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Resumo da carta aos Filipenses

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Da prisão, sem saber se será solto ou executado, Paulo escreve a carta mais alegre que deixou. Os cristãos de Filipos, primeira igreja que ele fundou na Europa, mandaram-lhe ajuda por Epafrodito, e Filipenses é o agradecimento. Paulo conta que suas correntes fizeram o evangelho avançar e resume a própria vida numa frase: viver é Cristo, morrer é lucro (Filipenses 1.21). Para pedir unidade, cita o hino de Cristo, que tinha a forma de Deus, esvaziou-se, tomou a forma de servo, obedeceu até a morte de cruz e foi exaltado acima de todo nome (2.6-11). Depois põe o próprio currículo de fariseu na coluna das perdas, manda alegrar-se sempre e diz ter aprendido a viver contente na fartura e na fome.

Percurso em cinco paradas do hino de Filipenses 2: Cristo na forma de Deus, servo, obediente até a cruz, exaltado e confessado como Senhor
Imagem: resumode.com.br

Um presente que atravessou o mar

Filipos era uma colônia romana na Macedônia, povoada em boa parte por veteranos do exército e orgulhosa de sua cidadania. Foi a primeira cidade da Europa em que Paulo anunciou o evangelho. Atos dos Apóstolos conta a fundação no capítulo 16: a visão do macedônio que pede ajuda, a conversão de Lídia, vendedora de púrpura, a prisão de Paulo e Silas e o carcereiro batizado com a família.

Anos depois, Paulo está preso outra vez, e os filipenses ficam sabendo. Juntam uma oferta e a enviam por um dos seus, Epafrodito, que deve também ficar com o apóstolo e servi-lo. Lá, Epafrodito adoece e quase morre. Quando se recupera, Paulo o manda de volta com esta carta, que é ao mesmo tempo recibo, notícia e conselho.

O texto fala do pretório (1.13) e da casa de César (4.22), e a tradição situa a prisão em Roma. Paulo escreve com Timóteo e dirige-se a todos os santos de Filipos, com os bispos e diáconos. O tom é o de quem fala com amigos: nenhuma outra igreja recebe dele tanto afeto. Uma palavra volta em todos os capítulos, alegria, em substantivo e em verbo, mais de uma dúzia de vezes.

Correntes que fizeram o evangelho andar

Depois de agradecer a Deus pelos filipenses e de afirmar que a boa obra começada neles será completada (1.6), Paulo dá notícias. Elas são o contrário do que se esperaria. A prisão serviu ao progresso do evangelho: toda a guarda sabe que ele está preso por causa de Cristo, e a maioria dos irmãos ganhou coragem para falar (1.12-14).

Nem todos pregam pelo motivo certo. Alguns anunciam Cristo por inveja e rivalidade, querendo agravar a situação do preso. A resposta de Paulo é curta: de um modo ou de outro, Cristo é anunciado, e nisso ele se alegra (1.18).

Quanto ao próprio destino, ele não sabe o que virá e não escolhe. O viver é Cristo, e o morrer é lucro (1.21). Partir e estar com Cristo é muito melhor; ficar é mais necessário por causa das igrejas. Ele conclui que ficará. Aos filipenses pede uma só coisa: que vivam de modo digno do evangelho, firmes num só espírito, sem medo dos adversários. A eles foi concedido não só crer em Cristo, mas também sofrer por ele (1.29).

O hino da descida e da subida

O capítulo 2 pede unidade, e o caminho indicado é a humildade: nada por rivalidade ou vanglória, cada um considerando os outros superiores a si e cuidando também do que é dos outros (2.3-4). Para dizer o que isso significa, Paulo não argumenta. Aponta para Cristo, num trecho de linguagem ritmada que muitos entendem como um hino cantado pelas primeiras comunidades.

O hino tem dois movimentos. No primeiro, Cristo desce:

  • existia na forma de Deus e não tratou a igualdade com Deus como algo a que se agarrar;
  • esvaziou-se, assumiu a forma de servo, tornou-se semelhante aos homens;
  • humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz (2.6-8).

No segundo, o sujeito muda. É Deus quem age: exaltou-o soberanamente e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai (2.9-11). A frase do joelho e da língua vem de Isaías 45.23, onde quem fala é o próprio Deus de Israel.

A cruz está no centro exato do hino. Tudo o que vem antes desce até ela; tudo o que vem depois sobe a partir dela.

Estrelas no mundo e dois exemplos vivos

Do hino Paulo tira a consequência. Os filipenses sempre obedeceram; que continuem, na ausência dele, a desenvolver a sua salvação com temor e tremor, pois é Deus quem opera neles o querer e o realizar (2.12-13). Que façam tudo sem murmurar, para brilharem como luzeiros no mundo no meio de uma geração torta (2.15). Se a vida dele for derramada como oferta sobre o serviço da fé deles, ele se alegra, e pede que se alegrem com ele.

Vêm então dois retratos, que funcionam como o hino em escala humana. Timóteo será enviado em breve: não há outro que cuide dos filipenses com igual sinceridade, e ele serviu ao evangelho com Paulo como filho ao lado do pai. Epafrodito é chamado de irmão, cooperador e companheiro de luta. Arriscou a vida para completar o serviço que a igreja queria prestar, e deve ser recebido com alegria e honra (2.25-30).

O balanço de um fariseu

O capítulo 3 muda de tom. Paulo adverte contra os que insistem na circuncisão como marca necessária, e os chama de maus obreiros (3.2). Para mostrar que não fala por despeito, apresenta as próprias credenciais: circuncidado ao oitavo dia, do povo de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça da lei, irrepreensível (3.5-6).

Em seguida faz a contabilidade. Tudo o que era lucro passou para a coluna da perda por causa de Cristo. Mais: ele considera tudo como perda, como refugo, diante do valor de conhecer Cristo Jesus (3.7-8). O que deseja é ser achado nele, não com uma justiça própria, que vem da lei, mas com a que vem pela fé (3.9), e conhecer o poder da ressurreição e a participação nos sofrimentos.

O corredor que ainda não chegou

Paulo se apressa em desfazer um mal-entendido: não diz que já alcançou. A imagem é a do atleta. Esquecendo o que ficou para trás e avançando para o que está adiante, ele prossegue para o alvo, pelo prêmio do chamado de Deus em Cristo Jesus (3.13-14).

Há quem viva de outro modo, e Paulo fala deles chorando: inimigos da cruz, cujo deus é o ventre e cuja mente está nas coisas da terra (3.18-19). O contraste é dito numa palavra que os filipenses, moradores de colônia romana, entendiam bem: a nossa cidadania está nos céus, e de lá esperamos o Salvador, que transformará o nosso corpo humilde para ser igual ao seu corpo glorioso (3.20-21).

Evódia, Síntique e a paz que monta guarda

O último capítulo desce a um caso. Evódia e Síntique, duas mulheres que lutaram ao lado de Paulo pelo evangelho, estão em desacordo. Ele pede a cada uma, pelo nome, que tenham o mesmo pensamento no Senhor, e pede a um companheiro que as ajude (4.2-3). É a exortação do capítulo 2 aplicada.

Seguem as ordens mais conhecidas da carta. Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos (4.4). Que a moderação de todos seja conhecida. Em vez de ansiedade, pedidos apresentados a Deus com ação de graças, e a promessa: a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente em Cristo Jesus (4.6-7). O verbo é militar, o de uma sentinela. Por fim, a lista do que deve ocupar o pensamento: tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, de boa fama (4.8).

O recibo e a saudação da casa de César

Só no fim Paulo chega ao assunto que motivou a carta. Ele se alegrou muito com a oferta, mas não por necessidade: aprendeu a estar contente em qualquer situação. Sabe passar privação e sabe ter em abundância; foi iniciado no segredo de estar saciado e de ter fome. Tudo posso naquele que me fortalece (4.11-13).

Ainda assim, os filipenses fizeram bem. No começo, quando Paulo deixou a Macedônia, nenhuma outra igreja se associou a ele em dar e receber; só eles, que já lhe tinham mandado ajuda mais de uma vez quando estava em Tessalônica (4.15-16), a cidade para onde seguirá a primeira carta aos Tessalonicenses. Paulo declara ter recebido tudo e chama a oferta de aroma suave, sacrifício aceito por Deus (4.18).

A despedida guarda uma última surpresa. Entre os que mandam lembranças aos cristãos da colônia romana de Filipos estão os santos da casa de César (4.22). O preso escreve de dentro do poder que o julga, e o evangelho já mora ali. Filipenses é, no Novo Testamento, a carta que mostra a alegria cristã onde ela menos se explica: numa cela, à espera de sentença, agradecendo um presente.

Os pontos centrais

  1. A ocasião da carta: agradecer a oferta dos filipenses e devolver Epafrodito, que adoeceu gravemente enquanto servia a Paulo (2.25-30; 4.18).
  2. A frase que resume a disposição de Paulo diante do julgamento: para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro (1.21).
  3. O hino de Cristo em dois movimentos, a descida até a morte de cruz e a exaltação acima de todo nome (2.6-11).
  4. A troca de valores do capítulo 3: o que era lucro para o fariseu irrepreensível passa a ser perda diante de conhecer Cristo (3.7-8).
  5. A alegria como ordem repetida, mesmo na prisão: alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos (4.4).
  6. O contentamento aprendido: Paulo sabe passar necessidade e ter fartura, e tudo pode naquele que o fortalece (4.11-13).

Leituras que se afastam do texto

Tudo posso naquele que me fortalece garante que eu consigo o que quiser

A frase fecha um parágrafo sobre dinheiro e necessidade. Paulo acaba de dizer que aprendeu a viver contente em qualquer situação, saciado ou com fome, com sobra ou em falta (4.11-12). O tudo do versículo 13 é isso: atravessar a fartura e a escassez sem depender delas. O texto fala de suportar, não de obter. O engano nasce de ler o versículo sozinho, como lema de conquista.

Ao se esvaziar, Jesus deixou de ser Deus

O hino explica o esvaziamento na própria frase: esvaziou-se assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens (2.7). O texto descreve o que ele tomou sobre si, e não algo que tenha perdido; o ponto é a recusa de usar a igualdade com Deus em benefício próprio (2.6). A sequência é rebaixamento e obediência, e termina com todo joelho dobrado diante dele (2.10).

Desenvolver a salvação com temor e tremor é conquistá-la pelo próprio esforço

A ordem de 2.12 não termina no ponto final. O versículo seguinte dá o motivo: porque Deus é quem opera em vós tanto o querer como o realizar (2.13). Paulo pede que os filipenses levem adiante, com seriedade, o que Deus já está fazendo neles, agora que o apóstolo não está presente. A mesma carta afirma que a justiça não vem da lei, e sim da fé em Cristo (3.9).

Filipenses é alegre porque Paulo vivia um momento tranquilo

Paulo está preso e considera a possibilidade de ser morto (1.20; 2.17). Há pregadores que anunciam Cristo por inveja, para lhe aumentar o sofrimento (1.15-17). Epafrodito quase morreu (2.27), e duas colaboradoras estão em desacordo (4.2). A alegria da carta não vem das circunstâncias. Ela é sempre no Senhor, e por isso pode ser ordenada a quem também sofre (1.29; 4.4).

Perguntas para estudo

8 perguntas

A quem a saudação de Filipenses é dirigida, além dos santos da cidade?
Aos bispos e diáconos, mencionados logo no primeiro versículo da carta (1.1).
Que certeza Paulo declara sobre a obra começada nos filipenses?
Que aquele que começou a boa obra neles vai completá-la até o dia de Cristo Jesus (1.6).
Entre que duas coisas Paulo se diz dividido no capítulo 1?
Entre partir e estar com Cristo, que é muito melhor, e permanecer, que é mais necessário para a igreja (1.23-24).
Quem levou a oferta dos filipenses a Paulo?
Epafrodito, que adoeceu a ponto de quase morrer e foi mandado de volta com a carta.
Que credenciais Paulo lista em Filipenses 3.5?
Circuncidado ao oitavo dia, israelita da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus e, quanto à lei, fariseu.
Onde está a cidadania dos cristãos, segundo o capítulo 3?
Nos céus, de onde aguardam o Salvador, o Senhor Jesus Cristo (3.20).
Que duas mulheres Paulo exorta a se entenderem?
Evódia e Síntique, que tinham lutado ao lado dele pelo evangelho (4.2-3).
O que a carta promete a quem troca a ansiedade pela oração?
A paz de Deus, que excede todo entendimento e guarda o coração e a mente em Cristo Jesus (4.7).
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Débora Arantes

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