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Resumo de Uma Breve História do Tempo, de Stephen Hawking

Por Aline Perez e Tomás Rezende 11 min de leitura

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A tese em uma frase O universo não é um cenário fixo onde as coisas acontecem: ele tem história, começo provável e leis que talvez caibam numa única teoria, ainda não encontrada.

Em 30 segundos

Hawking conta como a física deixou de ver o universo como um palco imutável e passou a vê-lo como algo que tem história. A relatividade de Einstein mostrou que espaço e tempo não são fundo fixo: eles se curvam diante da massa e passam mais devagar perto dela. A observação de que as galáxias se afastam umas das outras indicou que o universo está em expansão e que, no passado, tudo esteve concentrado num ponto de densidade extrema. Os buracos negros são a versão local desse extremo, e a contribuição mais conhecida do autor foi mostrar que eles não são perfeitamente negros: emitem radiação e podem, em tempo enorme, evaporar. Falta unir relatividade e física quântica numa teoria só, e o livro explica por que isso é tão difícil.

A expansão do universo representada por uma linha que se abre a partir do estado inicial, com o buraco negro e seu horizonte de eventos destacados à parte
Imagem: resumode.com.br

Um livro difícil que virou best-seller

Publicado em 1988, o livro se propôs a explicar cosmologia contemporânea para quem não tem formação em física. Hawking conta que foi advertido de que cada equação incluída reduziria as vendas pela metade, e por isso deixou praticamente só uma no texto.

O resultado ficou conhecido como o livro que todo mundo comprou e poucos terminaram, o que é injusto: a dificuldade não está na linguagem, está em abandonar imagens de mundo que parecem óbvias e não são.

De um cenário fixo a um universo com história

Durante séculos, espaço e tempo foram pensados como o palco onde os acontecimentos ocorrem: um fundo imutável, o mesmo para todos. O livro reconstrói a demolição dessa ideia.

Com a relatividade restrita, a velocidade da luz passa a ser a mesma para qualquer observador, e o preço dessa constância é alto: simultaneidade deixa de ser absoluta, e intervalos de tempo e de comprimento dependem do movimento de quem mede.

Com a relatividade geral, a gravidade deixa de ser uma força que puxa à distância e passa a ser geometria. Massa e energia curvam o espaço-tempo, e os corpos apenas seguem os caminhos mais retos disponíveis num tecido curvo. Perto de uma massa grande, o tempo corre mais devagar, e isso é medido, não imaginado.

O universo está se expandindo

A descoberta que muda o jogo é observacional. A luz das galáxias distantes chega deslocada para o vermelho, e quanto mais distante a galáxia, maior o deslocamento. A leitura mais direta é que elas se afastam de nós, e umas das outras.

A consequência é inevitável quando se roda o filme para trás: se tudo se afasta, tudo já esteve mais perto. Em algum momento do passado, a matéria e a energia estiveram concentradas num estado de densidade e temperatura extremas.

Esse ponto de partida ganhou o nome de big bang, apelido criado por um crítico da hipótese, que a considerava absurda.

É essencial entender o que a expansão não é. Não é matéria voando para dentro de um espaço vazio preexistente. É o próprio espaço que se estica, e por isso não há centro: qualquer observador, em qualquer galáxia, vê as outras se afastando dele.

A singularidade, e o incômodo que ela causa

Se a relatividade geral for levada até o limite, o estado inicial do universo é uma singularidade: densidade infinita, curvatura infinita, e nenhuma teoria conhecida capaz de descrever o que acontece ali.

Hawking e Roger Penrose demonstraram, nos anos 1960, que esse resultado não depende de detalhes particulares do modelo: dadas certas condições razoáveis, a singularidade é consequência matemática da própria teoria.

O problema é que uma teoria que prevê o próprio colapso está avisando que é incompleta. É nesse ponto que entra a física quântica, e é dessa costura mal-acabada que nasce a pergunta que atravessa o livro.

Buracos negros

Quando uma estrela muito massiva esgota o combustível, nada segura a compressão gravitacional. Ela colapsa até formar uma região da qual nem a luz escapa.

Dois conceitos organizam o resto:

  • Horizonte de eventos: a fronteira sem volta. De dentro dela, nenhum sinal alcança o exterior. Não é uma superfície material, é um limite geométrico.
  • Singularidade central: o ponto para onde a matéria colapsada é levada, onde as equações deixam de funcionar.

Uma consequência estranha e bem explicada no livro: para quem observa de fora, um objeto caindo parece desacelerar perto do horizonte, com o sinal ficando cada vez mais avermelhado e fraco, até sumir. Para quem cai, a travessia do horizonte acontece sem nenhum aviso particular.

A radiação que leva o nome dele

A contribuição científica mais conhecida de Hawking aparece aqui. Ao aplicar efeitos quânticos à vizinhança do horizonte, ele concluiu em 1974 que buracos negros emitem radiação.

Isso muda a natureza do objeto. Ele passa a ter temperatura, a perder massa e, num prazo colossal, a evaporar. E quanto menor a massa, mais intenso o processo, o que inverte a intuição: buracos negros pequenos são os mais quentes e os mais efêmeros.

O resultado é importante porque foi obtido no ponto exato em que gravidade e mecânica quântica precisam conviver, que é justamente onde as duas teorias não se entendem.

As setas do tempo

As leis fundamentais da física funcionam igualmente bem nos dois sentidos do tempo. Por que, então, o passado é tão diferente do futuro? O livro reúne três respostas parciais, chamadas de setas do tempo.

Seta O que distingue passado e futuro
Termodinâmica A desordem, medida pela entropia, aumenta com o tempo
Psicológica Lembramos o passado, nunca o futuro
Cosmológica O universo se expande, e não se contrai

A discussão interessante é a ligação entre elas. A seta psicológica depende da termodinâmica, porque registrar uma memória é um processo que aumenta a desordem no conjunto. E a seta termodinâmica depende de o universo ter começado num estado notavelmente organizado, o que a liga à cosmológica.

A teoria que falta

Duas teorias sustentam a física do século XX e não se falam.

  • Relatividade geral: excelente para o muito grande, estrelas, galáxias, o universo inteiro.
  • Mecânica quântica: excelente para o muito pequeno, partículas e átomos, com o princípio da incerteza no centro.

Cada uma funciona no seu domínio. Quando o objeto é ao mesmo tempo muito massivo e muito pequeno, como a singularidade ou o instante inicial do universo, as duas precisam agir juntas, e o resultado dá infinitos sem sentido.

O livro apresenta a busca por uma teoria unificada, e discute uma proposta desenvolvida pelo autor com James Hartle: descrever o universo como algo sem fronteira, isto é, sem uma borda no tempo onde condições iniciais precisassem ser impostas de fora. Se o modelo estiver correto, perguntar o que havia antes do começo faz tão pouco sentido quanto perguntar o que existe ao norte do polo norte.

Por que continua sendo lido

O valor do livro não está em ter respostas definitivas, e várias questões que ele deixa em aberto seguem abertas. Está em mostrar que perguntas como o universo teve começo, o tempo é o mesmo para todos e o que acontece dentro de um buraco negro deixaram de ser assunto de especulação e viraram problemas com método, cálculo e observação.

As ideias que ficam

  1. A passagem de um universo estático e eterno para um universo com história, expansão e começo provável.
  2. A ideia de espaço-tempo curvo: a gravidade como geometria, e não como força que puxa à distância.
  3. O que a expansão do universo significa, e por que ela não tem centro nem acontece dentro de outro espaço.
  4. O que é um buraco negro, o horizonte de eventos e a radiação que leva o nome do autor.
  5. As três setas do tempo e a razão de todas apontarem para o mesmo lado.
  6. Por que relatividade geral e mecânica quântica ainda não se encaixam numa única teoria.

O que o livro não diz

O big bang foi uma explosão que espalhou matéria pelo espaço vazio

Não havia espaço vazio ao redor para a matéria ocupar. O que se expande é o próprio espaço, e por isso a expansão não tem centro nem borda: de qualquer galáxia que se observe, todas as outras parecem se afastar. A imagem usada no livro é a de pontos desenhados num balão que infla, em que nenhum ponto é o centro e todos se distanciam entre si.

Buraco negro é um aspirador cósmico que suga tudo ao redor

A gravidade de um buraco negro a certa distância é igual à de qualquer corpo de mesma massa. Se o Sol fosse substituído por um buraco negro de massa idêntica, a Terra continuaria na mesma órbita, apenas no escuro. O que existe de particular é o horizonte de eventos: passado esse limite, nem a luz consegue voltar, e é ele que torna o objeto invisível.

O livro prova que Deus não existe

Não é essa a pergunta que a obra responde. Ela discute se o universo teve um começo no tempo e se as leis físicas conseguem descrever esse começo sem recorrer a condições impostas de fora. A frase final, sobre conhecer a mente de Deus, é uma metáfora para uma explicação completa. Posições pessoais que o autor tomou em outros textos e em outros anos não estão neste livro.

Buracos negros duram para sempre

A contribuição mais célebre de Hawking é justamente o contrário. Combinando efeitos quânticos com a gravidade nas proximidades do horizonte, ele concluiu em 1974 que esses objetos emitem radiação, perdem massa lentamente e, num tempo inimaginavelmente longo, podem desaparecer. Quanto menor o buraco negro, mais rápido o processo.

O tempo corre do mesmo jeito em todo lugar, e só a percepção muda

A diferença é física, não psicológica. Relógios marcam ritmos diferentes conforme a velocidade e a intensidade do campo gravitacional, e isso é medido com precisão em experimentos e levado em conta no funcionamento de sistemas de navegação por satélite. Não existe um relógio universal ao qual todos os outros devam obediência.

Livros que conversam com este

  • A Origem das Espécies Charles Darwin

    A outra grande explicação sobre origens, feita pela biologia e com o mesmo tipo de resistência inicial.

  • O Gene Egoísta Richard Dawkins

    Divulgação científica que também troca a intuição comum por um mecanismo verificável.

Cards para fixar

7 perguntas

O que a expansão do universo indica sobre o passado?
Que tudo esteve muito mais concentrado, e que houve um estado inicial de densidade e temperatura extremas.
O que é o espaço-tempo?
A união das três dimensões do espaço com o tempo num único tecido, que se curva na presença de massa e energia.
O que é o horizonte de eventos?
A fronteira de um buraco negro a partir da qual nada, nem a luz, consegue escapar para fora.
O que é a radiação Hawking?
A emissão prevista nas vizinhanças do horizonte, que faz o buraco negro perder massa e, em prazos enormes, evaporar.
Quais são as três setas do tempo citadas no livro?
A termodinâmica, em que a desordem cresce; a psicológica, em que lembramos o passado; e a cosmológica, em que o universo se expande.
Por que relatividade e mecânica quântica não se encaixam?
A primeira descreve muito bem o muito grande e a segunda o muito pequeno, mas juntas produzem resultados sem sentido justamente onde as duas seriam necessárias.
O que é o princípio da incerteza?
O limite que impede conhecer com precisão total, ao mesmo tempo, a posição e a velocidade de uma partícula.
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Aline Perez

Resumos de livros de não ficção

Escreve os resumos da estante Livros, extraindo a ideia central de obras que costumam ser mais citadas do que lidas. Escreve primeiro o que o livro afirma, depois o que ele não afirma e virou senso comum mesmo assim. A segunda lista costuma ser a mais longa.

Tomás Rezende

Resumos de matemática, física e química

Escreve os resumos das ciências exatas, sempre explicando o sentido de cada fórmula antes da conta. Resolve cada exemplo do zero antes de escrever sobre ele e anota em que ponto a conta costuma travar. É ali que entra a armadilha de cada resumo.

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