Resumo de 2 Samuel
Por Débora Arantes 12 min de leitura
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Todo o livro de 2 Samuel cabe no reinado de Davi, e ele se divide em subida e descida. Na subida, Davi chora Saul e Jônatas, reina sete anos e meio em Hebrom sobre Judá, é aceito por todas as tribos, conquista Jerusalém, leva para lá a arca e recebe pelo profeta Natã a promessa de que sua casa e seu trono durarão para sempre. A virada está no capítulo 11: Davi toma Bate-Seba, mulher de Urias, e manda matar o marido. Natã o confronta, Davi confessa e é perdoado, mas a espada não sai mais da sua casa: Amnom violenta Tamar, Absalão mata Amnom e depois se revolta contra o pai, que foge de Jerusalém e chora a morte do filho rebelde. O livro termina com um censo, uma peste e um altar erguido no lugar onde ficará o templo.
O livro de um só rei
2 Samuel continua sem intervalo o que 1 Samuel deixou: Saul e Jônatas mortos no monte Gilboa e Davi, ungido havia anos, ainda fora do trono. Os dois livros eram um só rolo na Bíblia hebraica. A diferença é de foco: o primeiro tem três protagonistas, este tem um. Tudo o que acontece em 2 Samuel acontece com Davi, por causa de Davi ou contra Davi.
O desenho do livro é simples de guardar. Os dez primeiros capítulos sobem: Davi ganha Judá, depois Israel, depois uma capital, depois uma promessa. O capítulo 11 é o ponto mais alto e o começo da queda. Do 12 ao 20, a família e o reino se desfazem aos poucos. Os quatro capítulos finais são um apêndice que recolhe materiais de várias épocas do reinado.
Davi em Hebrom: um rei para uma tribo
Um amalequita chega com a coroa de Saul e conta que o matou, esperando recompensa. Davi manda executá-lo por ter levantado a mão contra o ungido do Senhor e compõe o lamento do arco: como caíram os valentes (2 Samuel 1). É o mesmo Davi que por duas vezes poupou Saul, e o livro abre mostrando que ele não comemora a morte do rival.
Davi consulta a Deus e sobe a Hebrom, onde os homens de Judá o ungem rei. No norte, o general Abner põe no trono Is-Bosete, filho de Saul. Segue-se uma guerra longa, em que a casa de Davi se fortalece e a de Saul enfraquece. Abner rompe com Is-Bosete e negocia passar as tribos para Davi, mas é assassinado por Joabe, comandante de Davi, que vinga o irmão morto em combate. Pouco depois, dois oficiais matam Is-Bosete na cama e levam a cabeça a Davi. Davi chora e jejua por Abner e amaldiçoa a casa de Joabe; os assassinos de Is-Bosete ele manda executar. O narrador insiste: o trono chega a Davi sem que ele tenha derramado o sangue da casa de Saul.
Jerusalém, a arca e a promessa
Os anciãos de todas as tribos vão a Hebrom e ungem Davi rei de Israel. Ele tem trinta anos quando começa a reinar e reina quarenta ao todo. Seu primeiro ato é tomar dos jebuseus a fortaleza de Jerusalém, cidade que não pertencia a nenhuma tribo e por isso servia de capital para todas. Em seguida derrota os filisteus duas vezes.
Davi decide levar a arca da aliança para a nova capital. Na primeira tentativa, a arca vai num carro novo; os bois tropeçam, Uzá estende a mão para segurá-la e morre. Davi se assusta e deixa a arca três meses na casa de Obede-Edom. Na segunda tentativa, ela entra na cidade com sacrifícios, e Davi dança diante dela com todas as forças, vestido com um éfode de linho. Mical, filha de Saul e sua mulher, o despreza pela cena. Davi responde que dançou diante do Senhor, e o texto registra que Mical não teve filhos.
O capítulo 7 é o centro teológico do livro. Instalado num palácio de cedro, Davi diz ao profeta Natã que quer construir uma casa para a arca. Naquela noite Deus responde por Natã com um jogo de palavras: não é Davi quem fará uma casa para Deus, é Deus quem fará uma casa para Davi. Um filho seu herdará o trono, construirá o templo, e a dinastia será firmada para sempre. Se errar, será corrigido, mas a fidelidade de Deus não se afastará dele como se afastou de Saul. A oração de gratidão de Davi ocupa o resto do capítulo. Toda a esperança posterior de um rei descendente de Davi nasce desse texto.
Os capítulos 8 a 10 resumem as guerras que ampliam o reino, contra filisteus, moabitas, arameus, edomitas e amonitas. No meio deles, Davi procura algum sobrevivente da família de Saul para lhe fazer bem por amor de Jônatas, e encontra Mefibosete, aleijado dos dois pés, que passa a comer à mesa do rei.
O capítulo 11: Bate-Seba e Urias
A frase de abertura já prepara o leitor: no tempo em que os reis saem para a guerra, Davi ficou em Jerusalém. Do terraço ele vê uma mulher se banhando, manda saber quem é e recebe a resposta completa: Bate-Seba, mulher de Urias, o heteu. Mesmo assim manda buscá-la. Ela engravida.
Davi tenta encobrir. Chama Urias da frente de batalha e o manda para casa, mas o soldado dorme à porta do palácio, porque a arca e os companheiros estão em tendas. Davi o embebeda, e ele continua sem ir para casa. Então o rei escreve a Joabe uma carta, levada pelo próprio Urias, mandando colocá-lo no ponto mais duro do combate e recuar. Urias morre. Passado o luto, Davi casa com Bate-Seba, e o filho nasce. O capítulo termina com a única avaliação do narrador: o que Davi tinha feito desagradou ao Senhor.
Natã e a cordeirinha
Natã conta ao rei um caso: um homem rico, dono de muitos rebanhos, tomou a única cordeirinha de um pobre, criada como filha, para servir a um visitante. Davi se enfurece e sentencia o homem. Natã responde: tu és esse homem (2 Samuel 12.7). A acusação recorda tudo o que Deus dera a Davi e anuncia que a espada não se afastará de sua casa e que o mal virá de dentro dela.
Davi diz apenas: pequei contra o Senhor. Natã declara que o pecado foi perdoado e que ele não morrerá, mas a criança morre depois de sete dias de jejum do rei. Bate-Seba tem outro filho, Salomão, a quem o Senhor ama. A tradição liga a esse momento o Salmo 51.
A espada dentro de casa
O restante do livro mostra a palavra de Natã se cumprindo, e os crimes dos filhos repetem os do pai: desejo e depois sangue.
Amnom, o primogênito, finge doença para ficar a sós com a meia-irmã Tamar e a violenta; em seguida a expulsa. Davi se ira e não faz nada. Absalão, irmão de Tamar, espera dois anos, mata Amnom num banquete e foge. Trazido de volta por uma manobra de Joabe, fica mais dois anos sem ver o rosto do pai.
Reconciliado só na aparência, Absalão passa anos à porta da cidade conquistando quem vinha buscar justiça, até que se proclama rei em Hebrom. Davi foge de Jerusalém descalço e chorando, pelo monte das Oliveiras. O conselheiro Aitofel passa para o lado de Absalão; Husai, amigo de Davi, fica como infiltrado e consegue que Absalão rejeite o conselho certeiro de Aitofel, dando tempo ao rei. Na floresta de Efraim, o exército de Davi vence. Absalão, fugindo de mula, fica preso pela cabeça num carvalho, e Joabe o mata, embora Davi tivesse pedido que poupassem o rapaz. O lamento do rei é o trecho mais citado do livro: meu filho Absalão, quem me dera ter morrido em teu lugar (2 Samuel 18.33).
A volta a Jerusalém ainda provoca uma disputa entre Judá e as tribos do norte, que Seba, um benjamita, transforma em nova revolta. Joabe a sufoca. A rachadura entre norte e sul, que vai dividir o reino depois de Salomão, já está visível aqui.
Os quatro capítulos finais
Os capítulos 21 a 24 não seguem a ordem do tempo. São seis peças arrumadas em espelho: uma narrativa de calamidade (a fome ligada aos gibeonitas), uma lista de heróis, um poema (o cântico do capítulo 22, quase idêntico ao Salmo 18), outro poema (as últimas palavras de Davi), outra lista de heróis e outra calamidade.
A última é o censo. Davi manda contar o povo, Joabe resiste, e depois o próprio rei reconhece que pecou. O profeta Gade lhe apresenta três castigos, e Davi escolhe cair nas mãos do Senhor, porque são grandes as suas misericórdias. A peste para junto à eira de Araúna, o jebuseu. Davi insiste em pagar pelo terreno, dizendo que não oferecerá a Deus sacrifício que não lhe custe nada, e ergue ali um altar. É nesse lugar que 2 Crônicas situa o templo de Salomão.
O retrato que o livro deixa
2 Samuel não esconde nada do seu protagonista, e essa franqueza é o traço mais notável do livro. O mesmo Davi que chora os inimigos, dança diante da arca e ora no capítulo 7 é o que planeja a morte de um soldado leal e se cala diante do crime de Amnom. O que o distingue de Saul não é a ausência de pecado: é a resposta quando confrontado. Saul se justificava; Davi diz pequei.
A promessa do capítulo 7 atravessa a queda sem ser revogada, e é ela que a Bíblia retoma dali em diante, nos Salmos, nos profetas e no título de filho de Davi. A história segue em 1 Reis, com a disputa pela sucessão e a subida de Salomão.
Os pontos centrais
- A promessa feita a Davi por meio de Natã (2 Samuel 7): Davi quer construir uma casa para Deus, e Deus promete construir uma casa, isto é, uma dinastia, para Davi.
- A conquista de Jerusalém e a chegada da arca (2 Samuel 5 e 6), que fazem da cidade o centro político e religioso de Israel.
- O pecado com Bate-Seba e a morte de Urias (2 Samuel 11), contados sem atenuar a culpa do rei.
- A parábola da cordeirinha e a frase de Natã, tu és esse homem (2 Samuel 12), seguidas da confissão de Davi.
- A revolta de Absalão (2 Samuel 15 a 18) como consequência anunciada: o mal se levanta de dentro da própria casa do rei.
- O censo e a compra da eira de Araúna (2 Samuel 24), lugar que 2 Crônicas identifica com o monte do templo.
Leituras que se afastam do texto
Com a morte de Saul, Davi passou a reinar sobre todo o Israel
Durante sete anos e meio Davi reina só sobre Judá, em Hebrom. As tribos do norte seguem Is-Bosete, filho de Saul, sustentado pelo general Abner. Somente depois do assassinato dos dois, que Davi condena publicamente, os anciãos de Israel vão a Hebrom e o ungem rei de todos (2 Samuel 5).
Deus proibiu Davi de construir o templo por causa do pecado com Bate-Seba
A resposta de Natã vem no capítulo 7, antes do episódio de Bate-Seba. O texto de Samuel não dá o pecado como motivo: Deus diz que nunca pediu uma casa e inverte a oferta, prometendo a Davi uma descendência. A razão das guerras e do sangue derramado aparece em outro livro, 1 Crônicas 22.
Bate-Seba seduziu o rei ao se banhar à vista do palácio
O narrador põe todos os verbos em Davi: ele vê, manda perguntar, manda buscar e se deita com ela. Natã acusa apenas o rei, na parábola a cordeirinha é a vítima, e o capítulo fecha dizendo que o que Davi fez desagradou ao Senhor. A leitura que transfere a culpa não tem apoio no texto.
Como Davi se arrependeu, o pecado não trouxe mais consequência nenhuma
Natã declara as duas coisas juntas: o Senhor perdoou o teu pecado, não morrerás, e a espada jamais se apartará da tua casa. A criança morre, e os capítulos seguintes mostram Amnom, Absalão e Seba cumprindo o anúncio. O livro separa perdão de ausência de consequências.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Em que cidade Davi reina primeiro, e sobre quem?
- Em Hebrom, por sete anos e meio, apenas sobre a tribo de Judá.
- Quem é Is-Bosete?
- Filho de Saul, feito rei das tribos do norte pelo general Abner.
- O que acontece com Uzá no transporte da arca?
- Ele toca a arca quando os bois tropeçam e morre ali mesmo, o que suspende a viagem por três meses.
- O que Deus promete a Davi em 2 Samuel 7?
- Uma casa, no sentido de dinastia: um descendente no trono e um reino firmado para sempre.
- Quem era Urias?
- Um soldado heteu do exército de Davi, marido de Bate-Seba, morto por ordem do rei.
- Que história Natã conta para confrontar Davi?
- A do rico que toma a única cordeirinha de um pobre para servir a um visitante.
- Como morre Absalão?
- Fica preso pela cabeça nos ramos de um carvalho durante a fuga e é morto por Joabe, contra a ordem de Davi.
- Quem é Mefibosete?
- O filho aleijado de Jônatas, a quem Davi dá lugar à mesa por causa da aliança com o amigo.
Débora Arantes
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