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Resumo da carta aos Gálatas

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Depois que Paulo passou pela Galácia, outros pregadores chegaram dizendo aos convertidos gentios que faltava uma coisa: a circuncisão e a lei de Moisés. A carta é a reação, escrita sem os agradecimentos de costume e no tom mais áspero do apóstolo. Paulo defende primeiro a origem do seu evangelho, recebido por revelação e reconhecido em Jerusalém, e conta como enfrentou Pedro em Antioquia. Depois argumenta pela Escritura: Abraão foi justificado pela fé, a promessa veio séculos antes da lei, e quem crê é filho e herdeiro, não escravo. A parte final mostra que a liberdade não é licença: quem vive pelo Espírito serve por amor e produz o fruto do Espírito. O que conta, conclui, é ser nova criatura.

Duas colunas em pares opõem a vida sob a lei e a vida pela fé em Cristo, com cinco contrastes tirados da carta aos Gálatas
Imagem: resumode.com.br

Uma carta sem agradecimento

Paulo costuma começar as cartas agradecendo a Deus pela comunidade a quem escreve. Em Gálatas, não. Depois de uma saudação em que já se defende, apóstolo não da parte de homens, ele vai direto ao ponto: admiro-me de que tão depressa estejais passando para outro evangelho (1.6).

Os destinatários são as igrejas da Galácia, região do interior da Ásia Menor que Paulo tinha evangelizado. Eram, na maioria, gentios. Depois da partida dele, chegaram outros mestres, que a carta chama de perturbadores. Ensinavam que a fé em Cristo era o começo, e que, para pertencer de fato ao povo de Deus, o convertido precisava ser circuncidado e guardar a lei de Moisés. Pelo que a defesa de Paulo deixa ver, também o diminuíam: um apóstolo de segunda mão, que teria aprendido com os de Jerusalém e facilitado a mensagem.

Paulo responde às duas coisas. Não existe outro evangelho, e quem anunciar um diferente, ainda que seja um anjo do céu, seja anátema (1.8). A mesma questão, a circuncisão dos gentios, é a que a assembleia de Jerusalém decide em Atos, no capítulo 15.

De perseguidor a apóstolo

A primeira parte é autobiográfica, e é a fonte mais direta sobre os começos de Paulo. O evangelho que ele prega não lhe veio de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo (1.12).

Os gálatas conheciam o passado dele: perseguia a igreja com violência e se destacava no judaísmo, zeloso das tradições dos pais. Quando Deus, que o tinha separado desde o ventre materno, quis revelar nele o seu Filho, Paulo não consultou ninguém. Não subiu a Jerusalém. Foi para a Arábia e voltou a Damasco.

Só três anos depois foi conhecer Cefas, nome aramaico de Pedro, e ficou com ele quinze dias. Dos outros apóstolos, viu apenas Tiago, o irmão do Senhor. As igrejas da Judeia nem o conheciam de vista. Só ouviam dizer que o antigo perseguidor agora anunciava a fé, e davam glória a Deus por isso.

A mão estendida em Jerusalém e o confronto em Antioquia

Catorze anos mais tarde, Paulo sobe de novo a Jerusalém, com Barnabé e com Tito, um grego. Expõe em particular aos líderes o evangelho que prega entre os gentios. O resultado é narrado como vitória: Tito não foi obrigado a se circuncidar, apesar da pressão de falsos irmãos, e os que eram tidos por colunas, Tiago, Cefas e João, nada lhe acrescentaram. Reconheceram que a ele fora confiado o evangelho dos incircuncisos, como a Pedro o dos circuncisos, e deram a mão a ele e a Barnabé. Pediram só que se lembrassem dos pobres (2.10).

Em seguida vem o episódio mais tenso. Em Antioquia, Cefas comia à mesa com os cristãos gentios. Quando chegaram alguns da parte de Tiago, afastou-se, com medo dos da circuncisão. Os outros judeus o acompanharam, e até Barnabé se deixou levar. Paulo o enfrentou diante de todos: se tu, sendo judeu, vives como gentio, como obrigas os gentios a viver como judeus? (2.14).

O que estava em jogo não era etiqueta. Separar as mesas dizia, sem palavras, que os gentios eram crentes de segunda classe enquanto não adotassem a lei.

Cristo vive em mim

Do episódio sai a tese da carta. Nós, judeus de nascimento, sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo (2.16). Paulo fala então na primeira pessoa: estou crucificado com Cristo; já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (2.19-20). E fecha com a consequência lógica do ensino adversário: se a justiça vem pela lei, Cristo morreu em vão.

A promessa veio antes da lei

O capítulo 3 começa com uma exclamação: ó gálatas insensatos, quem vos fascinou? E com uma pergunta de experiência: receberam o Espírito pelas obras da lei ou por terem ouvido com fé? Tendo começado pelo Espírito, querem agora terminar pela carne?

Depois, a Escritura. A circuncisão começa com Abraão, e é o próprio Abraão que Paulo vai buscar em Gênesis:

  • Abraão creu em Deus, e isso lhe foi contado como justiça; os filhos de Abraão são os da fé, e nele seriam abençoadas todas as nações;
  • a lei põe sob maldição quem não a cumpre inteira, e Cristo resgatou dessa maldição fazendo-se maldição ao ser pendurado no madeiro (3.13);
  • a promessa foi feita a Abraão e à sua descendência; a lei veio quatrocentos e trinta anos depois e não pode anular um testamento já confirmado (3.17).

Para que serve então a lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o descendente prometido. Funcionou como pedagogo, o servo que na casa antiga vigiava e conduzia a criança. Chegada a fé, já não se está sob o pedagogo.

O capítulo termina na frase mais lembrada da carta. Todos os que foram batizados em Cristo se revestiram de Cristo. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher: todos são um em Cristo Jesus e, sendo de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros (3.27-29).

Filhos, e não escravos

A comparação seguinte vem do direito de herança. O herdeiro, enquanto é menor, em nada difere de um escravo: vive sob tutores até a data marcada pelo pai. Assim era antes. Mas, na plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei e dar-lhes a adoção (4.4-5). A prova é o Espírito, que clama nos corações: Aba, Pai. Já não és escravo, mas filho, e herdeiro.

Por isso Paulo não entende o recuo dos gálatas, que passaram a guardar dias, meses, estações e anos. O tom se torna pessoal. Ele lembra que chegou a eles doente e foi recebido como um anjo de Deus; teriam arrancado os próprios olhos para dá-los a ele. Agora virou inimigo por dizer a verdade? Chama-os de filhos, por quem sofre de novo as dores do parto, até que Cristo se forme neles (4.19).

Agar e a mulher livre

O último argumento lê a história de Abraão como figura. Ele teve dois filhos, um da escrava, Agar, nascido segundo a carne, outro da mulher livre, nascido pela promessa. Paulo vê nas duas mulheres duas alianças. Agar corresponde ao monte Sinai e à Jerusalém de então, que gera para a escravidão. A Jerusalém do alto é livre, e é a nossa mãe (4.26). Os gálatas são, como Isaque, filhos da promessa. Voltar à lei seria trocar de mãe.

A liberdade e o fruto

Para a liberdade Cristo nos libertou; não vos submetais de novo ao jugo da escravidão (5.1). Quem aceita a circuncisão como condição obriga-se à lei inteira e se separa da graça. Em Cristo, nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa, e sim a fé que atua pelo amor (5.6).

Paulo prevê a objeção de que sem lei tudo fica permitido, e a segunda metade do capítulo responde. A liberdade não é pretexto para a carne; é ocasião de servir uns aos outros, e toda a lei se cumpre em amar o próximo como a si mesmo.

A vida do cristão é descrita como um conflito entre dois impulsos, a carne e o Espírito. As obras da carne são conhecidas, e a lista é longa: imoralidade, idolatria, inimizades, ciúmes, iras, divisões, invejas, bebedeiras. O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra essas coisas não há lei (5.23).

O capítulo 6 desce ao cotidiano. Quem for surpreendido em falta deve ser corrigido com mansidão. Levai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo (6.2). O que o homem semear, isso colherá, e não convém cansar de fazer o bem.

Letras grandes, de próprio punho

No fim, Paulo passa a escrever com a própria mão: vede com que letras grandes vos escrevo (6.11). O resumo que faz de próprio punho volta ao centro. Os que exigem a circuncisão querem fazer boa figura e evitar a perseguição por causa da cruz. Ele só se gloria na cruz de Cristo. Nem a circuncisão nem a incircuncisão são coisa alguma; o que vale é ser nova criatura (6.15).

A carta não tem lista de saudações nem planos de visita. Termina com um pedido seco, que ninguém mais o moleste, porque traz no corpo as marcas de Jesus, e com uma bênção. O mesmo argumento, com Abraão, a fé e o Aba, Pai, reaparece ampliado e em tom sereno na carta aos Romanos; o versículo de Habacuque que serve de tese ali, o justo viverá pela fé, já está citado aqui (3.11).

Os pontos centrais

  1. A carta abre sem ação de graças: Paulo se espanta de que os gálatas passem tão depressa a outro evangelho, que não é outro (1.6-7).
  2. Paulo sustenta que recebeu o evangelho por revelação de Jesus Cristo, e não de homem algum, nem dos apóstolos de Jerusalém (1.11-17).
  3. A tese está em 2.16: o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo.
  4. A promessa feita a Abraão é anterior à lei em quatrocentos e trinta anos e não foi anulada por ela (3.17).
  5. Em Cristo não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher: todos são um e herdeiros da promessa (3.28-29).
  6. A liberdade cristã se realiza no serviço por amor e no fruto do Espírito, oposto às obras da carne (5.13-23).

Leituras que se afastam do texto

Os frutos do Espírito são nove

O texto usa o singular: o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (5.22-23). As obras da carne, logo antes, estão no plural. O contraste é entre muitas ações dispersas e uma só vida que amadurece inteira. As nove qualidades são aspectos de um mesmo fruto, e não uma lista da qual cada pessoa teria algumas.

Para Paulo, a lei de Moisés é má e contrária a Deus

Paulo faz a pergunta e responde: a lei é contra as promessas de Deus? De modo nenhum (3.21). Ela veio de Deus, depois da promessa, e teve função própria: guardar o povo como um pedagogo até a chegada de Cristo (3.24). O que a carta nega é que a lei justifique ou que deva ser imposta aos gentios. No capítulo 5, ele mesmo a resume no amor ao próximo (5.14).

Liberdade, em Gálatas, é cada um fazer o que quiser

A frase para a liberdade Cristo nos libertou (5.1) fala de não voltar ao jugo da lei como caminho de salvação. Poucos versículos depois vem o limite: não useis a liberdade como pretexto para a carne, mas servi uns aos outros pelo amor (5.13). O capítulo segue com as obras da carne, que excluem do reino de Deus. Liberdade, aqui, é poder andar pelo Espírito.

Paulo aprendeu o evangelho com Pedro e os outros apóstolos

A carta insiste no contrário. Depois do chamado, Paulo não consultou ninguém nem subiu a Jerusalém: foi para a Arábia e voltou a Damasco (1.16-17). Só três anos depois conheceu Cefas, com quem ficou quinze dias, e viu Tiago (1.18-19). Quando voltou a Jerusalém, catorze anos mais tarde, os líderes nada lhe acrescentaram e reconheceram a sua missão (2.6-9).

Perguntas para estudo

8 perguntas

O que Paulo diz de quem anunciar um evangelho diferente?
Que seja anátema, ainda que fosse ele mesmo ou um anjo vindo do céu (Gálatas 1.8-9).
Quem acompanha Paulo a Jerusalém e não é obrigado a se circuncidar?
Tito, que era grego, levado por Paulo junto com Barnabé (Gálatas 2.1-3).
Quem são chamados de colunas da igreja de Jerusalém?
Tiago, Cefas e João, que estendem a mão a Paulo e a Barnabé em sinal de comunhão (2.9).
Por que Paulo repreende Cefas em Antioquia?
Porque ele comia com os gentios e se afastou deles quando chegaram alguns da parte de Tiago (2.11-13).
Que função Paulo atribui à lei em Gálatas 3.24?
A de pedagogo, o guardião que conduzia a criança, até a vinda de Cristo.
Que circunstância levou Paulo a pregar aos gálatas pela primeira vez?
Uma enfermidade do corpo; eles o receberam como a um anjo de Deus (Gálatas 4.13-14).
Em que mandamento toda a lei se cumpre, segundo Gálatas 5.14?
Em um só: amarás o teu próximo como a ti mesmo.
O que Paulo diz trazer no próprio corpo, no fim da carta?
As marcas de Jesus, e por isso pede que ninguém mais o moleste (Gálatas 6.17).
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Débora Arantes

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