Resumo do livro de Judite
Por Débora Arantes 10 min de leitura
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Metade do livro de Judite passa sem que ela apareça. Nabucodonosor decide punir todo o Ocidente e envia o general Holofernes com um exército enorme. Os povos se rendem um a um; Israel fecha os desfiladeiros. Holofernes cerca a pequena Betúlia e corta as fontes de água. Depois de trinta e quatro dias, o povo exige a rendição, e o chefe Ozias promete entregar a cidade se Deus não socorrer em cinco dias. Entra então Judite, viúva rica, bela e devota. Ela repreende os chefes por darem prazo a Deus, ora, veste-se de festa e vai ao acampamento inimigo com uma criada. Na quarta noite, a sós com Holofernes embriagado, corta-lhe a cabeça com a espada dele e a leva para Betúlia. O exército foge em pânico.
Um livro que demora a apresentar sua heroína
O nome Judite significa simplesmente a judia, e a personagem só entra em cena no capítulo 8. Antes dela, o livro gasta sete capítulos fazendo o inimigo crescer: listas de nações, números de soldados, cidades arrasadas. Quando o leitor está convencido de que não há saída, aparece uma viúva. A desproporção é a mensagem, a mesma dos relatos de Débora e Jael em Juízes e de Davi diante de Golias em 1 Samuel.
Como Tobias, que vem logo antes, Judite é uma narrativa escrita para fortalecer um povo sob ameaça. Seu inimigo é composto: tem o nome do rei que destruiu Jerusalém, reina na capital que deportou o norte e ataca um Israel recém-voltado do exílio.
Primeira metade: a máquina de guerra
Nabucodonosor vence o rei dos medos e decide vingar-se dos povos do Ocidente, que recusaram ajudá-lo. Convoca Holofernes e lhe dá cento e vinte mil soldados de infantaria e doze mil arqueiros a cavalo. A ordem inclui um detalhe que define o conflito: destruir os santuários locais, para que todos adorem só a Nabucodonosor como deus.
A costa se rende com coroas e danças. Os israelitas, ao contrário, ocupam os cumes, fortificam as aldeias e guardam as passagens estreitas da montanha, por onde só passam dois homens de cada vez. O sumo sacerdote Joaquim manda os moradores de Betúlia segurarem o caminho. Todo o povo jejua e veste pano de saco, até o gado.
Irritado, Holofernes pergunta que povo é esse. Quem responde é Aquior, chefe dos amonitas, com um resumo da história de Israel, de Abraão à volta do exílio, e uma conclusão: enquanto não pecaram contra o seu Deus, prosperaram; se há culpa neles, atacai; se não há, o Deus deles os defenderá. Holofernes replica com a pergunta que move o livro: quem é deus, senão Nabucodonosor? Manda amarrar Aquior e largá-lo ao pé de Betúlia, para morrer com a cidade.
O cerco começa. Por conselho dos aliados, Holofernes não ataca: toma as fontes. Em trinta e quatro dias as cisternas secam, crianças desfalecem, mulheres e jovens caem nas ruas. O povo cerca Ozias e os anciãos: melhor ser escravo vivo. Ozias pede mais cinco dias.
Judite entra em cena
Judite, filha de Merari, é viúva havia três anos e quatro meses. O marido, Manassés, morreu de insolação na colheita. Ela vive numa tenda sobre o terraço da casa, veste luto, jejua quase todos os dias, é rica, muito bela, e ninguém tem o que dizer contra ela.
Ao saber do prazo, manda chamar os chefes e lhes fala com uma autoridade que ninguém contesta. Quem são vocês para tentar a Deus? Vocês não conseguem sondar o fundo do coração humano e querem sondar aquele que fez tudo? Deus não é homem para ser ameaçado. Se ele não quiser socorrer em cinco dias, pode fazê-lo em quantos quiser. E acrescenta um argumento: não há hoje entre nós quem adore deuses feitos por mãos, por isso esperamos que ele não nos despreze. Ozias concorda e lhe pede que ore por chuva. Ela responde que fará algo que será lembrado por gerações, e que não perguntem o quê.
À hora do incenso da tarde, Judite se prostra e ora (capítulo 9). Pede que a soberba dos assírios seja quebrada pela mão de uma mulher e define a quem se dirige: a tua força não está no número, nem o teu poder nos fortes; tu és o Deus dos humildes, o socorro dos pequenos, o defensor dos fracos, o salvador dos desesperados.
No acampamento
Ela tira o luto, banha-se, perfuma-se, põe vestido de festa, sandálias, braceletes e brincos. Entrega à criada um odre de vinho, uma jarra de azeite e uma sacola com comida. Os anciãos a veem sair e ficam admirados.
Os sentinelas assírios a levam a Holofernes, que repousa sob um dossel de púrpura e ouro. Ela diz que fugiu porque os hebreus, famintos, estão prestes a comer o que a lei proíbe, e que então Deus os entregará; ela avisará o momento. Cada frase tem dois sentidos. Quando promete que Deus fará por meio dela coisas que assombrarão a terra, Holofernes entende uma coisa e o leitor outra.
Durante três dias ela come só do que trouxe e, com licença do general, sai de madrugada ao vale para se banhar na fonte e orar. Os guardas se acostumam a vê-la passar com a criada e a sacola.
A quarta noite
Holofernes dá um banquete para os oficiais e manda o eunuco Bagoas convidá-la: seria vergonha deixar ir embora uma mulher assim. Ela aceita. O general, encantado, bebe mais vinho do que jamais bebera num só dia. Quando anoitece, os servos se retiram e Bagoas fecha a tenda por fora. Holofernes está caído no leito.
Judite ora em silêncio, apanha a espada pendurada na coluna da cama, segura os cabelos dele e diz: dá-me força neste dia, Senhor Deus de Israel. Dois golpes separam a cabeça. Ela a entrega à criada, que a põe na sacola da comida. As duas saem como nas outras noites, para a oração, atravessam o acampamento e sobem a Betúlia.
O amanhecer
Da porta, ela grita que abram. Mostra a cabeça e o dossel e garante que guardou a honra. Aquior é chamado, reconhece o rosto de quem o condenara e desmaia; depois crê em Deus e é incorporado a Israel, ele que era amonita.
Seguindo o plano de Judite, os homens penduram a cabeça na muralha e descem armados ao raiar do dia. Os assírios correm para acordar o general. Bagoas bate à cortina, entra, acha o corpo sem cabeça e sai gritando: uma só mulher dos hebreus cobriu de vergonha a casa de Nabucodonosor. O exército debanda, e Israel o persegue além de Damasco.
O cântico e a velhice
O sumo sacerdote vem de Jerusalém para saudá-la: tu és a glória de Jerusalém, a honra do nosso povo. Judite entoa um hino (capítulo 16) e consagra ao templo os despojos da tenda de Holofernes. Volta para Betúlia, recusa todos os pretendentes, liberta a criada e vive até os cento e cinco anos. Enquanto ela viveu, e muito tempo depois, ninguém mais inquietou Israel.
O sentido da história
A pergunta de Holofernes, quem é deus senão Nabucodonosor, recebe resposta no quarto dele. O livro escolhe de propósito o instrumento mais improvável, uma viúva sem exército, para dizer que a força de Deus não depende de número. E faz de Judite um modelo completo: ela raciocina melhor que os chefes, ora mais que os sacerdotes e age quando todos esperam.
Os pontos centrais
- O discurso de Aquior (Judite 5): Israel só pode ser vencido quando peca contra o seu Deus, tese que o resto do livro confirma.
- A repreensão de Judite aos chefes (Judite 8): quem são vocês para pôr Deus à prova e fixar prazo para ele agir?
- A oração de Judite (Judite 9), que chama Deus de Deus dos humildes, socorro dos pequenos e protetor dos fracos.
- A observância de Judite dentro do acampamento: leva a própria comida, sai toda noite para se purificar e orar.
- O golpe com a espada do próprio Holofernes (Judite 13), ecoando Davi e Golias.
- O cântico final (Judite 16): o Senhor todo-poderoso os frustrou pela mão de uma mulher.
Leituras que se afastam do texto
Judite seduziu Holofernes e dormiu com ele para depois matá-lo
O texto afasta isso com cuidado. Holofernes bebe até cair antes de qualquer coisa, e Judite, ao mostrar a cabeça, jura que o rosto dela o seduziu para a ruína dele, mas que ele não cometeu pecado com ela, para sua mancha e vergonha (Judite 13.16). A arma dela é a expectativa do general, que o livro deixa se enganar sozinho.
Judite agiu por conta própria, confiando na beleza
Antes de sair, ela se prostra em cinza e faz a oração mais longa do livro. Dentro do acampamento, mantém jejum de alimentos impuros e ora toda noite. Antes do golpe, pede: dá-me força neste dia, Senhor. E devolve a vitória a Deus no cântico. A beleza é o meio que ela usa, e a confiança está posta em outro lugar.
O livro apresenta Nabucodonosor como rei da Assíria por descuido
Nabucodonosor foi o rei da Babilônia que destruiu Jerusalém, e Nínive já tinha caído antes dele. O livro o faz reinar em Nínive sobre os assírios e ainda situa a história depois da volta do exílio. Juntar num só inimigo os dois impérios que arruinaram Israel é recurso da narrativa: o adversário de Judite reúne todos os opressores.
Ozias e os chefes de Betúlia são covardes, o oposto de Judite
O livro os mostra como homens que creem, pressionados por uma população morrendo de sede. O erro que Judite aponta é teológico: ao marcar cinco dias, eles deram um ultimato a Deus. Ela propõe a alternativa, agradecer a provação e esperar, e os chefes reconhecem que ela tem razão e a abençoam.
Perguntas para estudo
7 perguntas
- Quem é Holofernes?
- O general-chefe do exército de Nabucodonosor, o segundo depois do rei.
- Como Holofernes pretende vencer Betúlia sem combate?
- Ocupando as fontes ao pé do monte, para que a cidade se renda pela sede.
- Quem é Aquior?
- O chefe amonita que adverte Holofernes sobre o Deus de Israel e é entregue amarrado aos betulianos.
- Qual prazo Ozias promete ao povo?
- Cinco dias: se nesse tempo não vier socorro, a cidade se entrega.
- O que Judite leva na sacola ao sair de Betúlia?
- A própria comida: vinho, azeite, grãos torrados, figos e pães puros.
- Onde a cabeça de Holofernes é colocada?
- Pendurada no alto da muralha de Betúlia, ao amanhecer.
- O que acontece com Aquior no fim?
- Ao ver o que Deus fez, ele crê, é circuncidado e passa a fazer parte de Israel.
Débora Arantes
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