Resumo de 1 João
Por Débora Arantes 12 min de leitura
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Deus é luz e Deus é amor: as duas afirmações sustentam 1 João. O escrito nasce de uma ruptura. Um grupo saiu da comunidade negando que Jesus é o Cristo vindo em carne e dizendo conhecer a Deus sem se importar com o pecado nem com os irmãos. O autor, testemunha do que ouviu, viu e tocou, escreve aos que ficaram para lhes dar certeza. Dá três sinais de quem pertence a Deus, e volta a eles várias vezes: guardar os mandamentos, amar o irmão de fato e confessar Jesus como o Filho. Quem diz amar a Deus e odeia o irmão é mentiroso. O amor começa em Deus, que amou primeiro e enviou o Filho. Quem tem o Filho tem a vida eterna.
Depois que alguns saíram
Este escrito não começa como carta. Não traz nome de quem escreve, nem destinatários, nem saudação, e termina sem despedida. A tradição o recebeu como obra do apóstolo João, o mesmo do quarto evangelho, com o qual divide o vocabulário: luz e trevas, verdade e mentira, permanecer, vida eterna.
A ocasião aparece no meio do capítulo 2. Houve uma ruptura. Saíram do nosso meio, diz o autor, mas não eram dos nossos; se fossem, teriam permanecido conosco (2.19). Pelo que ele rebate, dá para ver o que esse grupo afirmava:
- negava que Jesus é o Cristo e não o confessava vindo em carne (2.22 e 4.2-3);
- dizia ter comunhão com Deus e conhecê-lo, sem ligar para os mandamentos (1.6 e 2.4);
- dizia não ter pecado (1.8);
- dizia amar a Deus, sem amar os irmãos (4.20).
Os que ficaram estavam abalados. O autor os chama de filhinhos e amados, e escreve para lhes dar segurança. O texto não avança em linha. Gira em torno de três sinais, a obediência, o amor e a fé em Jesus, e volta a cada um deles, cada vez mais fundo.
O que as nossas mãos tocaram
As primeiras linhas lembram o começo do evangelho de João. O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram, a respeito do Verbo da vida: é isso que anunciamos (1.1-3).
A insistência nos sentidos tem endereço. Contra quem separava o Cristo da carne, o autor fala de alguém que se pôde ouvir, ver e tocar. O anúncio tem dois fins: que os leitores tenham comunhão com as testemunhas, cuja comunhão é com o Pai e com o Filho, e que a alegria seja completa.
Luz, e nenhuma treva
A mensagem é resumida numa frase: Deus é luz, e nele não há treva alguma (1.5). Dela saem cinco condições, todas começando por se.
Se dissermos que temos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos. Se andarmos na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar (1.9). Se dissermos que não pecamos, fazemos dele um mentiroso.
Andar na luz, portanto, não é estar sem pecado. É não o esconder. E, para quem pecar, há um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, que é a propiciação pelos nossos pecados e pelos do mundo inteiro (2.1-2).
O mandamento antigo que é novo
O primeiro sinal é a obediência. Quem diz eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso. Quem diz que permanece nele deve andar como ele andou (2.6).
O mandamento em questão é antigo, porque os leitores o têm desde o princípio, e é novo, porque as trevas estão passando e a verdadeira luz já brilha. É o amor ao irmão. Quem odeia o irmão está nas trevas e não sabe para onde vai.
Segue uma advertência: não ameis o mundo. O que há nele, o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida, não vem do Pai. O mundo passa; quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (2.17).
A última hora e os anticristos
Aqui a carta toca a ferida. Filhinhos, é a última hora. Ouvistes que vem o anticristo, e agora muitos anticristos têm surgido (2.18). São os que saíram.
A definição é doutrinal: mentiroso é quem nega que Jesus é o Cristo, e anticristo é quem nega o Pai e o Filho. Quem nega o Filho também não tem o Pai. Os leitores não estão desarmados. Receberam a unção do Santo e conhecem a verdade. O que precisam é deixar permanecer neles o que ouviram desde o princípio.
Filhos de Deus, e o irmão que passa necessidade
O capítulo 3 começa com admiração: vede que grande amor o Pai nos deu, o de sermos chamados filhos de Deus. E somos. Já agora somos filhos, e ainda não se manifestou o que havemos de ser; quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é (3.2).
Dessa esperança sai uma linha divisória entre quem pratica a justiça e quem pratica o pecado. O Filho de Deus se manifestou para destruir as obras do diabo.
O segundo sinal, o amor, recebe então o seu contrário e o seu modelo. O contrário é Caim, que em Gênesis mata o irmão; quem odeia o irmão é homicida. O modelo é Cristo: nisto conhecemos o amor, em que ele deu a vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos (3.16). O exemplo desce ao bolso. Quem tem bens deste mundo, vê o irmão em necessidade e lhe fecha o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Não amemos de palavra nem de língua, mas de fato e de verdade (3.18).
O capítulo junta os sinais num só mandamento: crer no nome de Jesus Cristo, o Filho, e amar uns aos outros (3.23). E consola quem se acusa: se o coração nos condena, Deus é maior que o nosso coração.
Provai os espíritos
O terceiro sinal é a fé. Não creiais em todo espírito; provai os espíritos, para ver se são de Deus, porque muitos falsos profetas saíram pelo mundo (4.1). O critério é simples. O espírito que confessa Jesus Cristo vindo em carne é de Deus. O que não confessa Jesus não é, e esse é o espírito do anticristo. Os leitores já venceram, porque maior é o que está neles do que o que está no mundo.
Ele nos amou primeiro
A volta final ao amor é o ponto mais alto. Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. Quem não ama não conheceu a Deus, porque Deus é amor (4.8).
A frase é logo explicada. O amor se manifestou em que Deus enviou o seu Filho único ao mundo. Não fomos nós que amamos a Deus: ele nos amou e enviou o Filho como propiciação pelos nossos pecados. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos, ele permanece em nós.
Daí vêm três consequências. No amor não há medo: o perfeito amor lança fora o medo, e quem ama tem confiança para o dia do juízo. Nós amamos porque ele nos amou primeiro (4.19). E quem diz amo a Deus e odeia o irmão é mentiroso, pois quem não ama o irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.
Para que saibais
O capítulo 5 amarra os três sinais. Quem crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus; amar a Deus é guardar os seus mandamentos, que não são pesados; e a vitória que vence o mundo é a fé. Jesus veio por água e sangue, e três dão testemunho, o Espírito, a água e o sangue. Algumas edições antigas trazem nesse ponto uma frase mais longa, sobre o Pai, o Verbo e o Espírito Santo.
O testemunho é este: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está no seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida (5.12).
O evangelho de João diz ter sido escrito para que os leitores creiam (João 20.31). Aqui o propósito dá um passo: escrevi estas coisas para que saibais que tendes a vida eterna, vós que credes (5.13). Um texto leva à fé; o outro dá certeza a quem já crê, e as últimas linhas repetem três vezes a palavra sabemos. O que cada um dos quatro evangelhos conta de Jesus é o chão dessa certeza.
A última frase chega sem aviso: filhinhos, guardai-vos dos ídolos. As mesmas preocupações, em poucas linhas e com endereço, voltam em 2 João.
Os pontos centrais
- O autor fala como testemunha: anuncia o que ouviu, viu com os olhos e tocou com as mãos, o Verbo da vida (1.1-3).
- Deus é luz; quem diz não ter pecado se engana, e quem confessa os pecados é perdoado e purificado (1.5-9).
- Os anticristos são muitos, saíram da própria comunidade e negam que Jesus é o Cristo (2.18-22).
- Os que creem já são filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que hão de ser (3.1-2).
- Deus é amor: o amor consiste em que ele amou primeiro e enviou o Filho como propiciação pelos pecados (4.8-10 e 4.19).
- O propósito está dito em 5.13: que os que creem no Filho de Deus saibam que têm a vida eterna.
Leituras que se afastam do texto
O anticristo é um personagem do Apocalipse
A palavra anticristo não aparece no Apocalipse. Em toda a Bíblia, ela só está nas cartas de João (1 João 2.18, 2.22 e 4.3; 2 João 7). E vem também no plural: muitos anticristos têm surgido, gente que saiu da comunidade e nega que Jesus é o Cristo. O engano nasce de juntar esse nome às figuras do Apocalipse, como a besta, e ao homem da iniquidade de 2 Tessalonicenses, que são outros textos.
Quem nasceu de Deus nunca mais comete pecado
A carta diz que o nascido de Deus não vive no pecado (3.9), e a mesma carta diz que quem afirma não ter pecado engana a si mesmo (1.8). Entre as duas frases está 2.1: escrevo para que não pequeis; se alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai. O capítulo 3 opõe dois modos de viver, o de quem pratica a justiça e o de quem pratica o pecado. Não promete uma vida sem queda.
Deus é amor, então todo amor é Deus
A frase não se inverte. A carta define de que amor fala: Deus enviou o seu Filho único ao mundo para que vivamos por ele, e nisto consiste o amor, não em termos nós amado a Deus, mas em que ele nos amou (4.9-10). Esse amor tem conteúdo: dar a vida pelos irmãos, socorrer quem passa necessidade, guardar os mandamentos (3.16-17 e 5.3). Deus é a medida do amor, e não o contrário.
Não ameis o mundo quer dizer desprezar as pessoas e a criação
O próprio texto explica o que chama de mundo: o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida, coisas que passam (2.16-17). É a vida organizada sem Deus, e não as pessoas. A mesma carta diz que Jesus é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (2.2) e que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (4.14). O engano vem de ler a palavra num só sentido.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Como Jesus é chamado em 1 João 2.1?
- Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, a quem recorre aquele que pecou.
- Quais são as três coisas que há no mundo, segundo 1 João 2.16?
- O desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida, que não vêm do Pai.
- Para que o Filho de Deus se manifestou, segundo 1 João 3.8?
- Para destruir as obras do diabo, que peca desde o princípio.
- Que personagem de Gênesis é o exemplo do ódio ao irmão?
- Caim, que era do Maligno e matou o próprio irmão (1 João 3.12).
- Como se reconhece o espírito que vem de Deus?
- Ele confessa que Jesus Cristo veio em carne; o que não confessa Jesus não é de Deus (4.2-3).
- O que o perfeito amor lança fora?
- O medo, porque no amor não há medo, e o medo supõe castigo (1 João 4.18).
- Quais são os três que dão testemunho em 1 João 5.8?
- O Espírito, a água e o sangue, e os três concordam entre si.
- Qual é a última frase de 1 João?
- Filhinhos, guardai-vos dos ídolos, um aviso final e sem despedida (5.21).
Débora Arantes
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