Resumo do Salmo 91
Por Débora Arantes 11 min de leitura
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Abrigo, sombra, refúgio e fortaleza: o Salmo 91 começa empilhando palavras de proteção e quatro nomes de Deus. Quem mora nesse abrigo diz ao Senhor: meu refúgio. Uma segunda voz se dirige então a essa pessoa e descreve o que a cerca: armadilha de caçador, peste, flecha, terror da noite, morte ao meio-dia, leão e serpente. Em cada caso, Deus se põe entre o fiel e o perigo, como ave que cobre os filhotes, como escudo, por meio de anjos que amparam o passo. Nos três versículos finais, o próprio Deus fala e promete responder, estar junto na angústia, livrar e saciar com longos dias. O Novo Testamento cita o salmo numa cena precisa: o diabo o usa para tentar Jesus no alto do templo.
A resposta à oração de Moisés
O Salmo 91 tem dezesseis versículos e, no texto hebraico, nenhum título: não traz nome de autor, ocasião nem indicação musical. A antiga versão grega o atribui a Davi. Nas Bíblias que seguem a numeração grega e latina, é o Salmo 90.
A posição dele no livro de Salmos diz muito. Ele vem logo depois da oração de Moisés, o Salmo 90, que abre o quarto livro lembrando que Deus é a morada do seu povo de geração em geração e que a vida humana é curta, setenta ou oitenta anos de canseira. O 91 pega as duas pontas. Usa a mesma palavra, morada, para o Altíssimo, e termina com Deus prometendo saciar o fiel com longos dias.
Quatro nomes para um abrigo
Versículos 1 e 2. A abertura é uma afirmação geral: quem habita no esconderijo do Altíssimo passa a noite à sombra do Onipotente. Logo depois alguém fala por si: digo ao Senhor, meu refúgio e minha fortaleza, meu Deus, em quem confio.
São quatro nomes divinos em duas linhas, e quatro imagens de proteção: esconderijo, sombra, refúgio, fortaleza. Duas são de quem se abriga do sol e do olhar alheio; duas são de quem se defende de ataque. O poema inteiro vai desdobrar essa confissão. Tudo o que vem depois é dito a quem pronunciou o versículo 2.
A armadilha do caçador e as asas
Versículo 3. A voz muda. Agora alguém se dirige ao fiel, chamando-o de tu: ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste que destrói. O passarinheiro é o caçador de aves, que arma redes e laços escondidos. A imagem fala do perigo que não se vê, preparado por outra pessoa. A peste é o contrário: o mal que não tem autor nem rosto e atinge uma cidade inteira.
Versículo 4. A proteção vem em duas figuras seguidas. Primeiro, a ave: ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas encontrarás abrigo. É a imagem do pássaro que recolhe os filhotes, a mesma que Boaz usa ao falar com Rute (Rute 2.12) e que Jesus usa ao lamentar Jerusalém (Mateus 23.37). Depois, a arma: a fidelidade dele é escudo e proteção em volta. O pequeno pássaro ameaçado pelo caçador é guardado por uma ave maior.
Noite, flecha, escuridão e meio-dia
Versículos 5 e 6. Quatro perigos, em dois pares. Não temerás o terror da noite nem a flecha que voa de dia; nem a peste que caminha no escuro nem a destruição que devasta ao meio-dia. Os pares alternam noite e dia de propósito: é o modo hebraico de dizer a qualquer hora. Alternam também o perigo que vem de gente, a flecha, e o que vem sem que ninguém o dispare.
Versículos 7 e 8. O quadro se torna extremo. Mil caem de um lado, dez mil do outro, e o mal não chega a quem confia. A ele cabe apenas olhar e ver a paga dos ímpios. O fiel não faz nada nesses versículos: não combate, não foge, não se esconde por conta própria. Fica onde o versículo 1 o colocou.
A tenda guardada e os anjos no caminho
Versículos 9 e 10. O poema volta ao ponto de partida e repete a confissão: porque disseste o Senhor é o meu refúgio e fizeste do Altíssimo a tua morada, nenhum mal te alcançará, nenhuma praga chegará perto da tua tenda. A sequência é clara. Quem mora em Deus tem a própria casa guardada.
Versículos 11 e 12. Da tenda, o salmo passa à estrada. Ele dará ordens aos seus anjos a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos; eles te levarão nas mãos, para que o teu pé não tropece em pedra. A proteção acompanha quem anda, e a imagem é delicada: mensageiros de Deus atentos a uma pedra no chão.
Versículo 13. O passo que não tropeça também pisa. Andarás sobre o leão e a cobra, calcarás o leão novo e a serpente. São os dois tipos de ataque de um caminho no deserto, o que vem de frente e com força e o que vem rasteiro e escondido.
Deus toma a palavra
Versículos 14 a 16. Sem aviso, a voz muda de novo, e quem fala é Deus. Ele não se dirige ao fiel: fala dele, como quem o apresenta.
Os motivos vêm primeiro. Porque se apegou a mim com amor, eu o livrarei; porque conhece o meu nome, eu o porei a salvo, em lugar alto. Depois, as promessas em série:
- ele me invocará, e eu responderei;
- na angústia estarei com ele;
- eu o livrarei e lhe darei honra;
- eu o saciarei com longos dias;
- eu lhe mostrarei a minha salvação.
A lista tem um detalhe que a leitura apressada perde. No meio dela está a angústia, e a promessa para essa hora não é que ela não venha: é estar junto. E a última palavra do salmo não é proteção, é salvação. As imagens de escudo e de asas desembocam em algo maior do que escapar de um perigo.
Três vozes num só poema
O Salmo 91 funciona como um diálogo. Alguém confessa a sua confiança (versículos 1 e 2). Uma segunda voz, que pode ser a de um sacerdote ou mestre, confirma e detalha o que essa confiança significa (3 a 13). Por fim, Deus mesmo ratifica o que foi dito (14 a 16). Quem lê ou reza o salmo ouve as três.
Há também um desenho de lugares: o abrigo, a tenda, o caminho. O fiel começa abrigado, tem a casa guardada e sai para a estrada acompanhado. Nenhuma das três situações dispensa as outras.
O Salmo 23 faz percurso parecido com as imagens do pastor e da mesa, e as duas orações trazem no último versículo a mesma expressão hebraica, longos dias.
No pináculo do templo
O Novo Testamento cita o salmo de modo expresso numa cena, e ela ensina a lê-lo. Depois de quarenta dias no deserto, Jesus é levado pelo diabo ao ponto mais alto do templo de Jerusalém. O desafio vem apoiado nos versículos 11 e 12: se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito que ele dará ordens aos seus anjos, e eles te sustentarão nas mãos. O Evangelho de Mateus põe essa tentação em segundo lugar; o de Lucas, em terceiro.
A citação é exata no que diz e curta no que deixa de fora: a expressão em todos os teus caminhos não aparece na boca do tentador. O salmo fala de alguém guardado enquanto anda por onde deve andar. O diabo propõe outra coisa, criar o perigo para obrigar Deus a agir.
Jesus não discute o salmo nem o corrige. Responde com outro texto: não tentarás o Senhor, teu Deus (Deuteronômio 6.16). A confiança do Salmo 91 permanece inteira; o que fica excluído é usá-la como teste. Mateus encerra o relato das tentações com um eco discreto: o diabo se retira, e anjos se aproximam e servem a Jesus.
O versículo que o tentador não citou, o da serpente pisada, volta mais adiante. Quando os discípulos enviados em missão retornam, Jesus lhes diz que deu a eles autoridade para pisar serpentes e escorpiões (Lucas 10.19).
Os pontos centrais
- Os dois primeiros versículos reúnem quatro nomes de Deus: Altíssimo, Onipotente, Senhor e meu Deus (Salmo 91.1-2).
- O poema tem três vozes: a de quem confia (versículos 1 e 2), a de quem o instrui (3 a 13) e a de Deus (14 a 16).
- Os perigos dos versículos 5 e 6 cobrem o dia inteiro: a noite, o dia claro, a escuridão e o meio-dia.
- O versículo 9 repete a confissão do começo: a proteção descrita vale para quem fez do Altíssimo a sua morada.
- A fala de Deus inclui a angústia entre as coisas previstas: na angústia estarei com ele (91.15).
- Na tentação, o diabo cita os versículos 11 e 12, e Jesus responde com Deuteronômio 6.16 (Mateus 4.5-7; Lucas 4.9-12).
Leituras que se afastam do texto
O Salmo 91 garante que nada de ruim acontece a quem tem fé
O salmo descreve um fiel cercado de perigos de todo lado, e não um caminho sem eles. Quando Deus toma a palavra, a angústia aparece entre as coisas que virão: ele me invocará, eu responderei, na angústia estarei com ele (91.15). O que o texto promete é presença, resposta e livramento. A leitura de garantia automática é justamente a que o diabo propõe no alto do templo, e que Jesus recusa (Mateus 4.5-7).
Deixar a Bíblia aberta no Salmo 91 protege a casa
O costume é conhecido, mas o salmo não fala de página nem de objeto. A proteção, nele, pertence a uma pessoa descrita por verbos: habita no abrigo do Altíssimo, diz ao Senhor meu refúgio, apega-se a ele, conhece o seu nome, invoca (91.1-2, 14-15). A tenda do versículo 10 é guardada porque quem mora nela fez do Altíssimo a sua morada, como diz o versículo anterior. No salmo, a confiança é dita em voz alta.
Mil cairão ao teu lado fala dos inimigos que o fiel derrota na batalha
No versículo 7, o fiel não luta com ninguém. Os mil e os dez mil caem por causa do que os versículos anteriores listaram, a flecha, a peste e a mortandade, e a parte dele é dita em seguida: somente com os teus olhos olharás (91.8). O quadro é o de alguém preservado no meio de uma calamidade, e não o de um guerreiro vitorioso. As únicas armas do salmo são defensivas, o escudo do versículo 4, e pertencem a Deus.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Que número o Salmo 91 recebe na numeração grega e latina?
- O número 90, porque essa contagem fica um número atrás na maior parte do livro.
- Que salmo vem imediatamente antes do 91?
- O Salmo 90, a oração de Moisés, que também chama Deus de morada do seu povo.
- A que o versículo 4 compara a fidelidade de Deus?
- A um escudo e a uma proteção que cerca o fiel, depois de falar em penas e asas.
- Quantos caem ao redor do fiel no versículo 7?
- Mil ao seu lado e dez mil à sua direita, sem que ele seja atingido.
- Que animais o fiel pisa no versículo 13?
- O leão e a cobra venenosa, o leão novo e a serpente, dois pares de feras e de répteis.
- Quem fala nos três últimos versículos?
- O próprio Deus, em primeira pessoa, falando do fiel como ele: eu o livrarei.
- Onde o diabo coloca Jesus antes de citar o salmo?
- No pináculo do templo, em Jerusalém, e o desafia a se lançar dali para baixo.
- Qual é a última promessa do salmo?
- Saciar o fiel com longos dias e mostrar a ele a salvação de Deus (91.16).
Débora Arantes
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