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Resumo da criação do mundo em Gênesis

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Deus fala, e o que ele diz passa a existir: assim começa a Bíblia. Gênesis 1 conta a criação em seis dias ordenados em dois trios. Nos três primeiros, Deus separa os espaços: luz e trevas, céu e águas, terra e mar. Nos três seguintes, enche cada um: os luzeiros, os peixes e as aves, os animais e o ser humano, feito à imagem de Deus, homem e mulher. No sétimo dia ele descansa, abençoa e santifica esse dia. Gênesis 2 volta ao começo com outra lente. O Senhor Deus forma o homem do pó, sopra nele o fôlego de vida, planta um jardim no Éden, traz os animais para receberem nome e, por fim, forma a mulher. O primeiro relato mostra o mundo inteiro; o segundo, o homem e a sua casa.

Os seis dias da criação em dois trios lado a lado: os espaços separados nos dias 1 a 3 e os ocupantes postos neles nos dias 4 a 6
Imagem: resumode.com.br

Antes da primeira palavra

A Bíblia abre com uma frase que não explica nem argumenta: no princípio criou Deus os céus e a terra (Gênesis 1.1). Deus não é apresentado. Ele já está ali quando tudo começa, e o texto passa direto ao que ele faz.

O versículo seguinte descreve o ponto de partida. A terra estava sem forma e vazia, havia trevas sobre o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. As duas palavras, sem forma e vazia, anunciam o programa do capítulo: primeiro Deus dará forma, depois encherá.

Os dois primeiros capítulos de Gênesis contam a criação duas vezes. O primeiro relato vai de 1.1 a 2.3 e percorre uma semana. O segundo começa em 2.4 e se passa num jardim. Convém ler um de cada vez.

Três dias de separar

Os dias seguem um mesmo molde, com pequenas variações: Deus diz, a coisa acontece, Deus vê que é bom, e o dia se fecha com a fórmula houve tarde e houve manhã.

No primeiro dia, Deus diz haja luz, e há luz. Ele a separa das trevas e chama a luz de dia e as trevas de noite.

No segundo dia, faz o firmamento, que separa as águas de baixo das águas de cima, e lhe dá o nome de céu.

No terceiro dia há duas obras. As águas de baixo se juntam num só lugar e aparece a parte seca: Deus a chama de terra, e ao ajuntamento das águas, de mares. Depois a terra produz vegetação, ervas que dão semente e árvores que dão fruto, cada uma segundo a sua espécie.

Ao fim desses três dias existem três espaços: o do dia e da noite, o do céu e das águas, o da terra coberta de plantas. Nenhum deles tem ainda quem o ocupe.

Três dias de encher

A segunda metade da semana volta aos mesmos espaços, na mesma ordem.

No quarto dia, Deus põe luzeiros no firmamento para separar o dia da noite e servir de sinal para as estações, os dias e os anos: o maior para governar o dia, o menor para governar a noite, e as estrelas.

No quinto dia, as águas se enchem de seres vivos e as aves voam sob o céu. O texto destaca os grandes animais marinhos e registra a primeira bênção da Bíblia: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei as águas dos mares.

No sexto dia, outra vez duas obras. A terra produz os animais: os domésticos, os que rastejam e os selvagens. Depois vem a criação do ser humano.

O dia 4 responde ao dia 1, o 5 ao 2, o 6 ao 3. O mundo que estava sem forma e vazio agora tem forma e está cheio.

À imagem de Deus

A última obra é anunciada de modo diferente de todas as outras. Em vez de haja, Deus diz façamos: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança (1.26). O versículo seguinte repete o verbo criar três vezes: criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou.

Os dois recebem juntos a bênção e o encargo: ser fecundos, encher a terra, sujeitá-la e dominar sobre os peixes, as aves e os animais. Recebem também o alimento, as plantas com semente e os frutos das árvores, enquanto aos animais é dada a erva verde.

Seis vezes o capítulo disse que Deus viu que era bom. Na sétima, olhando o conjunto, o texto sobe um grau: e eis que era muito bom (1.31).

O dia que Deus santificou

O relato não termina no sexto dia. Os três primeiros versículos do capítulo 2 contam que os céus e a terra ficaram prontos, e que no sétimo dia Deus concluiu a obra e descansou.

Esse dia difere dos outros em tudo. Nele nada é criado. É o único que Deus abençoa e santifica, isto é, separa para si. E é o único que não se fecha com houve tarde e houve manhã. A semana da criação chega a um dia de repouso, e nele ela para.

O segundo relato: do pó ao jardim

Em 2.4 o texto recomeça: estas são as origens dos céus e da terra. A cena agora é outra. Não há águas cobrindo tudo, e sim uma terra sem arbusto e sem erva, porque ainda não chovera e não havia quem lavrasse o solo. Deus passa a ser chamado de Senhor Deus.

A primeira obra é o homem. O Senhor Deus o forma do pó da terra e sopra nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem se torna um ser vivente (2.7). Em seguida planta um jardim no Éden, do lado do oriente, e põe ali o homem. Faz brotar árvores agradáveis à vista e boas para comer. Um rio sai do Éden para regar o jardim e se divide em quatro: Pisom, Giom, Tigre e Eufrates.

O homem é colocado no jardim para o cultivar e o guardar. Depois de seis vezes bom e uma vez muito bom, ouve-se a primeira coisa que não é boa: que o homem esteja só. O Senhor Deus forma da terra os animais e as aves e os leva ao homem, que dá nome a cada um. Nenhum lhe corresponde. Então a mulher é formada, e o relato termina com os dois nus e sem vergonha. As duas árvores do meio do jardim, a ordem dada ao homem e o que acontece depois são o assunto de Adão e Eva.

Dois relatos lado a lado

Os dois textos não repetem a mesma cena. Cada um responde a uma pergunta.

Os sete dias (1.1 a 2.3) O jardim (2.4 a 2.25)
Como Deus é chamado Deus Senhor Deus
O ponto de partida Trevas e águas Terra seca, sem chuva
Como Deus age Diz, separa, dá nome, abençoa Forma, sopra, planta, traz
O ser humano No fim, homem e mulher juntos O homem no início, a mulher no fim
Onde termina No descanso do sétimo dia No casal unido

O primeiro relato olha de longe e mostra o lugar do ser humano no conjunto: o último a chegar, o único feito à imagem de Deus. O segundo olha de perto e mostra de que ele é feito, onde mora, o que tem a fazer e de quem precisa. Num, Deus ordena o mundo pela palavra. No outro, trabalha com as mãos, como oleiro e jardineiro.

Do sábado ao novo céu

O restante da Bíblia volta a esses capítulos muitas vezes. Nos dez mandamentos de Êxodo, o descanso semanal se apoia na semana da criação: em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, e ao sétimo descansou (Êxodo 20.11). Os Salmos cantam o que Gênesis narra: pela palavra do Senhor foram feitos os céus (Salmo 33.6), e o Salmo 8 se admira de que o homem, tão pequeno, tenha recebido domínio sobre as obras das mãos de Deus.

O Novo Testamento começa o evangelho de João com as mesmas palavras, no princípio, e diz que tudo foi feito por meio do Verbo (João 1.1-3). Jesus, perguntado sobre o divórcio, junta os dois relatos numa só resposta: cita o homem e mulher os criou do primeiro e o serão uma só carne do segundo (Mateus 19.4-5).

E a última página responde à primeira. O Apocalipse termina com um novo céu e uma nova terra, um rio de água viva e a árvore da vida (Apocalipse 21.1 e 22.1-2). A Bíblia começa num jardim e acaba numa cidade que tem dentro dela o que o jardim tinha.

Os pontos centrais

  1. A primeira frase da Bíblia, no princípio criou Deus os céus e a terra, apresenta Deus como anterior a tudo (Gênesis 1.1).
  2. Os seis dias formam dois trios: nos dias 1 a 3 Deus separa os espaços, e nos dias 4 a 6 coloca neles os seus ocupantes.
  3. O ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, homem e mulher, e recebe bênção e encargo (Gênesis 1.26-28).
  4. O sétimo dia é o único que Deus abençoa e santifica, e o único sem a fórmula houve tarde e houve manhã (Gênesis 2.1-3).
  5. No segundo relato, o homem se torna ser vivente quando o Senhor Deus o forma do pó e lhe sopra o fôlego de vida (Gênesis 2.7).
  6. A frase de Gênesis 2.4, sobre as origens dos céus e da terra, marca a passagem de um relato para o outro.

Leituras que se afastam do texto

Deus criou o sol no primeiro dia, quando disse haja luz

A luz é a obra do primeiro dia (Gênesis 1.3-5). Os luzeiros do céu só aparecem no quarto (1.14-19), e o texto nem usa as palavras sol e lua: fala no luzeiro maior, para governar o dia, e no menor, para governar a noite. O engano vem de supor que toda luz depende do sol. No relato, a luz vem primeiro, da palavra de Deus, e os astros recebem depois a tarefa de marcar os dias, as estações e os anos.

Deus descansou no sétimo dia porque estava cansado

O texto diz que Deus concluiu a obra e descansou de tudo o que fizera (Gênesis 2.2). O verbo hebraico tem o sentido de cessar, parar, e é dele que vem a palavra sábado. Nada no relato fala de esforço ou fadiga: tudo foi feito pela palavra. Isaías 40.28 afirma que o Criador não se cansa nem se fatiga. O descanso do sétimo dia é o de quem terminou e contempla a obra pronta.

Dominar a terra quer dizer que o homem pode fazer dela o que quiser

O encargo de Gênesis 1.28 é dado a quem foi feito à imagem de Deus, ou seja, a quem o representa diante das outras criaturas. No mesmo trecho, o alimento concedido ao homem e aos animais são as plantas (1.29-30). E o segundo relato diz para que o homem é posto no jardim: para o cultivar e o guardar (2.15). O domínio que o texto descreve é o de um responsável.

O relato do sétimo dia fecha o primeiro capítulo de Gênesis

O capítulo 1 termina no sexto dia. O sétimo, com o descanso, a bênção e a santificação, está nos três primeiros versículos do capítulo 2. A divisão da Bíblia em capítulos foi feita muitos séculos depois de o texto ser escrito, e aqui o corte caiu antes do fim do relato. Quem para em 1.31 fica sem o ponto de chegada da semana, que é justamente o dia diferente dos outros.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Como era a terra antes da primeira palavra de Deus?
Sem forma e vazia, com trevas sobre o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas (Gênesis 1.2).
Qual é a primeira coisa que Deus diz na Bíblia?
Haja luz, no primeiro dia, e a luz passa a existir (Gênesis 1.3).
Para que servem os luzeiros criados no quarto dia?
Para separar o dia da noite, marcar estações, dias e anos e iluminar a terra (Gênesis 1.14-18).
Quais são as primeiras criaturas que Deus abençoa?
Os seres das águas e as aves, no quinto dia, com a ordem de se multiplicarem (Gênesis 1.22).
Quando o texto diz que tudo era muito bom?
Uma só vez, no fim do sexto dia, quando Deus vê o conjunto de tudo o que fez (Gênesis 1.31).
Que alimento Deus dá aos seres humanos em Gênesis 1?
As plantas que dão semente e as árvores que dão fruto; aos animais, a erva verde (1.29-30).
Quais são os quatro rios ligados ao jardim do Éden?
Pisom, Giom, Tigre e Eufrates, braços do rio que saía do Éden para regar o jardim (2.10-14).
O que Deus declara não ser bom, no segundo relato?
Que o homem esteja só; por isso decide fazer para ele uma auxiliadora que lhe corresponda (2.18).
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Débora Arantes

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