Ir direto para o conteúdo
Resumo De

Resumo da Revolução Francesa

Por Otávio Ribeiro 9 min de leitura

Em 30 segundos

A França de 1789 estava organizada em três ordens jurídicas: clero, nobreza e o restante da população, que pagava quase todos os impostos e não decidia nada. Uma crise fiscal agravada por guerras e por más colheitas obrigou o rei a convocar os Estados Gerais, e ali o Terceiro Estado recusou as regras do jogo e se declarou Assembleia Nacional. Nos dez anos seguintes, o país passou por monarquia constitucional, república girondina, ditadura jacobina com o Terror e governo do Diretório, até um golpe militar encerrar o ciclo em 1799. O que fica não é um regime, é um princípio: privilégio de nascimento deixa de ser base legítima do direito.

Linha do tempo da Revolução Francesa de 1789 a 1799, com as quatro fases e os marcos principais de cada uma
Ilustração: resumode.com.br

A situação antes: o que não se sustentava mais

O Antigo Regime francês organizava a população em três ordens com estatutos jurídicos diferentes. Não se tratava apenas de uns serem ricos e outros pobres: clero e nobreza tinham isenções fiscais, tribunais próprios e acesso reservado a cargos, por nascimento.

O Terceiro Estado reunia cerca de 97% da população e era internamente muito desigual. Dentro dele estavam camponeses sem terra, trabalhadores urbanos e também a burguesia: banqueiros, comerciantes, advogados, gente com fortuna e formação que continuava juridicamente inferior a um nobre falido.

Quatro pressões se acumularam:

  1. Crise fiscal. A França gastou somas enormes na Guerra dos Sete Anos e no apoio à independência dos Estados Unidos. A dívida consumia boa parte da receita, e o Estado não conseguia tributar justamente quem tinha mais.
  2. Bloqueio político. Toda tentativa de reforma tributária esbarrava na resistência dos privilegiados, que usavam os parlamentos regionais para travar as propostas.
  3. Crise agrícola. As colheitas ruins de 1787 e 1788 elevaram o preço do pão, que consumia a maior parte do orçamento de uma família trabalhadora.
  4. Um repertório de ideias. O Iluminismo havia difundido a noção de que a autoridade deve ser justificada pela razão e que a lei deve ser igual para todos. Isso não causou a Revolução, mas deu linguagem a ela.

1789: a ruptura

Sem saída, Luís XVI convocou os Estados Gerais, que não se reuniam desde 1614. A disputa começou pelo método de votação: por ordem, o que garantia 2 votos contra 1 aos privilegiados, ou por cabeça, o que favorecia o Terceiro Estado, mais numeroso.

Diante do impasse, os deputados do Terceiro Estado se declararam Assembleia Nacional e juraram não se dispersar antes de dar uma constituição à França. Quando o rei reagiu concentrando tropas em Paris, a população tomou a fortaleza da Bastilha em 14 de julho, em busca de armas e pólvora.

No campo, correu o boato de que os nobres armavam uma reação, e camponeses invadiram propriedades e queimaram registros de obrigações senhoriais. Esse episódio é conhecido como o Grande Medo.

Pressionada, a Assembleia aboliu em agosto os direitos feudais e aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que estabelece a igualdade perante a lei, a liberdade individual, a propriedade como direito e a soberania da nação.

As quatro fases

Monarquia constitucional, 1789 a 1792. A Constituição de 1791 mantém o rei, mas submete-o à lei e cria uma assembleia eleita por sufrágio censitário: apenas homens com certa renda votam. Bens da Igreja são nacionalizados. Em 1791 o rei tenta fugir do país e é capturado em Varennes, o que destrói sua credibilidade.

Convenção girondina, 1792 a 1793. Com a guerra contra Áustria e Prússia, a monarquia cai e a República é proclamada. A Convenção, dominada pelos girondinos, julga e executa Luís XVI em janeiro de 1793.

Convenção jacobina e o Terror, 1793 a 1794. Os jacobinos, apoiados pelos sans-culottes de Paris, tomam a direção. O Comitê de Salvação Pública, com Robespierre à frente, governa com poderes excepcionais: tabelamento de preços, recrutamento em massa, perseguição a suspeitos. Milhares são executados. Em julho de 1794, no golpe do 9 Termidor, os próprios convencionais derrubam e executam Robespierre.

Diretório, 1795 a 1799. Um governo de cinco membros tenta estabilizar a situação favorecendo a burguesia proprietária, entre conspirações de realistas de um lado e de radicais de outro. Depende cada vez mais do Exército. Em 1799, um general vitorioso nas campanhas da Itália e do Egito dá o golpe do 18 de Brumário.

O que realmente mudou

É comum concluir que a Revolução fracassou, já que terminou em ditadura militar e a monarquia voltaria em 1814. A conclusão desconsidera o essencial: o que foi destruído não voltou.

Mudanças duradouras:

  • Fim da sociedade de ordens. Privilégio jurídico por nascimento deixou de existir como categoria legal.
  • Igualdade civil. A lei passou a valer igualmente, ainda que a igualdade política levasse muito mais tempo.
  • Propriedade privada plena. As terras confiscadas mudaram de mãos e criaram um conjunto de proprietários com interesse em não voltar atrás.
  • Soberania nacional. O poder deixou de ser explicado por direito divino.
  • Exército nacional. O recrutamento em massa criou uma força que, nas guerras napoleônicas, levou o código civil e o fim do feudalismo para boa parte da Europa.

Quando a monarquia foi restaurada, ela teve de conviver com uma carta constitucional. O retorno ao Antigo Regime já não era possível.

Uma nota sobre interpretações

Historiadores discordam sobre o peso relativo dos fatores. Uma linha clássica enfatiza o conflito de classes e vê a Revolução como vitória burguesa sobre a aristocracia. Uma corrente revisionista, a partir da segunda metade do século XX, questiona essa leitura e destaca a dinâmica política e cultural, mostrando que nobres e burgueses estavam menos separados do que se supunha.

Vale registrar a divergência quando a questão permitir. Apresentar uma das leituras como consenso é justamente o tipo de simplificação que provas mais elaboradas costumam testar.

O que costuma cair

  1. A sociedade de ordens e a diferença entre desigualdade econômica e desigualdade jurídica, que é o ponto realmente atacado pela Revolução.
  2. A sequência das quatro fases entre 1789 e 1799 e o que caracteriza cada uma delas.
  3. O Terror jacobino entendido como resposta de um governo em guerra externa e guerra civil, e não como desvio inexplicável.
  4. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e os limites dela, incluindo a exclusão das mulheres e a questão colonial.
  5. As consequências duradouras: fim dos privilégios de nascimento, código civil, exército nacional e difusão do modelo pela Europa.

Onde quase todo mundo erra

Dizer que a Revolução aconteceu porque o povo passava fome

A fome existiu e foi gatilho de várias jornadas populares, mas fome havia antes e depois sem revolução. O que produz a ruptura é a combinação entre crise fiscal do Estado, recusa da nobreza em abrir mão de isenções, existência de um grupo com dinheiro e sem direitos políticos, e um repertório de ideias que tornava a desigualdade jurídica indefensável.

A Queda da Bastilha derrubou a monarquia francesa

Luís XVI continuou no trono até 1792 e foi executado em 1793. A tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, é um marco simbólico da entrada do povo de Paris no processo, não a deposição do rei.

Reduzir o Terror a maldade individual de Robespierre

Entre 1793 e 1794 a França enfrentava invasão estrangeira, revolta interna na Vendeia e escassez de alimentos. O Comitê de Salvação Pública concentrou poderes e usou execução em massa como instrumento de governo. Explicar não é justificar, mas atribuir tudo ao caráter de um homem impede compreender o mecanismo.

Achar que a Declaração dos Direitos valia para todos

O texto de 1789 fala em homens e cidadãos, e na prática excluiu mulheres, manteve distinção entre cidadãos ativos e passivos por critério de renda e não resolveu de imediato a escravidão nas colônias. Reconhecer esses limites costuma ser exatamente o que a questão pede.

Cards de revisão

6 perguntas

Como era dividida a sociedade francesa antes de 1789?
Em três ordens: Primeiro Estado, o clero; Segundo Estado, a nobreza; e Terceiro Estado, o restante da população, que pagava quase todos os impostos.
O que foram os Estados Gerais de 1789?
Uma assembleia das três ordens convocada pelo rei para resolver a crise fiscal. O Terceiro Estado recusou o voto por ordem e se proclamou Assembleia Nacional.
Quais são as quatro fases da Revolução?
Monarquia constitucional de 1789 a 1792, Convenção girondina de 1792 a 1793, Convenção jacobina com o Terror de 1793 a 1794 e Diretório de 1795 a 1799.
O que foi o Terror?
O período em que o Comitê de Salvação Pública governou com poderes excepcionais e usou execuções em massa contra suspeitos de contrarrevolução, em meio a guerra externa e revolta interna.
Como a Revolução terminou?
Com o golpe do 18 de Brumário, em novembro de 1799, quando Napoleão Bonaparte derrubou o Diretório e instituiu o Consulado.
O que mudou de forma duradoura?
O fim dos privilégios de nascimento, a igualdade civil perante a lei, a propriedade privada como base do direito e a ideia de soberania nacional.

Otávio Ribeiro

Resumos de história e ciências humanas

Escreve os resumos de história e de ciências humanas, com atenção a causas, disputas e consequências. Começa pelo fim: escreve primeiro qual foi a consequência duradoura do processo e depois volta para explicar como se chegou até ali.

Voltar para Escola