Resumo da história do rei Salomão
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Nenhum rei de Israel recebe tanto quanto Salomão, e é por isso que o fim dele pesa. Filho de Davi e Bate-Seba, é ungido às pressas na fonte de Giom, com o pai ainda vivo, para barrar o irmão Adonias. Em Gibeão, Deus lhe oferece o que quiser, e ele pede um coração capaz de ouvir e julgar; recebe também riqueza e fama. Julga o caso das duas mães, organiza o reino, compõe provérbios e cânticos, constrói em sete anos o templo de Jerusalém e o dedica com uma longa oração. A rainha de Sabá vem conferir o que ouviu e sai sem fôlego. Na velhice, as muitas esposas estrangeiras inclinam o coração do rei a outros deuses. Deus anuncia que o reino será rasgado, mas só depois da morte dele.
Jedidias, o segundo filho de Bate-Seba
A vida de Salomão ocupa os onze primeiros capítulos de 1 Reis, mas começa um livro antes. Em 2 Samuel 12, depois da morte do primeiro filho de Davi com Bate-Seba, o texto registra em duas linhas o nascimento de outro menino. O menino recebe o nome de Salomão, ligado à palavra paz. E há um acréscimo raro: o Senhor o amou, e mandou o profeta Natã dar-lhe o nome de Jedidias, amado do Senhor.
Depois disso, silêncio. Durante todas as guerras de família que enchem o resto de 2 Samuel, com Amnom, Absalão e a fuga de Davi, Salomão não diz uma palavra nem aparece em cena.
Na mula de Davi, até a fonte de Giom
Ele reaparece adulto, e por iniciativa de outros. Davi está velho e acamado. Adonias, o mais velho dos filhos vivos, declara que reinará e oferece um banquete aos seus aliados. Natã procura Bate-Seba, e os dois lembram ao rei um juramento: Salomão se sentaria no trono.
Davi age no mesmo dia. Manda pôr Salomão sobre a sua própria mula e descê-lo a Giom, onde o sacerdote Zadoque o unge. A trombeta soa, o povo grita viva o rei Salomão, e o barulho chega ao banquete de Adonias, que se desfaz.
No leito de morte, Davi lhe deixa dois tipos de conselho: guardar a lei de Moisés e resolver pendências antigas. O capítulo 2 conta como o novo rei as resolve, com a morte de Adonias e de Joabe e o afastamento do sacerdote Abiatar, e termina com uma frase de balanço: o reino se firmou na mão de Salomão.
Um coração que escuta
O texto abre o reinado com um retrato em uma linha: Salomão amava o Senhor e andava nos preceitos de Davi (1 Reis 3.3). Em Gibeão, depois de um grande sacrifício, Deus lhe aparece em sonho e diz: pede o que queres que eu te dê.
A resposta começa por gratidão e por uma confissão de despreparo: sou um menino pequeno, não sei como sair nem como entrar, e estou no meio de um povo numeroso demais para contar. O pedido é um coração que escuta, para julgar o povo e distinguir o bem do mal. Deus se agrada de que ele não tenha pedido vida longa, riqueza ou a morte dos inimigos, concede o que foi pedido e acrescenta o que não foi.
A demonstração vem em seguida, com duas mulheres e um único bebê vivo. Sem testemunhas, o rei manda trazer uma espada. A ordem de cortar a criança faz falar a mãe verdadeira, que prefere perder o filho a vê-lo morto. O povo, ao saber da sentença, conclui que a sabedoria do rei vem de Deus.
Do cedro ao hissopo
O capítulo 4 mostra essa sabedoria em tempo de paz. Salomão divide o território em doze distritos, cada um encarregado de abastecer a corte por um mês. Judá e Israel são numerosos como a areia, comem, bebem e se alegram, cada família debaixo da sua videira e da sua figueira.
O texto diz que a sabedoria dele superava a dos sábios do Oriente e do Egito. Compôs três mil provérbios e mil e cinco cânticos. Falava das árvores, do cedro do Líbano ao hissopo que brota no muro, e dos animais, das aves, dos répteis e dos peixes. Gente de todos os povos vinha ouvi-lo. É dessa fama que vem a ligação do seu nome com Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos.
Sete anos sem som de martelo
A obra que Davi não pôde fazer cabe ao filho. Salomão combina com Hirão, rei de Tiro, o fornecimento de cedro e convoca trabalhadores em turnos. A construção do templo começa no quarto ano do reinado e dura sete. Um detalhe dá o tom: as pedras chegavam prontas da pedreira, e no canteiro não se ouvia martelo nem ferramenta de ferro.
No meio da obra, uma palavra do Senhor lembra ao rei o que importa mais que as paredes: se andares nos meus estatutos, habitarei no meio dos filhos de Israel. Depois do templo, Salomão gasta treze anos no próprio palácio.
Na dedicação, a arca é posta no santuário, a nuvem enche a casa, e o rei ora de mãos estendidas. Ele mesmo reconhece que os céus não podem conter Deus, muito menos aquele edifício, e admite, numa frase que voltará contra ele, que não há homem que não peque (8.46).
Deus aparece pela segunda vez, como em Gibeão. Aceita a casa e repete a condição, agora com o outro lado dito por extenso: se o rei e os seus filhos se desviarem, Israel será arrancado da terra, e o templo virará motivo de espanto.
Ouro, cavalos e uma rainha vinda de longe
Os capítulos 9 e 10 acumulam números. Uma frota parte de Eziom-Geber e volta com ouro de Ofir. O rei faz um trono de marfim com seis degraus e doze leões. A prata, em Jerusalém, vale tanto quanto pedra. Há mil e quatrocentos carros, e os cavalos vêm do Egito.
A rainha de Sabá chega com uma caravana de especiarias, ouro e pedras preciosas para testá-lo com enigmas. Ele responde a tudo. Ela observa a casa, a mesa, os oficiais e os sacrifícios, fica sem fôlego e diz que não lhe contaram nem a metade. Bendiz o Deus de Israel, que pôs aquele rei no trono para praticar o direito e a justiça, entrega os presentes, recebe outros e volta para a sua terra.
O leitor de Deuteronômio reconhece a lista. A lei do rei, no capítulo 17, proibia três acúmulos: cavalos trazidos do Egito, mulheres e ouro. O narrador não comenta. Apenas enumera o ouro e os cavalos e passa às mulheres.
Amou o Senhor, amou muitas mulheres
O capítulo 11 começa com o mesmo verbo do capítulo 3, com outro objeto: o rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha do faraó. Setecentas esposas de linhagem real e trezentas concubinas, de povos com os quais a lei proibia casamento, justamente para que o coração não fosse arrastado atrás de outros deuses.
É o que acontece na velhice. O coração dele já não é inteiro para com o Senhor, como o de Davi. No monte em frente a Jerusalém, ele levanta altares a Quemos, de Moabe, e a Moloque, dos amonitas, e faz o mesmo para todas as esposas. O homem que pediu um coração capaz de escutar termina com o coração dividido.
Não nos teus dias
A reação de Deus é medida pelo que foi dado: ele se ira contra Salomão, a quem tinha aparecido duas vezes. A sentença diz que o reino será rasgado e entregue a um servo do rei. Dois limites a contêm, e nenhum deles é mérito de Salomão. Não será em vida dele, por amor de Davi. E não será o reino inteiro: uma tribo fica, por amor de Davi e de Jerusalém.
O fim do reinado é inquieto. Levantam-se Hadade, em Edom, e Rezom, em Damasco. Dentro de casa, o profeta Aías anuncia a Jeroboão, um dos seus oficiais, que dez tribos serão dele. Salomão tenta matá-lo, e ele foge para o Egito. O texto encerra com a fórmula que usará para os reis seguintes: quarenta anos de reinado, o sepultamento na cidade de Davi, e o filho Roboão no trono.
Maior do que Salomão
A Bíblia guarda dele duas memórias. O livro de 2 Crônicas conta o construtor do templo e se cala sobre o capítulo 11. Neemias, séculos depois, lembra exatamente esse capítulo para advertir contra os casamentos mistos: não houve rei como ele, amado do seu Deus, e até a ele as mulheres estrangeiras fizeram pecar (Neemias 13.26). Amado do seu Deus é o nome Jedidias, devolvido como lamento.
Nos evangelhos, Salomão serve de medida. Jesus diz que nem ele, em toda a sua glória, se vestiu como um lírio do campo (Mateus 6.29). E recorda a rainha que veio dos confins da terra para ouvi-lo, acrescentando: aqui está quem é maior do que Salomão (Mateus 12.42). A genealogia que abre o evangelho de Mateus passa por ele, e passa também pela mãe, sem apagar a história: Davi gerou Salomão daquela que tinha sido mulher de Urias.
Os pontos centrais
- O nome dado por Deus ao menino por meio de Natã: Jedidias, amado do Senhor (2 Samuel 12.24-25).
- As duas aparições de Deus a Salomão, em Gibeão (1 Reis 3.5) e depois do templo (9.2), lembradas na hora da sentença (11.9).
- O efeito do julgamento das duas mães: todo o Israel viu que havia no rei sabedoria de Deus para fazer justiça (1 Reis 3.28).
- O eco entre o começo e o fim: Salomão amava o Senhor (1 Reis 3.3) e Salomão amou muitas mulheres estrangeiras (11.1).
- A comparação que mede a queda: o coração dele não era inteiro para com o Senhor como o de Davi, seu pai (1 Reis 11.4).
- A sentença com dois limites em 1 Reis 11.12-13: não nos dias de Salomão e não o reino todo, por amor de Davi e de Jerusalém.
Leituras que se afastam do texto
Salomão nasceu do adultério de Davi com Bate-Seba
A criança concebida no adultério adoece e morre, apesar do jejum de Davi (2 Samuel 12.15-23). Salomão nasce depois, quando Bate-Seba já é esposa do rei. O texto diz que Davi a consolou, que ela teve outro filho e que o Senhor o amou, a ponto de enviar o profeta Natã com um segundo nome para o menino. As duas crianças se fundem na memória porque os pais são os mesmos e os relatos vêm em sequência.
Salomão herdou o trono por ser o filho mais velho de Davi
Ele está longe de ser o primeiro na fila. Com Davi acamado, quem se apresenta como herdeiro é Adonias, o mais velho dos filhos vivos, com carros, escolta e o apoio do general Joabe (1 Reis 1.5-7). Salomão chega ao trono por um juramento de Davi a Bate-Seba, cobrado por ela e por Natã na última hora. O próprio Adonias reconhece depois que o reino lhe escapou porque vinha do Senhor para o irmão (2.15).
Salomão e a rainha de Sabá tiveram um romance e um filho
O relato de 1 Reis 10.1-13 é uma visita de Estado. A rainha vem testar o rei com enigmas, vê o palácio, a mesa e o culto, declara que não lhe tinham contado nem a metade e bendiz o Senhor. Os dois trocam presentes, e ela volta para a sua terra com os seus servos. O romance e o filho pertencem a tradições muito posteriores, que o texto bíblico não registra.
Salomão perdeu o reino por causa da idolatria
Ele não perde nada em vida. A sentença de 1 Reis 11.11-13 diz que o reino será rasgado, mas não nos dias dele: será tirado da mão do filho, e ainda assim ficará uma tribo com a casa de Davi. Salomão vê surgirem adversários, tenta matar Jeroboão, reina quarenta anos e é sepultado na cidade de Davi. Quem recebe a conta é Roboão, em Siquém, no capítulo 12.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Em que lugar Salomão é ungido rei?
- Na fonte de Giom, em Jerusalém, para onde desce montado na mula do rei Davi.
- Quem unge Salomão?
- O sacerdote Zadoque, acompanhado do profeta Natã e de Benaia, chefe da guarda.
- Quantos provérbios e cânticos o texto atribui a Salomão?
- Três mil provérbios e mil e cinco cânticos, segundo o capítulo 4 de 1 Reis.
- Que som não se ouviu durante a construção do templo?
- O de martelo, machado ou ferramenta de ferro, porque as pedras chegavam já talhadas da pedreira.
- Como Hirão reage às vinte cidades que recebe de Salomão?
- Vai vê-las na Galileia, não gosta delas e passa a chamar a região de terra de Cabul.
- Quanto ouro entrava por ano no tesouro de Salomão?
- Seiscentos e sessenta e seis talentos, sem contar o que vinha dos mercadores e dos reis da Arábia.
- A que deuses Salomão ergue altares diante de Jerusalém?
- A Quemos, deus de Moabe, e a Moloque, deus dos amonitas, no monte em frente à cidade.
- Para onde foge Jeroboão quando Salomão tenta matá-lo?
- Para o Egito, onde fica sob a proteção do rei Sisaque até a morte de Salomão.
Débora Arantes
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