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Resumo de Descartes: dúvida metódica e penso, logo existo

Por Otávio Ribeiro 10 min de leitura

Em 30 segundos

Descartes queria dar ao conhecimento uma base tão firme quanto a da matemática. Para isso, decidiu duvidar de tudo o que pudesse ser posto em dúvida, não para ficar na dúvida, mas para descobrir o que resistiria a ela. Os sentidos às vezes enganam, o sonho imita a vigília, e ele imagina até um gênio enganador que o iludisse em tudo. Mesmo assim, uma coisa não pode ser negada: enquanto duvida, ele pensa, e para pensar é preciso existir. Daí a certeza primeira, penso, logo existo. A partir dela, reconstrói o conhecimento com critérios de clareza e distinção, e separa duas realidades: a mente, que pensa, e o corpo, que ocupa espaço. É o marco do racionalismo moderno.

A escada da dúvida metódica de Descartes, dos sentidos ao gênio maligno, chegando ao penso, logo existo e se dividindo em mente e corpo
Ilustração: resumode.com.br

O problema de Descartes

René Descartes viveu num momento em que muitas certezas antigas estavam caindo. A astronomia de Copérnico e Galileu contrariava o que se ensinava havia séculos, e o saber herdado das escolas parecia um amontoado de opiniões em disputa.

Descartes tinha uma inveja declarada da matemática: nela, a partir de poucos pontos seguros, chega-se a conclusões que ninguém discute. A pergunta que o move é se seria possível dar a todo o conhecimento uma base igualmente firme.

O método

No Discurso do Método, de 1637, ele propõe quatro regras:

  1. Evidência: nunca aceitar como verdadeiro o que não se conheça claramente como tal, evitando a pressa e o preconceito.
  2. Análise: dividir cada dificuldade em quantas partes forem possíveis e necessárias para resolvê-la.
  3. Síntese: conduzir os pensamentos em ordem, começando pelo mais simples e subindo aos poucos até o mais complexo.
  4. Enumeração: fazer revisões tão completas que se tenha certeza de não ter omitido nada.

São regras simples de enunciar e exigentes de cumprir. A primeira, em especial, leva ao passo mais famoso de sua filosofia.

A dúvida metódica

Se só vale o que é evidente, é preciso separar o evidente do duvidoso. Descartes decide então duvidar de tudo o que puder ser posto em dúvida, ainda que só um pouco. É uma dúvida radical, mas provisória e com propósito.

Nas Meditações, de 1641, ela avança em etapas:

Etapa Argumento O que cai
Os sentidos Às vezes nos enganam, como o remo que parece quebrado na água A confiança imediata nas percepções
O sonho Enquanto sonhamos, tudo parece real; não há sinal seguro que separe sonho e vigília A certeza de que o mundo exterior é como parece
O gênio maligno E se um ser poderoso e enganador me iludisse em tudo, até na matemática? Qualquer certeza que não resista a essa hipótese

A hipótese do gênio maligno é deliberadamente exagerada. Serve para testar até onde a dúvida pode ir.

Penso, logo existo

No ponto mais extremo da dúvida surge uma coisa que não pode ser negada. Mesmo que um gênio me engane em tudo, para ser enganado é preciso que eu exista. Enquanto duvido, penso; e enquanto penso, existo.

No Discurso, a formulação é penso, logo existo, que ficou famosa em latim como cogito, ergo sum. Nas Meditações, aparece como eu sou, eu existo, verdade necessária toda vez que é pensada.

Três observações evitam leituras erradas:

  • pensar inclui duvidar, entender, afirmar, negar, querer, imaginar e sentir;
  • não é uma dedução em etapas, e sim uma evidência imediata, segundo o próprio autor;
  • o que fica provado é a existência de uma coisa que pensa, não ainda a do corpo nem a do mundo.

Da primeira certeza ao mundo

A partir do cogito, Descartes extrai um critério: é verdadeiro o que é percebido clara e distintamente, como a própria existência de quem pensa.

Para sair de si e garantir que esse critério vale também para o conhecimento do mundo, ele argumenta pela existência de Deus a partir da ideia de um ser perfeito, e conclui que um ser perfeito não seria enganador. É esse passo que, no sistema cartesiano, devolve a confiança nas ideias claras e distintas e permite reconstruir a matemática e a física. O argumento foi muito discutido já no seu tempo, e é justamente aí que se concentram boa parte das críticas ao sistema.

Mente e corpo: o dualismo

Descartes distingue duas substâncias:

  • Substância pensante (res cogitans): a mente, cuja essência é pensar e que não ocupa espaço.
  • Substância extensa (res extensa): a matéria, incluindo o corpo, cuja essência é ocupar espaço e que funciona mecanicamente.

A consequência é uma visão mecânica da natureza: corpos, inclusive animais, funcionam como máquinas regidas por leis físicas. Essa visão favoreceu o desenvolvimento da ciência moderna.

A dificuldade que ficou é conhecida como problema mente e corpo: se são substâncias tão diferentes, como a mente move o braço, e como uma pancada no corpo vira dor na mente? Descartes sugeriu a glândula pineal como ponto de interação, resposta que poucos aceitaram. A questão continua viva na filosofia até hoje.

Racionalismo e empirismo

Descartes é o nome de referência do racionalismo: a razão é a fonte principal do conhecimento seguro, e há ideias que não vêm da experiência, como a de perfeição ou as verdades matemáticas.

A posição rival é o empirismo, de autores como John Locke e David Hume: o conhecimento começa pela experiência, e a mente, antes dela, é como uma folha em branco.

Racionalismo Empirismo
Origem do conhecimento Razão Experiência
Ideias inatas Existem Não existem
Modelo de saber Matemática Ciências da observação
Nomes Descartes, Espinosa, Leibniz Locke, Berkeley, Hume

No século XVIII, Kant tentará conciliar as duas posições, o que costuma aparecer em questões de continuidade.

Por que Descartes é o pai da filosofia moderna

Antes dele, a pergunta central da filosofia era, em grande parte, o que as coisas são. Com Descartes, passa a vir antes outra pergunta: como posso saber com certeza? O ponto de partida se desloca do mundo para o sujeito que conhece. Toda a teoria do conhecimento posterior se organiza a partir desse deslocamento, a favor ou contra ele.

Como cair bem numa prova sobre Descartes

Explique a dúvida como método. Duvidar para encontrar certeza, não para desistir dela.

Cite as etapas. Sentidos, sonho, gênio maligno. Elas mostram que a dúvida é construída em graus.

Contraponha ao empirismo. Razão contra experiência é a oposição que mais aparece nas questões.

O que costuma cair

  1. As quatro regras do método apresentadas no Discurso do Método.
  2. As etapas da dúvida metódica: sentidos, sonho e gênio maligno.
  3. O sentido do penso, logo existo como primeira certeza, e não como elogio do pensamento.
  4. O dualismo entre substância pensante e substância extensa, e o problema da relação entre elas.
  5. A oposição entre racionalismo e empirismo na teoria do conhecimento.

Onde quase todo mundo erra

Descartes era um cético que duvidava de tudo

A dúvida cartesiana é um método, e não uma conclusão. Ele duvida de propósito, de forma radical e provisória, para encontrar algo que resista a qualquer dúvida e sirva de alicerce. O cético conclui que não se pode saber; Descartes usa a dúvida justamente para chegar a certezas.

Penso, logo existo quer dizer que só existe quem pensa bem

A frase não trata de inteligência nem valoriza o pensamento sobre outras atividades. É uma constatação lógica: no próprio ato de duvidar ou pensar, a existência de quem pensa não pode ser negada. Pensar, aqui, inclui duvidar, imaginar, sentir e querer. É a primeira certeza, não uma hierarquia de pessoas.

O cogito é uma conclusão tirada de um raciocínio em várias etapas

Apesar do logo, Descartes insiste que não se trata de um silogismo com premissas, mas de uma evidência apreendida de uma só vez, numa intuição. Nas Meditações, a formulação aparece como eu sou, eu existo, todas as vezes que penso. A palavra logo pode induzir a tratar a frase como dedução, e o autor antecipou essa leitura para recusá-la.

Para Descartes, os sentidos não servem para nada

Ele desconfia dos sentidos como fundamento da certeza, porque às vezes enganam. Isso não o impediu de fazer óptica, anatomia e física experimental. O ponto é outro: o conhecimento seguro precisa ser validado pela razão, com ideias claras e distintas, e não aceito só porque os sentidos o apresentam.

Racionalismo e empirismo dizem a mesma coisa com nomes diferentes

São posições opostas sobre a origem do conhecimento. O racionalismo, de Descartes, sustenta que a razão é a fonte principal da certeza e que há ideias que não vêm da experiência. O empirismo, de autores como Locke e Hume, sustenta que todo conhecimento começa pela experiência dos sentidos. A questão de prova costuma pedir essa contraposição.

Cards de revisão

6 perguntas

Quais são as quatro regras do método de Descartes?
Evidência, aceitar só o que for claro e distinto; análise, dividir as dificuldades; síntese, ir do simples ao complexo; e enumeração, revisar tudo para não omitir nada.
Quais são as etapas da dúvida metódica?
Duvidar dos sentidos, que às vezes enganam; da distinção entre sonho e vigília; e, por fim, de tudo, supondo um gênio maligno que enganasse sempre.
O que é a primeira certeza de Descartes?
A existência de si mesmo como coisa que pensa: penso, logo existo.
O que é o critério de clareza e distinção?
A regra de só aceitar como verdadeiro o que se apresenta à mente de forma tão clara e distinta que não haja motivo para duvidar.
O que é o dualismo cartesiano?
A tese de que existem duas substâncias diferentes: a pensante, que é a mente, e a extensa, que é a matéria e o corpo.
Por que Descartes é chamado de pai da filosofia moderna?
Porque desloca o ponto de partida da filosofia para o sujeito que conhece e para a pergunta sobre como é possível ter certeza.

Otávio Ribeiro

Resumos de história e ciências humanas

Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.

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