Resumo da carta aos Colossenses
Por Débora Arantes 13 min de leitura
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Cristo basta. Em Colossos, igreja que Paulo não fundou e que nunca o tinha visto, circulava um ensino que somava ao evangelho regras de comida e de calendário, culto de anjos, visões e proibições rigorosas, como caminho para uma plenitude maior. Da prisão, Paulo responde com um hino: o Filho é a imagem do Deus invisível, nele tudo foi criado e tudo subsiste, ele é a cabeça da igreja e reconciliou todas as coisas pelo sangue da cruz (Colossenses 1.15-20). Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (2.9), e quem está nele já está completo; o resto é sombra. A segunda metade tira a consequência: quem ressuscitou com Cristo busca as coisas do alto, despe o homem velho e vive a fé dentro de casa.
Uma igreja que nunca viu o rosto de Paulo
Colossos ficava no vale do rio Lico, no interior da província romana da Ásia, a pouca distância de Laodiceia e de Hierápolis. Paulo não esteve ali. A igreja nasceu do trabalho de Epafras, um colossense que anunciou ali o evangelho e se empenhou também pelas duas cidades vizinhas (1.7; 4.12-13). Os fiéis são em sua maioria de origem gentia, e a carta os inclui entre os que nunca viram o rosto do apóstolo (2.1).
Epafras foi ao encontro de Paulo, que está preso (4.3, 18), e contou o que viu. As notícias são boas: fé em Cristo, amor por todos os santos, um evangelho que dá fruto. Mas há um ensino rondando a comunidade, e a carta existe por causa dele.
Paulo não lhe dá nome nem o descreve por inteiro. Pelo que ele rebate, vê-se o contorno: observância de regras sobre alimentos e de dias sagrados, devoção aos anjos, valorização de visões, disciplina dura com o corpo. A promessa era de uma espiritualidade mais completa. A resposta de Paulo não começa pelo erro. Começa por dizer quem é Cristo, e só depois pergunta o que alguém poderia acrescentar.
A carta segue com Tíquico, o portador da carta aos Efésios, com a qual tem muito em comum. Vai com ele Onésimo, o mesmo da carta a Filemom.
O primeiro em tudo
Depois de agradecer, Paulo ora para que os colossenses sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, e lembra o que já lhes aconteceu: o Pai os tirou do poder das trevas e os transportou para o reino do Filho do seu amor, em quem há redenção e perdão (1.13-14).
A menção ao Filho abre o trecho mais alto da carta, um hino em duas estrofes.
A primeira fala de Cristo e da criação. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Nele foram criadas todas as coisas, as do céu e as da terra, as visíveis e as invisíveis: tronos, dominações, principados, potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de tudo, e nele tudo subsiste (1.15-17).
A segunda fala de Cristo e da reconciliação. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter em tudo a primazia. Aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude e que, por meio dele, todas as coisas fossem reconciliadas, feita a paz pelo sangue da sua cruz (1.18-20).
O hino já responde ao problema de Colossos sem citá-lo. Os poderes invisíveis que impressionavam os colossenses estão na lista do que foi criado por Cristo. E a plenitude que eles procuravam em outro lugar mora nele.
Cristo em vós
Paulo aplica o hino aos leitores. Eles eram estranhos e inimigos, e foram reconciliados no corpo de Cristo, pela morte, para serem apresentados santos e sem culpa, desde que permaneçam firmes na fé (1.21-23).
Em seguida fala do próprio serviço. Alegra-se no que sofre por eles e diz completar na sua carne o que resta das aflições de Cristo em favor do corpo, a igreja (1.24). Sua tarefa é anunciar o mistério que esteve oculto por gerações e agora foi manifestado: Cristo em vós, a esperança da glória (1.27). Ele luta também pelos que não o conhecem, em Colossos e em Laodiceia, para que tenham plena convicção. Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (2.3). A frase prepara o aviso: digo isso para que ninguém vos engane com argumentos sedutores.
A dívida cravada na cruz
O centro da carta começa com uma ordem simples: assim como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, andai nele, enraizados e edificados (2.6-7). Não há segundo estágio a alcançar.
Vem o alerta. Que ninguém os faça presa por meio de filosofia e sutilezas vazias, segundo a tradição dos homens e os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo (2.8). O motivo é a frase que sustenta a carta inteira: nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e nele estais completos (2.9-10).
Paulo enumera o que os fiéis já têm. Receberam uma circuncisão que não é feita por mãos. Foram sepultados com Cristo no batismo e com ele ressuscitaram, pela fé no poder de Deus. Estavam mortos nos pecados e receberam vida e perdão (2.11-13).
Duas imagens fecham o argumento. A primeira é de cartório: havia contra nós um documento de dívida, com as suas exigências, e Deus o cancelou, tirou do caminho e o cravou na cruz. A segunda é de desfile militar: ele despojou os principados e as potestades e os expôs em público, triunfando sobre eles (2.14-15).
Sombra, anjos e três proibições
Com isso estabelecido, Paulo passa às exigências, uma por uma.
Ninguém deve julgar os colossenses por comida ou bebida, nem por causa de festa, lua nova ou sábados. Essas coisas são sombra do que havia de vir; a realidade é Cristo (2.16-17).
Ninguém deve desqualificá-los em nome de humildade forçada e de culto dos anjos, apoiado em visões. Quem faz isso se incha sem motivo e se solta da cabeça, de quem o corpo inteiro, ligado por juntas e ligamentos, recebe o crescimento que vem de Deus (2.18-19).
Por fim, as regras de abstinência. Se morreram com Cristo para os rudimentos do mundo, por que se sujeitam a ordens como não manuseies, não proves, não toques? São preceitos humanos sobre coisas que se gastam com o uso. Têm aparência de sabedoria, com sua devoção voluntária e seu rigor com o corpo, e não têm valor algum contra os impulsos da carne (2.20-23).
A vida escondida
O capítulo 3 troca a pergunta. Se a santidade não vem dessas regras, de onde vem? Da mesma união com Cristo que as tornou desnecessárias.
Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde ele está sentado à direita de Deus. Vocês morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo em Deus; quando ele se manifestar, vocês também se manifestarão com ele em glória (3.1-4).
Dessa posição saem ordens concretas. Fazer morrer a imoralidade, a impureza, a paixão, o desejo mau e a avareza, que é idolatria. Largar a ira, a maldade, a maledicência, a mentira. O motivo é uma troca já feita: despiram o homem velho e vestiram o novo, que se renova segundo a imagem de quem o criou. Nesse homem novo não há grego nem judeu, bárbaro, cita, escravo ou livre: Cristo é tudo em todos (3.9-11).
A roupa nova tem peças: compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência, o perdão dado como o Senhor perdoou e, por cima de tudo, o amor, que é o vínculo da perfeição (3.12-14). A paz de Cristo deve ser o árbitro no coração; a palavra de Cristo deve morar na comunidade, com salmos, hinos e cânticos. Tudo, em palavra ou em ação, feito em nome do Senhor Jesus (3.15-17).
Senhores que também têm Senhor
A fé desce então para a casa, nos mesmos três pares que aparecem em Efésios, em versão breve. Esposas e maridos, com a ordem a eles de amar e não tratar com amargura. Filhos e pais, com o aviso de não irritar os filhos para que não desanimem (3.18-21).
A instrução mais longa é a dos servos: obedecer de coração, trabalhar como para o Senhor e não para homens, sabendo que dele receberão a herança. Os senhores ouvem uma frase só, e ela pesa: deem aos servos o que é justo e equitativo, sabendo que também vocês têm um Senhor no céu (3.22 a 4.1).
Paulo pede oração, para que se abra uma porta à palavra, e recomenda sabedoria com os de fora: palavra agradável, temperada com sal (4.2-6).
A carta que devia trocar de mãos
O último trecho é uma lista de nomes, e ela diz muito. Tíquico dará as notícias. Onésimo é apresentado como irmão fiel e amado, um de vocês. Mandam saudações Aristarco, companheiro de prisão; Marcos, primo de Barnabé; Jesus, chamado Justo; Epafras, que luta por eles em oração; Lucas, o médico amado; e Demas (4.7-14). Arquipo recebe um recado para cumprir o ministério que recebeu. Paulo assina de próprio punho e pede: lembrem-se das minhas cadeias (4.18).
No meio das saudações há uma instrução prática. Depois de lida em Colossos, a carta deve ser lida também na igreja de Laodiceia, e os colossenses devem ler a que vem de lá (4.16). O versículo mostra como esses textos começaram a circular: escritos para uma comunidade, copiados e lidos em outra, até formarem uma coleção. Laodiceia reaparece no Apocalipse, entre as sete igrejas da Ásia.
Dentro do Novo Testamento, Colossenses e Efésios se completam. Efésios olha para a igreja, corpo de Cristo. Colossenses olha para a cabeça.
Os pontos centrais
- A origem da igreja: os colossenses ouviram o evangelho de Epafras, e não de Paulo, que eles nunca tinham visto pessoalmente (1.7; 2.1).
- O hino a Cristo, primeiro na criação e primeiro na reconciliação: imagem do Deus invisível e cabeça do corpo, a igreja (1.15-20).
- A afirmação central contra o falso ensino: em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade (2.9).
- A imagem do perdão como um documento de dívida cancelado e cravado na cruz, com o triunfo sobre principados e potestades (2.14-15).
- As práticas recusadas como exigência: regras de comida e bebida, festas, luas novas e sábados, culto dos anjos e ascetismo (2.16-23).
- A virada do capítulo 3: quem ressuscitou com Cristo busca as coisas do alto, pois a sua vida está escondida com Cristo em Deus (3.1-3).
Leituras que se afastam do texto
Primogênito de toda a criação significa que Cristo foi o primeiro ser criado
A frase seguinte explica o título: nele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e invisíveis; ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste (1.16-17). Quem cria tudo não entra na lista do que foi criado. Primogênito, na Bíblia, é também título de posição, o do herdeiro que tem a primazia, como no Salmo 89, onde Deus promete fazer do rei o seu primogênito.
Não toques, não proves, não manuseies é um conselho de Paulo
É o contrário. Paulo cita essas três proibições como exemplo das regras que os colossenses não devem aceitar: se morrestes com Cristo, por que vos sujeitais a ordens como estas? (2.20-21). Ele as chama de preceitos e doutrinas de homens, com aparência de sabedoria e sem valor contra os impulsos da carne (2.22-23). O engano vem de citar o versículo 21 fora da pergunta que o introduz.
Colossenses condena a filosofia e o estudo
O alvo de 2.8 é um ensino específico, descrito na própria frase: sutilezas vazias, segundo a tradição dos homens e os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. A mesma carta pede que os leitores sejam cheios de sabedoria e entendimento (1.9), diz que em Cristo estão todos os tesouros do conhecimento (2.3) e manda ensinar com toda a sabedoria (3.16). O critério é Cristo; pensar não é o problema.
Os colossenses ouviram o evangelho da boca do próprio Paulo
A carta diz que os colossenses aprenderam o evangelho com Epafras, um deles, chamado de fiel ministro de Cristo (1.7; 4.12). Paulo inclui Colossos e Laodiceia entre os que não viram o seu rosto (2.1) e conhece a fé deles por ter ouvido falar (1.4). A confusão vem de supor que toda carta de Paulo vai para uma igreja aberta por ele; esta nasceu do trabalho de um colaborador.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Quem levou o evangelho a Colossos?
- Epafras, natural da cidade, que depois foi ao encontro de Paulo e lhe deu notícias da igreja (1.7-8).
- Que três cidades vizinhas aparecem juntas em Colossenses 4.13?
- Colossos, Laodiceia e Hierápolis, pelas quais Epafras se empenha muito.
- Como o capítulo 1 descreve a mudança de situação dos fiéis?
- Deus os libertou do poder das trevas e os transportou para o reino do Filho do seu amor (1.13).
- Qual é o mistério que Paulo anuncia em Colossenses 1.27?
- Cristo em vós, a esperança da glória, mistério agora manifestado entre os gentios.
- Que lista de povos e condições é superada em Colossenses 3.11?
- Grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo e livre: Cristo é tudo em todos.
- Como Lucas é chamado nas saudações finais?
- O médico amado; é o único lugar do Novo Testamento que informa a profissão dele (4.14).
- Que troca de cartas Paulo ordena no fim?
- Que a carta seja lida também na igreja de Laodiceia e que os colossenses leiam a que vem de Laodiceia (4.16).
- Como deve ser a palavra do cristão diante dos de fora?
- Sempre agradável, temperada com sal, para saber responder a cada um (4.6).
Débora Arantes
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