Resumo do livro de Zacarias
Por Débora Arantes 13 min de leitura
Em 30 segundos
No segundo ano de Dario, com o templo de Jerusalém em obras, Zacarias recebe numa só noite oito visões: cavaleiros entre murtas, chifres e ferreiros, um homem com cordel de medir, o sumo sacerdote Josué de roupas trocadas, um candelabro entre duas oliveiras, um rolo que voa, uma mulher dentro de uma medida e quatro carros. Deus voltou para Jerusalém, e a casa será terminada não por força nem por poder, mas pelo seu Espírito. Uma pergunta sobre jejuns recebe como resposta um chamado à justiça e a promessa de festas. A segunda metade, capítulos 9 a 14, anuncia um rei humilde montado num jumento, um pastor avaliado em trinta moedas de prata, o pranto por aquele que foi traspassado e o dia em que o Senhor será rei de toda a terra.
Dois meses depois de Ageu
Em 520 a.C., segundo ano do rei Dario, a obra do templo de Jerusalém tinha acabado de recomeçar. Quem pôs o povo para trabalhar foi Ageu, com mensagens curtas e práticas. No oitavo mês daquele mesmo ano, outra voz se junta à dele: Zacarias, filho de Baraquias, neto de Ido (1.1). O livro de Esdras lembra os dois juntos como os profetas que sustentaram a construção até o fim (Esdras 5.1; 6.14).
Os dois livros não se parecem. Ageu tem dois capítulos e fala de madeira, colheita e salário. Zacarias tem catorze, é o mais longo dos doze profetas menores e fala por imagens, que um anjo explica ao profeta.
A primeira palavra, antes de qualquer visão, é um chamado. Os pais não ouviram os profetas antigos, e as palavras desses profetas os alcançaram. A geração que voltou do exílio recebe a mesma oferta: tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós (1.3).
Uma noite, oito visões
Três meses depois, no dia vinte e quatro do décimo primeiro mês (1.7), Zacarias vê de noite uma sequência de oito quadros.
- Os cavaleiros entre as murtas. Um homem num cavalo vermelho, com outros cavalos atrás, informa que a terra está em repouso. O anjo pergunta até quando Jerusalém ficará sem compaixão, depois de setenta anos de ira. A resposta: voltei para Jerusalém com misericórdia, e a minha casa será edificada nela (1.16).
- Quatro chifres e quatro ferreiros. Os chifres são as forças que dispersaram Judá, Israel e Jerusalém. Os ferreiros chegam para derrubá-los.
- O homem com o cordel de medir. Ele sai para medir Jerusalém, e um anjo manda avisá-lo: a cidade será habitada como as aldeias sem muros, de tanta gente e gado, e o próprio Senhor será um muro de fogo ao redor dela.
- O sumo sacerdote Josué diante do anjo do Senhor, de roupas sujas (capítulo 3).
- O candelabro de ouro entre duas oliveiras (capítulo 4).
- O rolo que voa, de vinte côvados por dez, levando a maldição até a casa do ladrão e de quem jura falso (5.1-4).
- A mulher dentro do efa, uma medida de cereais com tampa de chumbo. Ela é a Impiedade, e duas mulheres com asas de cegonha a carregam para a terra de Sinar, a região da Babilônia (5.5-11).
- Quatro carros que saem de entre dois montes de bronze e percorrem a terra em todas as direções (6.1-8).
O conjunto tem desenho. As três primeiras visões tratam de Jerusalém e das nações; as duas do centro, dos líderes da comunidade; as duas seguintes limpam a terra do pecado; a última retoma os cavalos da primeira.
Um tição tirado do fogo
A quarta visão é uma cena de tribunal. Josué, o sumo sacerdote, está de pé diante do anjo do Senhor, e Satanás está à sua direita para acusá-lo. A palavra hebraica significa adversário, acusador. Ele não chega a falar. O Senhor o repreende e diz de Josué: não é este um tição tirado do fogo? (3.2).
Josué veste roupas sujas, e a ordem é tirá-las. Eis que tirei de ti a tua culpa, e te vestirei de roupas de festa (3.4). Põem-lhe um turbante limpo na cabeça. O sacerdote que representa o povo é purificado sem ter feito nada para isso. A visão termina com um anúncio: trarei o meu servo, o Renovo, e tirarei a culpa desta terra num só dia (3.8-9).
Não por força nem por poder
A quinta visão mostra um candelabro todo de ouro, com sete lâmpadas, e uma oliveira de cada lado. Zacarias pergunta o que é aquilo, e a resposta é uma palavra para Zorobabel, o governador: não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos (4.6).
A frase tem endereço. Zorobabel tem diante de si uma obra parada havia anos, sem exército e sem tesouro. O grande monte se tornará planície diante dele; as mãos que lançaram os alicerces desta casa a terminarão (4.7-9). E quem desprezou o dia das coisas pequenas se alegrará ao ver o prumo na mão do governador (4.10).
As duas oliveiras são os dois ungidos que assistem diante do Senhor de toda a terra (4.14): o governador da casa de Davi e o sumo sacerdote, lado a lado.
A coroa na cabeça do sacerdote
Depois das visões vem um gesto. Zacarias recebe prata e ouro de exilados chegados da Babilônia, manda fazer uma coroa e a põe na cabeça de Josué (6.9-11). As palavras que acompanham o gesto falam de outro: eis o homem cujo nome é Renovo; ele brotará do seu lugar e edificará o templo do Senhor (6.12). Trono e sacerdócio aparecem juntos, em conselho de paz (6.13).
Renovo é o nome que Jeremias tinha dado ao descendente justo de Davi (Jeremias 23.5). A coroa não fica com Josué: é guardada no templo, como memorial (6.14).
Devemos continuar jejuando?
No quarto ano de Dario (7.1), com a obra adiantada, chega uma pergunta aos sacerdotes e aos profetas: ainda é preciso chorar e jejuar no quinto mês, como se faz há tantos anos? O quinto mês lembrava o incêndio do templo. Durante o exílio, o povo tinha marcado com jejum as datas da ruína.
A resposta devolve a pergunta: quando jejuastes, foi para mim que jejuastes? (7.5). O que os profetas antigos pediam era outra coisa: julgar com verdade, usar de misericórdia, não oprimir a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre (7.9-10).
O capítulo 8 vira a página. Velhos e velhas voltarão a sentar-se nas praças de Jerusalém, de bordão na mão, e as praças se encherão de meninos e meninas brincando (8.4-5). Os jejuns do quarto, do quinto, do sétimo e do décimo mês se tornarão festas alegres; amai, pois, a verdade e a paz (8.19). E dez homens de todas as línguas agarrarão a barra da roupa de um judeu, dizendo: iremos convosco, porque ouvimos que Deus está convosco (8.23).
Um rei montado num jumento
Do capítulo 9 em diante o livro muda. Somem as datas, Zorobabel, Josué e o templo em obras. São duas coleções, cada uma aberta pela palavra sentença (9.1 e 12.1), e o olhar vai para longe.
A primeira começa com o juízo sobre as cidades vizinhas e chega ao versículo mais conhecido do livro: alegra-te muito, filha de Sião; o teu rei vem a ti, justo e salvador, humilde, montado num jumento (9.9). Esse rei acaba com os carros e os cavalos de guerra, anuncia paz às nações e domina de mar a mar (9.10).
O capítulo 11 traz o reverso. O profeta recebe ordem de apascentar um rebanho destinado ao matadouro. Toma duas varas, Graça e União, e o rebanho se cansa dele. Ele quebra a primeira vara e pede o seu salário. Pesam-lhe trinta moedas de prata, o valor que a lei fixava por um escravo morto por um boi (Êxodo 21.32). O Senhor manda lançar ao oleiro esse belo preço, e o profeta o atira na casa do Senhor (11.12-13). Depois quebra a segunda vara.
Aquele a quem traspassaram
A segunda sentença, nos capítulos 12 a 14, repete a expressão naquele dia. Jerusalém é cercada pelas nações e defendida por Deus. No meio da vitória vem um luto: derramarei sobre a casa de Davi um espírito de graça e de súplicas; olharão para aquele a quem traspassaram e chorarão por ele como se chora por um filho único (12.10). Em seguida abre-se uma fonte para lavar o pecado e a impureza (13.1).
Uma palavra curta volta ao tema do pastor: fere o pastor, e as ovelhas se dispersarão (13.7).
No último capítulo, as nações se ajuntam contra Jerusalém, o Senhor sai à luta, e os seus pés pousam no monte das Oliveiras, que se fende ao meio (14.4). De Jerusalém correm águas vivas, no verão e no inverno (14.8). O Senhor será rei sobre toda a terra (14.9), e os sobreviventes das nações sobem todo ano para a festa dos Tabernáculos (14.16). Até nas campainhas dos cavalos estará gravado santidade ao Senhor (14.20), as palavras que antes ficavam na lâmina de ouro do turbante do sumo sacerdote (Êxodo 28.36).
O profeta mais lembrado na semana da Paixão
Os evangelhos recorrem a Zacarias sobretudo quando chegam a Jerusalém. A entrada de Jesus montado num jumento é contada com o versículo do rei humilde (Mateus 21.4-5; João 12.14-15). Na noite da prisão, Jesus cita o pastor ferido e as ovelhas dispersas (Mateus 26.31; Marcos 14.27). As trinta moedas pagas a Judas e jogadas no templo estão no Evangelho de Mateus (26.15; 27.3-10). João, diante do lado aberto pela lança, lembra o olharão para aquele a quem traspassaram (João 19.37).
O Apocalipse abre com a mesma frase (1.7) e retoma os cavalos de cores, o candelabro e as duas oliveiras (Apocalipse 6 e 11).
Ageu fez o povo levantar paredes. Zacarias, ao lado dele, disse para que serviam: a casa pequena daquele ano era o começo de uma cidade sem muros, cheia de nações, com um rei que chega sem cavalo de guerra.
Os pontos centrais
- Zacarias começa a profetizar no oitavo mês do segundo ano de Dario (1.1), dois meses depois de Ageu, e os dois sustentam a obra do templo (Esdras 5.1).
- As oito visões de uma só noite (1.7 a 6.8) anunciam a volta de Deus a Jerusalém, a queda dos opressores e a purificação da terra.
- No capítulo 3, o sumo sacerdote Josué é acusado por Satanás, chamado de tição tirado do fogo e vestido com roupas limpas.
- A palavra a Zorobabel em Zacarias 4.6, não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, garante que ele terminará o templo.
- Os capítulos 7 e 8 respondem à pergunta sobre os jejuns com um chamado à justiça e com a promessa de que os dias de luto virarão festas.
- Os capítulos 9 a 14 trazem o rei montado num jumento (9.9), as trinta moedas de prata (11.12-13), o traspassado (12.10) e o pastor ferido (13.7).
Leituras que se afastam do texto
O profeta Zacarias é o pai de João Batista
São dois homens com o mesmo nome, separados por mais de cinco séculos. O profeta é filho de Baraquias e neto de Ido, e fala em Jerusalém no reinado de Dario, quando o templo estava sendo reconstruído (1.1). O pai de João Batista é um sacerdote do tempo do rei Herodes, e a sua história está em Lucas 1. O nome era comum: a Bíblia tem cerca de trinta pessoas chamadas Zacarias.
As trinta moedas de prata são uma profecia de Jeremias
As palavras estão em Zacarias 11.12-13: o pastor pede o seu salário, pesam-lhe trinta moedas de prata, e ele as lança na casa do Senhor, ao oleiro. A confusão vem de Mateus 27.9, que apresenta a citação com o nome de Jeremias. Em Jeremias estão o oleiro e a compra de um campo (capítulos 18, 19 e 32). O evangelista reúne os dois profetas e nomeia o mais conhecido.
Não por força nem por poder é uma promessa de que não é preciso esforço
A frase é dita a Zorobabel, governador de Judá, sobre uma obra concreta: o templo parado havia anos, sem exército nem tesouro que a garantisse (4.6). O que vem logo depois fala de trabalho: as mãos de Zorobabel lançaram os alicerces e as suas mãos terminarão a casa (4.9). O Espírito sustenta a obra, e a obra é feita com prumo, pedra e mãos.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Qual é o chamado que abre o livro de Zacarias?
- Tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós, diz o Senhor dos Exércitos (1.3).
- Como o Senhor chama o sumo sacerdote Josué ao repreender Satanás?
- De tição tirado do fogo, em Zacarias 3.2, antes de mandar trocar as suas roupas sujas.
- Quem são as duas oliveiras ao lado do candelabro?
- Os dois ungidos que assistem diante do Senhor de toda a terra, conforme Zacarias 4.14.
- Para onde é levada a mulher fechada dentro do efa?
- Para a terra de Sinar, a região da Babilônia, onde lhe construirão uma casa (5.11).
- Que nome recebe o homem que edificará o templo do Senhor?
- Renovo, o nome anunciado em Zacarias 3.8 e repetido na cena da coroa, em 6.12.
- Que cena de paz Zacarias 8 promete para as praças de Jerusalém?
- Velhos e velhas sentados de bordão na mão, e meninos e meninas brincando nas praças (8.4-5).
- Como se chamam as duas varas do pastor no capítulo 11?
- Graça e União; o pastor quebra as duas, uma antes e outra depois de receber o salário.
- Que festa as nações sobem a Jerusalém para celebrar em Zacarias 14?
- A festa dos Tabernáculos, todos os anos, para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos (14.16).
Débora Arantes
Resumos da Bíblia
Escreve os resumos da estante Bíblia, livro por livro, com estrutura, contexto e as leituras de cada tradição. Lê cada livro inteiro em mais de uma tradução antes de escrever e marca, capítulo por capítulo, onde o texto muda de gênero ou de voz. É desse mapa que sai a estrutura de cada resumo.

