Resumo do livro de Tobias
Por Débora Arantes 10 min de leitura
Em 30 segundos
Duas orações feitas no mesmo dia, em cidades distantes, dão partida ao livro de Tobias. Em Nínive, Tobit, israelita deportado que dá esmolas e enterra os mortos do seu povo, fica cego e pede a Deus a morte. Em Ecbátana, a jovem Sara, cujos sete noivos foram mortos pelo demônio Asmodeu na noite do casamento, faz o mesmo pedido. Deus envia o anjo Rafael para socorrer os dois. Disfarçado de parente chamado Azarias, ele guia Tobias, filho de Tobit, numa viagem para buscar um dinheiro guardado. No caminho, um peixe fornece os remédios; Tobias casa com Sara e o demônio é expulso; de volta, o fel do peixe devolve a visão ao pai. Só então o guia revela quem é.
Uma história de família no exílio
Depois de tantos reis, guerras e muralhas, o livro de Tobias muda de escala. Não há batalha nem assembleia: há duas casas, um pai, uma mãe aflita, um filho único que sai de viagem, uma noiva, um cachorro. O cenário é o da dispersão. As tribos do norte foram levadas pela Assíria, como conta 2 Reis, e a pergunta do livro é como viver como israelita fiel longe da terra, no dia a dia.
A narrativa é construída com o cuidado de um conto. Duas linhas correm em paralelo, cruzam-se no meio e voltam juntas, e o leitor sabe o tempo todo o que os personagens ignoram.
Tobit: o justo que enterra os mortos
Tobit se apresenta em primeira pessoa. Quando jovem, na Galileia, era o único de sua tribo a ir a Jerusalém nas festas, enquanto os parentes sacrificavam ao bezerro de Jeroboão. Deportado para Nínive, não come a comida dos pagãos, reparte o pão com os pobres e faz algo perigoso: recolhe e sepulta os israelitas que o rei manda executar e deixar sem enterro. Por isso perde os bens e precisa fugir; mais tarde é reabilitado por um sobrinho influente, Aicar.
Numa festa de Pentecostes, com a mesa posta, manda o filho Tobias buscar algum pobre para comer com eles. O rapaz volta com a notícia de um compatriota estrangulado na praça. Tobit se levanta sem provar a comida, esconde o corpo e o enterra ao pôr do sol. Naquela noite, dorme no pátio, junto ao muro, com o rosto descoberto. O excremento quente de uns pardais lhe cai nos olhos, e ele fica cego.
Passam-se quatro anos. A esposa, Ana, sustenta a casa tecendo. Um dia ela ganha um cabrito de presente, Tobit desconfia que seja roubado, e ela responde no ponto que dói: onde estão as tuas esmolas e as tuas boas obras? Tobit chora e ora pedindo a morte.
Sara: sete casamentos, nenhum marido
No mesmo dia, em Ecbátana, na Média, Sara, filha única de Raguel, é insultada por uma criada do pai: foste tu que mataste os teus maridos. Ela fora dada em casamento sete vezes, e o demônio Asmodeu matara cada noivo antes da união. Sara sobe ao quarto pensando em se enforcar, detém-se para não desonrar o pai e, de mãos estendidas para a janela, ora pedindo para morrer ou para ser atendida.
O narrador junta as duas cenas numa frase: naquele mesmo instante, a oração de ambos foi ouvida na presença da glória de Deus, e Rafael foi enviado para curar os dois (Tobias 3.16 e 17).
Os conselhos e o guia
Achando que vai morrer, Tobit se lembra de um dinheiro depositado anos antes com um parente em Rages. Chama o filho e lhe faz um discurso de despedida, o capítulo 4, que é um pequeno manual de vida: honrar a mãe, dar esmola segundo o que tiver, pagar o salário no mesmo dia, casar dentro do povo, buscar conselho dos sábios e a regra de ouro em sua forma negativa, não faças a ninguém o que não queres que te façam.
Tobias precisa de alguém que conheça o caminho. Ao sair, encontra um jovem pronto para viajar, que diz chamar-se Azarias, filho de Ananias. Tobit o entrevista, combina o salário e os abençoa: que o seu anjo os acompanhe. Ana chora a partida do filho. O cão vai atrás.
O peixe, o casamento e a noite
Na primeira noite, à beira do Tigre, um peixe grande salta e tenta abocanhar o pé de Tobias. O guia manda agarrá-lo, abri-lo e guardar o coração, o fígado e o fel.
Perto de Ecbátana, Azarias avisa que vão se hospedar com Raguel, que a filha dele é parente e cabe a Tobias por direito, e que ele deve pedi-la em casamento. Tobias conhece a fama dos sete noivos e tem medo. O guia o instrui: na câmara nupcial, pôr o coração e o fígado do peixe sobre as brasas do incenso e, antes de tudo, orar com ela.
Raguel os recebe, reconhece no rapaz o rosto de Tobit e, honestamente, conta a história da filha. O contrato é escrito e selado. De noite, a fumaça afugenta o demônio, que Rafael persegue e amarra no alto Egito. Tobias e Sara se levantam e oram: tu disseste que não é bom o homem estar só; não é por luxúria que tomo esta minha irmã; concede que cheguemos juntos à velhice. Enquanto isso, Raguel, precavido, manda cavar uma cova. Ainda de noite, uma criada entra com uma lâmpada, vê os dois dormindo, e a cova é tapada antes do amanhecer. A festa dura quatorze dias, durante os quais Azarias vai a Rages, com servos e camelos, buscar o dinheiro.
A volta
Em Nínive, Tobit conta os dias e Ana vigia a estrada, certa de que o filho morreu. É ela quem o avista. O cão corre na frente. Tobias, orientado pelo guia, passa o fel nos olhos do pai, que ardem; as películas brancas se soltam, e Tobit vê o filho e bendiz a Deus. Depois sai andando sozinho, diante da cidade espantada, para receber a nora à porta.
Eu sou Rafael
Pai e filho resolvem dar ao guia metade de tudo o que trouxeram. Ele os chama à parte e fala. Recomenda bendizer a Deus e publicar suas obras, elogia a oração com jejum e a esmola, e então diz: quando tu e Sara oravam, eu apresentava a vossa oração; quando enterravas os mortos, eu estava contigo. Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos a entrar na presença da glória do Senhor (Tobias 12.15). Os dois caem com o rosto em terra. Ele os tranquiliza, manda escrever tudo e sobe.
O cântico e o testamento
O capítulo 13 é o hino de Tobit, que bendiz o Deus que castiga e tem compaixão, e vê Jerusalém reconstruída com safiras e esmeraldas. No último capítulo, já muito velho, ele manda o filho deixar Nínive, porque a cidade será destruída, como anunciaram os profetas. Tobias se muda para Ecbátana e vive o bastante para ouvir a notícia da queda de Nínive.
A lição do livro
O livro de Tobias ensina por meio de enredo o que os Provérbios ensinam por máximas: a fidelidade nas coisas pequenas não passa despercebida. Tobit e Sara oram pedindo a morte, e a resposta já estava a caminho de um modo que nenhum dos dois imaginava. A providência, aqui, tem rosto de companheiro de viagem contratado por diária, e só se deixa reconhecer no fim.
Os pontos centrais
- A estrutura em duas aflições paralelas, a de Tobit e a de Sara, resolvidas por uma só viagem.
- As obras que o livro recomenda: esmola, enterro dos mortos, honra aos pais e casamento dentro do povo.
- Os conselhos de Tobit ao filho (Tobias 4), entre eles não faças a ninguém o que não queres que te façam.
- A oração de Tobias e Sara na noite de núpcias (Tobias 8), que pede misericórdia e envelhecer juntos.
- A revelação de Rafael (Tobias 12): um dos sete anjos que estão diante da glória do Senhor, que apresentava as orações deles.
- O cântico de Tobit (Tobias 13), que anuncia uma Jerusalém reconstruída.
Leituras que se afastam do texto
Tobias é o velho que fica cego
São dois personagens. O pai, que fica cego, é chamado Tobit nas traduções feitas do grego; o filho, que viaja, é Tobias. A antiga tradução latina dava o mesmo nome aos dois, e daí vem a confusão. O livro leva o nome da família, e o protagonista da viagem é o filho.
Tobias sabia desde o início que viajava com um anjo
Rafael se apresenta como Azarias, filho de um parente, e é contratado por salário diário. Ninguém da família desconfia até o capítulo 12, quando vão pagá-lo e ele se revela. O leitor sabe desde o capítulo 3, e esse desnível é o que dá sabor a frases como a de Tobit: que um bom anjo os acompanhe.
O peixe cura por magia
No livro, quem cura é Deus, que envia Rafael, nome que significa Deus cura. O anjo indica o uso do coração, do fígado e do fel, e as duas curas acontecem acompanhadas de oração. A narrativa trata os remédios como meio dado por Deus, e não como poder próprio do objeto.
A cegueira de Tobit foi castigo por algum pecado
Ela acontece logo depois de um ato de piedade: Tobit interrompe a refeição da festa para sepultar um compatriota e dorme ao relento. A própria esposa lhe atira isso em rosto. Como em Jó, o livro apresenta um justo que sofre sem causa aparente e mostra que a sua oração foi ouvida antes de ele saber.
Perguntas para estudo
7 perguntas
- De que tribo é Tobit, e onde ele vive?
- É da tribo de Naftali e vive deportado em Nínive, capital da Assíria.
- Como Tobit fica cego?
- Dorme junto a um muro, e excremento quente de pardais cai em seus olhos.
- Que demônio persegue Sara?
- Asmodeu, que matou sete maridos dela antes que o casamento se consumasse.
- Qual é o motivo oficial da viagem de Tobias?
- Recuperar dez talentos de prata que Tobit deixara com Gabael, em Rages da Média.
- O que Rafael manda guardar do peixe pescado no Tigre?
- O coração e o fígado, para afastar o demônio, e o fel, para curar os olhos.
- Quem é Raguel?
- O pai de Sara, parente de Tobit, que mora em Ecbátana.
- Que animal acompanha os viajantes?
- O cão de Tobias, que parte e volta com eles, um detalhe raro na Bíblia.
Débora Arantes
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