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Resumo do bezerro de ouro

Por Débora Arantes 13 min de leitura

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Em 30 segundos

Ao pé do monte onde tinha acabado de ouvir os mandamentos, Israel fabrica uma imagem. Moisés está há quarenta dias no alto do Sinai, o povo se cansa de esperar e pede a Arão um deus que vá à sua frente. Arão recolhe os brincos de ouro, funde um bezerro, ergue um altar e anuncia uma festa ao Senhor. Lá em cima, Deus fala em destruir o povo, e Moisés intercede. Ao descer e ver a dança, ele quebra as tábuas, reduz o bezerro a pó e convoca os levitas; cerca de três mil homens morrem. Seguem dois capítulos de negociação: Moisés recusa partir sem a presença de Deus, pede para ver a sua glória, ouve o nome do Senhor proclamado como compassivo e clemente, e desce com tábuas novas e o rosto resplandecente.

Duas listas ligadas por setas: de um lado o que se rompe em Êxodo 32, do outro como cada ponto é refeito em Êxodo 33 e 34
Imagem: resumode.com.br

Quarenta dias sem notícia de Moisés

O episódio ocupa três capítulos do Êxodo, do 32 ao 34, e é preciso lembrar onde eles caem. O povo ouviu os mandamentos ao pé do Sinai, respondeu que faria tudo o que o Senhor tinha dito, e a aliança foi selada com sangue (capítulo 24). Depois Moisés subiu ao monte e ali ficou quarenta dias e quarenta noites.

Durante esse tempo, os capítulos 25 a 31 registram o que Deus lhe diz lá em cima: as instruções para o santuário e para o sacerdócio, que caberá a Arão e aos filhos dele. O leitor acabou de ler essas páginas quando a cena muda para o acampamento. Enquanto no alto se descreve a roupa sagrada de Arão, embaixo Arão está prestes a fazer outra coisa.

Os brincos, o molde e a festa

O povo vê que Moisés demora e se junta em torno de Arão. O pedido vem com a sua razão: faze-nos deuses que vão adiante de nós, porque esse Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu (Êxodo 32.1). Falta-lhes um guia visível.

Arão não discute. Manda trazer os brincos de ouro das mulheres, dos filhos e das filhas, recebe o metal, trabalha-o e faz um bezerro fundido. Diante da imagem se diz: são estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito (algumas traduções trazem este é o teu deus). Arão constrói um altar e proclama: amanhã haverá festa ao Senhor.

No dia seguinte o povo madruga, oferece holocaustos e sacrifícios de comunhão, senta-se para comer e beber e levanta-se para se divertir (32.6).

De quem é este povo

A cena sobe de novo ao monte. O Senhor manda Moisés descer e, ao falar de Israel, muda o pronome: o teu povo, que tiraste do Egito, se corrompeu. Chama-o de povo de dura cerviz, isto é, de pescoço rígido, que não aceita o jugo. E faz uma proposta: deixa-me, para que a minha ira se acenda e eu os consuma; de ti farei uma grande nação.

Moisés não aceita nem o pronome nem a proposta. Devolve: por que se acenderia a tua ira contra o teu povo, que tu tiraste do Egito? E apresenta três razões. Os egípcios diriam que Deus os libertou para matá-los nos montes. O povo é dele. E há um juramento feito a Abraão, Isaque e Israel, de multiplicar a descendência e dar-lhe a terra. O texto conclui que o Senhor desistiu do mal que dissera que faria ao povo (32.14).

As tábuas ao pé do monte

Moisés desce com as duas tábuas do testemunho, escritas dos dois lados. O narrador se detém nelas: eram obra de Deus, e a escrita era a escrita de Deus.

Josué, que o esperava no caminho, ouve os gritos e pensa em guerra. Moisés reconhece outra coisa: é som de canto. Quando chega perto e vê o bezerro e as danças, atira as tábuas e as quebra ao pé do monte. O documento da aliança se parte no lugar exato em que ela foi violada.

Em seguida ele toma o bezerro, queima-o, mói até virar pó, espalha o pó sobre a água e faz o povo beber. Interrogado, Arão responde que o povo é inclinado ao mal e descreve a própria parte em uma frase: lancei o ouro no fogo, e saiu este bezerro.

Quem é do Senhor venha a mim

O povo está fora de controle. Moisés se põe à porta do acampamento e chama: quem é do Senhor venha a mim. Reúnem-se a ele todos os filhos de Levi. Por ordem dele, percorrem o acampamento de espada na mão, sem poupar irmão, amigo ou vizinho, e naquele dia caem cerca de três mil homens (32.28).

No dia seguinte, Moisés sobe outra vez, agora para pedir perdão. Sua oração vai mais longe que a primeira: se não perdoares o pecado deles, risca-me do livro que escreveste. Na véspera, Deus tinha oferecido fazer dele um povo novo; ele responde atando o seu destino ao do povo antigo. A resposta é que será riscado quem pecou, e que Moisés deve conduzir Israel adiante. O capítulo termina com o Senhor ferindo o povo por causa do bezerro.

A tenda longe do acampamento

O capítulo 33 mostra que o problema não acabou com o castigo. Deus manda o povo seguir para a terra prometida e diz que um anjo irá à frente, mas acrescenta: eu não subirei no meio de ti, porque és povo de dura cerviz, e eu te consumiria no caminho (33.3). Ao ouvir isso, o povo chora e tira os enfeites.

Segue um retrato do costume de Moisés nesse período. Ele armava uma tenda fora do acampamento, longe, e ali consultava o Senhor. Quando entrava, a coluna de nuvem descia à porta, e cada homem se prostrava à entrada da própria tenda. Ali o Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com um amigo (33.11).

É dessa intimidade que Moisés se vale. Ele insiste até obter a promessa: a minha presença irá contigo, e eu te darei descanso (33.14). E ainda arremata: se a tua presença não for conosco, não nos faças sair daqui. O que distingue Israel dos outros povos, diz ele, é justamente Deus andar com ele.

O nome proclamado na fenda da rocha

Moisés então pede mais: mostra-me a tua glória. A resposta concede e limita. Deus fará passar diante dele toda a sua bondade e proclamará o seu nome, mas a face ninguém pode ver e continuar vivo (33.20). Moisés ficará numa fenda da rocha, coberto pela mão de Deus enquanto a glória passa, e verá apenas as costas.

Antes, recebe uma ordem: lavrar duas tábuas de pedra como as primeiras. Ele as corta, sobe de madrugada, e o Senhor desce na nuvem e proclama: Senhor, Senhor, Deus compassivo e clemente, tardio em irar-se e grande em amor e fidelidade, que perdoa a culpa, a transgressão e o pecado, e não deixa impune o culpado (34.6-7).

É uma das frases mais repetidas do Antigo Testamento sobre o caráter de Deus. O próprio Moisés a cita de volta em Números 14.18, numa crise parecida; ela reaparece nos Salmos (103.8), em Joel 2.13 e, em tom de queixa, na boca de Jonas (Jonas 4.2).

Tábuas novas e um rosto que brilha

Moisés se prostra e faz o último pedido: que o Senhor siga no meio de nós, perdoe e tome o povo por herança (34.9). A resposta é a aliança refeita. Os mandamentos que a acompanham tocam diretamente o que aconteceu: não fazer aliança com os moradores da terra, guardar as festas e o sábado, e uma linha que dispensa comentário, deuses fundidos não farás para ti (34.17).

Moisés passa outros quarenta dias e quarenta noites no monte, sem comer pão nem beber água, e as palavras da aliança, as dez palavras, são escritas nas tábuas. Ao descer, não sabe que a pele do seu rosto resplandece por ter falado com Deus. Arão e o povo têm medo de chegar perto. Ele os chama, transmite tudo e, ao terminar, põe um véu sobre o rosto, que só tira quando entra para falar com o Senhor.

O bezerro depois do Sinai

A Bíblia volta a esse dia muitas vezes. Em Deuteronômio 9, Moisés o reconta à geração seguinte para impedir que ela atribua a posse da terra ao próprio mérito. O Salmo 106 resume a troca em uma linha amarga, a glória de Deus pela figura de um boi que come capim, e diz que Moisés se pôs na brecha (Salmo 106.19-23).

Séculos depois, o primeiro rei do norte repete o gesto quase com as mesmas palavras. Jeroboão faz dois bezerros de ouro, põe um em Betel e outro em Dã, e diz: eis os teus deuses, ó Israel, que te tiraram do Egito (1 Reis 12.28). Os livros dos Reis medem os reis do norte por esse pecado.

No Novo Testamento, Estêvão lembra o bezerro em seu discurso (Atos 7.41), e Paulo cita a frase da festa, o povo sentou-se para comer e beber, como advertência aos coríntios (1 Coríntios 10.7). O véu de Moisés também volta: em 2 Coríntios 3, Paulo parte dele para falar de uma glória que não precisa mais ser coberta.

Os pontos centrais

  1. O pedido do povo em Êxodo 32.1 nasce da demora de Moisés: querem alguém que vá adiante deles no caminho.
  2. A troca de pronomes na intercessão: Deus diz a Moisés o teu povo (32.7), e Moisés devolve o teu povo, que tiraste do Egito (32.11).
  3. Os três argumentos de Moisés em 32.11-13: o povo é de Deus, os egípcios falariam mal, e há um juramento feito a Abraão, Isaque e Israel.
  4. A oferta de Moisés em Êxodo 32.32: se não perdoares o pecado deles, risca-me do livro que escreveste.
  5. A proclamação do nome em Êxodo 34.6-7, compassivo, clemente e tardio em irar-se, repetida depois em Números, Salmos, Joel e Jonas.
  6. O capítulo 34 fecha o que o 32 abriu: tábuas novas, a proibição de deuses fundidos (34.17) e a presença de Deus mantida no meio do povo.

Leituras que se afastam do texto

O povo trocou o Senhor por um deus do Egito

O texto não dá ao bezerro o nome de nenhuma divindade estrangeira. Ele é apresentado como aquele que tirou Israel do Egito, e Arão, diante do altar, anuncia para o dia seguinte uma festa ao Senhor (Êxodo 32.5). O pecado descrito é dar ao Deus do Sinai uma imagem feita por mãos humanas, coisa proibida poucos capítulos antes (20.4). A ideia do deus egípcio vem de deduções posteriores sobre a origem da figura.

Arão só cedeu à pressão e o texto o inocenta

Arão recolhe o ouro, trabalha a peça, ergue o altar e convoca a festa. Quando Moisés o interroga, ele culpa a índole do povo e conta que jogou o ouro no fogo e saiu este bezerro (Êxodo 32.24). O narrador não aceita a versão: fala do bezerro que Arão fizera (32.35). Deuteronômio 9.20 acrescenta que o Senhor se irou contra Arão a ponto de querer destruí-lo, e que Moisés orou também por ele.

As segundas tábuas eram iguais às primeiras em tudo

As palavras são as mesmas, a pedra não. As primeiras tábuas eram obra de Deus, e a escrita era de Deus (Êxodo 32.16). As segundas são lavradas por Moisés, que sobe com elas na mão (34.1 e 34.4). Quem escreve nelas continua sendo o Senhor, como ele promete em 34.1 e como Deuteronômio 10.4 confirma. A aliança refeita guarda a marca do que aconteceu: agora há trabalho humano na pedra.

Moisés desceu do monte com chifres na testa

Êxodo 34.29 diz que a pele do rosto de Moisés resplandecia depois de falar com Deus. O verbo hebraico usado ali tem a mesma raiz da palavra chifre, e a antiga tradução latina verteu o trecho como rosto com chifres. Dessa leitura saíram pinturas e esculturas famosas de Moisés. O contexto fala de luz: o povo tem medo de se aproximar, e Moisés passa a cobrir o rosto com um véu.

Perguntas para estudo

8 perguntas

De onde vem o ouro usado para fazer o bezerro?
Dos brincos que as mulheres, os filhos e as filhas dos israelitas traziam nas orelhas e entregaram a Arão.
O que Josué pensa ao ouvir o barulho do acampamento?
Que há alarido de guerra; Moisés responde que não é grito de vitória nem de derrota, e sim som de canto.
O que Moisés faz com o bezerro?
Queima a imagem, mói até virar pó, espalha o pó na água e faz os filhos de Israel beberem.
Quem atende ao chamado de Moisés na porta do acampamento?
Os filhos de Levi, que se reúnem em torno dele quando ele pergunta quem é do Senhor.
Como o povo reage à notícia de que Deus não subirá no meio dele?
Chora e deixa de usar os seus enfeites, sinal de luto que se mantém desde o monte Horebe.
Onde Moisés armava a tenda em que consultava a Deus?
Fora do acampamento, bem longe dele; quando Moisés entrava, a coluna de nuvem descia à porta.
O que Moisés pede em Êxodo 33.18, e o que recebe?
Pede para ver a glória de Deus; é posto numa fenda da rocha e vê o Senhor pelas costas, não a face.
Quanto tempo Moisés passa no monte da segunda vez?
Quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água, como registra Êxodo 34.28.
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Débora Arantes

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