Resumo da história do profeta Eliseu
Por Débora Arantes 12 min de leitura
Em 30 segundos
Herdeiro do manto de Elias, Eliseu atravessa quatro reinados em Israel e deixa uma das séries de sinais mais longas do Antigo Testamento. Quase todos atendem a uma necessidade concreta: a água ruim de Jericó, a dívida de uma viúva, a panela envenenada, o machado emprestado que caiu no rio. Ele promete um filho à mulher de Suném e o devolve vivo quando o menino morre. Cura da lepra o comandante sírio Naamã, sem sequer sair de casa para recebê-lo. Cercado em Dotã, vê um exército de fogo que o servo não via; em Samaria faminta, anuncia fartura para o dia seguinte. Chora diante de Hazael, manda ungir Jeú e morre doente, de morte comum. Até seus ossos devolvem a vida a um homem.
O lavrador que ficou com o manto
Eliseu, filho de Safate, entra na história arando o campo, quando o profeta Elias passa e lança o manto sobre ele. Daí até a travessia do Jordão, o texto o mostra apenas como aquele que servia ao mestre. A história própria dele começa em 2 Reis 2, com o manto caído no chão, e vai até o capítulo 13.
A primeira cena é um teste. Eliseu volta à margem, bate nas águas com o manto e pergunta: onde está o Senhor, Deus de Elias? O rio se abre. Os discípulos dos profetas que assistiam de Jericó dizem o que o leitor precisa saber: o espírito de Elias repousa sobre Eliseu.
Sal na fonte, zombaria na estrada
Os dois primeiros atos têm sinais contrários. Em Jericó, os moradores se queixam da água, que é ruim e deixa a terra estéril. Eliseu pede sal num prato novo, lança-o na nascente, e a água fica boa.
Subindo para Betel, um bando de rapazinhos sai da cidade e zomba dele: sobe, calvo. Eliseu os amaldiçoa em nome do Senhor, e duas ursas saem do bosque e despedaçam quarenta e dois deles. Uma cidade recebe o profeta e ganha vida; a outra o rejeita e é ferida.
Em seguida ele aparece numa guerra. Os reis de Israel, de Judá e de Edom marcham contra Moabe e ficam sem água no deserto. Eliseu diz ao rei de Israel que procure os profetas do pai e da mãe, e só atende por respeito a Josafá, de Judá. Pede um músico, manda abrir covas no vale, e de manhã a água chega sem vento nem chuva.
Vasilhas emprestadas e um quarto no terraço
O capítulo 4 reúne quatro histórias de casa e de mesa.
A viúva de um discípulo dos profetas está para perder os dois filhos, que o credor quer levar como escravos. Em casa só há uma botija de azeite. Eliseu manda pedir vasilhas vazias aos vizinhos, muitas, e fechar a porta. O azeite corre enquanto há vasilha; quando acaba a última, para. Ela vende, paga a dívida e vive do resto.
Em Suném, uma mulher rica hospeda o profeta sempre que ele passa e lhe prepara um quarto. Eliseu quer retribuir; ela diz que não precisa de nada. O servo Geazi observa que ela não tem filho. Eliseu promete um, e a mulher pede que ele não a engane. O menino nasce, cresce, e um dia, no campo com o pai, queixa-se da cabeça. Morre ao meio-dia, no colo da mãe.
Ela o deita na cama do profeta, fecha a porta e vai até o monte Carmelo sem contar a morte ao marido. Agarra os pés de Eliseu: pedi eu um filho ao meu senhor? Geazi corre na frente e põe o bordão do profeta sobre o rosto do menino, sem resultado. Eliseu entra, fecha a porta, ora e se deita sobre a criança, boca com boca, olhos com olhos, mãos com mãos. O corpo aquece. A mãe recebe o filho vivo.
Os outros dois episódios acontecem num tempo de fome. Um ensopado feito com frutos silvestres envenena a panela dos discípulos, e Eliseu o corrige com farinha. Um homem traz vinte pães de cevada, e o profeta manda servir a cem pessoas. O servo duvida; todos comem, e sobra.
Sete mergulhos no Jordão
Naamã comanda o exército da Síria, é estimado pelo rei e sofre de lepra. Quem aponta a saída é uma menina israelita, levada cativa numa incursão, que serve à mulher dele: se o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria.
Naamã chega com carta do rei da Síria, prata, ouro e roupas. O rei de Israel lê a carta e rasga as vestes, achando que é pretexto para guerra. Eliseu manda dizer que o envie a ele. A ordem dada à porta, lavar-se sete vezes no Jordão, ofende o general, que vira as costas. São os servos que o fazem pensar: se o profeta pedisse algo difícil, não o farias? Ele desce, mergulha sete vezes, e a pele volta a ser como a de um menino.
Naamã retorna e confessa o Deus de Israel. Eliseu recusa todo presente. Geazi não se conforma, alcança a comitiva, inventa a chegada de dois hóspedes e volta carregado. Eliseu pergunta de onde ele vem e ouve uma mentira. A lepra de Naamã passa para Geazi.
Abre os olhos dele
Um discípulo corta madeira junto ao Jordão e deixa o ferro do machado cair na água. O desespero é pela dívida: era emprestado. Eliseu lança um pau no lugar, e o ferro flutua.
O episódio seguinte é de guerra. O rei da Síria arma emboscadas, e Israel sempre escapa, porque Eliseu avisa o rei. Descoberto o motivo, um exército cerca de noite a cidade de Dotã, onde o profeta está. De manhã o servo se apavora. Eliseu responde que são mais os que estão do lado deles e ora: Senhor, abre os olhos dele. O moço vê o monte coberto de cavalos e carros de fogo.
Os sírios, ao contrário, ficam sem enxergar. Eliseu os conduz até dentro de Samaria, onde os olhos se abrem. O rei quer matá-los; o profeta manda alimentá-los e soltá-los.
Fartura anunciada para amanhã
Mais tarde, Ben-Hadade cerca Samaria, e a fome chega ao extremo: uma mãe conta ao rei que cozinhou o próprio filho. O rei culpa Eliseu e manda buscá-lo. A resposta do profeta é um preço: amanhã, a esta hora, a farinha será vendida barato na porta da cidade. O oficial em cujo braço o rei se apoiava ironiza: nem que o Senhor abrisse janelas no céu. Eliseu lhe diz que verá, mas não comerá.
Naquela noite, quatro leprosos decidem ir ao acampamento inimigo e o encontram deserto. Os sírios tinham ouvido ruído de carros e de um grande exército e fugido deixando tudo. Os quatro comem, escondem prata e roupas, e então se detêm: este é dia de boas notícias, e nós nos calamos. Avisam a cidade. O povo sai, a farinha é vendida pelo preço dito, e o oficial morre pisoteado na porta.
Lágrimas em Damasco, azeite para Jeú
Duas cenas encerram a missão recebida de Elias. Em Damasco, o rei doente manda Hazael consultar Eliseu. O profeta fixa o olhar nele até constrangê-lo e chora, descrevendo o que aquele homem fará às cidades de Israel. Hazael volta e, no dia seguinte, sufoca o rei com um pano molhado.
Depois Eliseu entrega um frasco de azeite a um discípulo e o manda a Ramote de Gileade: unge Jeú, abre a porta e foge. Eliseu não comparece. Pouco antes, o rei de Israel escuta de Geazi as histórias do profeta, e a sunamita, de volta de sete anos fora, recupera a casa e as terras.
A janela do oriente
Eliseu desaparece do relato por três capítulos e volta velho e doente. O rei Jeoás desce para vê-lo e chora sobre o rosto dele. O profeta manda abrir a janela do oriente e atirar: é a flecha da vitória do Senhor contra a Síria. Depois manda bater no chão com as flechas restantes, e o rei para na terceira batida. Vencerá três vezes, e não mais.
Eliseu morre e é sepultado. Tempos depois, homens que enterravam um morto avistam um bando de moabitas, jogam o corpo no sepulcro do profeta, e o homem revive ao tocar os ossos.
Do palácio à panela
Elias enfrentou reis; Eliseu circula. O texto o mostra em casas de viúvas, em mesas de discípulos, na estrada, no acampamento, na corte de Damasco, e trata com o mesmo cuidado um machado perdido e um cerco. Os beneficiados também variam: uma mulher rica, uma pobre, um general inimigo, soldados prisioneiros. A palavra do Senhor, nesses capítulos, alcança o que é pequeno e o que está fora de Israel.
É por esse lado que o Novo Testamento o lembra. Na sinagoga de Nazaré, Jesus recorda que havia muitos leprosos em Israel no tempo de Eliseu, e só Naamã, o sírio, foi purificado (Lucas 4.27). Os pães de cevada que alimentam cem homens e sobram voltam, em escala maior, na multiplicação dos pães, e o Evangelho de João faz questão de dizer que eram de cevada. O Eclesiástico, em seu elogio dos antepassados, guarda de Eliseu o traço mais estranho e mais fiel: nem depois de morto o corpo dele ficou sem agir.
Os pontos centrais
- Vários sinais repetem os de Elias, como o Jordão aberto, o azeite multiplicado e o filho devolvido à mãe, e confirmam a sucessão.
- Naamã é curado sem ver o profeta e conclui que não há Deus em toda a terra senão em Israel (2 Reis 5.15); Jesus cita o caso em Lucas 4.27.
- A frase de Dotã, mais são os que estão conosco do que os que estão com eles (2 Reis 6.16), dita antes de o servo enxergar qualquer coisa.
- No cerco de Samaria, a palavra de Eliseu tem prazo de um dia e se cumpre por meio de quatro leprosos que estavam fora da cidade (2 Reis 7).
- Eliseu chora ao olhar para Hazael, porque sabe o mal que o futuro rei da Síria fará a Israel (2 Reis 8.11-12).
- No leito de morte, o rei de Israel repete para Eliseu o grito que ele deu ao ver Elias subir: meu pai, carros de Israel (2 Reis 13.14).
Leituras que se afastam do texto
Eliseu mandou Naamã entrar no rio e o curou com as próprias mãos
Em 2 Reis 5, Eliseu não sai de casa. Naamã para à porta com cavalos e carros, e quem aparece é um mensageiro com o recado: lava-te sete vezes no Jordão. É isso que irrita o general, que esperava ver o profeta de pé, invocando o nome do seu Deus e passando a mão sobre a ferida (5.11). Os dois só se encontram depois da cura, quando Naamã volta para agradecer. A imagem do profeta à beira do rio vem das ilustrações.
Depois de curado, Naamã nunca mais entrou num templo pagão
Ele promete não oferecer sacrifício a outro deus e leva terra de Israel no lombo de duas mulas. Mas faz um pedido antes de partir: que o Senhor o perdoe quando acompanhar o rei, apoiado em seu braço, ao templo de Rimom, e tiver de se inclinar ali. Eliseu não impõe condição nem discute o caso. Responde apenas: vai em paz (2 Reis 5.17-19). O texto deixa a situação do sírio como ele a descreveu.
Eliseu também foi levado vivo para o céu, como Elias
O fim dos dois é oposto. Elias sobe num redemoinho e não deixa corpo. Eliseu adoece da doença de que haveria de morrer (2 Reis 13.14), recebe a visita do rei, morre e é sepultado. Tanto há sepultura que o último sinal ligado a ele acontece nela: um morto lançado às pressas na cova toca os ossos de Eliseu e se levanta. Quem herdou o manto não herdou a partida.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Com que Eliseu torna boa a água de Jericó?
- Com sal, posto num prato novo e lançado na nascente, em nome do Senhor (2 Reis 2.20-21).
- O que a mulher de Suném manda construir para o profeta?
- Um pequeno quarto no terraço, com cama, mesa, cadeira e candeeiro, para quando ele passasse por lá.
- Que sinal mostra que o filho da sunamita voltou à vida?
- O menino espirra sete vezes e abre os olhos, depois que Eliseu se deita sobre ele (2 Reis 4.35).
- Que rios Naamã achava melhores que o Jordão?
- O Abana e o Farfar, rios de Damasco, melhores, dizia ele, do que todas as águas de Israel.
- O que Geazi pede a Naamã, mentindo em nome de Eliseu?
- Um talento de prata e duas mudas de roupa; Naamã insiste e lhe entrega dois talentos.
- Como Eliseu trata os soldados sírios que leva até Samaria?
- Proíbe o rei de matá-los, manda servir pão e água, e eles voltam ao seu senhor depois de um banquete.
- Quem descobre que o acampamento sírio diante de Samaria está vazio?
- Quatro leprosos que ficavam à porta da cidade e resolveram se entregar aos sírios para não morrer de fome.
- Quantas vezes o rei Jeoás bate no chão com as flechas?
- Três vezes, e Eliseu se indigna: se batesse cinco ou seis, venceria a Síria até acabar com ela.
Débora Arantes
Resumos da Bíblia
Escreve os resumos da estante Bíblia, livro por livro, com estrutura, contexto e as leituras de cada tradição. Lê cada livro inteiro em mais de uma tradução antes de escrever e marca, capítulo por capítulo, onde o texto muda de gênero ou de voz. É desse mapa que sai a estrutura de cada resumo.

