Resumo do livro de Lamentações
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Jerusalém foi destruída, o templo queimado, o povo levado, e uma voz de dentro das ruínas põe a dor em cinco poemas. Lamentações não conta a queda de 586 a.C.: chora a cidade depois dela. Quatro dos cinco poemas são acrósticos, com um verso ou estrofe para cada uma das vinte e duas letras do alfabeto hebraico. A cidade aparece como viúva sem consolador; o Senhor, como quem agiu feito inimigo; a culpa é reconhecida sem rodeios. No centro do livro, a direção muda: as misericórdias do Senhor não têm fim e se renovam cada manhã (Lamentações 3.22-23). O último poema é uma oração do povo, que pede para ser trazido de volta e termina sem resposta.
A cidade depois do incêndio
Em 586 a.C., depois de um cerco de cerca de um ano e meio, o exército da Babilônia rompe a muralha de Jerusalém, queima o templo, o palácio e as casas e leva a população para o exílio. O relato está no último capítulo de 2 Reis e no fim de Jeremias. Lamentações não repete essa narrativa. O livro começa quando o fogo já passou, e o que resta é uma cidade vazia, com fome e sem culto.
São cinco capítulos, e cada um é um poema inteiro. Em hebraico, o livro se chama Ekhá, como, a exclamação que abre o primeiro, o segundo e o quarto: como está sentada sozinha a cidade que era tão populosa!
O texto não traz nome de autor. A tradição antiga o atribui a Jeremias, que viveu a queda e de quem 2 Crônicas diz que compôs um lamento pelo rei Josias (2 Crônicas 35.25). Por isso a maior parte das edições cristãs o coloca logo depois do livro do profeta. Na Bíblia hebraica, ele fica entre os Escritos, no grupo dos cinco rolos lidos em dias marcados do ano.
As vozes se alternam. Há um narrador que descreve a cidade; há a própria Jerusalém, chamada filha de Sião, que fala como mulher; no capítulo 3, um homem conta o que sofreu; no último, quem ora é o povo.
Vinte e duas letras para dizer a dor
A forma do livro é parte do que ele diz. O alfabeto hebraico tem vinte e duas letras, e quatro dos cinco poemas são acrósticos: cada versículo, ou cada grupo de versículos, começa com a letra seguinte.
| Poema | Versículos | Forma |
|---|---|---|
| Capítulo 1 | 22 | Acróstico, uma letra por versículo |
| Capítulo 2 | 22 | Acróstico, uma letra por versículo |
| Capítulo 3 | 66 | Acróstico triplo, três versículos por letra |
| Capítulo 4 | 22 | Acróstico, uma letra por versículo |
| Capítulo 5 | 22 | Sem ordem alfabética |
O efeito é de luto completo, da primeira à última letra, e ao mesmo tempo contido: a dor não é grito sem forma, é posta em ordem. O capítulo 3, três vezes mais denso, é o cume da construção. O quinto mantém os vinte e dois versículos e abandona o alfabeto.
A viúva sem consolador
O primeiro poema apresenta Jerusalém como mulher. Era cheia de gente, e está sentada sozinha; era princesa entre as províncias, e foi posta sob trabalhos forçados (1.1). Chora de noite, e entre todos os que a amavam não há quem a console. A frase volta cinco vezes no capítulo e funciona como refrão.
Os caminhos de Sião estão de luto porque ninguém vem às festas; as portas estão desertas, os sacerdotes gemem (1.4). Os adversários prosperam, e o poema diz logo por quê: o Senhor a afligiu por causa das suas muitas transgressões (1.5).
Na metade, a própria cidade toma a palavra. Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor como a minha dor (1.12). Ela não se declara inocente. Reconhece: o Senhor é justo, pois me rebelei contra a sua palavra (1.18). E termina pedindo que Deus veja também a maldade dos que se alegraram com a sua desgraça.
O Senhor como inimigo
O segundo poema é o mais duro. Quase todos os verbos dos primeiros versículos têm o Senhor como sujeito: cobriu de nuvens a filha de Sião, derrubou as fortalezas, retesou o arco, tornou-se como um inimigo (2.5). Rejeitou o próprio altar, entregou os muros dos palácios, fez esquecer em Sião a festa e o sábado.
O poeta olha para as ruas, e seus olhos se consomem de lágrimas: crianças de peito desmaiam nas praças e pedem comida às mães (2.11-12). Os profetas da cidade tinham visto coisas falsas e vazias e não denunciaram a culpa a tempo (2.14). Os que passam batem palmas e assobiam: é esta a cidade que chamavam de perfeição da beleza? (2.15).
A ruína é grande como o mar (2.13), e o poema não oferece remédio. Manda apenas que Sião clame de dia e de noite, derrame o coração como água diante do Senhor e levante as mãos pela vida dos filhos (2.19).
O homem que viu a aflição
No centro do livro, a voz muda. Já não fala a cidade: fala um homem, eu sou o homem que viu a aflição (3.1). Durante vinte versículos ele descreve o que sofreu da mão de Deus, com imagens que se acumulam: trevas sem luz, muro em volta, correntes pesadas, oração barrada, urso à espreita, flechas cravadas no corpo, dentes quebrados no cascalho.
Então, lembrando a própria miséria, ele chega a uma frase que vira o poema: disto me recordo, e por isso tenho esperança (3.21). O que segue é o trecho mais conhecido do livro:
- as misericórdias do Senhor não se acabam, renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade (3.22-23);
- a minha porção é o Senhor, por isso esperarei nele (3.24);
- bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor (3.26);
- o Senhor não rejeita para sempre, e não é de bom grado que aflige os filhos dos homens (3.31-33).
A esperança não cancela o que veio antes. O homem convida o povo a examinar os próprios caminhos e voltar ao Senhor (3.40), torna a chorar, lembra o dia em que clamou do fundo da cova e ouviu: não temas (3.57). É a única fala de Deus em todo o livro, e ela chega como lembrança.
O ouro que escureceu
O quarto poema volta à cidade e conta o cerco por contrastes. O ouro escureceu. Os filhos de Sião, que valiam ouro puro, são tratados como potes de barro (4.2). Quem comia iguarias desfalece nas ruas; os príncipes, antes mais alvos que a neve, estão irreconhecíveis, com a pele colada aos ossos. Os mortos pela espada tiveram sorte melhor que os mortos pela fome (4.9), e o poema registra o horror extremo do cerco, mães que cozinharam os próprios filhos (4.10).
A responsabilidade é apontada: os pecados dos profetas e as culpas dos sacerdotes, que derramaram sangue de justos dentro da cidade (4.13). O rei, o ungido do Senhor, de quem o povo dizia que à sua sombra viveria entre as nações, foi apanhado nas covas do inimigo (4.20). O final se volta para Edom, o vizinho que se alegrou: o cálice passará também a ele, e o castigo de Sião chega ao fim (4.21-22).
Lembra-te, Senhor
O último poema é uma oração na primeira pessoa do plural. O povo pede que Deus se lembre e olhe, e faz a lista do que se tornou a vida: a herança passou a estranhos, as casas a estrangeiros; são órfãos sem pai; pagam para beber a própria água e para ter a própria lenha (5.2-4). Os anciãos já não se sentam à porta, os jovens deixaram a música. A coroa caiu da nossa cabeça; ai de nós, porque pecamos (5.16).
A oração segura duas coisas ao mesmo tempo. Diz que os pais pecaram e já não existem, e que os filhos carregam as culpas deles (5.7). E diz, poucos versículos adiante, nós pecamos. Nenhuma das duas frases anula a outra.
Ela sobe então ao único ponto firme: tu, Senhor, permaneces para sempre, e o teu trono de geração em geração (5.19). E faz o pedido que resume o livro: converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como antigamente (5.21).
O último versículo não fecha a conta. Levanta a possibilidade de Deus ter rejeitado o povo de todo e de estar irado sem medida. Na leitura da sinagoga, o costume é repetir o versículo 21 depois do 22, para que o livro não termine nessa nota.
Um refrão à espera de resposta
Lamentações é lido em voz alta até hoje. Nas sinagogas, no jejum de nove de Av, dia que recorda a destruição do templo. Em muitas igrejas, nos ofícios da Semana Santa.
Na Bíblia, ele ocupa um lugar que nenhum outro livro ocupa. Os livros dos Reis explicam por que a cidade caiu, e os profetas a avisaram antes. Aqui ninguém explica nem avisa: sofre-se diante de Deus, com as palavras em ordem. A forma é a dos lamentos de Salmos, levada ao tamanho de um livro inteiro e sem a promessa de louvor no final.
A resposta está em outro rolo. O refrão do primeiro poema dizia que não há quem a console. A segunda parte de Isaías abre com a ordem que faltava: consolai, consolai o meu povo.
Os pontos centrais
- O livro é formado por cinco poemas independentes, um por capítulo, sobre a destruição de Jerusalém pela Babilônia em 586 a.C.
- A forma acróstica: os capítulos 1, 2 e 4 têm 22 versículos em ordem alfabética, e o capítulo 3 tem 66, três para cada letra.
- O refrão do primeiro poema, não há quem a console, que volta cinco vezes sobre a cidade comparada a uma viúva.
- A confissão de culpa ao lado da queixa mais crua: o Senhor é justo, pois me rebelei contra a sua palavra (Lamentações 1.18).
- O centro do livro (3.21-33): as misericórdias que se renovam cada manhã e o Senhor que não aflige de bom grado.
- O pedido final, converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos (5.21), seguido de um versículo que deixa a questão aberta.
Leituras que se afastam do texto
Jeremias assina o livro de Lamentações
O texto hebraico não traz nome de autor nem menciona Jeremias. A atribuição vem da tradição antiga: a tradução grega abre com uma nota dizendo que o profeta chorou e pronunciou este lamento sobre Jerusalém, e daí o título Lamentações de Jeremias em muitas edições. A ligação combina com o tempo e o tom do livro, mas é dado da tradição, não do próprio texto.
Lamentações é desespero do começo ao fim
No meio do terceiro poema, que é o centro do livro, o homem que sofre declara que tem esperança: as misericórdias do Senhor não se acabam, renovam-se cada manhã, e ele não aflige de bom grado (3.21-33). A esperança não apaga o lamento, que continua nos capítulos seguintes, mas está posta no ponto mais alto da construção. O engano vem de julgar o livro só pelo título.
No fim do livro, Deus responde e consola Jerusalém
Nenhuma voz divina responde aos poemas. A única fala de Deus é lembrada por quem ora, não temas (3.57), e o refrão do capítulo 1 insiste que não há quem console. O último versículo deixa aberta a possibilidade de Deus ter rejeitado o povo. A resposta vem em outros livros, como em Isaías 40; quem a procura aqui lê o que gostaria de encontrar.
Lamentações é um protesto contra a Babilônia
A Babilônia e Nabucodonosor não são citados pelo nome em nenhum dos cinco poemas. Os inimigos aparecem, mas o livro atribui a destruição ao próprio Senhor, que agiu como inimigo (2.5), e a causa aos pecados do povo, dos profetas e dos sacerdotes (1.18; 4.13). O único vizinho advertido pelo nome é Edom. O foco é a relação entre Jerusalém e o seu Deus.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quantos poemas formam o livro de Lamentações?
- Cinco poemas, um em cada capítulo, cada qual completo em si mesmo.
- Qual é o nome do livro em hebraico?
- Ekhá, que significa como, a exclamação que abre os capítulos 1, 2 e 4.
- Por que o capítulo 3 tem 66 versículos?
- Porque dedica três versículos seguidos a cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico.
- Qual capítulo não é acróstico?
- O quinto, que conserva os 22 versículos, mas abandona a ordem alfabética.
- A quem se dirige a pergunta de Lamentações 1.12?
- Aos que passam pelo caminho: a cidade pede que olhem e vejam se há dor igual à sua.
- Que povo vizinho é advertido no fim do capítulo 4?
- Edom, que se alegrou com a queda e ouve que o cálice chegará também a ele.
- Quem é o ungido do Senhor citado em Lamentações 4.20?
- O rei de Judá, capturado pelos inimigos, a quem o povo chamava de sopro das nossas narinas.
- Em que ocasiões o livro é lido em voz alta?
- Na sinagoga, no jejum de nove de Av, que recorda a destruição do templo; em muitas igrejas, na Semana Santa.
Débora Arantes
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