco, e ouviremos; não fale Deus conosco, para que não morramos (Êxodo 20.19).
- As três maneiras de numerar o mesmo texto: a judaica, a católica e luterana, e a das demais igrejas protestantes e da ortodoxa.
- O resumo de Jesus em dois amores, a Deus e ao próximo, citados de Deuteronômio 6.5 e Levítico 19.18 (Mateus 22.37 a 40).
Leituras que se afastam do texto
Moisés recebeu os dez mandamentos no alto do monte e os levou a um povo que ainda não os conhecia
Na ordem do relato, o povo ouve antes de Moisés subir. Deus pronuncia as dez palavras em voz alta, do meio do fogo, para toda a assembleia (Êxodo 20.1; Deuteronômio 5.22), e é por ter ouvido que o povo se apavora e pede um mediador. As tábuas de pedra vêm depois, ao fim de quarenta dias no monte (Êxodo 31.18). Elas registram o que já tinha sido dito e aceito.
Cada tábua trazia cinco mandamentos
O texto conta duas tábuas, diz que estavam escritas dos dois lados e que a escrita era de Deus (Êxodo 32.15 e 16), e para aí. Não informa quantas palavras havia em cada uma, nem que uma tratava de Deus e a outra do próximo. A divisão em cinco e cinco, ou em três e sete, é costume da arte e da catequese, e muda conforme a numeração adotada. O topo arredondado também é das pinturas.
Não matarás proíbe tirar a vida em qualquer situação
O verbo hebraico do mandamento é específico: designa o homicídio, a morte de uma pessoa por outra, e não é o verbo habitual dos relatos de guerra nem das sentenças da lei. Por isso várias traduções trazem não assassinarás. O código que vem logo depois distingue quem mata de propósito de quem mata sem querer (Êxodo 21.12 e 13). O mandamento protege a vida do próximo contra quem decide tirá-la.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quanto tempo depois da saída do Egito o povo chega ao Sinai?
- No terceiro mês, e acampa defronte do monte, onde se prepara durante três dias (Êxodo 19).
- Como o texto bíblico chama os dez mandamentos?
- As dez palavras; em grego, Decálogo. A expressão aparece em Êxodo 34.28 e em Deuteronômio 4.13 e 10.4.
- Quais das dez palavras são ordens afirmativas?
- Duas: lembrar o dia de sábado para o santificar e honrar pai e mãe. As demais são proibições.
- Qual mandamento vem acompanhado de uma promessa de vida longa?
- Honrar pai e mãe, para que se prolonguem os dias na terra; Efésios 6.2 o chama de primeiro mandamento com promessa.
- Que motivo Êxodo 20 dá para o descanso do sétimo dia?
- Em seis dias o Senhor fez os céus, a terra e o mar, e ao sétimo descansou; por isso o abençoou.
- Como as tábuas foram escritas?
- Pelo dedo de Deus, dos dois lados da pedra, segundo Êxodo 31.18 e 32.15 e 16.
- O que acontece com as primeiras tábuas?
- Moisés as quebra ao pé do monte ao ver o bezerro de ouro, e depois lavra outras duas iguais.
- Onde as tábuas ficam guardadas?
- Dentro da arca da aliança, onde ainda estão quando Salomão dedica o templo (1 Reis 8.9).
Débora Arantes
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