Resumo do livro de Abdias
Por Débora Arantes 10 min de leitura
Em 30 segundos
Vinte e um versículos bastam para Abdias, o livro mais curto do Antigo Testamento, tratar de uma traição entre irmãos. Edom, o povo que descende de Esaú, vivia nas alturas rochosas ao sul do mar Morto e se julgava inalcançável. Quando estrangeiros invadiram Jerusalém e lançaram sortes sobre ela, Edom ficou olhando, alegrou-se, entrou para saquear e entregou os fugitivos. O profeta anuncia que o orgulho será derrubado e que o feito voltará sobre a cabeça de quem o fez. Daí o olhar se alarga: o dia do Senhor está perto para todas as nações. No monte Sião haverá livramento, a casa de Jacó recuperará a sua herança, e a última frase diz a quem tudo pertence: o reino será do Senhor.
Uma página e um só assunto
O livro se apresenta em duas palavras: visão de Abdias. Não há nome de pai, de cidade ou de rei, e o profeta não diz nada de si. O nome significa servo do Senhor, e é tudo o que se sabe dele.
O texto tem um capítulo só, por isso costuma ser citado apenas pelo número do versículo. E tem um só assunto: Edom. Outros profetas reúnem oráculos contra vários povos, como Amós faz nos seus dois primeiros capítulos. Abdias se detém em um, e por um motivo que o próprio texto repete: Edom é irmão.
Dois irmãos, dois povos
Para ouvir Abdias é preciso lembrar uma história de Gênesis. Rebeca, grávida de gêmeos, ouve que há duas nações no seu ventre e que o mais velho servirá ao mais novo. Esaú nasce primeiro; Jacó vem agarrado ao seu calcanhar. Esaú vende o direito de primogenitura por um prato de comida, Jacó obtém por engano a bênção do pai, Esaú promete matá-lo, e Jacó foge. Anos depois se reencontram e se abraçam. Esaú se instala na região montanhosa de Seir, e o texto fixa a identidade: Esaú é Edom.
Os dois povos herdam a relação dos dois irmãos. Quando Israel sai do Egito, Moisés pede passagem ao rei de Edom falando como parente: assim diz teu irmão Israel. Edom recusa e sai ao encontro com gente armada, episódio narrado em Números 20. Mesmo assim a lei manda não desprezar o edomita, porque é teu irmão. Na monarquia, Davi submete Edom, e mais tarde Edom se revolta e se liberta de Judá.
O território de Edom ficava ao sul do mar Morto, em terra alta e rochosa. É esse relevo que Abdias usa contra ele.
O ninho entre as estrelas
A visão começa com uma notícia que corre entre as nações: levantai-vos, vamos à guerra contra ela. Deus fala a Edom diretamente: eu te fiz pequeno entre os povos.
O diagnóstico vem no versículo 3: a soberba do teu coração te enganou. Edom mora nas fendas das rochas, em lugar alto, e diz consigo mesmo: quem me derrubará por terra? A resposta usa a imagem da ave que voa mais alto. Ainda que subas como a águia e ponhas o teu ninho entre as estrelas, de lá eu te derrubarei.
Seguem duas comparações sobre o tamanho da perda. Se ladrões entrassem de noite, levariam só o que lhes bastasse. Se vindimadores viessem, deixariam alguns cachos. Com Esaú não será assim: tudo será revistado, até os tesouros escondidos. Nem os amigos ficam. Os aliados o empurram até a fronteira, e os que comiam do seu pão lhe armam cilada. Os sábios de Edom e os valentes de Temã, de que o povo se orgulhava, desaparecem.
Tu eras como um deles
O versículo 10 dá a razão: por causa da violência feita a teu irmão Jacó, a vergonha te cobrirá.
O profeta descreve então um dia determinado. Estranhos levaram os bens de Jacó, estrangeiros entraram pelas suas portas e lançaram sortes sobre Jerusalém. Edom estava ali, do outro lado, e Abdias diz: tu mesmo eras como um deles (versículo 11).
O livro não dá a data desse dia. A cena corresponde à tomada de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C., contada no último capítulo de 2 Reis, e é assim que ela costuma ser lida.
Os versículos 12 a 14 formam o trecho mais marcante do livro. São oito censuras seguidas, todas começando do mesmo modo, e elas sobem de grau:
- não devias ter olhado com prazer o dia do teu irmão;
- nem ter-te alegrado com a ruína dos filhos de Judá;
- nem ter falado com arrogância no dia da angústia;
- não devias ter entrado pela porta do meu povo;
- nem ter olhado com prazer o seu mal;
- nem ter lançado mão dos seus bens;
- não devias ter parado nas encruzilhadas para exterminar os que escapavam;
- nem ter entregado os sobreviventes.
A série começa num olhar e termina em gente entregue ao inimigo. Abdias não separa quem assiste de quem participa.
Como fizeste, assim se fará contigo
No versículo 15 o horizonte se abre. O dia do Senhor está perto, e está perto sobre todas as nações. Edom deixa de ser um caso isolado e passa a ser exemplo. A regra é dita sem enfeite: como tu fizeste, assim se fará contigo; o teu feito voltará sobre a tua cabeça.
A imagem seguinte é a do cálice. Assim como bebestes no meu santo monte, beberão todas as nações, e beberão até serem como se nunca tivessem existido. Quem festejou sobre as ruínas de Sião bebe agora outra bebida.
O monte Sião e o monte de Esaú
Os cinco versículos finais põem dois montes frente a frente. No monte Sião haverá livramento, e ele será santo; a casa de Jacó tomará posse da sua herança (versículo 17). A casa de Jacó será fogo, a casa de José será chama, e a casa de Esaú, palha.
Vem depois uma lista de territórios devolvidos: o Neguebe, a planície, os campos de Efraim e de Samaria, Gileade. Os exilados voltam para ocupar as cidades. E o livro termina com uma frase que vai além dos dois povos: libertadores subirão ao monte Sião para julgar o monte de Esaú, e o reino será do Senhor.
A mesma dor em outras vozes
Abdias não está sozinho. O Salmo 137, o dos rios da Babilônia, pede que o Senhor se lembre dos filhos de Edom, que no dia de Jerusalém gritavam para arrasá-la até os alicerces; o livro de Salmos guarda em forma de oração o que Abdias diz em forma de sentença. Jeremias 49 traz um oráculo contra Edom com várias das mesmas imagens, a do ninho da águia e a dos vindimadores. Lamentações e Ezequiel voltam ao assunto, e Malaquias abre o seu livro com Jacó e Esaú.
Lido depois de tantos textos sobre os pecados de Israel e de Judá, Abdias acrescenta algo que eles não dizem: o castigo do povo de Deus não dá a ninguém licença para pisar nele. E a frase final desloca a questão. Não se trata, no fim, de Jacó vencer Esaú, e sim de a quem pertence o reino.
Os pontos centrais
- Abdias é um oráculo único, sem narrativa nem dados sobre o profeta, dirigido contra Edom e aberto no fim a todas as nações.
- O centro da acusação é o parentesco: a violência foi feita contra teu irmão Jacó (Abdias 10), e Edom descende de Esaú.
- A soberba do teu coração te enganou (Abdias 3) resume a primeira parte: a segurança das rochas não protege de Deus.
- Os versículos 12 a 14 trazem oito censuras em sequência, do olhar satisfeito ao saque e à entrega dos sobreviventes.
- A regra do juízo está no versículo 15: como tu fizeste, assim se fará contigo, no dia do Senhor sobre todas as nações.
- O livro termina em promessa, com livramento no monte Sião (Abdias 17) e a declaração de que o reino será do Senhor (21).
Leituras que se afastam do texto
Abdias é o menor livro da Bíblia
É o menor do Antigo Testamento, com um capítulo e 21 versículos. No Novo Testamento há livros mais curtos: a segunda carta de João tem 13 versículos, e a terceira tem 14 ou 15, conforme a edição. A afirmação costuma circular pela metade, e Abdias acaba levando um título que pertence às cartas de João. Dentro do Antigo Testamento, porém, nenhum outro livro tem menos versículos.
Edom destruiu Jerusalém
O texto atribui a invasão a estranhos e estrangeiros, que entraram pelas portas e lançaram sortes sobre a cidade (Abdias 11). A culpa de Edom é outra: ficou de lado, alegrou-se, falou com arrogância, entrou para saquear, parou nas encruzilhadas para matar quem fugia e entregou os sobreviventes. O profeta resume: tu eras como um deles. A acusação é de cumplicidade, e pesa mais por se tratar de um irmão.
O profeta Abdias é o mordomo de Acabe que escondeu cem profetas
O Abdias de 1 Reis 18 é administrador do palácio de Acabe e esconde cem profetas em cavernas, no tempo de Elias. O livro de Abdias não informa pai, cidade, rei nem época do seu autor, e o nome era comum: várias pessoas o levam no Antigo Testamento. Uma tradição antiga uniu os dois, mas o texto não faz essa ligação, e o cenário do livro, com Jerusalém saqueada, não é o do reinado de Acabe.
Perguntas para estudo
8 perguntas
- Contra que povo Abdias profetiza?
- Contra Edom, que o livro também chama de Esaú, de monte de Esaú e de Temã.
- Qual é o parentesco entre Edom e Israel?
- Edom descende de Esaú, e Israel de Jacó, os filhos gêmeos de Isaque e Rebeca.
- Onde Edom morava, segundo o versículo 3?
- Nas fendas das rochas, em morada alta, de onde perguntava quem o derrubaria por terra.
- Com que ave o orgulho de Edom é comparado?
- Com a águia: ainda que ponha o ninho entre as estrelas, de lá será derrubado (Abdias 4).
- Que comparação mostra que a ruína de Edom será completa?
- Ladrões levam só o que lhes basta e vindimadores deixam cachos; Esaú será vasculhado por inteiro.
- Quem engana Edom, segundo o versículo 7?
- Os próprios aliados, os que comiam do seu pão, que o empurram até a fronteira e lhe armam cilada.
- Que imagem descreve a casa de Jacó e a casa de Esaú no versículo 18?
- A casa de Jacó será fogo, a de José chama, e a casa de Esaú será palha.
- Qual é a última frase do livro?
- E o reino será do Senhor, dita depois de os libertadores subirem ao monte Sião (Abdias 21).
Débora Arantes
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