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Resumo da carta a Tito

Por Débora Arantes 12 min de leitura

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Em 30 segundos

Igrejas novas, espalhadas pelas cidades de Creta e ainda sem quem as conduza: esse é o trabalho que Paulo deixa nas mãos de Tito. A carta manda constituir presbíteros de vida irrepreensível em cada cidade, calar os faladores que transtornam famílias inteiras por dinheiro e ensinar a cada grupo, idosos, jovens e escravos, o comportamento que combina com a sã doutrina. Duas passagens dão o fundamento. A graça de Deus se manifestou trazendo salvação e educa para uma vida sóbria, justa e piedosa (2.11-14). E Deus salvou não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia, pelo lavar da regeneração e pela renovação do Espírito Santo (3.4-7). Quem creu, conclui Paulo, deve ser o primeiro nas boas obras.

Três colunas com os espaços tratados na carta a Tito, um por capítulo: a igreja, a casa e a cidade, cada qual com as suas instruções
Imagem: resumode.com.br

Uma ilha por organizar

Tito não aparece em Atos, mas as cartas de Paulo o mostram em missões delicadas. É grego. Paulo o levou a Jerusalém quando se discutia se os gentios precisavam da circuncisão, e ele não foi obrigado a recebê-la (Gálatas 2.1-3). Mais tarde foi o enviado a Corinto num momento de crise e voltou com boas notícias (2 Coríntios 7.6-7).

Agora o campo é Creta. A carta supõe que Paulo esteve na ilha, que ali há grupos de cristãos em várias cidades e que o trabalho ficou pela metade: por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em ordem o que faltava (1.5). Atos só registra a passagem de Paulo pela costa cretense, preso, a caminho de Roma. A tradição situa a carta depois disso, numa fase de viagens que Atos não narra, e a recebe como de Paulo; discute-se, como nas duas cartas a Timóteo, quanto da redação é do próprio apóstolo.

A saudação mais comprida

Para uma carta de três capítulos, a abertura surpreende: quatro versículos, a mais longa saudação das pastorais. Paulo se apresenta como servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, a serviço da fé dos eleitos e do conhecimento da verdade que conduz à piedade. Fala da esperança da vida eterna, prometida antes dos tempos pelo Deus que não mente, e da pregação que lhe foi confiada.

Não é enfeite. A saudação já contém o argumento: verdade e modo de viver andam juntos. Tudo o que segue aplica essa frase à ilha.

Presbíteros em cada cidade

A primeira tarefa é constituir presbíteros. O critério é a vida conhecida de cada um. Irrepreensível, marido de uma só mulher, com filhos crentes que não sejam acusados de vida desregrada (1.6).

A lista continua, sem pausa, falando do bispo como administrador da casa de Deus. Cinco coisas ele não pode ser: arrogante, irritadiço, dado ao vinho, violento, ganancioso. Seis ele deve ser: hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, piedoso, senhor de si (1.7-8).

A última qualidade é a que a situação de Creta mais pede. O escolhido precisa estar apegado à palavra fiel, conforme o ensino, para conseguir duas coisas: animar com a sã doutrina e convencer os que a contradizem (1.9).

Um profeta de Creta contra os faladores

Os que contradizem são muitos. A carta os chama de insubordinados, faladores e enganadores, e aponta sobretudo os que vêm da circuncisão. O dano é doméstico: eles transtornam casas inteiras, ensinando o que não devem, por causa de ganho vergonhoso (1.10-11).

Contra eles, Paulo cita um verso da própria ilha. Um deles, seu próprio profeta, disse que os cretenses são sempre mentirosos, feras más, ventres preguiçosos (1.12). O testemunho é verdadeiro, diz a carta, e a consequência é uma ordem a Tito: repreendê-los com firmeza, para que sejam sadios na fé e deixem as fábulas judaicas e os mandamentos de homens.

O parágrafo fecha com duas frases fortes. Tudo é puro para os puros; para os contaminados, nada é puro, porque a mente e a consciência deles estão manchadas. E: afirmam que conhecem a Deus, mas o negam com as obras (1.15-16).

Cada idade com a sua instrução

O capítulo 2 muda de tom. Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina. E o que convém é dito por grupo, dentro das casas que os faladores vinham desarrumando.

Grupo O que a carta pede Referência
Homens idosos Sobriedade, seriedade, saúde na fé, no amor e na perseverança 2.2
Mulheres idosas Conduta reverente, sem calúnia nem excesso de vinho; que ensinem o bem 2.3
Mulheres jovens Amor ao marido e aos filhos, sensatez, cuidado da casa 2.4-5
Jovens Sensatez em tudo 2.6
Escravos Submissão, sem responder mal nem furtar, com toda a fidelidade 2.9-10

As mulheres jovens não são instruídas por Tito, e sim pelas mais velhas. O próprio Tito entra na lista como exemplo: deve ser modelo de boas obras, íntegro e sério no ensino (2.7).

Três vezes a instrução vem com um motivo, e os três olham para fora: para que a palavra de Deus não seja difamada (2.5), para que o adversário fique sem ter o que dizer (2.8), para que a doutrina de Deus seja enfeitada em tudo (2.10). Numa ilha de fama ruim, a vida dos cristãos é o argumento que os vizinhos conseguem ver.

A graça que ensina

O fundamento de tudo isso vem a seguir, numa das frases mais densas das cartas de Paulo: a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens (2.11).

A graça aqui tem um verbo inesperado: ela educa. Ensina a renunciar à impiedade e às paixões do mundo e a viver, no tempo presente, de modo sóbrio, justo e piedoso. A vida cristã fica assim entre duas manifestações. A primeira já aconteceu, a da graça. A segunda é esperada: a bendita esperança, a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (2.13).

O trecho termina dizendo para que Cristo se entregou: para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença, zeloso de boas obras (2.14).

Diante das autoridades e dos vizinhos

O capítulo 3 sai de casa e vai para a cidade. Tito deve lembrar a todos que se sujeitem aos governantes e às autoridades, estejam prontos para toda boa obra, não falem mal de ninguém e sejam mansos com todos (3.1-2).

A razão para essa mansidão é a memória: também nós éramos insensatos, desobedientes, escravos de paixões, vivendo no ódio (3.3). Quem olha o vizinho pagão vê o que ele mesmo foi.

O que mudou não foi mérito. Quando se manifestaram a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens, ele nos salvou, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, pelo lavar da regeneração e pela renovação do Espírito Santo, derramado com abundância por meio de Jesus Cristo. Justificados pela graça, tornamo-nos herdeiros da vida eterna (3.4-7).

Nicópolis, Zenas e Apolo

O final volta ao prático. Discussões tolas, genealogias e brigas sobre a lei são inúteis; quem provoca divisões é advertido duas vezes e depois evitado (3.9-10).

Tito não ficará em Creta para sempre. Quando chegar Ártemas ou Tíquico para substituí-lo, deve ir ao encontro de Paulo em Nicópolis, onde o apóstolo decidiu passar o inverno. Antes, precisa encaminhar Zenas, o intérprete da lei, e Apolo, o pregador de Alexandria conhecido de Atos 18, cuidando para que nada lhes falte. Até esse favor vira lição: que os nossos aprendam a se dedicar às boas obras, para as necessidades urgentes (3.14).

Seis vezes Salvador, seis vezes boas obras

Duas contagens mostram como a carta é construída.

A palavra Salvador aparece seis vezes, sempre aos pares: em cada capítulo, uma vez para Deus e uma para Jesus Cristo (1.3-4; 2.10 e 13; 3.4 e 6). A expressão boas obras também aparece seis vezes: os falsos mestres são incapazes delas (1.16), Tito é modelo delas (2.7), o povo de Cristo é zeloso delas (2.14), e os que creram devem estar prontos, dedicar-se e aprender a praticá-las (3.1, 8, 14).

As duas séries nunca se confundem. Quem salva é Deus, por misericórdia; o que os salvos fazem vem depois e fica à vista de todos. Em 1 Timóteo, a pergunta era como proceder numa igreja já formada. Em Tito, com comunidades que estão começando numa terra difícil, a resposta cabe em três capítulos: líderes confiáveis, casas em ordem, vizinhos bem tratados, e a graça como professora de tudo isso.

Os pontos centrais

  1. A missão de Tito em Creta: pôr em ordem o que faltava e constituir presbíteros em cada cidade (Tito 1.5).
  2. As qualidades do presbítero, com destaque para o apego à palavra fiel, para exortar e para refutar os que contradizem (1.6-9).
  3. O verso de um profeta cretense sobre os próprios cretenses, usado contra os que ensinam por ganância (1.10-13).
  4. As instruções por grupo no capítulo 2, cada uma com um motivo voltado para a boa fama da palavra de Deus (2.5, 8, 10).
  5. A graça que se manifestou a todos e ensina a viver, enquanto se aguarda a manifestação da glória de Cristo (2.11-14).
  6. A salvação por misericórdia, e não por obras de justiça, seguida da ordem de se dedicar às boas obras (3.4-8).

Leituras que se afastam do texto

Paulo chama todos os cretenses de mentirosos

A frase é citação: um deles, seu próprio profeta, disse que os cretenses são sempre mentirosos, feras más, ventres preguiçosos (1.12). A tradição atribui o verso ao poeta Epimênides, de Creta. Paulo o aplica aos faladores que transtornam casas por lucro e manda repreendê-los para que sejam sadios na fé. Ao mesmo tempo, espera encontrar cretenses irrepreensíveis em cada cidade para o cargo de presbítero.

A carta a Tito ensina que a pessoa se salva pelas boas obras

A insistência nas boas obras é real: a expressão aparece seis vezes. Mas a ordem das coisas está dita com todas as letras: Deus nos salvou não por obras de justiça que tivéssemos feito, e sim segundo a sua misericórdia (3.5). As boas obras vêm depois, como ocupação dos que creram (3.8) e marca do povo que Cristo purificou para si (2.14). O engano nasce de separar as exortações do seu fundamento.

Tito é só uma versão curta de 1 Timóteo

As duas cartas têm listas parecidas de qualidades para os líderes, mas a situação é outra. Éfeso era igreja antiga, com presbíteros, diáconos e lista de viúvas; em Creta ainda é preciso constituir presbíteros, e a carta não fala de diáconos nem repete a exigência de que o escolhido não seja recém-convertido. Tito traz ainda dois resumos da salvação (2.11-14; 3.4-7) sem paralelo exato na outra carta.

Tudo é puro para os puros quer dizer que cada um faz o que quiser

A frase (1.15) responde a mestres que se ocupam de fábulas judaicas e de mandamentos de homens (1.14), isto é, de regras sobre o que torna alguém puro ou impuro. Paulo diz que a pureza começa na mente e na consciência, e que quem as tem contaminadas contamina tudo o que toca. O versículo seguinte fala dos que dizem conhecer a Deus e o negam com as obras. O assunto é pureza ritual, e não licença.

Perguntas para estudo

8 perguntas

Em que lugar Paulo deixou Tito?
Na ilha de Creta, para organizar as igrejas e constituir presbíteros nas cidades (1.5).
Tito era judeu de nascimento?
Não. Era grego, e Paulo conta que ele não foi obrigado a se circuncidar (Gálatas 2.3).
Como Paulo chama Tito na saudação?
Verdadeiro filho na fé comum, expressão que costuma ser lida como sinal de que Paulo o levou à fé (1.4).
O que as mulheres idosas devem ensinar às mais jovens?
A amar o marido e os filhos, a ser sensatas, puras, bondosas e cuidadosas da casa (2.4-5).
Por que os escravos devem mostrar toda a fidelidade?
Para que, em tudo, sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador (2.10).
O que fazer com quem provoca divisões?
Adverti-lo uma primeira e uma segunda vez e, depois disso, evitá-lo (3.10).
Onde Paulo planeja passar o inverno?
Em Nicópolis, para onde Tito deve ir assim que chegar Ártemas ou Tíquico (3.12).
Quem são os dois viajantes que Tito deve ajudar?
Zenas, o intérprete da lei, e Apolo, a quem nada deve faltar para a viagem (3.13).
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Débora Arantes

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