Resumo da história do profeta Elias
Por Débora Arantes 13 min de leitura
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Sem chuva nem orvalho, a não ser pela palavra dele: é com essa sentença que Elias, o tesbita, entra na Bíblia, diante do rei Acabe, que com a rainha Jezabel tinha levado Israel ao culto de Baal. Durante a seca, o profeta é sustentado por corvos e por uma viúva estrangeira, cujo filho ele devolve à vida. No monte Carmelo, desafia os profetas de Baal, e o fogo do Senhor consome o sacrifício. Ameaçado por Jezabel, foge até o Horebe, onde ouve uma voz mansa e recebe novas tarefas. Depois condena Acabe pelo assassinato de Nabote, anuncia a morte do rei Acazias e, do outro lado do Jordão, é levado ao céu num redemoinho, deixando o manto para Eliseu.
Um tesbita diante de Acabe
Elias não tem genealogia, chamado nem história anterior. A primeira coisa que o texto dá dele é uma frase dita ao rei: tão certo como vive o Senhor, Deus de Israel, diante de quem estou, não haverá orvalho nem chuva nestes anos, a não ser pela minha palavra (1 Reis 17.1).
O momento explica a frase. O capítulo anterior de 1 Reis mostrou Acabe casando com Jezabel, filha do rei dos sidônios, e levantando em Samaria um altar e um templo para Baal. Baal era invocado como aquele que dá a chuva. O profeta de Gileade, cujo nome significa o Senhor é o meu Deus, começa atacando justamente ali.
A história ocupa seis capítulos, espalhados entre o fim de 1 Reis e o começo de 2 Reis, e em dois dos capítulos intermediários (1 Reis 20 e 22) Elias nem aparece.
Pão dos corvos, farinha da viúva
Dita a sentença, Elias recebe ordem de se esconder. Fica junto ao ribeiro de Querite, defronte do Jordão, bebe da água e come o pão e a carne que os corvos trazem de manhã e à tarde. Quando o ribeiro seca, a ordem seguinte o manda para longe: Sarepta, cidade de Sidom, a terra de Jezabel e de Baal.
Ali ele encontra uma viúva apanhando lenha e pede água e pão. Ela responde que só tem um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na botija: ia preparar a última refeição para si e para o filho, e depois morrer. Elias pede que ela faça primeiro um bolo pequeno para ele, com a promessa de que a farinha e o azeite não faltariam até o dia da chuva. Ela faz, e assim acontece.
Depois o filho dela adoece e para de respirar. A mãe acusa o profeta de ter vindo trazer à memória o pecado dela. Elias leva o menino ao quarto de cima, estende-se três vezes sobre ele e clama. O Senhor ouve, a vida volta, e a mulher conclui: agora sei que és homem de Deus e que a palavra do Senhor na tua boca é verdade.
Fogo sobre o altar encharcado
No terceiro ano, Elias volta. No caminho encontra Obadias, mordomo de Acabe, que procurava pasto para os cavalos do rei. Acabe recebe o profeta chamando-o de perturbador de Israel; Elias devolve o título ao rei e à casa de seu pai e pede uma assembleia no monte Carmelo.
Diante do povo, propõe a prova. Dois novilhos, dois altares, nenhum fogo aceso: o deus que responder com fogo, esse é Deus. Os profetas de Baal começam. Clamam da manhã ao meio-dia e dançam em volta do altar. Ao meio-dia, Elias zomba: gritem mais alto, talvez ele esteja pensando, ou ocupado, ou viajando, ou dormindo. Eles se cortam com facas até o sangue correr. O narrador fecha a cena com três negativas: não houve voz, nem resposta, nem atenção.
Na hora da oferta da tarde, Elias chama o povo para perto. Conserta o altar do Senhor, que estava em ruínas, com doze pedras. Abre um rego em volta, arruma a lenha e o novilho e manda derramar quatro cântaros de água, três vezes, até encher o rego. A oração é breve: que hoje se saiba que tu és Deus em Israel e que eu sou teu servo. O fogo do Senhor cai e consome o sacrifício, a lenha, as pedras, o pó e a água. O povo se prostra e repete: o Senhor é Deus.
Os profetas de Baal são presos e mortos junto ao ribeiro de Quisom. Elias sobe então ao alto do monte, curva-se com o rosto entre os joelhos e manda o servo olhar para o mar. Na sétima vez aparece uma nuvem pequena. O céu escurece, a chuva cai forte, e Elias corre à frente do carro de Acabe até Jezreel.
Basta, Senhor
A vitória dura pouco. Jezabel jura que em um dia fará de Elias o que ele fez aos profetas dela, e o homem do Carmelo foge para o sul. Deixa o servo em Berseba, anda um dia pelo deserto, senta-se debaixo de um arbusto e pede a morte: basta, não sou melhor que meus pais.
Um anjo o acorda duas vezes para comer. Com a força daquela comida ele caminha quarenta dias e quarenta noites até o Horebe, o monte de Deus, e entra numa caverna. A pergunta que ouve ali, que fazes aqui, Elias, vem duas vezes, antes e depois do vento, do terremoto, do fogo e da voz mansa. A resposta dele é a mesma, palavra por palavra: tenho sido zeloso, o povo abandonou a aliança, só eu fiquei, e querem tirar a minha vida.
O Senhor não discute a queixa. Manda Elias voltar pelo mesmo caminho, com três nomes: Hazael para a Síria, Jeú para Israel, Eliseu para o seu lugar. O profeta que queria encerrar a carreira recebe um sucessor, e o encontra arando. Eliseu se despede dos pais, cozinha os bois com a madeira do arado, dá de comer ao povo e passa a servi-lo.
Achaste-me, inimigo meu?
O episódio seguinte troca o altar pelo tribunal. Jezabel manda matar Nabote, com testemunhas falsas, para que o rei fique com a vinha dele. Quando Acabe desce para tomar posse, Elias está lá. A acusação cabe numa pergunta: mataste e ainda tomaste a herança? O rei responde com outra: já me achaste, inimigo meu?
A sentença alcança Acabe, sua casa e Jezabel. Mas o capítulo termina de modo inesperado. Acabe rasga as roupas, veste pano de saco e jejua, e o Senhor diz a Elias que, por ter o rei se humilhado, o mal virá só nos dias do filho.
O rei doente e os capitães
O filho é Acazias. Ele cai pela grade de um quarto alto em Samaria e manda perguntar a um deus filisteu se vai sarar. Elias intercepta os mensageiros: acaso não há Deus em Israel, para irem consultar o deus de Ecrom? O rei não se levantará da cama.
Acazias envia um capitão com cinquenta soldados para prendê-lo, e depois outro. Elias está sentado no alto de um monte, e o fogo do céu consome as duas tropas. O terceiro capitão sobe, ajoelha-se e pede pela vida. Um anjo diz a Elias que desça sem medo. Ele repete a sentença na frente do rei, e Acazias morre.
A capa caída junto ao Jordão
A última caminhada vai de Gilgal a Betel, de Betel a Jericó, de Jericó ao Jordão. Em Betel e em Jericó, os discípulos dos profetas avisam Eliseu de que o mestre será levado naquele dia, e ele pede silêncio. Elias dobra o manto, bate nas águas, e os dois atravessam a seco.
Do outro lado, um carro de fogo com cavalos de fogo separa os dois, e Elias sobe num redemoinho. Eliseu grita meu pai, meu pai, rasga as próprias roupas e apanha o manto. Cinquenta homens insistem em procurar o corpo pelos montes e vales, e voltam depois de três dias sem nada. A história continua com o profeta Eliseu.
Pela palavra do Senhor
O fio que costura os episódios é uma expressão: a palavra do Senhor. Ela manda Elias a Querite, a Sarepta, de volta a Acabe, à vinha. A farinha não acaba conforme a palavra; os cães e a vinha, a cama de Acazias, tudo se cumpre conforme a palavra. Elias não faz discursos longos nem deixa livro. O que o texto mostra é um homem que se move quando é mandado e um céu que abre e fecha no mesmo compasso.
O relato também o aproxima de Moisés. Como ele, Elias passa quarenta dias sem outro alimento, encontra Deus no Horebe, divide as águas e encerra o seu caminho a leste do Jordão, diante de Jericó, sem que ninguém possa apontar a sua sepultura. O profeta que defende a aliança é desenhado com os traços de quem a recebeu.
O Elias que havia de vir
Os últimos versículos de Malaquias prometem o envio do profeta Elias antes do grande dia do Senhor, para converter o coração dos pais aos filhos. Por isso ele é esperado nos evangelhos. O anjo diz que João Batista irá no espírito e no poder de Elias (Lucas 1.17), e João se veste como ele, com pelos e cinto de couro. Jesus afirma que João é o Elias que havia de vir (Mateus 11.14); perguntado, o próprio João responde que não é (João 1.21).
No monte da transfiguração, são Moisés e Elias que aparecem falando com Jesus. Em Nazaré, Jesus lembra que, com tantas viúvas em Israel, Elias foi enviado a uma de Sarepta (Lucas 4.25-26). Paulo cita os sete mil do Horebe em Romanos 11. E Tiago, para falar de oração, escolhe o que a história do Carmelo e do deserto deixou claro: Elias era um homem com as mesmas fraquezas de qualquer outro, e orou (Tiago 5.17).
Os pontos centrais
- A primeira fala de Elias (1 Reis 17.1) fecha o céu pela palavra do Senhor, no terreno em que Baal era tido como senhor da chuva.
- A pergunta do Carmelo ao povo, até quando vocês vão mancar entre dois lados (1 Reis 18.21), e o silêncio com que ela é recebida.
- A oração de Elias no Carmelo tem dois versículos (1 Reis 18.36-37), contra um dia inteiro de gritos dos profetas de Baal.
- No Horebe, o Senhor pergunta duas vezes o que Elias faz ali, e o profeta dá duas vezes a mesma resposta (1 Reis 19.9-14).
- A sentença contra Acabe pela vinha de Nabote é adiada quando o rei se humilha, e recai sobre os dias do filho (1 Reis 21.27-29).
- Elias não tem morte narrada: é levado ao céu num redemoinho, e os cinquenta homens que o procuram por três dias nada acham (2 Reis 2).
Leituras que se afastam do texto
Elias enfrentou e matou 850 profetas no monte Carmelo
O número vem da soma de 1 Reis 18.19, em que Elias manda reunir os 450 profetas de Baal e os 400 de Aserá que comiam à mesa de Jezabel. Dali em diante, porém, o relato só fala dos primeiros: são 450 contra um (18.22), e a ordem final é prender os profetas de Baal, levados ao ribeiro de Quisom (18.40). Os 400 de Aserá não voltam a ser mencionados no capítulo.
A seca de Elias durou três anos e meio, como diz o livro de Reis
Reis não dá essa conta. Elias anuncia que não choverá nestes anos (1 Reis 17.1), e a ordem de se apresentar a Acabe vem no terceiro ano (18.1). Os três anos e seis meses estão no Novo Testamento, na fala de Jesus em Nazaré (Lucas 4.25) e na carta de Tiago (5.17). O número é bíblico, mas quem o cita como sendo de 1 Reis procura no capítulo errado.
Elias ungiu Hazael, Jeú e Eliseu, como Deus mandou no Horebe
A ordem de 1 Reis 19.15-16 traz os três nomes, mas a narrativa só mostra Elias cumprindo a terceira parte, e sem óleo: ele lança o manto sobre Eliseu, que arava o campo. Hazael e Jeú ficam para o sucessor. É Eliseu quem anuncia a Hazael que ele reinará na Síria (2 Reis 8) e quem envia um discípulo para ungir Jeú (2 Reis 9). A missão do Horebe se completa em duas gerações.
Elias era o único que continuava fiel ao Senhor em Israel
Quem diz isso é o próprio Elias, no Carmelo e duas vezes no Horebe: só eu fiquei. O relato discorda dele. Antes da cena do Carmelo, Obadias, mordomo de Acabe, tinha escondido cem profetas em duas cavernas e os sustentava com pão e água (1 Reis 18.4). E a resposta do Senhor no Horebe termina com sete mil que não dobraram os joelhos a Baal (19.18). A solidão de Elias é sentida, não contada.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- De onde era Elias, segundo a sua primeira apresentação?
- Era tesbita, dos moradores de Gileade, a região a leste do Jordão (1 Reis 17.1).
- Quem era Obadias, que Elias encontra antes de ver Acabe?
- O mordomo do palácio de Acabe, que temia o Senhor e tinha escondido cem profetas em duas cavernas.
- Quantas pedras Elias usa para refazer o altar no Carmelo?
- Doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, embora o reino já estivesse dividido.
- Qual é o primeiro sinal de que a chuva vai voltar?
- Uma nuvem pequena, do tamanho da palma da mão, que o servo vê subir do mar na sétima vez em que olha.
- O que o anjo faz quando Elias pede a morte no deserto?
- Toca nele duas vezes e manda que se levante e coma: há pão assado na brasa e uma botija de água.
- O que Eliseu fazia quando Elias lançou o manto sobre ele?
- Arava a terra com doze juntas de bois, e conduzia a décima segunda (1 Reis 19.19).
- Que deus o rei Acazias manda consultar depois da queda?
- Baal-Zebube, deus da cidade filisteia de Ecrom, para saber se sararia dos ferimentos.
- Como os mensageiros de Acazias descrevem Elias?
- Como um homem vestido de pelos, com um cinto de couro na cintura, e o rei o reconhece na hora (2 Reis 1.8).
Débora Arantes
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