Resumo da arca de Noé e do dilúvio
Por Débora Arantes 12 min de leitura
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Deus vê a terra cheia de violência e decide desfazê-la pela água, mas Noé acha graça diante dele. Por ordem divina, Noé constrói uma arca de trezentos côvados, com três andares, e entra nela com a mulher, os três filhos, as noras e animais de toda espécie. Chove quarenta dias, as águas cobrem os montes e dominam a terra por cento e cinquenta. Deus se lembra de Noé, a arca pousa nos montes de Ararate, e um corvo e uma pomba testam o chão. Mais de um ano depois de entrar, a família sai, Noé oferece sacrifício, e Deus faz aliança com todo ser vivo: nunca mais um dilúvio destruirá a terra. O sinal é o arco nas nuvens.
Dez gerações depois de Adão
A história ocupa quatro capítulos de Gênesis, do 6 ao 9, e vem logo depois de uma genealogia. O capítulo 5 conta dez gerações de Adão a Noé, e o pai dele, Lameque, explica o nome ao dá-lo: este nos consolará do trabalho das nossas mãos, na terra que o Senhor amaldiçoou (Gênesis 5.29). Noé nasce carregando uma expectativa de alívio.
O capítulo 6 abre com o quadro contrário. Os homens se multiplicam, os filhos de Deus tomam para si as filhas dos homens, e o texto resume o estado da terra numa frase: a maldade do homem era grande, e toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era má o tempo todo (6.5). A reação de Deus é descrita com palavras fortes. Ele se arrepende de ter feito o homem, e isso lhe pesa no coração.
Uma linha muda a direção: Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor (6.8). Ele é apresentado como justo, íntegro entre os seus contemporâneos, alguém que andava com Deus, pai de três filhos: Sem, Cam e Jafé.
Trezentos côvados de madeira e betume
Deus anuncia a Noé o fim de toda carne, porque a terra está cheia de violência, e manda fazer uma arca. As instruções são de construtor: madeira de gofer, palavra que só aparece aqui, compartimentos, betume por dentro e por fora. As medidas são trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura, com uma abertura no alto, uma porta na lateral e três andares.
O texto não descreve leme, vela nem remo. A arca não é feita para ir a algum lugar, e sim para flutuar e guardar o que está dentro.
Junto com a ordem vem, pela primeira vez na Bíblia, a palavra aliança: contigo estabelecerei a minha aliança (6.18). Noé deve entrar com a mulher, os filhos e as mulheres dos filhos, levar um casal de cada espécie de animal, macho e fêmea, e ajuntar alimento para todos. O capítulo fecha com a frase que define o personagem: assim fez Noé, conforme tudo o que Deus lhe ordenou. Em toda a narrativa do dilúvio, Noé não diz uma palavra. Ele obedece.
Sete dias de prazo e a porta fechada
O capítulo 7 detalha a ordem de entrada. Dos animais puros e das aves, Noé deve levar de sete em sete; dos que não são puros, um casal. O prazo é curto: daqui a sete dias farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites.
Noé tem seiscentos anos. No dia dezessete do segundo mês, rompem-se todas as fontes do grande abismo e abrem-se as comportas do céu (7.11). A água vem de baixo e de cima ao mesmo tempo. Nesse mesmo dia entram na arca Noé, a mulher, os três filhos e as três noras, oito pessoas, e com eles os animais. O narrador acrescenta um gesto que Noé não faz: o Senhor fechou a porta atrás dele (7.16).
Quarenta dias de chuva, cento e cinquenta de águas
A chuva cai durante quarenta dias. A arca se levanta do chão e flutua. As águas sobem até cobrir os montes mais altos, quinze côvados acima deles, e morre tudo o que tinha fôlego de vida em terra seca. Ficou somente Noé, e os que estavam com ele na arca.
O texto conta o tempo com cuidado de calendário, e os números não medem todos a mesma coisa: a chuva dura quarenta dias, mas as águas dominam a terra durante cento e cinquenta (7.24).
A linguagem lembra de propósito o primeiro capítulo da Bíblia. Lá, Deus separou as águas de cima das águas de baixo e fez aparecer a terra seca. Aqui, as duas águas voltam a se juntar, e a terra desaparece. O dilúvio é a criação andando para trás.
Deus se lembrou de Noé
A virada está na primeira frase do capítulo 8: Deus se lembrou de Noé e de todos os animais que estavam com ele. Um vento passa sobre a terra, as fontes e as comportas se fecham, e as águas começam a baixar.
No dia dezessete do sétimo mês, cinco meses depois do início, a arca pousa sobre os montes de Ararate. No décimo mês aparecem os cumes. Passados mais quarenta dias, Noé abre a janela e solta um corvo, que fica indo e voltando. Depois solta uma pomba, três vezes, com sete dias de intervalo:
- na primeira, ela não acha onde pousar e volta;
- na segunda, volta à tarde com uma folha nova de oliveira no bico;
- na terceira, não volta mais.
No primeiro dia do ano seiscentos e um, Noé remove a cobertura da arca e vê o chão enxuto. Mesmo assim, espera. Só no dia vinte e sete do segundo mês a terra está seca, e então Deus fala: sai da arca. Noé entrou por ordem e sai por ordem, um ano e dez dias depois.
O altar e a promessa das estações
O primeiro ato de Noé em terra firme é construir um altar, o primeiro que a Bíblia menciona, e oferecer holocaustos de animais e aves puros. É para isso que eles tinham entrado em maior número.
O Senhor aspira o aroma e decide em seu coração: não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem. A razão que ele dá surpreende, porque é a mesma que motivou o dilúvio: a inclinação do coração do homem é má desde a juventude (8.21). O homem não mudou. Quem assume um compromisso novo é Deus. Enquanto durar a terra, não cessarão sementeira e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.
O arco nas nuvens
O capítulo 9 começa como um segundo Gênesis 1. Deus abençoa Noé e os filhos com as palavras ditas ao primeiro casal: sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. Há diferenças. Os animais passam a temer o homem e a servir de alimento, com uma restrição: não comer carne com o sangue, que é a vida. E a vida humana recebe proteção expressa: quem derramar o sangue do homem responderá por isso, porque Deus fez o homem à sua imagem (9.6).
Então vem a aliança. Ela tem três traços próprios:
- é feita com Noé, com sua descendência e com todos os seres vivos que saíram da arca, aves, gado e animais selvagens;
- não exige nada em troca: só Deus se obriga, e a promessa é que as águas nunca mais se tornarão dilúvio para destruir a terra;
- seu sinal é o arco nas nuvens, e o texto diz que ele serve de lembrança para o próprio Deus: verei o arco e me lembrarei da aliança eterna (9.16).
A vinha e a maldição sobre Canaã
A história não termina no arco. Noé planta uma vinha, bebe do vinho, embriaga-se e fica nu dentro da tenda. Cam vê a nudez do pai e vai contar aos irmãos. Sem e Jafé pegam uma capa, entram de costas e cobrem o pai sem olhar.
Ao acordar, Noé fala pela primeira vez em toda a narrativa, e é para amaldiçoar e abençoar. A maldição cai sobre Canaã, filho de Cam; a bênção, sobre o Senhor, Deus de Sem, e sobre Jafé. O mundo recomeçou, e a desordem dentro da família recomeçou junto. Noé morre com novecentos e cinquenta anos.
Como nos dias de Noé
O resto da Bíblia volta a esta história por três caminhos.
Os profetas a usam como medida de promessa firme. Em Isaías, Deus compara seu juramento de paz a Jerusalém com as águas de Noé: assim como jurou que elas não voltariam a cobrir a terra, jura que não tornará a se irar contra ela (Isaías 54.9). Em Ezequiel, Noé aparece ao lado de Daniel e Jó como exemplo de homem justo (Ezequiel 14.14).
Jesus a usa como imagem de surpresa: nos dias de Noé, comiam, bebiam, casavam-se, e não perceberam nada até o dia em que ele entrou na arca; assim será a vinda do Filho do Homem (Mateus 24.37-39).
As cartas a leem como salvação através da água. Hebreus 11.7 põe Noé entre os exemplos de fé, por ter construído a arca avisado de coisas que ainda não se viam. A primeira carta de Pedro lembra as oito pessoas salvas e vê nelas uma figura do batismo (1 Pedro 3.20-21).
Dentro de Gênesis, a sequência é imediata. Dos três filhos de Noé saem os povos listados no capítulo 10, e é essa humanidade refeita que, pouco depois, se reúne numa planície para erguer a torre de Babel.
Os pontos centrais
- O motivo do dilúvio: a terra cheia de violência e o coração humano inclinado ao mal (Gênesis 6.5 e 6.11), e Noé achando graça (6.8).
- As duas origens da água em Gênesis 7.11, as fontes do abismo e as comportas do céu, que desfazem a separação feita na criação.
- A virada da narrativa em Gênesis 8.1: Deus se lembrou de Noé, e a partir dessa frase as águas começam a baixar.
- A decisão de Gênesis 8.21 e 8.22: o coração humano continua o mesmo, e ainda assim as estações não cessarão enquanto durar a terra.
- A aliança de Gênesis 9.8 a 9.17, feita com todo ser vivo, sem condição, com o arco como lembrança para o próprio Deus.
- A proibição de comer carne com sangue e a proteção da vida humana, feita à imagem de Deus (Gênesis 9.4 a 9.6).
Leituras que se afastam do texto
O dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites
Quarenta dias é o tempo da chuva (Gênesis 7.12). As águas dominam a terra por cento e cinquenta dias, a arca só pousa no sétimo mês, e a família sai no dia vinte e sete do segundo mês do ano seguinte: mais de um ano lá dentro. O engano nasce de tomar o número mais repetido pela duração inteira, quando o texto registra mês e dia de cada etapa.
Entrou na arca um casal de cada animal
Essa é a instrução geral de Gênesis 6.19. No capítulo seguinte a ordem é detalhada: dos animais puros e das aves, de sete em sete, macho e fêmea; dos que não são puros, um casal (7.2-3). A diferença tem função na história, porque Noé oferece animais e aves puros em holocausto ao sair (8.20). A imagem dos pares em fila fica só com a primeira metade da ordem.
Noé passou anos pregando, e o povo zombava dele enquanto a arca era construída
Gênesis não registra uma única fala de Noé antes do dilúvio, nem descreve vizinhos, plateia ou zombaria. O texto diz apenas que ele fez tudo conforme Deus ordenou. A segunda carta de Pedro o chama de pregador da justiça (2 Pedro 2.5), e Jesus diz que aquela geração não percebeu nada até o dia da entrada na arca (Mateus 24.39). As cenas de deboche são acréscimo de sermões e filmes.
Noé amaldiçoou seu filho Cam
Quem vê a nudez do pai e conta aos irmãos é Cam, mas a maldição pronunciada por Noé leva outro nome: maldito seja Canaã, filho de Cam (Gênesis 9.25). O texto prepara isso ao apresentar Cam duas vezes como pai de Canaã. Dos outros filhos de Cam, listados no capítulo 10, nada é dito. A frase aponta para os cananeus, povo que reaparece da história de Abraão em diante.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quais são as medidas da arca?
- Trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura, em três andares, com uma porta na lateral.
- Quantas pessoas entram na arca?
- Oito pessoas: Noé, sua mulher, os filhos Sem, Cam e Jafé e as três noras.
- Quem fecha a porta da arca?
- O próprio Senhor fecha a porta depois que Noé entra, segundo Gênesis 7.16.
- Onde a arca pousa quando as águas baixam?
- Sobre os montes de Ararate, no dia dezessete do sétimo mês; o texto fala de uma região de montes, no plural.
- Que aves Noé solta pela janela?
- Primeiro um corvo, que fica indo e voltando, e depois uma pomba, três vezes, com sete dias de intervalo.
- O que a pomba traz no bico na segunda vez?
- Uma folha nova de oliveira, sinal de que as águas tinham baixado sobre a terra.
- Qual é o primeiro ato de Noé ao sair da arca?
- Ele constrói um altar e oferece holocaustos de animais e de aves puros.
- Que idade Noé tem no começo do dilúvio e ao morrer?
- Seiscentos anos quando as águas vêm e novecentos e cinquenta quando morre.
Débora Arantes
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