Resumo da carta de Judas
Por Débora Arantes 11 min de leitura
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Judas pretendia escrever sobre a salvação que tinha em comum com os leitores e mudou de plano por uma urgência: homens tinham se infiltrado na comunidade, faziam da graça de Deus licença para a libertinagem e negavam o senhorio de Jesus Cristo. A carta pede que os fiéis batalhem pela fé entregue de uma vez por todas aos santos. Para mostrar o fim deles, enfileira exemplos: a geração do deserto, os anjos que deixaram o seu lugar, Sodoma e Gomorra, Caim, Balaão e Corá. Recorre também a duas tradições judaicas, a disputa de Miguel pelo corpo de Moisés e uma profecia de Enoque. Depois se volta aos amados: edificar-se na fé, orar, guardar-se no amor de Deus e ter misericórdia dos que duvidam. Termina num dos louvores mais solenes do Novo Testamento.
Irmão de Tiago
A carta tem vinte e cinco versículos e é o penúltimo livro do Novo Testamento, logo antes do Apocalipse. O autor diz quem é em duas expressões: servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago. O Tiago que dispensava apresentação era o líder da igreja de Jerusalém, chamado de irmão do Senhor. Os evangelhos listam entre os irmãos de Jesus um Tiago e um Judas, e é neles que a tradição reconhece os dois. Uma parte dela identifica o autor também com o apóstolo Judas Tadeu.
Chama a atenção o que ele não diz. Podendo se apresentar pelo parentesco com Jesus, escolhe o título de servo.
Os destinatários não têm cidade. São descritos por três palavras: chamados, amados em Deus Pai e guardados para Jesus Cristo. O voto também vem em três: misericórdia, paz e amor. Judas pensa em trios do começo ao fim, e o verbo guardar, posto na primeira linha, voltará na última.
A carta que mudou de assunto
Judas conta que se preparava com todo o empenho para escrever sobre a salvação comum, e que se viu obrigado a escrever outra coisa: um apelo a batalhar pela fé que foi entregue aos santos de uma vez por todas (versículo 3). A fé, aqui, é o conteúdo recebido, um depósito completo que não se refaz.
O motivo está no versículo seguinte. Certos homens se introduziram sem serem notados. Não vieram de fora atacando: estão dentro, sentam-se à mesa da comunidade. Judas os define por dois traços. Transformam a graça de Deus em libertinagem, isto é, usam o perdão como autorização para viver sem regra. E negam o único Soberano e Senhor, Jesus Cristo. O erro é de vida antes de ser de teoria.
Três juízos que os leitores já conheciam
O primeiro argumento é a memória. Judas lembra três casos em que estar perto de Deus não impediu o juízo:
- o povo salvo do Egito, do qual os que não creram morreram no deserto, como narra Números;
- os anjos que não conservaram a sua posição e deixaram a própria morada, guardados em prisões eternas para o grande dia;
- Sodoma e Gomorra e as cidades vizinhas, cuja destruição está em Gênesis, no capítulo 19, postas como exemplo.
A ordem não é a do tempo. Começa pelo caso mais próximo dos leitores: gente libertada, que viu a salvação e depois se perdeu.
Miguel não insultou o diabo
Os infiltrados, diz Judas, apoiam-se em sonhos, contaminam o corpo, rejeitam toda autoridade e falam mal dos seres gloriosos. O contraste que ele escolhe é o arcanjo Miguel. Quando disputava com o diabo o corpo de Moisés, Miguel não se atreveu a lançar contra ele uma sentença injuriosa. Disse apenas: o Senhor te repreenda (versículo 9).
O raciocínio vai do maior para o menor. Se o arcanjo deixou o juízo com Deus até diante do diabo, que dizer de homens que ofendem o que nem compreendem? A morte de Moisés está em Deuteronômio, e ali é o próprio Senhor quem o sepulta. A cena da disputa pertence à tradição judaica, e Judas a usa como história conhecida.
Caim, Balaão e Corá
O versículo 11 é um ai, no estilo dos profetas, com outro trio. Eles seguiram o caminho de Caim, o que matou o irmão. Lançaram-se por dinheiro ao erro de Balaão, o adivinho contratado para amaldiçoar Israel. Pereceram na rebelião de Corá, que se levantou contra Moisés e Arão e foi engolido pela terra. Ódio ao irmão, religião por lucro, revolta contra quem Deus pôs à frente.
Vem então uma série de imagens tiradas da natureza. Nas festas de amor, as refeições fraternas da comunidade, eles são um perigo escondido, pastores que apascentam a si mesmos. São nuvens sem água levadas pelo vento. Árvores de fim de outono, sem fruto, duas vezes mortas, arrancadas pela raiz. Ondas furiosas do mar, que espumam a própria vergonha. Estrelas errantes, para as quais está reservada a escuridão. Todas dizem o mesmo: prometem e não entregam.
Enoque, o sétimo depois de Adão
Judas cita em seguida uma profecia atribuída a Enoque, o sétimo depois de Adão: o Senhor vem com os seus milhares de santos para julgar a todos e convencer os ímpios de todas as obras e de todas as palavras duras que disseram contra ele (versículos 14 e 15). O Enoque de Gênesis 5 é o homem que andou com Deus e foi tomado por ele. As palavras citadas vêm do livro que leva o seu nome, lido e respeitado entre os judeus daquele tempo.
O retrato se completa no versículo 16: murmuradores, descontentes, guiados pelos próprios desejos, de fala arrogante, e aduladores quando há vantagem.
Vós, porém, amados
Com essa expressão, repetida duas vezes, a carta muda de direção. Primeiro, os leitores não devem se espantar. Os apóstolos de Jesus Cristo já tinham avisado que no último tempo haveria escarnecedores, e Judas fala deles como de um grupo ao qual os leitores devem a instrução. Quem causa divisões são esses homens, que não têm o Espírito.
Depois vem o que fazer, em quatro verbos (versículos 20 e 21):
- edificar-se sobre a santíssima fé;
- orar no Espírito Santo;
- guardar-se no amor de Deus;
- esperar a misericórdia de Jesus Cristo para a vida eterna.
E há o cuidado com os atingidos. Compaixão dos que duvidam. A outros, salvar arrancando do fogo. De outros ainda, ter misericórdia com temor, detestando até a roupa manchada. Nenhuma instrução manda expulsar ou revidar.
Àquele que pode guardar
Depois de vinte e três versículos de alerta, o fim é um louvor. Àquele que é poderoso para guardar de tropeços e apresentar os fiéis sem defeito e com grande alegria diante da sua glória, ao único Deus, Salvador por meio de Jesus Cristo, sejam glória, majestade, poder e autoridade, antes de todos os tempos, agora e para sempre (versículos 24 e 25).
A carta começou chamando os leitores de guardados e pediu que se guardassem. Termina dizendo quem de fato os guarda.
Quase a mesma página em 2 Pedro
Quem lê o capítulo 2 da segunda carta de Pedro e o começo do 3 reconhece Judas: os anjos, Sodoma, Balaão, as nuvens levadas pelo vento, os escarnecedores do fim, quase na mesma sequência. Discute-se qual dos dois textos serviu ao outro. As diferenças ajudam a ver o que é próprio de cada um. 2 Pedro acrescenta Noé e Ló, justos preservados no meio do juízo, e deixa de fora Miguel, Enoque, Caim e Corá. Judas é o mais breve e o mais denso, e só ele entrega ao Novo Testamento aquela doxologia.
Os pontos centrais
- O remetente se apresenta como servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, sem se chamar apóstolo (versículo 1).
- O pedido central é batalhar pela fé que foi entregue aos santos de uma vez por todas (versículo 3).
- Três juízos do passado servem de aviso: os incrédulos saídos do Egito, os anjos que abandonaram a sua morada e Sodoma e Gomorra (versículos 5 a 7).
- A carta usa duas tradições que não estão no Antigo Testamento: Miguel e o corpo de Moisés (versículo 9) e a profecia de Enoque (versículos 14 e 15).
- As instruções aos fiéis são edificar-se na fé, orar no Espírito Santo, guardar-se no amor de Deus e esperar a misericórdia de Cristo (versículos 20 e 21).
- A doxologia final louva aquele que pode guardar de tropeços e apresentar os fiéis sem defeito diante da sua glória (versículos 24 e 25).
Leituras que se afastam do texto
A carta de Judas foi escrita por Judas Iscariotes
Judas era nome muito comum entre os judeus, a forma grega de Judá. O autor se identifica como irmão de Tiago, e a tradição reconhece nos dois os irmãos de Jesus citados em Mateus 13.55 e Marcos 6.3. Judas Iscariotes, o que entregou Jesus, morreu antes de a igreja começar, como contam Mateus 27 e Atos 1. A coincidência do nome é a única razão do engano; o conteúdo da carta não tem nenhuma relação com o traidor.
A profecia de Enoque que Judas cita está em Gênesis
Gênesis 5 diz apenas que Enoque andou com Deus e que Deus o tomou; não registra nenhuma palavra dele. A frase sobre o Senhor que vem com milhares de santos para julgar os ímpios (versículos 14 e 15) corresponde a um escrito judaico antigo, o livro de Enoque, que quase todas as tradições deixam fora da Bíblia. Judas cita uma palavra conhecida dos leitores, e ela entra na Escritura pela sua carta.
A briga de Miguel com o diabo pelo corpo de Moisés está no Antigo Testamento
O Antigo Testamento conta a morte de Moisés em Deuteronômio 34: o Senhor o sepultou num vale de Moabe, e ninguém conhece o lugar. Não há ali disputa alguma. O episódio do versículo 9 vem de uma tradição judaica que autores cristãos antigos ligam a um escrito chamado Assunção de Moisés. A resposta de Miguel, o Senhor te repreenda, repete as palavras de Zacarias 3.2.
Batalhar pela fé, em Judas, é combater quem tem dúvidas
A carta separa com cuidado. Os infiltrados são descritos com dureza, e o juízo deles fica com Deus. Para os que vacilam, a ordem é outra: tende compaixão dos que duvidam, salvai outros arrancando-os do fogo, e de outros tende misericórdia com temor (versículos 22 e 23). A batalha de que Judas fala se trava edificando a própria fé, orando e permanecendo no amor de Deus.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Sobre o que Judas pretendia escrever antes de mudar de assunto?
- Sobre a salvação comum, isto é, a que ele compartilhava com os leitores (versículo 3).
- Quais são as duas acusações contra os infiltrados no versículo 4?
- Transformam a graça de Deus em libertinagem e negam o único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.
- O que o arcanjo Miguel diz ao diabo na disputa pelo corpo de Moisés?
- Não ousa pronunciar sentença ofensiva e diz apenas: o Senhor te repreenda (versículo 9).
- Que três nomes do Antigo Testamento aparecem no ai do versículo 11?
- Caim, Balaão e Corá: o caminho do primeiro, o erro do segundo e a rebelião do terceiro.
- Em que ocasião da comunidade os infiltrados são um perigo, segundo o versículo 12?
- Nas festas de amor, as refeições fraternas, das quais participam sem temor, cuidando só de si.
- Como Judas identifica Enoque ao citá-lo?
- Como o sétimo depois de Adão, contando as gerações de Gênesis 5 (versículo 14).
- De quem são as palavras que os leitores devem lembrar?
- Dos apóstolos, que avisaram que no último tempo haveria escarnecedores (versículos 17 e 18).
- Que outro livro do Novo Testamento traz quase os mesmos exemplos de Judas?
- A segunda carta de Pedro, no capítulo 2 e no começo do capítulo 3.
Débora Arantes
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